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01/04/26

225


CINEMA

António Mesquita





O ESTRANGEIRO
(Filme de François Ozon de 2025)






"Como se esta grande cólera me tivesse purgado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraterno, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, só me faltava desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que eles me acolhessem com gritos de ódio."
              (Albert Camus, "O Estrangeiro")



É assim que termina o célebre romance de Camus, no tom apaziguado e acima das querelas desse e de qualquer tempo, dum filósofo mais budista do que europeu, e como a tese é a do absurdo, nos antípodas duma explicação do homem pelo contexto.

É precisamente no final que o filme de François Ozon diverge do texto camusiano. No resto, é exemplarmente fiel. Rodado em preto e branco “frappant”, o filme aposta num classicismo retro‑modernista, com um tratamento fotográfico que captura o “calor”, a luz e a secura existencial do texto.

O filme começa com um jornal de actualidades num registo turístico e superficial, seguido de cenas de rua de que uma toada árabe mais grave revela o significado escondido. A ausência de cor funciona maravilhosamente  com a narração depurada. A música é de Fatima Al Qadiri.

A personagem principal, Meursault (Benjamin Voisin), um escriturário francês a trabalhar em Argel, nos anos da ocupação colonial, não pretende defender-se em tribunal por ter assassinado na praia, com alguns tiros, um indígena que não lhe dizia nada - era apenas  o irmão da argelina de quem o seu vizinho Sintès (Pierre Lotin) era o proxeneta.  

Ninguém, no julgamento, magistrados e júri, compreende a sua aparente indiferença, tal como ficaram chocados, antes, na ocasião da morte da mãe - no mesmo dia do funeral, foi capaz de ir à praia e de namoriscar Marie (Rebecca Marder), uma jovem da sua raça, e acabar com ela na cama, depois duma comédia de Fernandel, num cinema local.

Meursault alega, como única defesa, que o outro puxou duma navalha e o brilho do sol na lâmina o perturbou ao ponto de lhe provocar o reflexo assassino.

Apesar de ter recusado a assistência dum padre, na prisão, é visitado por um homem da igreja, apostado em "salvar a sua alma". É aí que o prisioneiro revela, no auge da discussão, os seus verdadeiros motivos, circunstância em que, embora ao arrepio da construção da personagem - mas evitando por outto lado, a suspeita de uma doença mental, expõe as ideias mais marcantes do romancista, nascido na Argélia, recorde-se.

Todos os franceses na sala, não fosse a sua atitude, lhe seriam favoráveis, dentro do espírito colonial, mas a sua  apatia, tal como no enterro da progenitora, deitara tudo a perder. Também era de indiferença a sua atitude quanto ao futuro e ao veredicto pendente - nem a própria ideia de uma absolvição, ou de uma curta pena para a seguir se casar com Marie o comoviam. 

A sanção do tribunal, contra todas as expectativas à partida, é a morte por decapitação, "à la française". Quer o sonho da giilhotina, em vez da actualidade da execução, como outras sequências oníricas são magistrais.

O livro não termina com a visita da prostituta argelina à campa do irmão  num promontório, imagina-se, perto da praia em que ocorreu o crime. Só as "más-línguas" atribuem isso a uma concessão do realizador  a interesses da produção ou outros, alheios à história camusiana.

É claro que na situação da colónia, nenhuma justiça era esperada pelos "indígenas'. Se há um vislumbre dela é só porque o  criminoso se excluiu, talvez numa espécie de identificação subliminar com a atmosfera envenenada da cultura ocupante, ao ponto do seu gesto,  aos seus olhos, não ser consciente, mas maquinal, determinado pela situação. Chamar-lhe reflexo do sol não altera nada. Esta interpretação, porém, não é camusiana, como ficamos a saber com a discussão com o prelado.

O sistema judicial neste filme espelha a crítica de Camus à moralidade. Enquanto Meursault é julgado não apenas por seus actos, mas pela sua indiferença e falta de conformidade com as expectativas sociais, a obra de Camus questiona os critérios pelos quais a sociedade define o "crime" e o "pecado". O filme de Ozon mantém esse diálogo crítico, colocando em evidência a hipocrisia das normas sociais.

Vem a propósito uma citação final de Marco Aurélio, na versão de Ernest Renan, se quisermos compreender o texto camusiano.

"A mais perfeita bondade é a que se baseia no tédio perfeito, na certeza  de que tudo neste mundo é frívolo e carece de base real. Nunca existiu culto mais legítimo e hoje em dia continua a ser o nosso."




PILLION




O filme de Harry Lighton, "Pillion", não é a vida — mas o que a arte sempre foi: uma tentativa de lhe apreender um sentido.

Pensei em Pelion, terra dos centauros e nos costumes gregos. Mas é só o lugar atrás do condutor da mota (pellion). Porque é um filme de motoqueiros gay com a particularidade de se organizarem sexualmente como sado-madoquistas.

A paisagem 'motard', com a sua poeira, o ronco metálico e a promessa de liberdade, esconde afinal uma estrutura de dependência e dominação que o realizador não mitiga nem glorifica. A menor tragédia não é a de Ray (Alexander Skarsgård), incapaz de viver fora do seu papel de 'dominus'; é a do mundo que torna esse papel inevitável.

O  inconformismo do 'servus', Colin (Harry Melling) embora genuíno, é absorvido pela estrutura: obtém compensações, perde-as, e repete o ciclo como se a dependência fosse um ritual de iniciação. A comunidade em torno de Ray, unida por um culto pagão de força e dor, vive o erotismo como exorcismo; a ferida é também a marca da pertença. 

As cenas íntimas, filmadas com contenção, não cedem ao escândalo nem ao voyeurisme. No entanto, o olhar do espectador é conduzido a um desconforto mais profundo: o de reconhecer na relação entre Ray e Colin a sombra dos papéis conjugais tradicionais. O sadismo de Ray não é apenas sexual — é uma pedagogia da virilidade, eco de uma cultura em que o poder masculino define a gramática do afecto.

Como coisa pensada, o sexo, não importando a modalidade nem o desvio em relação à 'norma' é problemático. A relação de forças adoptada no sado-masoquismo é vista como uma solução degradante.

O ambiente familiar de Colin é o mais favorável possível à sua homossexualidade e os encontros com Ray são até encorajados. Até à cena em que a mãe de Colin, quando formalmente se conhecem, denuncia o sadismo de Ray.

O argumento é inspirado em "Box Hill" de Adam Mars-Jones e o filme não pretenderá ser, por isso, um retrato da sexualidade gay.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Mafra. Olho para o postal que te escrevo e sinto falta de palavras, espaços em branco que não consigo preencher. As emoções retiram ao pensamento a capacidade de raciocínio, de tentar compreender a diferença entre a realidade desejada e aquela que observo e sinto no pulsar do planeta. A pena não corre, tolhida pelo estupor das notícias que lemos e ouvimos e, assim crescem os espaços onde deviam estar letras formando palavras e frases. É possível que já viesse embebido dessa turbulência nas ideias quando a composição ferroviária demorou a chegar à estação. O seu movimento transmitia-nos a sensação de ter tempo demasiado como se os horários não existissem. Saí com os olhos embargados de luminosidade como se alguém tivesse ligado uma luz na escuridão universal e me cegasse momentaneamente. Demorei a acordar e criei em mim a ideia que já conhecia a Malveira, mas tudo quanto os meus olhos viam, era novidade. Ainda subi e desci, fui de Oeste para Leste, mas foi inútil, nunca tinha pisado aquela terra. Foi só ao atravessar S. Miguel de Alcainça que um clarão de luz vitralino me estimulou a memória. É verdade que tinha atravessado a Malveira mais do que uma vez, mas era a Malveira da Serra e estas Malveiras não são o mesmo espaço urbano. Pelo menos, espevitou um pouco de alegria na marcha triste que me levava para o Palácio Nacional. Sento-me voltado para a imponente fachada enquanto te escrevo. É mais um símbolo de poder e riqueza. Sim, naturalmente que sim, a biblioteca, os jardins, o claustro, a igreja basilical, merecem ser visitados, nesse tempo em que deixamos o olhar à vontade percorrendo cada recanto, apreciando e glosando cada bocado de arte, mas continua a ser um símbolo de poder imperial que se ergueu como afirmação disso mesmo. O ouro do Brasil transformado nessa arte barroca a que o meu olhar não consegue habituar-se. D. João V, fez erguer tudo isso para evidenciar o seu poder absoluto e tentar integrar-se nesse despotismo que grassava pelos impérios coloniais europeus. Punha-se em bicos de pés para que o vissem. Fomos sempre assim, quando o dinheiro jorrou desses tesouros coloniais, comportamo-nos como se o mundo acabasse amanhã e esbanjamos a riqueza numa roleta. Só por acaso, deixamos estas pedras que falam desses dias de loucura endinheirada. Aqui tudo são números grandiosos, nas paredes, nas janelas, nos torreões, nos carrilhões nas obras bibliotecadas. É tudo ouro que reluz. No século seguinte, a elite real em cruzador fugidio abandona o reino, deixando o terreno livre para a ocupação estrangeira. Nada de novo na história pátria. Afastei os passos para o silêncio e sossego da Tapada, mas se escapei aos tremores da nossa nobreza, caíram-me de frente os furacões do mundo. Acreditamos sempre na evolução da espécie humana, mas esquecemos que até as cordilheiras têm obscuros e profundos vales, gargantas estreitas, onde se podem juntar todos os perigos que nascem na perfídia mental da escumalha que engoliu o poder dos Estados. Já não é apenas a avareza, a ganância, a luxúria desvairada de um colectivo epsteiniano, é uma quadrilha monstruosa que se masturba bombardeando os povos no declinar imperial. Os judeus do chamado Estado de Israel alcançam orgasmos bíblicos em cada bombardeamento que dizima bairros residenciais, perseguindo o aniquilamento de civilizações milenares, e o homem laranja, com a extraordinária capacidade de dizer uma coisa e o seu contrário numa frase de quatro palavras, incapaz de conhecer a realidade que o envolve coloca o poder militar do império que desvanece numa espiral sangrenta e irremediável. Os Persas resistem com dignidade e só essa resistência é uma vitória sobre a barbárie. A investigadora Moudhy Al-Rashid fala-nos da Mesopotâmia em termos de aviso: “Um poema sumério, conhecido como ‘Lamento pela Suméria e por Ur’, escrito muito antes do abandono final da cidade na sequência de uma derrota militar durante os últimos dias da Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2000 antes da nossa era (…). O poema descreve um cataclismo tão terrível que até os mortos varreu para longe, com cadáveres a flutuar no Eufrates. «Os tempos escuros arderam em granizo e chamas», lê-se numa secção, «os tempos brilhantes foram apagados por uma sombra». Verso atrás de verso descrevem a mais completa devastação e mortandade com todas as metáforas possíveis.” O império está a deslizar para a morte, pode ainda arrasar cidades como em Ur, mas este escorregar contínuo na pedra nua, terminará no pântano enlameado da tumescência humana. Observo de novo a imponência do edifício, conto o número de janelas como se contasse os séculos percorridos pela Humanidade. Adquirimos muito conhecimento, sabemos imenso do nosso passado, mas cada geração insiste em parir o gérmen da maldade que se prolonga nas cadeiras sujas do poder e da luxúria e mata sem pudor quando lhe retiram o lugar onde vomita o manjar que sofregamente rouba. O postal segue hoje, enquanto embarco em novo comboio.                                 

LONGO INVERNO

Mário Martins

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Saudemos a chegada da Primavera O General Inverno parece ter subido de posto.

Cheias e ventos catastróficos inabituais neste “Jardim da Europa à beira-mar plantado”.

Desconfiemos da promessa política de que nada ficará como dantes. Oito anos depois do trágico incêndio de Pedrógão registou-se a segunda maior área ardida dos últimos dez anos. 

Na Ladainha dos Póstumos Natais de David Mourão Ferreira “Há-de vir um Natal e será o primeiro em que veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo” E Marguerite Yourcenar, no seu livro "O Tempo Esse Grande Escultor", escreve que “No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado." E acrescenta “Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.» 

A Arte coisa de minorias não pode almejar mudar o mundo. O povo vai atrás da última novidade tecnológica ou do primeiro demagogo que acenda o rastilho.

As feridas das tragédias são lavadas melhor ou pior pelo curso do tempo Como na metáfora de Yourcenar a dor transforma-se e a vida prossegue.

POESIA

 
           Helena Serôdio
 


 

Espera mais um pouco
 


Espera mais um pouco  
Não faltes ainda,  
Não manches o silêncio com a tua voz.  
Pensa na vida que corre lá fora,  
Sugestões pesadas de ideias mortas. 
Ouve os soluços do vento norte 
Que despe a terra e sem pudor 
Aperta-me os dedos, para me sentires viva.   
Beija-me os olhos, para não chorar meu amor calado no escuro,   
Deixa alçapões de medo abertos na noite   
Com olhos de vitral a escorrer ternura.

RAPINAGEM

Manuel Joaquim

A Invencível Armada


Diz-se que uma desgraça nunca vem só. 

Um camião carregado com 12 toneladas de chocolates KIT KAT, da Nestlé, que saiu da Itália com destino à Polónia, foi roubado no centro da Europa e ainda não foi apanhado, o que vai provocar a falta de chocolates no período da Páscoa. Esta notícia está em todo o mundo e em Portugal em quase todos os jornais nacionais e regionais, naqueles que ainda existem.

Segundo agências de notícias internacionais, o secretário do interior dos EUA esteve na Venezuela e levou 100 milhões de dólares em barras de ouro para a sua terra. 

Não se sabe se estas notícias são verdadeiras ou falsas. Mas que estamos numa época de rapinagem estamos, por isso, podem ser verdadeiras.

O rei da rapinagem afirma que Cuba será o seu próximo alvo, depois da guerra com o Irão, esquecendo-se que já é alvo dos seus capangas há mais de 60 anos. Mas a guerra com o Irão só vai acabar quando o Irão decidir e ainda ignoramos em que condições.

Bhadrakumar, analista político indiano, num artigo agora publicado, escreve: As guerras são sempre imprevisíveis. O exemplo mais famoso é o de outra armada semelhante à dos EUA no Golfo Pérsico neste momento — a Armada Espanhola, uma frota naval de 130 navios enviada pela Espanha em 1588, comandada por Alonso de Guzmán, Duque de Medina Sidonia, um aristocrata nomeado por Filipe II de Espanha para invadir a Inglaterra, destronar a Rainha Isabel I e restaurar o catolicismo.

Apesar do seu poderio, a Armada Espanhola foi derrotada no Canal da Mancha por uma força inglesa mais pequena que utilizou navios incendiários e artilharia superior, sendo posteriormente em grande parte destruída por tempestades enquanto recuava ao longo da Escócia e da Irlanda.

A tão alardeada armada do presidente dos EUA, Donald Trump, tem mais ou menos a mesma missão que a Armada Espanhola — variando desde a mudança de regime até à derrubada do sistema islâmico de governação, passando pelo leitmotiv tácito de uma Cruzada. Curiosamente, também parece destinada a um final miserável semelhante, apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA.”

Quanto a Cuba, já tentaram várias vezes, tiveram o desastre da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis soviéticos e outros posteriores, tentativas de assassinato de dirigentes, particularmente de Fidel de Castro, e não conseguiram. Será em Cuba que o rei da rapinagem vai cair abaixo do cavalo e partir os dentes? Será desta vez que os EUA sentirão na sua própria casa o que é a guerra?

Os serviços secretos sabem muitas coisas mas ignoram muitas outras. O 25 de Abril apanhou de surpresa os serviços secretos do imperialismo. As capacidades bélicas do Irão apanhou de surpresa os mesmos serviços secretos.  Que outras situações ignoram?

São situações que estão a causar desespero em muitas cabeças de fanfarrões. Há um comentador da CNN, general com muitas condecorações, que fala em lançamentos de bombas atómicas por Israel ou pelos EUA para resolverem o problema da guerra. Já não é a primeira vez que esse sujeito fala em bombas atómicas. O problema da Rússia seria resolvido também com bombas atómicas. Fala de cima da burra como se os outros estivessem a dormir. O homem de Alcácer do Sal ensandeceu e a família e apaniguados não sabem.

Mas a rapinagem já vem de longe, de muito longe. A ONU finalmente reconheceu nesta última quinta-feira que a escravatura é um crime contra a humanidade. O comércio de escravos contribuiu para o empobrecimento dos povos africanos e outros e para o enriquecimento das economias dos países colonizadores. A resolução da ONU exigiu reparações pela escravatura que teve a seguinte votação: 123 membros votaram a favor, 52 abstiveram-se e 3 votaram contra, que foram EUA, Israel e Argentina. O Reino Unido e os 27 membros da União Europeia abstiveram-se. Portugal foi um deles. Foram os países colonizadores que levaram à força 12 milhões de africanos entre os séculos XVI e XIX.

Há cerca de uma vintena de anos, as companhias de seguros e os bancos estabelecidos em Portugal, por imposição de autoridades europeias, tiveram que declarar que não tinham bens, designadamente obras de arte, obtidos durante ou após a 2ª guerra mundial, rapinados às vítimas do nazismo para serem devolvidos aos seus legítimos proprietários. Alguns museus na Europa já devolveram a alguns países bens que lhes foram rapinados durante o colonialismo. Se vier a acontecer ….



01/03/26

224

COLONIALISMOS

Manuel Joaquim

(Gungunhana)

https://delagoabayworld.wordpress.com/wp-content/uploads/2012/02/gungunhana-1891.jpg



A Illustração Portuguesa, edição semanal do Jornal O Século, nº 124, de 6 de Julho de 1908, Director Carlos Malheiro Dias, noticia que o Capitão João de Almeida tinha regressado há dias a Lisboa, “que além de tantos outros serviços brilhantes prestados em África, comandou, em setembro do anno passado, a campanha contra os Dembos, que constituiu, como não pode estar esquecido, um dos mais gloriosos feitos modernos das armas portuguezas no ultramar, que elle conseguiu cumprir, de um modo notável, apezar dos combates que teve de sustentar e de ferido durante a marcha”

Os povos da região dos Dembos, nordeste de Luanda, Angola, lutavam contra a escravatura e a colonização. A guerra durou entre 1872 e 1919, 47 anos, o que levou à mobilização de milhares de militares portugueses para a guerra. O capitão João de Almeida regressou a Portugal, vítima de guerra. Quantos mais regressaram?

Em Moçambique a luta contra a colonização também durou vários anos, sendo mais conhecidas as campanhas durante finais do século XIX e princípios do século XX. Ainda está na memória de muita gente a figura de Gungunhana, capturado em 28 de Dezembro de 1895 por Mouzinho de Albuquerque com a respectiva família e transferido para Angra do Heroísmo, onde veio a falecer em 23 de Dezembro de 1906. Os seus apetrechos foram objecto de exposições na cidade do Porto e noutros lugares para os alunos das escolas apreciarem o que usava e restava do “inimigo”. Os nacionalistas moçambicanos consideravam-no um Herói Nacional. Os pretensos restos mortais, depois do 25 de Abril, em resultado de negociações entre Portugal e Moçambique foram transferidos para Moçambique.

Estas guerras acentuaram-se em consequência da Conferência de Berlim, de 1884. Os países imperialistas europeus pretendiam dividir entre si todo o continente africano, para obterem matérias-primas e mercados o que, de certo modo, aconteceu.

Contrariamente ao que muita gente pensa, a guerra colonial portuguesa, não se iniciou em 1960/1961. Os povos nunca se conformaram com o colonialismo.

As guerras que aconteceram ao longo dos tempos foram sempre para explorar e roubar. Aquelas a que estamos a assistir têm sempre o mesmo objectivo com os mais diversos pretextos: defesa dos valores democráticos, alcançar espaços vitais, luta contra armas nucleares ou outras, contra o terrorismo, contra o tráfico de drogas, etc., explorar e roubar.

Os portugueses andaram a exibir o Gungunhana. O Trump, de certo modo, andou a exibir o Maduro.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva


Peniche. A Linha do Oeste e a do Norte quase nascem paralelas, nas bandas do Mondego, mas a primeira começa a afastar-se em direcção ao litoral e a segunda ruma ao Vale do Tejo. A infra-estrutura ferroviária pensada e executada há quase cento e cinquenta anos, não contemplou a ligação da costa à lezíria. Compreende-se, era um tempo em que o importante e necessário era a ligação à capital. Do interior ainda não se procuravam as praias. O prazer do areal ainda era propriedade de uma minoria. Mas no presente a ligação existe, mas em alcatrão como os novos donos do território gostam. Evitei as Caldas, não por serem da rainha, mas porque não me cativou a imagem que se desenhou no pensamento. Já Óbidos me deixou na profunda dúvida, pelo seu ar medieval e pela graciosidade do seu casario. Mas já levava Peniche como destino. Entre a estação e a cidade medeia essa distância que não convida a caminhar, mas acabei por alcançar essa espécie de punho rochoso que se enfia na cabeça do mar. Já foi uma ilha e, na verdade continua a sê-lo pela existência de um canal que apenas cento e cinquenta metros de areia da praia da Gamboa permitem a ligação do território. É longa no tempo a presença humana nesta terra de pescadores, mas é o passado próximo que os meus olhos procuram e a memória demanda. É a fortaleza do século XVII, com as suas muralhas de pedra dura que nalgum ponto se aprumam sobre o mar que os meus passos indagam. Ainda trago o silêncio contemplativo das abóbodas de Santa Maria dos cistercienses, mas aqui, neste espaço agora com luz e brancura, o silêncio parece de chumbo. Se paramos na tentativa de interrogar essa ausência de sons, acreditamos ouvir vozes clamando, gritos profundos de sonhos amordaçados, contidos entre gradeamentos de ferro, salas inquisitoriais, predadores armados vociferando, animais humanos procurando rasgar ideias e, lá no fundo, onde a muralha toca o mar, escuta-se o verso de quem viria a escrever História, “sou barco abandonado/na praia ao pé do mar/e os pensamentos/são meninos a brincar”. Mas os barcos nunca estavam abandonados, nem na esperança nem no acreditar na palavra liberdade, “noiva dos rebeldes”, como escreveu o poeta Thiago de Melo. Nestes corredores por onde agora o sol penetra, quantas sombras obscureceram centenas ou milhares de vidas, sonhos interrompidos, vidas suspensas que quando aqui chegavam já tinham passado pelas masmorras da tortura, do asselvajamento daqueles que nunca viriam a ser julgados e menos ainda condenados. Devia este ser um lugar de visita obrigatória para que não se esqueça e para que o nunca mais seja isso mesmo. Os que por aqui deixaram tanto da sua vida, poucos são os que têm o seu nome gravado na toponímia dos lugares, como homenagem ao seu esforço de justiça, mas aquele que aqui chegou na noite da libertação, enviado pelo zarolho para decidir quem era libertado, tem o nome espalhado por qualquer pedra que se encontre desde a remota aldeia até ao aeroporto da nobre e sempre invicta cidade. A liberdade e a democracia nem sempre é grata aos que a defenderam como interesse de vida colectiva. Resta este Museu como memória recordatória e símbolo de dignidade. O postal deixo-o na cidade e regresso a pé para arejar o pensamento e a desolação que levo pela continuidade da maldade humana.    

FRESTAS

António Mesquita



A primeira coisa que se destaca neste filme duma tunisina (Ben Hania) sobre a guerra em Gaza é a centralidade dum episódio que não tem peso nenhum na guerra,  nos seus motivos, ou interesses: uma criança palestiniana sobrevive no carro bombardeado em que seguia com a família. Ao longo de horas, pretende-se socorrê-la mas para isso é preciso acordar com os israelitas o livre trânsito duma ambulância na zona ocupada. A autorização acaba por chegar ao fim do dia, mas a luz verde não é respeitada pelas forças no terreno e a viatura é alvejada, matando todos os ocupantes. A menina é entregue à sua sorte.

Casos como este são o mais comum nas várias frentes de guerra. E o que é que se tira daqui senão a confirmação de que o "pior dos males" não depende de que lado estamos, mas nos atinge a todos duma maneira ou doutra? 
A luz verde de Telavive não foi obedecida pela própria tropa israelita, levando assim a aparência de perversidade a um novo patamar. Mas as comunicações falham e a informação falha, mesmo quando é do interesse vital dos mandatários, como foi a "surpresa" do 7 de Outubro que deu início a esta ofensiva contra o Hamas. Pelo estreito entrosamento familiar do grupo armado com a população, esta acção surge como uma guerra contra o povo da Palestina. Os judeus, pelo seu lado, têm aqui a sua anti-Shoah.

O cinema, neste caso, não escapa a uma leitura instrumentalizada que pretende fazer da tragédia dum ser indefeso o símbolo de todo um povo.
O espectador europeu, reage, no seu teatro longe da guerra,  com a sensibilidade esperada a uma injustiça deste tamanho. E nisso, participa duma audiência, pode-se dizer mundial, numa tragédia-espectáculo que o deixa frustrado, mas o poupa à consciência mais "realista" do que se passa no mundo, às vezes  bem perto de casa. O povo americano que vive em tendas no perímetro das grandes cidades não se sente em contradição quando vota num milionário que faz tudo para lhes tornar a vida mais negra. Mas não podemos descartar o problema chamando-lhe masoquismo ou falta de informação. 

A doutrina, agora como na Idade Média, explica este voluntariado da desgraça.
A verdade é que não poderíamos viver as nossas vidas, sofrendo ou simplesmente simpatizando com todas as vìtimas das guerras, da violência  social, económica ou familiar que existem a todo o momento neste singular planeta. É, pois, uma espécie de privilégio, a somar aos outros mais ou menos certos, este do não-conhecimento.

Há nomes de figuras sinistras para todos os gostos, desde Putin a Netanyahu, para não falar das que fizeram a história do martírio de sempre, que nos permitem, por assim dizer,  sintetizar  o problema, vencer ilusoriamente,  por um tempo, o "Mal" (vai com aspas porque estamos a escamotear a questão do que o que chamamos mal é apenas o que já os Gregos chamavam de Necessidade), seja lá o que isso for.
A julgar pelo passado e, sem dúvida, pelo presente de tantas situações, do que precisamos com toda a urgência, é duma doutrina. 

As mulheres muçulmanas, em certas sociedades, são vistas por detrás duma fresta para os olhos. Até a dor tem que passar pela fresta. Esse é bem o exemplo do papel duma doutrina.

E o dogma da Imaculada Conceição, definido por Pio IX há cento e setenta e dois anos, a 8 de Dezembro de 1854. Outra fresta...

PENSAMENTOS SORTIDOS

Mário Martins



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Uma frase política muito em moda, que o presidente da república eleito não deixou de dizer no seu voluntarioso discurso de vitória, é “que ninguém fique para trás”. Trata-se de um floreado do jargão político, no melhor dos casos bem-intencionado, mas que a história humana não autoriza.

A pobreza, que o senador americano Robert Kennedy, antes de sucumbir à lei da bala, considerava ser uma falha moral, aparenta estar para durar; as eufemísticas “assimetrias” grassam por esse mundo fora, numa escala talvez sem precedentes, mas, no essencial, em linha com o passado.

Não falta justificação para a revolução social. Contudo, as conexões intrincadas e dependentes do mundo actual impossibilitam, praticamente, a sua realização num só país, e o conceito de “revolução mundial” pertence ao passado.

A revolução social produz(iu) a chamada “legitimidade revolucionária”, e esta o poder indefinidamente prolongado, sem liberdade e audição regular dos cidadãos, porque os seus dirigentes “sabem” o que o povo quer.

Sempre houve e haverá revoltas populares, mais ou menos inorgânicas. A dos “coletes amarelos” acossou o governo francês, terá conseguido a satisfação de algumas reivindicações, mas o “sistema” não foi posto em causa nem para tal havia ou há alternativa.

Paradoxalmente, o inebriante progresso tecnológico é uma linha paralela que, como tal, não intersecta a paralela da pobreza e injustiça, apesar de moldar o modo de vida.

O humano é demasiadamente complexo para caber numa “lei”. Em carta ao poeta Eugénio de Andrade, Agustina escreveu que “A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses”. Eis um modo de dizer que o mistério da existência (que povoámos com deuses) nos é inacessível, apesar do esforço filosófico, científico, poético, literário, ou da “revelação” mítico-religiosa.

O mundo está (novamente) louco, e a precisar de se deitar no divã da             psicanálise. Mas a cura não está à vista. Caberá aos jovens, de hoje e de amanhã, encontrá-la.

POESIA

Helena Serôdio





 


OLHA MAIS ACIMA


Não te queixes da sorte, meu amor
Na verdade, ela às vezes é cruel...
Ainda assim, seja mesmo como for,
Suporta do destino todo o fel.
O desespero aumenta nossa dor...
Dirige com coragem teu batel,
Nem sempre tem o céu a mesma cor
E nem tudo na vida é sempre mel.
Crê mais em Deus! Tem fé! Tem esperança...
Pois tudo é passageiro neste mundo
E após o temporal vem a bonança.
E não esqueças nunca essa verdade.
O nosso amor é por demais profundo,
Só cabe mesmo numa eternidade!..



01/02/26

223



NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Valado dos Frades. A tarde já dobrou a sua metade e ora me sento, ora me levanto. O horário do comboio é uma questão e a sua chegada é outra e nunca coincidem. Ocorre até em algumas ocasiões que o primeiro existe, mas o segundo fica pelas aparências. É a Linha do Oeste, mas podia ser qualquer outra. A figura sinistra do ministro dos Transportes, segue à risca o conselho do Dr. João das Regras, adaptado ao nosso tempo, dá o que não é teu e promete o que não vais fazer. A aldeia é grande, o que se compreende por ficar a quatro quilómetros da Nazaré e, para que ninguém se sinta afastado, a estação tem três nomes, Valado, Nazaré e Alcobaça. Encontramos um pouco de tudo ao percorrermos as ruas estreitas do lugar, casas fechadas, muros em ruínas, janelas sem vidros e paredes de casas brancas, pinturas vivas, com as pedras laterais que desenham as entradas, pintadas de azul ou amarelo. É o Sul que se aproxima com a intensidade da luz a sentir-se com mais premência. Com o dia a declinar, sente-se uma mansidão repousante. Aproveito para serenar e interrompo o pensamento. Das ocasiões em que me levanto, aprecio os azulejos da estação. Já lhes memorizei os pormenores. São reproduções dos lugares que serve e o central tem um apelo, «visitem Alcobaça». Hesitei imenso em abandonar o comboio em Leiria, mas quer Santa Maria da Vitória quer o Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, eram impossíveis de ignorar. Desci devagar ao longo do Liz, por entre aldeias onde o tempo tem essa lentidão de prazer, e permite-nos admirar o horizonte, fixar memórias e sentir o viver da vida. O que primeiro nos surge no olhar quando nos aproximamos, são as Capelas Imperfeitas, mas o que poderá ser imperfeito nesta beleza gótica? Abandono a ideia dos pormenores, retenho-me na grandeza e sinto necessidade de comparar as igrejas, a cisterciense e esta dos dominicanos. Separam-nas dois séculos na construção, mas era um tempo em que trabalhar a pedra e o vidro eram uma arte, o tempo em que os mesteirais enchiam as cidades com os seus saberes e as ruas tinham o nome dos seus mesteres. Ambas as construções se assemelham, na fortaleza das colunas, nas dimensões da abóboda, na explosão de luz que penetra dos vitrais e, no gótico. Cativa-me a dos cistercienses por algo inexprimível, mas a de Santa Maria da Vitória tem outra dimensão que percepciono mas não distingo de imediato. Em Alcobaça reza-se a Deus pelos pecados terrenos e apela-se pela vida eterna. Na Batalha também, mas contém outro plano, agradece-se a Deus por um momento ímpar da história colectiva, que se vem escrevendo há nove séculos, engrandeceu o reino e fez alvorecer a ideia de pátria. Os túmulos, em ambos os espaços sagrados, expressam a dimensão dos seres mortais que acolhem, enquanto viveram, mas por razões distintas. Uns pela forma como reinaram, os outros pela forma como amaram. Os primeiros têm um lugar próprio, uma capela para repousar no sossego da eternidade, mas num espaço exterior ao dos crentes que rezam e apelam, os segundos estão no próprio corpo da igreja, recebem a luz que chega de Deus e alimenta, hoje em mito, o que foi o amor imperecível a que se dedicaram. Por aqui, por estes espaços se queda sempre o meu olhar renovado por tanta arte e mestria do trabalho de cantaria. Por fim, refugio-me nos jardins dos claustros, territórios perfeitos para a reflexão, um deleite de conforto. Procuro sentir a emoção desse final de tarde de Verão nos campos de Aljubarrota. Milhares de homens no calor tórrido de Agosto e um extenso campo a separá-los. Tudo parece ter-se extinguido em menos de uma hora. A nata da nobreza castelhana jazia por terra, o que restava, cavalgava desvairadamente e do lado dos vencedores, um sentimento pátrio nascia. Ainda sem o saberem, estavam a projectar o reino para dimensões de uma grandeza que ainda ofusca o presente. D. João terá hesitado nos momentos que antecederam a disputa, e não seria a primeira vez, mas por vontade própria ou sem terreno para recuar, instalou-se na refrega e saiu rei. A coroação chegaria depois, com tempo, pela arte da oratória ou da engenharia jurídica, mas isso que importa, sabendo nós hoje o que sabemos. Este quadro traz-nos à memória um outro personagem do nosso tempo que também por estas terras próximas se dedicou às uvas e às rosas até aparecer um Álvaro Pais que o colocou em cima do cavalo e o pôs a galopar. Vai ser rei, sem saber ler nem escrever como diz o povo mínimo. Mas quanto à grandeza do futuro, podemos recolher ao claustro para sossegar. D. João, o verdadeiro rei, não o que ainda não é, era um homem devoto com particular admiração pela Nossa Senhora da Oliveira, daí as suas viagens a Guimarães e ao Minho com passagem pelo Porto. Numa dessas viagens acordou casamento e de D. Filipa saíram aqueles que projectaram o que hoje chamaríamos um tempo e um mundo novo. Ainda o rumor da batalha se escutava quando o que antes foi Mestre de Avis dava ordem de construção a esta maravilha gótica com a pedra trabalhada como filigrana. Longa vida foi a deste rei, filho bastardo daquele que em Alcobaça repousa e que morreu amando. Ao longe, no final desta recta extensa que o meu olhar alcança do lado esquerdo, pestanejaram umas luzes ínfimas e tremelicantes parecendo aproximar-se. Está dentro do horário o comboio que me vai levar, porque o horário não é o que está escrito, mas quando aquele chega à estação. Ainda não decidi onde vou sair. O postal envio à chegada.


AS ELEIÇÕES E O RESTO

Manuel Joaquim

(Freitas do Amaral e Mário Soares nas eleições de 1986)


Marina Costa Lobo, Politóloga, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, publicou no Público de 21 de Janeiro, o texto “Desalinhamento ou realinhamento eleitoral?”, onde refere que Gouveia e Melo teve cerca de 700 mil votos, 12% do eleitorado; que Marques Mendes (PSD +CDS) teve menos 68% dos votos do que PSD+CDS em 2025; que André Ventura teve 23% dos votos, menos 10% do que o Chega em 2025; que Seguro teve 31% dos votos, mais 20% do que o PS em 2025; que Cotrim teve três vezes mais votos do que Iniciativa Liberal em 2025,

Nas eleições de 1986, Freitas do Amaral teve na primeira volta 46% dos votos e Mário Soares 25%. A soma dos votos da 1ª volta de Freitas do Amaral e de Mário Soares foi de 71% e a soma dos votos de Seguro e Ventura foi de 55%. Aconteceu que Mário Soares foi eleito na 2ª volta.

Depois dos resultados da primeira volta nestas eleições Gouveia e Melo sugeriu que tinha a intenção de formar um novo partido ou um movimento para dar corpo aos votantes que votaram na sua candidatura. Cotrim também manifestou a mesma intenção dando já o possível nome ao movimento.

Freitas do Amaral que fez uma campanha muito forte, criando a imagem do sobretudo verde azeitona, de triste lembrança, que muitos correligionários copiaram e que, de certa forma, foi agora copiado pelo triste americano Bovino, do ICE, foi perdendo pedalada e desapareceu com os seus votos, deixando grandes dívidas da campanha eleitoral por pagar, incluindo os sobretudos verdes.

O PRD do Eanes, liderado por Martinho, criado para dar corpo à votação que teve nas eleições presidenciais, que chegou a ter uma grande representação da Assembleia da República, também desapareceu da vida política, sem deixar rasto.

A esmagadora maioria da população não é filiada em nenhum partido político. As pessoas são condicionadas pela comunicação que lhes é dada e pelas circunstâncias da vida. Por isso a votação é volátil, é mudável.

As campanhas eleitorais custam muito dinheiro. A campanha do Marques Mendes, segundo os jornais, ficou com um buraco financeiro enorme. Vai ter que arranjar uns servicitos para tapar o buraco.

Vamos ver o tempo de vida dos movimentos do Melo e do Cotrim. Provavelmente desaparecem como todos os outros que nasceram e morreram.

No próximo dia 8 de Fevereiro vai realizar-se a 2ª volta das eleições, donde vai sair o próximo Presidente da República. Os eleitores vão ser confrontados com dois candidatos, um dos quais representa a opção mais reaccionária que pretende pôr em causa o que ainda existe das conquistas resultantes do 25 de Abril que têm sido atacadas pelos sucessivos governos de direita e quejandos. O perigo do fascismo é real, tendo presente a situação política nacional e internacional. Racionalmente temos de evitar o “quanto pior melhor” porque a luta pela liberdade e pela democracia seria muito pior. Assim, mesmo com sapos e elefantes à nossa frente, é melhor não desperdiçar o nosso voto e votar contra o fascismo, votando no outro candidato.

Nesta terça-feira foi assinado o Acordo de Comércio Livre Entre a União Europeia e a Índia. Ainda não se conhece integralmente o texto do acordo, sabendo-se que trata de automóveis, de máquinas e têxteis. À primeira vista, parece que a Alemanha e a França serão as mais beneficiadas pelos automóveis, mas só a prazo é que se vai realmente saber quem beneficia do acordo. A Índia fabrica os seus próprios automóveis e diversas marcas japonesas e coreanas fabricam lá muitas das suas viaturas. A indústria têxtil da Índia é muito poderosa, o que certamente vai acelerar ainda mais a destruição do sector têxtil português. Para António Costa, Presidente do Conselho Europeu, que nessa qualidade assinou o acordo, tudo está bem, pois, orgulhosamente, se identificou como cidadão indiano.

Este acordo, apesar de estar a ser negociado há muito tempo, é muito estranho ter sido assinado agora. A partir de 2027 a União Europeia vai proibir a importação de gás e petróleo da Rússia. Apesar de todos os pacotes aprovados contra a Rússia, neste momento ainda se importa gás e componentes do petróleo da Rússia. A energia que a União Europeia está a consumir, uma parte significativa é importada dos EUA, a preços nada convidativos. A partir de 2027, se cumprir com as decisões tomadas, ficará ainda mais vulnerável das decisões de Trump. Será que o acordo já tem em mente a importação de gás e de petróleo da Rússia através da Índia? Vamos aguardar para ver.

Também, anteriormente, a Comissão Europeia assinou o acordo de EU-Mercosul, que foi contestado por muitas organizações europeias ligadas ao sector agro-pecuário e que foi remetido com pedido de Parecer ao Tribunal de Justiça da União Europeia pelo Parlamento Europeu. O que essas organizações europeias defendem é a salvaguarda da sua sobrevivência, pois, em princípio, os grandes interessados são as grandes multinacionais. Vamos ver se a montanha vai parir um rato.

O Melo, do governo, foi à Turquia comprar com dinheiro emprestado equipamentos militares para a guerra. Pelo que se lê, a União Europeia, de organização económica, social e política, quer transformar-se numa organização militar para a guerra. A psicose da guerra permanece nas mentes destes inteligentes. Este Melo, aqui há uns tempos, disse que a decisão de comprar armamentos seria muito bom para Portugal, pois seriam fabricados em Portugal e aumentava os postos de trabalho. Pelos vistos, começou por dar trabalho à Turquia e não a Portugal. Não é preciso falar no que vai comprar aos EUA, conforme o “PAPÁ” mandou.

As televisões têm mostrado os desastres com o temporal. Centenas de milhares de habitações sem água, sem energia, sem comunicações, e muitas completamente destruídas. Pessoas sem-abrigo, sem alimentação, sem apoio na saúde, sem apoios, sem nada.

Muito pouca gente se lembra das cheias de Novembro de 1967, em Lisboa, causadas pela chuva que causaram mais de 700 mortos e milhares de desalojados e a destruição de mais de 20 mil casas. A censura do regime fascista não permitiu notícias sobre esse horrível acontecimento. Os fascistas de hoje ignoram ou fazem por ignorar o que se passou.

Muitas das vítimas dos incêndios dos últimos anos ainda aguardam o cumprimento das promessas que os governantes efectuaram. É um truque que estes inteligentes fazem, “fingem que resolvem os problemas que não existem para ocultar os problemas que existem e não resolvem” palavras de Cláudia Santos, professora da Faculdade de Direito de Coimbra, em “Muito Estado primitivo e pouco Estado Social”, Público de 14 de Janeiro.

Se houvesse mais Estado social, não se via tantas crianças e jovens nas escolas debaixo destas invernias com nenhumas roupas de inverno, com sapatilhas de verão e umas camisolas de malha como se fosse verão, muitas sem merenda para comer.

A falta de água e de energia durante tantos dias demonstra o estado das estruturas existentes no país. Agora, pouco se fala das startup em Lisboa e dos seus êxitos. Dos dinheiros gastos a fundo perdido para os grandes espectáculos organizados. Parece que se esfumaram.

No tempo do Costa falou-se dos grandes investimentos em Sines para grandes empresas de Bases de Dados. “É uma coisa do futuro!”.

Essas empresas têm uma necessidade de água e de energia, que Portugal não tem capacidade de responder. Os próprios EUA não têm capacidade estrutural para responder a essas necessidades. Se Portugal não tem capacidade de responder às necessidades das populações quando é confrontado com estre tipo de desastres naturais, como vai ser com essas empresas?

Elefantes brancos como se chamou no tempo da “outra senhora” aos investimentos efectuados precisamente em Sines?

PALLAS ERRÁTICA

António Mesquita


"A sua crítica anda à volta de uma estrutura, na qual a vida descobre que possui mais moral do que vitalidade, mais recordação do que espírito de empreendimento, mais inibições do que incitamentos.
Só o historicismo torna sensível o pesadelo das gerações passadas, que pesa sobre as gerações presentes"
 (Peter Sloterdijk sobre Hegel)



Marx, o mais célebre dos discípulos de Hegel, numa carta ao seu amigo Engels que se sentiu ofendido com a resposta a uma das suas cartas em que expunha as dificuldades que encontrava para apoiar financeiramente o amigo, confessa que em determinadas situações só encontra saída no cinismo. E acrescenta: "Acontece-me o mesmo com os idiomas. Compreendo as leis matemáticas, mas a realidade técnica mais elementar para a qual se necessita de intuição, acaba por ser mais difícil que os problemas mais intrincados." (carta de 28/1/1863)

Não sei porquê relaciono esta atitude e esta argumentação com a incapacidade revelada por Freud, no seu estudo  "O Moisés de Miguel Ângelo": "Algum viés mental racionalista, ou analítico talvez, revolta-se em mim contra a emoção despertada por qualquer coisa sem saber por que sou assim afectado e o que é que me afecta."  Freud invoca explicitamente o caso da música.

A música que,  já Platão considerava parte essencial da 'Paideia' e não luxo estético. O neurologista e escritor, Oliver Sacks, confirma-o no seu "Musicophilia" e em entrevistas: "Sacks mostra que a experiência musical mobiliza vastas redes cerebrais (auditivas, motoras, emocionais, executivas), o que ajuda a explicar por que a música pode reorganizar a vida psíquica de doentes com Parkinson, afasia ou Alzheimer." (*)

Depois deste cúmulo de citações, vamos à ideia que pode estar por detrás deste artigo, sem pretensões, de resto.

O presidente americano mostrou que a revolução (ou a contra-revolução) pode começar aos oitenta anos. Já Mao Tse Tung tinha mostrado o mesmo e num país conhecido pelas suas tradições milenárias. Como aparte, direi que talvez fosse preciso "limpar a lousa" para que outros líderes pudessem estabelecer o gigantesco sucesso actual, em termos, por muito que pese ao Grande Timoneiro lá na sua pirâmide, capitalistas e ditatoriais.

De resto, o que o homem do boné vermelho está a fazer nos USA é uma espécie de 'revolucāo cultural', de tábua rasa que prepara, sem ele saber até que ponto, o mundo novo da utopia digital. O célebre comportamento errático do personagem por que não há de ter uma lógica por detrás, mesmo que subliminar e artificialmente  motivada? Agora que tanto se fala de IA, não é descabido pensar, que o dito a consulte para os seus inúmeros disparates e idiossincrasias de primeiro grau e que, "por linhas tortas", como se diz que Deus escreve,  o errático se transforma em estratégico.

Fechemos o parêntesis. Os casos de Marx e de Freud e as dificuldades auto-admitidas, de um e outro, para a intuição (incluindo no que se refere à música) não são nada de novo. Qualquer trabalho aprofundado (até o de corrigir um teste universitário) exige adoptar "palas" para outras dimensões da vida. A teoria da alienação do filósofo de Iena, a teoria da luta de classes do amigo de Engels ou a psicanálise precisam dum 'parti pris' de abstracão.  No lado 'oposto' , nāo conheço nenhum grande músico que conseguisse brilhar na matemática. É assim, diria Hegel.

O que espanta, pois, o que um neurologista e ensaista como Oliver Sacks diz sobre a música como terapêutica de certas doenças mentais e nervosas? Se pelo menos algumas doenças podem ganhar com um tratamento pela linguagem (musical)?


                                                                                  (*) https://www.sciencefriday.com/segments/oliver-sacks-music-brain/








A LELLO


"As origens da Livraria Lello remetem a 1906, quando os irmãos José e António Lello inauguram o edifício da Livraria Lello, moldado pela visão do engenheiro Francisco Xavier Esteves." 

(Expresso, 13/1/2026)



A Livraria Lello é um fenómeno turístico, mais devido ao mito (*) de  Harry Potter e à famosa escada nos livros de J.K. Rowling, cidadã inglesa que viveu no Porto, do que ao êxito comercial da venda de livros.

A consagração da Lello como monumento nacional é, apesar disso, uma boa notícia  que não desagradaria a Guerra Junqueiro, Bento Carqueja ou Aurélio Paz dos Reis que estiveram presentes na inauguração em 1906. (A Capela das Almas, na rua de Sta. Catarina, é outro 'must' turístico, mas as fotografias que toda a gente lhe tira não geram receita para a Igreja.)

Todos temos a noção de que a leitura de livros em papel tem vindo a decrescer e as vendas confirmam essa tendência (20% foi quanto cairam  entre 2009 e 2018, por exemplo). O que não nos deve desmoralizar, pois a leitura em boa parte tornou-se digital e os que lêem o mau português das plataformas em mensagens curtas e na gíria da rede, é provável que antes dos telemóveis não lessem de todo.

Não me surpreenderia que agora se lesse mais, mas cada vez mais lixo.

Afinal, talvez Guerra Junqueiro, cáustico como era, não apreciasse tanto a passagem a monumento da Lello. E os amantes da leitura da minha geração têm que se acautelar contra um pessimismo de fim-do-mundo que é o conselho da velhice.

Saudemos, pois, o gesto duma livraria mais do que centenária que se não vive dos livros, vive duma ficção literária que já chegou ao cinema e há-de passar de moda como a nossa juventude.


(*) Apesar de já ter sido desmentido pela própria autora da saga Harry Potter, o mito de que a Livraria Lello terá inspirado locais e emblemas associados ao pequeno feiticeiro e ao colégio de magia de Hogwarts continua a alimentar o imaginário de muitos visitantes, assegura Sérgio Sousa que aqui trabalha desde 2015, antes do restauro que lhe devolveu o esplendor original, terminado em 2018. O facto de a escritora britânica J.K.Rowling ter vivido alguns anos no Porto continua a alimentar a lenda, desmentida por quem guia os visitantes pelo espaço (...) [ Maria Fonseca, 16/1/2026, Expresso]

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