01/04/26
CINEMA
NO CORRER DOS DIAS
Mafra. Olho para o postal que te escrevo e sinto falta de palavras, espaços em branco que não consigo preencher. As emoções retiram ao pensamento a capacidade de raciocínio, de tentar compreender a diferença entre a realidade desejada e aquela que observo e sinto no pulsar do planeta. A pena não corre, tolhida pelo estupor das notícias que lemos e ouvimos e, assim crescem os espaços onde deviam estar letras formando palavras e frases. É possível que já viesse embebido dessa turbulência nas ideias quando a composição ferroviária demorou a chegar à estação. O seu movimento transmitia-nos a sensação de ter tempo demasiado como se os horários não existissem. Saí com os olhos embargados de luminosidade como se alguém tivesse ligado uma luz na escuridão universal e me cegasse momentaneamente. Demorei a acordar e criei em mim a ideia que já conhecia a Malveira, mas tudo quanto os meus olhos viam, era novidade. Ainda subi e desci, fui de Oeste para Leste, mas foi inútil, nunca tinha pisado aquela terra. Foi só ao atravessar S. Miguel de Alcainça que um clarão de luz vitralino me estimulou a memória. É verdade que tinha atravessado a Malveira mais do que uma vez, mas era a Malveira da Serra e estas Malveiras não são o mesmo espaço urbano. Pelo menos, espevitou um pouco de alegria na marcha triste que me levava para o Palácio Nacional. Sento-me voltado para a imponente fachada enquanto te escrevo. É mais um símbolo de poder e riqueza. Sim, naturalmente que sim, a biblioteca, os jardins, o claustro, a igreja basilical, merecem ser visitados, nesse tempo em que deixamos o olhar à vontade percorrendo cada recanto, apreciando e glosando cada bocado de arte, mas continua a ser um símbolo de poder imperial que se ergueu como afirmação disso mesmo. O ouro do Brasil transformado nessa arte barroca a que o meu olhar não consegue habituar-se. D. João V, fez erguer tudo isso para evidenciar o seu poder absoluto e tentar integrar-se nesse despotismo que grassava pelos impérios coloniais europeus. Punha-se em bicos de pés para que o vissem. Fomos sempre assim, quando o dinheiro jorrou desses tesouros coloniais, comportamo-nos como se o mundo acabasse amanhã e esbanjamos a riqueza numa roleta. Só por acaso, deixamos estas pedras que falam desses dias de loucura endinheirada. Aqui tudo são números grandiosos, nas paredes, nas janelas, nos torreões, nos carrilhões nas obras bibliotecadas. É tudo ouro que reluz. No século seguinte, a elite real em cruzador fugidio abandona o reino, deixando o terreno livre para a ocupação estrangeira. Nada de novo na história pátria. Afastei os passos para o silêncio e sossego da Tapada, mas se escapei aos tremores da nossa nobreza, caíram-me de frente os furacões do mundo. Acreditamos sempre na evolução da espécie humana, mas esquecemos que até as cordilheiras têm obscuros e profundos vales, gargantas estreitas, onde se podem juntar todos os perigos que nascem na perfídia mental da escumalha que engoliu o poder dos Estados. Já não é apenas a avareza, a ganância, a luxúria desvairada de um colectivo epsteiniano, é uma quadrilha monstruosa que se masturba bombardeando os povos no declinar imperial. Os judeus do chamado Estado de Israel alcançam orgasmos bíblicos em cada bombardeamento que dizima bairros residenciais, perseguindo o aniquilamento de civilizações milenares, e o homem laranja, com a extraordinária capacidade de dizer uma coisa e o seu contrário numa frase de quatro palavras, incapaz de conhecer a realidade que o envolve coloca o poder militar do império que desvanece numa espiral sangrenta e irremediável. Os Persas resistem com dignidade e só essa resistência é uma vitória sobre a barbárie. A investigadora Moudhy Al-Rashid fala-nos da Mesopotâmia em termos de aviso: “Um poema sumério, conhecido como ‘Lamento pela Suméria e por Ur’, escrito muito antes do abandono final da cidade na sequência de uma derrota militar durante os últimos dias da Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2000 antes da nossa era (…). O poema descreve um cataclismo tão terrível que até os mortos varreu para longe, com cadáveres a flutuar no Eufrates. «Os tempos escuros arderam em granizo e chamas», lê-se numa secção, «os tempos brilhantes foram apagados por uma sombra». Verso atrás de verso descrevem a mais completa devastação e mortandade com todas as metáforas possíveis.” O império está a deslizar para a morte, pode ainda arrasar cidades como em Ur, mas este escorregar contínuo na pedra nua, terminará no pântano enlameado da tumescência humana. Observo de novo a imponência do edifício, conto o número de janelas como se contasse os séculos percorridos pela Humanidade. Adquirimos muito conhecimento, sabemos imenso do nosso passado, mas cada geração insiste em parir o gérmen da maldade que se prolonga nas cadeiras sujas do poder e da luxúria e mata sem pudor quando lhe retiram o lugar onde vomita o manjar que sofregamente rouba. O postal segue hoje, enquanto embarco em novo comboio.
LONGO INVERNO
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Saudemos a chegada da Primavera O General Inverno parece ter subido de posto.
Cheias e ventos catastróficos inabituais neste “Jardim da Europa à beira-mar plantado”.
Desconfiemos da promessa política de que nada ficará como dantes. Oito anos depois do trágico incêndio de Pedrógão registou-se a segunda maior área ardida dos últimos dez anos.
Na Ladainha dos Póstumos Natais de David Mourão Ferreira “Há-de vir um Natal e será o primeiro em que veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo” E Marguerite Yourcenar, no seu livro "O Tempo Esse Grande Escultor", escreve que “No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado." E acrescenta “Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.»
A Arte coisa de minorias não pode almejar mudar o mundo. O povo vai atrás da última novidade tecnológica ou do primeiro demagogo que acenda o rastilho.
As feridas das tragédias são lavadas melhor ou pior pelo curso do tempo Como na metáfora de Yourcenar a dor transforma-se e a vida prossegue.
POESIA
Helena Serôdio
Espera mais um pouco
Espera mais um pouco
Não faltes ainda,
Não manches o silêncio com a tua voz.
Pensa na vida que corre lá fora,
Sugestões pesadas de ideias mortas.
Ouve os soluços do vento norte
Que despe a terra e sem pudor
Aperta-me os dedos, para me sentires viva.
Beija-me os olhos, para não chorar meu amor calado no escuro,
Deixa alçapões de medo abertos na noite
Com olhos de vitral a escorrer ternura.
RAPINAGEM
01/03/26
COLONIALISMOS
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A Illustração Portuguesa, edição semanal do Jornal O Século, nº 124, de 6 de Julho de 1908, Director Carlos Malheiro Dias, noticia que o Capitão João de Almeida tinha regressado há dias a Lisboa, “que além de tantos outros serviços brilhantes prestados em África, comandou, em setembro do anno passado, a campanha contra os Dembos, que constituiu, como não pode estar esquecido, um dos mais gloriosos feitos modernos das armas portuguezas no ultramar, que elle conseguiu cumprir, de um modo notável, apezar dos combates que teve de sustentar e de ferido durante a marcha”
Os povos da região dos Dembos, nordeste de Luanda, Angola, lutavam contra a escravatura e a colonização. A guerra durou entre 1872 e 1919, 47 anos, o que levou à mobilização de milhares de militares portugueses para a guerra. O capitão João de Almeida regressou a Portugal, vítima de guerra. Quantos mais regressaram?
Em Moçambique a luta contra a colonização também durou vários anos, sendo mais conhecidas as campanhas durante finais do século XIX e princípios do século XX. Ainda está na memória de muita gente a figura de Gungunhana, capturado em 28 de Dezembro de 1895 por Mouzinho de Albuquerque com a respectiva família e transferido para Angra do Heroísmo, onde veio a falecer em 23 de Dezembro de 1906. Os seus apetrechos foram objecto de exposições na cidade do Porto e noutros lugares para os alunos das escolas apreciarem o que usava e restava do “inimigo”. Os nacionalistas moçambicanos consideravam-no um Herói Nacional. Os pretensos restos mortais, depois do 25 de Abril, em resultado de negociações entre Portugal e Moçambique foram transferidos para Moçambique.
Estas guerras acentuaram-se em consequência da Conferência de Berlim, de 1884. Os países imperialistas europeus pretendiam dividir entre si todo o continente africano, para obterem matérias-primas e mercados o que, de certo modo, aconteceu.
Contrariamente ao que muita gente pensa, a guerra colonial portuguesa, não se iniciou em 1960/1961. Os povos nunca se conformaram com o colonialismo.
As guerras que aconteceram ao longo dos tempos foram sempre para explorar e roubar. Aquelas a que estamos a assistir têm sempre o mesmo objectivo com os mais diversos pretextos: defesa dos valores democráticos, alcançar espaços vitais, luta contra armas nucleares ou outras, contra o terrorismo, contra o tráfico de drogas, etc., explorar e roubar.
Os portugueses andaram a exibir o Gungunhana. O Trump, de certo modo, andou a exibir o Maduro.
NO CORRER DOS DIAS
Peniche. A Linha do Oeste e a do Norte quase nascem paralelas, nas bandas do Mondego, mas a primeira começa a afastar-se em direcção ao litoral e a segunda ruma ao Vale do Tejo. A infra-estrutura ferroviária pensada e executada há quase cento e cinquenta anos, não contemplou a ligação da costa à lezíria. Compreende-se, era um tempo em que o importante e necessário era a ligação à capital. Do interior ainda não se procuravam as praias. O prazer do areal ainda era propriedade de uma minoria. Mas no presente a ligação existe, mas em alcatrão como os novos donos do território gostam. Evitei as Caldas, não por serem da rainha, mas porque não me cativou a imagem que se desenhou no pensamento. Já Óbidos me deixou na profunda dúvida, pelo seu ar medieval e pela graciosidade do seu casario. Mas já levava Peniche como destino. Entre a estação e a cidade medeia essa distância que não convida a caminhar, mas acabei por alcançar essa espécie de punho rochoso que se enfia na cabeça do mar. Já foi uma ilha e, na verdade continua a sê-lo pela existência de um canal que apenas cento e cinquenta metros de areia da praia da Gamboa permitem a ligação do território. É longa no tempo a presença humana nesta terra de pescadores, mas é o passado próximo que os meus olhos procuram e a memória demanda. É a fortaleza do século XVII, com as suas muralhas de pedra dura que nalgum ponto se aprumam sobre o mar que os meus passos indagam. Ainda trago o silêncio contemplativo das abóbodas de Santa Maria dos cistercienses, mas aqui, neste espaço agora com luz e brancura, o silêncio parece de chumbo. Se paramos na tentativa de interrogar essa ausência de sons, acreditamos ouvir vozes clamando, gritos profundos de sonhos amordaçados, contidos entre gradeamentos de ferro, salas inquisitoriais, predadores armados vociferando, animais humanos procurando rasgar ideias e, lá no fundo, onde a muralha toca o mar, escuta-se o verso de quem viria a escrever História, “sou barco abandonado/na praia ao pé do mar/e os pensamentos/são meninos a brincar”. Mas os barcos nunca estavam abandonados, nem na esperança nem no acreditar na palavra liberdade, “noiva dos rebeldes”, como escreveu o poeta Thiago de Melo. Nestes corredores por onde agora o sol penetra, quantas sombras obscureceram centenas ou milhares de vidas, sonhos interrompidos, vidas suspensas que quando aqui chegavam já tinham passado pelas masmorras da tortura, do asselvajamento daqueles que nunca viriam a ser julgados e menos ainda condenados. Devia este ser um lugar de visita obrigatória para que não se esqueça e para que o nunca mais seja isso mesmo. Os que por aqui deixaram tanto da sua vida, poucos são os que têm o seu nome gravado na toponímia dos lugares, como homenagem ao seu esforço de justiça, mas aquele que aqui chegou na noite da libertação, enviado pelo zarolho para decidir quem era libertado, tem o nome espalhado por qualquer pedra que se encontre desde a remota aldeia até ao aeroporto da nobre e sempre invicta cidade. A liberdade e a democracia nem sempre é grata aos que a defenderam como interesse de vida colectiva. Resta este Museu como memória recordatória e símbolo de dignidade. O postal deixo-o na cidade e regresso a pé para arejar o pensamento e a desolação que levo pela continuidade da maldade humana.
FRESTAS
PENSAMENTOS SORTIDOS
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Uma frase política muito em moda, que o presidente da república eleito não deixou de dizer no seu voluntarioso discurso de vitória, é “que ninguém fique para trás”. Trata-se de um floreado do jargão político, no melhor dos casos bem-intencionado, mas que a história humana não autoriza.
A pobreza, que o senador americano Robert Kennedy, antes de sucumbir à lei da bala, considerava ser uma falha moral, aparenta estar para durar; as eufemísticas “assimetrias” grassam por esse mundo fora, numa escala talvez sem precedentes, mas, no essencial, em linha com o passado.
Não falta justificação para a revolução social. Contudo, as conexões intrincadas e dependentes do mundo actual impossibilitam, praticamente, a sua realização num só país, e o conceito de “revolução mundial” pertence ao passado.
A revolução social produz(iu) a chamada “legitimidade revolucionária”, e esta o poder indefinidamente prolongado, sem liberdade e audição regular dos cidadãos, porque os seus dirigentes “sabem” o que o povo quer.
Sempre houve e haverá revoltas populares, mais ou menos inorgânicas. A dos “coletes amarelos” acossou o governo francês, terá conseguido a satisfação de algumas reivindicações, mas o “sistema” não foi posto em causa nem para tal havia ou há alternativa.
Paradoxalmente, o inebriante progresso tecnológico é uma linha paralela que, como tal, não intersecta a paralela da pobreza e injustiça, apesar de moldar o modo de vida.
O humano é demasiadamente complexo para caber numa “lei”. Em carta ao poeta Eugénio de Andrade, Agustina escreveu que “A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses”. Eis um modo de dizer que o mistério da existência (que povoámos com deuses) nos é inacessível, apesar do esforço filosófico, científico, poético, literário, ou da “revelação” mítico-religiosa.
O mundo está (novamente) louco, e a precisar de se deitar no divã da psicanálise. Mas a cura não está à vista. Caberá aos jovens, de hoje e de amanhã, encontrá-la.
POESIA
Helena Serôdio
OLHA MAIS ACIMANão te queixes da sorte, meu amorNa verdade, ela às vezes é cruel...Ainda assim, seja mesmo como for,Suporta do destino todo o fel.O desespero aumenta nossa dor...Dirige com coragem teu batel,Nem sempre tem o céu a mesma corE nem tudo na vida é sempre mel.Crê mais em Deus! Tem fé! Tem esperança...Pois tudo é passageiro neste mundoE após o temporal vem a bonança.E não esqueças nunca essa verdade.O nosso amor é por demais profundo,Só cabe mesmo numa eternidade!..
01/02/26
NO CORRER DOS DIAS
Valado dos Frades. A tarde já dobrou a sua metade e ora me
sento, ora me levanto. O horário do comboio é uma questão e a sua chegada é
outra e nunca coincidem. Ocorre até em algumas ocasiões que o primeiro existe,
mas o segundo fica pelas aparências. É a Linha do Oeste, mas podia ser qualquer
outra. A figura sinistra do ministro dos Transportes, segue à risca o conselho
do Dr. João das Regras, adaptado ao nosso tempo, dá o que não é teu e promete o
que não vais fazer. A aldeia é grande, o que se compreende por ficar a quatro quilómetros
da Nazaré e, para que ninguém se sinta afastado, a estação tem três nomes,
Valado, Nazaré e Alcobaça. Encontramos um pouco de tudo ao percorrermos as ruas
estreitas do lugar, casas fechadas, muros em ruínas, janelas sem vidros e
paredes de casas brancas, pinturas vivas, com as pedras laterais que desenham
as entradas, pintadas de azul ou amarelo. É o Sul que se aproxima com a
intensidade da luz a sentir-se com mais premência. Com o dia a declinar,
sente-se uma mansidão repousante. Aproveito para serenar e interrompo o
pensamento. Das ocasiões em que me levanto, aprecio os azulejos da estação. Já
lhes memorizei os pormenores. São reproduções dos lugares que serve e o central
tem um apelo, «visitem Alcobaça». Hesitei imenso em abandonar o comboio em
Leiria, mas quer Santa Maria da Vitória quer o Real Mosteiro de Santa Maria de
Alcobaça, eram impossíveis de ignorar. Desci devagar ao longo do Liz, por entre
aldeias onde o tempo tem essa lentidão de prazer, e permite-nos admirar o
horizonte, fixar memórias e sentir o viver da vida. O que primeiro nos surge no
olhar quando nos aproximamos, são as Capelas Imperfeitas, mas o que poderá ser
imperfeito nesta beleza gótica? Abandono a ideia dos pormenores, retenho-me na
grandeza e sinto necessidade de comparar as igrejas, a cisterciense e esta dos
dominicanos. Separam-nas dois séculos na construção, mas era um tempo em que
trabalhar a pedra e o vidro eram uma arte, o tempo em que os mesteirais enchiam
as cidades com os seus saberes e as ruas tinham o nome dos seus mesteres. Ambas
as construções se assemelham, na fortaleza das colunas, nas dimensões da
abóboda, na explosão de luz que penetra dos vitrais e, no gótico. Cativa-me a
dos cistercienses por algo inexprimível, mas a de Santa Maria da Vitória tem
outra dimensão que percepciono mas não distingo de imediato. Em Alcobaça
reza-se a Deus pelos pecados terrenos e apela-se pela vida eterna. Na Batalha
também, mas contém outro plano, agradece-se a Deus por um momento ímpar da
história colectiva, que se vem escrevendo há nove séculos, engrandeceu o reino
e fez alvorecer a ideia de pátria. Os túmulos, em ambos os espaços sagrados,
expressam a dimensão dos seres mortais que acolhem, enquanto viveram, mas por
razões distintas. Uns pela forma como reinaram, os outros pela forma como amaram.
Os primeiros têm um lugar próprio, uma capela para repousar no sossego da
eternidade, mas num espaço exterior ao dos crentes que rezam e apelam, os
segundos estão no próprio corpo da igreja, recebem a luz que chega de Deus e
alimenta, hoje em mito, o que foi o amor imperecível a que se dedicaram. Por
aqui, por estes espaços se queda sempre o meu olhar renovado por tanta arte e
mestria do trabalho de cantaria. Por fim, refugio-me nos jardins dos claustros,
territórios perfeitos para a reflexão, um deleite de conforto. Procuro sentir a
emoção desse final de tarde de Verão nos campos de Aljubarrota. Milhares de
homens no calor tórrido de Agosto e um extenso campo a separá-los. Tudo parece
ter-se extinguido em menos de uma hora. A nata da nobreza castelhana jazia por
terra, o que restava, cavalgava desvairadamente e do lado dos vencedores, um
sentimento pátrio nascia. Ainda sem o saberem, estavam a projectar o reino para
dimensões de uma grandeza que ainda ofusca o presente. D. João terá hesitado
nos momentos que antecederam a disputa, e não seria a primeira vez, mas por
vontade própria ou sem terreno para recuar, instalou-se na refrega e saiu rei.
A coroação chegaria depois, com tempo, pela arte da oratória ou da engenharia
jurídica, mas isso que importa, sabendo nós hoje o que sabemos. Este quadro traz-nos
à memória um outro personagem do nosso tempo que também por estas terras
próximas se dedicou às uvas e às rosas até aparecer um Álvaro Pais que o
colocou em cima do cavalo e o pôs a galopar. Vai ser rei, sem saber ler
nem escrever como diz o povo mínimo. Mas quanto à grandeza do futuro, podemos
recolher ao claustro para sossegar. D. João, o verdadeiro rei, não o que ainda
não é, era um homem devoto com particular admiração pela Nossa Senhora da
Oliveira, daí as suas viagens a Guimarães e ao Minho com passagem pelo Porto.
Numa dessas viagens acordou casamento e de D. Filipa saíram aqueles que
projectaram o que hoje chamaríamos um tempo e um mundo novo. Ainda o rumor da
batalha se escutava quando o que antes foi Mestre de Avis dava ordem de
construção a esta maravilha gótica com a pedra trabalhada como filigrana. Longa
vida foi a deste rei, filho bastardo daquele que em Alcobaça repousa e que
morreu amando. Ao longe, no final desta recta extensa que o meu olhar alcança
do lado esquerdo, pestanejaram umas luzes ínfimas e tremelicantes parecendo
aproximar-se. Está dentro do horário o comboio que me vai levar, porque o
horário não é o que está escrito, mas quando aquele chega à estação. Ainda não
decidi onde vou sair. O postal envio à chegada.
AS ELEIÇÕES E O RESTO
Manuel Joaquim
Marina Costa Lobo, Politóloga, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, publicou no Público de 21 de Janeiro, o texto “Desalinhamento ou realinhamento eleitoral?”, onde refere que Gouveia e Melo teve cerca de 700 mil votos, 12% do eleitorado; que Marques Mendes (PSD +CDS) teve menos 68% dos votos do que PSD+CDS em 2025; que André Ventura teve 23% dos votos, menos 10% do que o Chega em 2025; que Seguro teve 31% dos votos, mais 20% do que o PS em 2025; que Cotrim teve três vezes mais votos do que Iniciativa Liberal em 2025,
Nas eleições de 1986, Freitas do Amaral teve na primeira volta 46% dos votos e Mário Soares 25%. A soma dos votos da 1ª volta de Freitas do Amaral e de Mário Soares foi de 71% e a soma dos votos de Seguro e Ventura foi de 55%. Aconteceu que Mário Soares foi eleito na 2ª volta.
Depois dos resultados da primeira volta nestas eleições Gouveia e Melo sugeriu que tinha a intenção de formar um novo partido ou um movimento para dar corpo aos votantes que votaram na sua candidatura. Cotrim também manifestou a mesma intenção dando já o possível nome ao movimento.
Freitas do Amaral que fez uma campanha muito forte, criando a imagem do sobretudo verde azeitona, de triste lembrança, que muitos correligionários copiaram e que, de certa forma, foi agora copiado pelo triste americano Bovino, do ICE, foi perdendo pedalada e desapareceu com os seus votos, deixando grandes dívidas da campanha eleitoral por pagar, incluindo os sobretudos verdes.
O PRD do Eanes, liderado por Martinho, criado para dar corpo à votação que teve nas eleições presidenciais, que chegou a ter uma grande representação da Assembleia da República, também desapareceu da vida política, sem deixar rasto.
A esmagadora maioria da população não é filiada em nenhum partido político. As pessoas são condicionadas pela comunicação que lhes é dada e pelas circunstâncias da vida. Por isso a votação é volátil, é mudável.
As campanhas eleitorais custam muito dinheiro. A campanha do Marques Mendes, segundo os jornais, ficou com um buraco financeiro enorme. Vai ter que arranjar uns servicitos para tapar o buraco.
Vamos ver o tempo de vida dos movimentos do Melo e do Cotrim. Provavelmente desaparecem como todos os outros que nasceram e morreram.
No próximo dia 8 de Fevereiro vai realizar-se a 2ª volta das eleições, donde vai sair o próximo Presidente da República. Os eleitores vão ser confrontados com dois candidatos, um dos quais representa a opção mais reaccionária que pretende pôr em causa o que ainda existe das conquistas resultantes do 25 de Abril que têm sido atacadas pelos sucessivos governos de direita e quejandos. O perigo do fascismo é real, tendo presente a situação política nacional e internacional. Racionalmente temos de evitar o “quanto pior melhor” porque a luta pela liberdade e pela democracia seria muito pior. Assim, mesmo com sapos e elefantes à nossa frente, é melhor não desperdiçar o nosso voto e votar contra o fascismo, votando no outro candidato.
Nesta terça-feira foi assinado o Acordo de Comércio Livre Entre a União Europeia e a Índia. Ainda não se conhece integralmente o texto do acordo, sabendo-se que trata de automóveis, de máquinas e têxteis. À primeira vista, parece que a Alemanha e a França serão as mais beneficiadas pelos automóveis, mas só a prazo é que se vai realmente saber quem beneficia do acordo. A Índia fabrica os seus próprios automóveis e diversas marcas japonesas e coreanas fabricam lá muitas das suas viaturas. A indústria têxtil da Índia é muito poderosa, o que certamente vai acelerar ainda mais a destruição do sector têxtil português. Para António Costa, Presidente do Conselho Europeu, que nessa qualidade assinou o acordo, tudo está bem, pois, orgulhosamente, se identificou como cidadão indiano.
Este acordo, apesar de estar a ser negociado há muito tempo, é muito estranho ter sido assinado agora. A partir de 2027 a União Europeia vai proibir a importação de gás e petróleo da Rússia. Apesar de todos os pacotes aprovados contra a Rússia, neste momento ainda se importa gás e componentes do petróleo da Rússia. A energia que a União Europeia está a consumir, uma parte significativa é importada dos EUA, a preços nada convidativos. A partir de 2027, se cumprir com as decisões tomadas, ficará ainda mais vulnerável das decisões de Trump. Será que o acordo já tem em mente a importação de gás e de petróleo da Rússia através da Índia? Vamos aguardar para ver.
Também, anteriormente, a Comissão Europeia assinou o acordo de EU-Mercosul, que foi contestado por muitas organizações europeias ligadas ao sector agro-pecuário e que foi remetido com pedido de Parecer ao Tribunal de Justiça da União Europeia pelo Parlamento Europeu. O que essas organizações europeias defendem é a salvaguarda da sua sobrevivência, pois, em princípio, os grandes interessados são as grandes multinacionais. Vamos ver se a montanha vai parir um rato.
O Melo, do governo, foi à Turquia comprar com dinheiro emprestado equipamentos militares para a guerra. Pelo que se lê, a União Europeia, de organização económica, social e política, quer transformar-se numa organização militar para a guerra. A psicose da guerra permanece nas mentes destes inteligentes. Este Melo, aqui há uns tempos, disse que a decisão de comprar armamentos seria muito bom para Portugal, pois seriam fabricados em Portugal e aumentava os postos de trabalho. Pelos vistos, começou por dar trabalho à Turquia e não a Portugal. Não é preciso falar no que vai comprar aos EUA, conforme o “PAPÁ” mandou.
As televisões têm mostrado os desastres com o temporal. Centenas de milhares de habitações sem água, sem energia, sem comunicações, e muitas completamente destruídas. Pessoas sem-abrigo, sem alimentação, sem apoio na saúde, sem apoios, sem nada.
Muito pouca gente se lembra das cheias de Novembro de 1967, em Lisboa, causadas pela chuva que causaram mais de 700 mortos e milhares de desalojados e a destruição de mais de 20 mil casas. A censura do regime fascista não permitiu notícias sobre esse horrível acontecimento. Os fascistas de hoje ignoram ou fazem por ignorar o que se passou.
Muitas das vítimas dos incêndios dos últimos anos ainda aguardam o cumprimento das promessas que os governantes efectuaram. É um truque que estes inteligentes fazem, “fingem que resolvem os problemas que não existem para ocultar os problemas que existem e não resolvem” palavras de Cláudia Santos, professora da Faculdade de Direito de Coimbra, em “Muito Estado primitivo e pouco Estado Social”, Público de 14 de Janeiro.
Se houvesse mais Estado social, não se via tantas crianças e jovens nas escolas debaixo destas invernias com nenhumas roupas de inverno, com sapatilhas de verão e umas camisolas de malha como se fosse verão, muitas sem merenda para comer.
A falta de água e de energia durante tantos dias demonstra o estado das estruturas existentes no país. Agora, pouco se fala das startup em Lisboa e dos seus êxitos. Dos dinheiros gastos a fundo perdido para os grandes espectáculos organizados. Parece que se esfumaram.
No tempo do Costa falou-se dos grandes investimentos em Sines para grandes empresas de Bases de Dados. “É uma coisa do futuro!”.
Essas empresas têm uma necessidade de água e de energia, que Portugal não tem capacidade de responder. Os próprios EUA não têm capacidade estrutural para responder a essas necessidades. Se Portugal não tem capacidade de responder às necessidades das populações quando é confrontado com estre tipo de desastres naturais, como vai ser com essas empresas?
Elefantes brancos como se chamou no tempo da “outra senhora” aos investimentos efectuados precisamente em Sines?
