01/02/26
NO CORRER DOS DIAS
Valado dos Frades. A tarde já dobrou a sua metade e ora me
sento, ora me levanto. O horário do comboio é uma questão e a sua chegada é
outra e nunca coincidem. Ocorre até em algumas ocasiões que o primeiro existe,
mas o segundo fica pelas aparências. É a Linha do Oeste, mas podia ser qualquer
outra. A figura sinistra do ministro dos Transportes, segue à risca o conselho
do Dr. João das Regras, adaptado ao nosso tempo, dá o que não é teu e promete o
que não vais fazer. A aldeia é grande, o que se compreende por ficar a quatro quilómetros
da Nazaré e, para que ninguém se sinta afastado, a estação tem três nomes,
Valado, Nazaré e Alcobaça. Encontramos um pouco de tudo ao percorrermos as ruas
estreitas do lugar, casas fechadas, muros em ruínas, janelas sem vidros e
paredes de casas brancas, pinturas vivas, com as pedras laterais que desenham
as entradas, pintadas de azul ou amarelo. É o Sul que se aproxima com a
intensidade da luz a sentir-se com mais premência. Com o dia a declinar,
sente-se uma mansidão repousante. Aproveito para serenar e interrompo o
pensamento. Das ocasiões em que me levanto, aprecio os azulejos da estação. Já
lhes memorizei os pormenores. São reproduções dos lugares que serve e o central
tem um apelo, «visitem Alcobaça». Hesitei imenso em abandonar o comboio em
Leiria, mas quer Santa Maria da Vitória quer o Real Mosteiro de Santa Maria de
Alcobaça, eram impossíveis de ignorar. Desci devagar ao longo do Liz, por entre
aldeias onde o tempo tem essa lentidão de prazer, e permite-nos admirar o
horizonte, fixar memórias e sentir o viver da vida. O que primeiro nos surge no
olhar quando nos aproximamos, são as Capelas Imperfeitas, mas o que poderá ser
imperfeito nesta beleza gótica? Abandono a ideia dos pormenores, retenho-me na
grandeza e sinto necessidade de comparar as igrejas, a cisterciense e esta dos
dominicanos. Separam-nas dois séculos na construção, mas era um tempo em que
trabalhar a pedra e o vidro eram uma arte, o tempo em que os mesteirais enchiam
as cidades com os seus saberes e as ruas tinham o nome dos seus mesteres. Ambas
as construções se assemelham, na fortaleza das colunas, nas dimensões da
abóboda, na explosão de luz que penetra dos vitrais e, no gótico. Cativa-me a
dos cistercienses por algo inexprimível, mas a de Santa Maria da Vitória tem
outra dimensão que percepciono mas não distingo de imediato. Em Alcobaça
reza-se a Deus pelos pecados terrenos e apela-se pela vida eterna. Na Batalha
também, mas contém outro plano, agradece-se a Deus por um momento ímpar da
história colectiva, que se vem escrevendo há nove séculos, engrandeceu o reino
e fez alvorecer a ideia de pátria. Os túmulos, em ambos os espaços sagrados,
expressam a dimensão dos seres mortais que acolhem, enquanto viveram, mas por
razões distintas. Uns pela forma como reinaram, os outros pela forma como amaram.
Os primeiros têm um lugar próprio, uma capela para repousar no sossego da
eternidade, mas num espaço exterior ao dos crentes que rezam e apelam, os
segundos estão no próprio corpo da igreja, recebem a luz que chega de Deus e
alimenta, hoje em mito, o que foi o amor imperecível a que se dedicaram. Por
aqui, por estes espaços se queda sempre o meu olhar renovado por tanta arte e
mestria do trabalho de cantaria. Por fim, refugio-me nos jardins dos claustros,
territórios perfeitos para a reflexão, um deleite de conforto. Procuro sentir a
emoção desse final de tarde de Verão nos campos de Aljubarrota. Milhares de
homens no calor tórrido de Agosto e um extenso campo a separá-los. Tudo parece
ter-se extinguido em menos de uma hora. A nata da nobreza castelhana jazia por
terra, o que restava, cavalgava desvairadamente e do lado dos vencedores, um
sentimento pátrio nascia. Ainda sem o saberem, estavam a projectar o reino para
dimensões de uma grandeza que ainda ofusca o presente. D. João terá hesitado
nos momentos que antecederam a disputa, e não seria a primeira vez, mas por
vontade própria ou sem terreno para recuar, instalou-se na refrega e saiu rei.
A coroação chegaria depois, com tempo, pela arte da oratória ou da engenharia
jurídica, mas isso que importa, sabendo nós hoje o que sabemos. Este quadro traz-nos
à memória um outro personagem do nosso tempo que também por estas terras
próximas se dedicou às uvas e às rosas até aparecer um Álvaro Pais que o
colocou em cima do cavalo e o pôs a galopar. Vai ser rei, sem saber ler
nem escrever como diz o povo mínimo. Mas quanto à grandeza do futuro, podemos
recolher ao claustro para sossegar. D. João, o verdadeiro rei, não o que ainda
não é, era um homem devoto com particular admiração pela Nossa Senhora da
Oliveira, daí as suas viagens a Guimarães e ao Minho com passagem pelo Porto.
Numa dessas viagens acordou casamento e de D. Filipa saíram aqueles que
projectaram o que hoje chamaríamos um tempo e um mundo novo. Ainda o rumor da
batalha se escutava quando o que antes foi Mestre de Avis dava ordem de
construção a esta maravilha gótica com a pedra trabalhada como filigrana. Longa
vida foi a deste rei, filho bastardo daquele que em Alcobaça repousa e que
morreu amando. Ao longe, no final desta recta extensa que o meu olhar alcança
do lado esquerdo, pestanejaram umas luzes ínfimas e tremelicantes parecendo
aproximar-se. Está dentro do horário o comboio que me vai levar, porque o
horário não é o que está escrito, mas quando aquele chega à estação. Ainda não
decidi onde vou sair. O postal envio à chegada.
AS ELEIÇÕES E O RESTO
Manuel Joaquim
Marina Costa Lobo, Politóloga, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, publicou no Público de 21 de Janeiro, o texto “Desalinhamento ou realinhamento eleitoral?”, onde refere que Gouveia e Melo teve cerca de 700 mil votos, 12% do eleitorado; que Marques Mendes (PSD +CDS) teve menos 68% dos votos do que PSD+CDS em 2025; que André Ventura teve 23% dos votos, menos 10% do que o Chega em 2025; que Seguro teve 31% dos votos, mais 20% do que o PS em 2025; que Cotrim teve três vezes mais votos do que Iniciativa Liberal em 2025,
Nas eleições de 1986, Freitas do Amaral teve na primeira volta 46% dos votos e Mário Soares 25%. A soma dos votos da 1ª volta de Freitas do Amaral e de Mário Soares foi de 71% e a soma dos votos de Seguro e Ventura foi de 55%. Aconteceu que Mário Soares foi eleito na 2ª volta.
Depois dos resultados da primeira volta nestas eleições Gouveia e Melo sugeriu que tinha a intenção de formar um novo partido ou um movimento para dar corpo aos votantes que votaram na sua candidatura. Cotrim também manifestou a mesma intenção dando já o possível nome ao movimento.
Freitas do Amaral que fez uma campanha muito forte, criando a imagem do sobretudo verde azeitona, de triste lembrança, que muitos correligionários copiaram e que, de certa forma, foi agora copiado pelo triste americano Bovino, do ICE, foi perdendo pedalada e desapareceu com os seus votos, deixando grandes dívidas da campanha eleitoral por pagar, incluindo os sobretudos verdes.
O PRD do Eanes, liderado por Martinho, criado para dar corpo à votação que teve nas eleições presidenciais, que chegou a ter uma grande representação da Assembleia da República, também desapareceu da vida política, sem deixar rasto.
A esmagadora maioria da população não é filiada em nenhum partido político. As pessoas são condicionadas pela comunicação que lhes é dada e pelas circunstâncias da vida. Por isso a votação é volátil, é mudável.
As campanhas eleitorais custam muito dinheiro. A campanha do Marques Mendes, segundo os jornais, ficou com um buraco financeiro enorme. Vai ter que arranjar uns servicitos para tapar o buraco.
Vamos ver o tempo de vida dos movimentos do Melo e do Cotrim. Provavelmente desaparecem como todos os outros que nasceram e morreram.
No próximo dia 8 de Fevereiro vai realizar-se a 2ª volta das eleições, donde vai sair o próximo Presidente da República. Os eleitores vão ser confrontados com dois candidatos, um dos quais representa a opção mais reaccionária que pretende pôr em causa o que ainda existe das conquistas resultantes do 25 de Abril que têm sido atacadas pelos sucessivos governos de direita e quejandos. O perigo do fascismo é real, tendo presente a situação política nacional e internacional. Racionalmente temos de evitar o “quanto pior melhor” porque a luta pela liberdade e pela democracia seria muito pior. Assim, mesmo com sapos e elefantes à nossa frente, é melhor não desperdiçar o nosso voto e votar contra o fascismo, votando no outro candidato.
Nesta terça-feira foi assinado o Acordo de Comércio Livre Entre a União Europeia e a Índia. Ainda não se conhece integralmente o texto do acordo, sabendo-se que trata de automóveis, de máquinas e têxteis. À primeira vista, parece que a Alemanha e a França serão as mais beneficiadas pelos automóveis, mas só a prazo é que se vai realmente saber quem beneficia do acordo. A Índia fabrica os seus próprios automóveis e diversas marcas japonesas e coreanas fabricam lá muitas das suas viaturas. A indústria têxtil da Índia é muito poderosa, o que certamente vai acelerar ainda mais a destruição do sector têxtil português. Para António Costa, Presidente do Conselho Europeu, que nessa qualidade assinou o acordo, tudo está bem, pois, orgulhosamente, se identificou como cidadão indiano.
Este acordo, apesar de estar a ser negociado há muito tempo, é muito estranho ter sido assinado agora. A partir de 2027 a União Europeia vai proibir a importação de gás e petróleo da Rússia. Apesar de todos os pacotes aprovados contra a Rússia, neste momento ainda se importa gás e componentes do petróleo da Rússia. A energia que a União Europeia está a consumir, uma parte significativa é importada dos EUA, a preços nada convidativos. A partir de 2027, se cumprir com as decisões tomadas, ficará ainda mais vulnerável das decisões de Trump. Será que o acordo já tem em mente a importação de gás e de petróleo da Rússia através da Índia? Vamos aguardar para ver.
Também, anteriormente, a Comissão Europeia assinou o acordo de EU-Mercosul, que foi contestado por muitas organizações europeias ligadas ao sector agro-pecuário e que foi remetido com pedido de Parecer ao Tribunal de Justiça da União Europeia pelo Parlamento Europeu. O que essas organizações europeias defendem é a salvaguarda da sua sobrevivência, pois, em princípio, os grandes interessados são as grandes multinacionais. Vamos ver se a montanha vai parir um rato.
O Melo, do governo, foi à Turquia comprar com dinheiro emprestado equipamentos militares para a guerra. Pelo que se lê, a União Europeia, de organização económica, social e política, quer transformar-se numa organização militar para a guerra. A psicose da guerra permanece nas mentes destes inteligentes. Este Melo, aqui há uns tempos, disse que a decisão de comprar armamentos seria muito bom para Portugal, pois seriam fabricados em Portugal e aumentava os postos de trabalho. Pelos vistos, começou por dar trabalho à Turquia e não a Portugal. Não é preciso falar no que vai comprar aos EUA, conforme o “PAPÁ” mandou.
As televisões têm mostrado os desastres com o temporal. Centenas de milhares de habitações sem água, sem energia, sem comunicações, e muitas completamente destruídas. Pessoas sem-abrigo, sem alimentação, sem apoio na saúde, sem apoios, sem nada.
Muito pouca gente se lembra das cheias de Novembro de 1967, em Lisboa, causadas pela chuva que causaram mais de 700 mortos e milhares de desalojados e a destruição de mais de 20 mil casas. A censura do regime fascista não permitiu notícias sobre esse horrível acontecimento. Os fascistas de hoje ignoram ou fazem por ignorar o que se passou.
Muitas das vítimas dos incêndios dos últimos anos ainda aguardam o cumprimento das promessas que os governantes efectuaram. É um truque que estes inteligentes fazem, “fingem que resolvem os problemas que não existem para ocultar os problemas que existem e não resolvem” palavras de Cláudia Santos, professora da Faculdade de Direito de Coimbra, em “Muito Estado primitivo e pouco Estado Social”, Público de 14 de Janeiro.
Se houvesse mais Estado social, não se via tantas crianças e jovens nas escolas debaixo destas invernias com nenhumas roupas de inverno, com sapatilhas de verão e umas camisolas de malha como se fosse verão, muitas sem merenda para comer.
A falta de água e de energia durante tantos dias demonstra o estado das estruturas existentes no país. Agora, pouco se fala das startup em Lisboa e dos seus êxitos. Dos dinheiros gastos a fundo perdido para os grandes espectáculos organizados. Parece que se esfumaram.
No tempo do Costa falou-se dos grandes investimentos em Sines para grandes empresas de Bases de Dados. “É uma coisa do futuro!”.
Essas empresas têm uma necessidade de água e de energia, que Portugal não tem capacidade de responder. Os próprios EUA não têm capacidade estrutural para responder a essas necessidades. Se Portugal não tem capacidade de responder às necessidades das populações quando é confrontado com estre tipo de desastres naturais, como vai ser com essas empresas?
Elefantes brancos como se chamou no tempo da “outra senhora” aos investimentos efectuados precisamente em Sines?
PALLAS ERRÁTICA
PARTIR CASCALHO
Mário Martins
https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=geopolitica#
Enquanto a Nasa decidiu o regresso antecipado de quatro astronautas que integravam a missão Crew-11, por doença não divulgada de um dos seus membros, igualmente não identificado, coisa que nunca tinha acontecido desde o início das operações da Estação Espacial Internacional, há 25 anos;
Enquanto a Inteligência Artificial continua a fazer o seu caminho, gerando grandes expectativas e não menores temores, (o reputado neurocientista António Damásio, em entrevista ao Expresso – Revista de 26 de Dezembro de 2025 – acredita que “Há possibilidade de alguns desses organismos {máquinas com IA} se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador. É previsível que isso possa acontecer. Depois, é imprevisível dizer quais seriam as consequências e qual o modo como seria possível controlar um tal desenvolvimento.”) Entretanto, se a maioria dos especialistas americanos estima que os efeitos da IA, nos próximos 20 anos, serão globalmente positivos, a grande maioria do público leigo norte-americano não acredita nesses efeitos positivos. Em Portugal, uma sondagem recente concluiu que a maioria dos inquiridos dispensa a IA e defende maior regulação, mas os autores da sondagem consideram que a atitude pode mudar rapidamente “à medida que a familiaridade com a tecnologia cresça e que os seus múltiplos efeitos se façam sentir.” (Expresso de 9 de Janeiro passado);
Enquanto, estatisticamente, se “lambem as feridas” dos incêndios do ano passado, concluindo que “2025 foi o segundo pior ano (o primeiro foi 2017, o ano da tragédia de Pedrógão) da década em área ardida”, destacando-se, “entre as causas mais frequentes detectadas, o incendiarismo/imputáveis (30%) e os reacendimentos (11%)”. Perante esta realidade persistente e o receio de retrocessos a nível nacional, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais apelou para que, em 2026, haja um reforço do Programa Nacional de Acção, nomeadamente “se organize uma força rural especializada para apoiar o comando de incêndios complexos, a trabalhar 365 dias por ano ao serviço da floresta e da conservação da natureza. O Presidente da AGIF lembra que “um pequeno fogo se apaga com os pés e um grande incêndio com a cabeça.” (Expresso de 9 de Janeiro);
Enquanto, enfim, a “vidinha”, fora dos teatros de guerra, prossegue o curso do costume, as superpotências, de um modo e numa escala sem precedentes desde o fim da segunda guerra mundial, agem como se fossem donos do mundo, em nome do seu exclusivo e propalado interesse, ameaçando, invadindo, rapinando, desprezando a ONU e fazendo tábua rasa dos princípios laboriosamente edificados dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos e da soberania dos Estados. Se Putin e a actual clique dirigente do Kremlin, não têm perdão pela invasão e destruição da Ucrânia, as recentes acções arbitrárias de Trump e do seu séquito de doutrinadores do Maga, “absolvem” o urso russo.
Eis-nos, enfim, chegados à nova “ordem” internacional. Doravante, cada país “soberano” terá de conformar-se com os ditames das potências hegemónicas, sob pena de o frio da lâmina económica ou militar, forçar o seu alinhamento. Como, há uns tempos, alguém afirmou na televisão, o interesse geopolítico das superpotências sobrepõe-se a tudo, o resto é cascalho…
POESIA
Helena SerôdioDESESPERODesce lento o crepúsculo, meu amor,Trazendo em sios meus sonhos alados,num prepassar de rendas e brocadosem que me envolve toda, o teu calor.É a hora das sombras. Teu ardorvem até mim em gestos compassadosde figuras bizarras, em bailadosde delírio febril e abrasador!Por ti o meu amor se desespera,numa ânsia incontida de desejosque eu vivo inutilmente à tua espera.A noite desce, acaba mais um dia,os meus lábios procuram os teus beijose vivo uma vez mais minha agonia!...
SENSUALISMO
Noites de Verão glorioso e ardente,Noites só de luar e encantamento,Com astros povoando o firmamentoEm que a lua é um facho incandescente!Lá fora um ar embalsamado e quente,Mas eu fico no meu isolamento,Sofrendo uma vez mais o meu tormentoDe estar sòzinha e te sentir ausente.A solidão da noite me apavora,Mas na febre de amor que me devora,Perco-me loucamente a imaginar0 teu corpo estuante de desejoE teus lábios, no frémito de um beijo,A minha boca rubra a desfolhar !
01/01/26
NO CORRER DOS DIAS
Leiria. Voltei ao comboio. O dia ainda renasce quando subo
para uma carruagem que me acolherá em direcção a Sul. Apesar da destruição
planificada a que tem sido submetida a ferrovia, ainda é possível conhecer o
país viajando de comboio. O abandono, deste meio de transporte, por parte do
Estado começou há muito. O faraó de Boliqueime quase lhe deu um golpe fatal,
mas sobreviveu. Como quase sempre acontece, estamos em contraciclo com a
Europa, ou seja, com o espaço territorial que nos rodeia. Quando à nossa volta
se efectuavam investimentos nos caminhos de ferro, esta espécie de muchões que
se auto-intitulam de «arco do poder» encheram o país de auto-estradas. Vamos em
quarenta e sete. Esta Linha onde vou viajar é o espelho da decadência putrefacta
que invadiu os corredores do poder. Arrasta-se em obras há longos anos com a
certeza de que ninguém sabe quando possam terminar. Entretanto, há meses que se
discute se o comboio de Alta Velocidade – é uma moda a que não resistimos – tem
uma paragem em Santo Ovídio ou em Vilar do Paraíso, quando nem sequer devia
parar em V.N. de Gaia. Um comboio de Alta Velocidade que custa milhares de
milhões não é um comboio turístico. Acordei azeda, hoje e não consigo evitar
esta náusea que se evapora da terra e me invade o cérebro e com isto quase
perco a paisagem que se passeia perante o meu olhar. Acabamos de passar Vila
Verde o que traz recordações nostálgicas de uma noite distante em que ouvimos
falar da tragédia que tem sido a Palestina. Longe estávamos de imaginar até
onde chegaria o destempero criminoso de doentes mentais que se apoderaram de um
território e se digladiam a destruir por completo um povo inteiro, perante os
olhares do mundo, num misto de incredulidade e impotência. A infâmia gerou um
monstro de tal amplitude que já não é possível destruí-lo. Ganhou asas,
corrompeu, destruiu, criou uma realidade paralela que o fez perder a noção do
mundo onde está. Não acreditam apenas ser Deus, vão mais além, o seu pretenso
Deus despreza a humanidade com a excepção daqueles atrasados mentais que se
julgam eleitos. Atravessamos o Mondego e olho com vagar para as suas águas e
para as margens ao longo desta extensa planície. Sinto essa quietude que me
serena e apazigua. A ponte é longa, em ferro, como uma espécie de túnel o que
me faz levar a memória para Krasnoiarsk e a travessia do Ienissei. Deixo-me ir
com o pensamento em sossego. Olho apenas e procuro recriar a vida das pessoas
que os meus olhos encontram, de relance, numa rua, numa casa, aguardando a passagem
do comboio. A estação fica longe da cidade. O seu edifício aparece, como seria
de supor, desgastado pelo tempo, sem a mão humana cuidando do seu estado, a não
ser pelo mínimo necessário. Procuramos nos azulejos alguma originalidade. Há
sempre, pois cada uma destas estações procurava recriar um pouco a região que
servia. Tenho uma longa recta para caminhar, mas não me preocupo. De certa
forma, far-me-á bem para deixar soltar-se este azedume que trouxe do nascer do
dia. A um quilómetro do centro da cidade, avisto a Torre de Menagem do castelo
que vigia Leiria. Contorno o monumento à imbecilidade que é o Estádio Municipal
e ignoro o novo elevador. Escolho o trajecto mais longo e menos íngreme. Dá-me
tempo para interiorizar o que vejo. Esta pedraria castelã no topo do monte é
imponente. Sente-se o peso da sua resistência. D. Afonso o perdeu por duas
vezes e por outras duas o conquistou. Ficava nas terras de fronteira e a sua
conquista, só por si, não afastou a presença árabe. Engrandeceu-se durante toda
a 1ª Dinastia e D. João, o de Boa Memória, introduziu-lhe a beleza luminosa do
gótico. Apesar de renovado, ainda se nota o abandono do passado. A Leiria
medieval cresceu para Sul, certamente procurando a intensidade da luz. Para
Norte cresce a nova cidade. De há longo tempo que memorizei o nome dos rios que
a atravessam. O Lis sempre me retira da memória os sacos de cimento que recordo
com essa crueza do que se não quer voltar a viver. O pequenino Lena, conduz-me
até à Sibéria, às montanhas do Baikal onde nasce o outro Lena que viaja para
Norte ao longo de milhares de quilómetros. Das alturas desta Torre de Menagem
pode olhar-se a cidade em 360 graus e aparece-nos com essa beleza do que é
perfeito. É a ilusão da distância. Uma cosmonauta que voou para a estação
espacial dizia mais tarde que, conforme se vai subindo, se vai deixando de ver
os caminhos, depois as estradas, os bosques, as cidades e quanto mais a nave se
afastava, mais perfeito parecia o mundo que deixava. Por fim, aparecia toda a
Terra, num azul luminoso e não se distinguia qualquer espécie de imperfeição,
mas no regresso, a visão oposta passava da beleza para a fealdade. De certa
forma, é a história da humanidade. A cada avanço científico, corresponde um
acto de maldade humana, uma acção insidiosa de quem detém o poder, pela
violência, pelo engano, pelas narrativas paralelas à realidade. O sol tomba a
Oeste nas areias das praias de Vieira onde Pedro Barroso nos dizia, “Pus-me
à noite a ouvir o mar / sentado na pedra sentado na areia / e
senti uma barcarola criar devagar / esta melodia”. É ao som dessa
melodia que desço por entre o casario do centro histórico desta Leiria que olha
mais para Sul do que para Norte. Ainda me invade o núcleo das ideias que viajam
sossegadamente comigo, a história da Amélia do Eça, essa menina que sonhou por
entre as paredes destas calçadas e cuja morte é um símbolo da maior solidão. O
postal por agora fica comigo.
GRANDE TRAPALHADA
Euroclear, activos russos, para aqui e para acolá, foi o que ouvimos mais nos últimos tempos, com os comentadores do costume a salivarem de contentes porque agora é que a Rússia ia ser derrotada por deixar de ter dinheiro para alimentar a sua guerra. Tudo ia ser decidido na reunião do Conselho Europeu sem ninguém poder sair da mesma sem a tomada de decisão final, como o seu presidente António Costa tinha declarado publicamente com alguns dias de antecedência para não haver dúvidas.
Na conferência de imprensa que António Costa realizou para dar a conhecer os resultados da reunião realizada em 18 e 19 de Dezembro, informou que decidiram nesse dia disponibilizarem 90 mil milhões de euros à Ucrânia durante os próximos dois anos, empréstimo sustentado pelo Orçamento da EU, que será reembolsado quando a Rússia pagar as reparações.
Palavras de tristeza de alguns comentadores e apesar de António Costa ter falado nos activos russos, o Euroclear e os activos russos desapareceram de cena. Pouca gente ficou a perceber muito bem o que realmente se passou e as consequências das decisões tomadas.
Porque é que dias antes da reunião tudo estava preparado para utilizar os activos russos e não foi aprovado? Já antes não havia unanimidade. O Banco Central Europeu não aprovou. A Bélgica, onde se encontra a sede do Euroclear, não aprovou. Os EUA não aprovaram. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa não aprovaram. Na própria reunião, que durou mais de 16 horas, tomaram posições tímidas a Itália, a Bélgica, Malta, Bulgária. A França terá ficado em silêncio. A proposta do CE era defendida pela Alemanha.
A proposta do empréstimo dos 90 mil milhões de euros foi aprovada sem pagamento de juros pela Ucrânia, com a Hungria, a Eslováquia e a República Checa a ficarem de fora, não participando na respectiva dívida conjunta que vai ser assumida pelos outros 24 estados, onde se encontra Portugal. Assim, a União Europeia ( 24) vai pedir emprestado aquele valor pagando os respectivos custos de financiamento.
É importante registar que nos dias 18 e 19 de Dezembro, quando se realizou a reunião do Conselho Europeu, realizaram-se grandes manifestações de organizações de agricultores e de criadores de gado em Bruxelas, em Paris e noutras cidades em protestos pelos cortes de 20% no Orçamento destinado na Política Agrícola Comum (PAC) quando, ao mesmo tempo, aumentaram em cinco vezes os gastos militares. Estiveram presentes representantes de organizações agrícolas portuguesas. Os manifestantes denunciaram que estavam confrontados com uma política de “tanques em vez de tratores” e que a Europa pode-se transformar numa “terra de sangue”.
O Euroclear é uma instituição financeira, privada, com sede na Bélgica, com representação em diversos países que gere carteiras de títulos de clientes. Desconheço quem são os principais accionistas mas teve como origem o Morgan.
Em 2022 a EU congelou os fundos russos. É importante dizer que outros países têm bens congelados, como Irão, Venezuela, Emiratos Árabes Unidos, Vietname, para não falar em bens da Líbia depositados em Portugal que desapareceram.
Os activos russos não são dinheiro. São dívida da própria União Europeia. A Rússia comprou divida da União Europeia e os respectivos títulos depositou-os no Euroclear.
Qualquer cidadão português que tenha poupanças vai aos CTT subscrever títulos do Tesouro ou Certificados de Aforro ou a um Banco subscrever Obrigações ou Acções de uma empresa e os respectivos títulos, que estão desmaterializados, ficam depositados em registos electrónicos das instituições financeiras.
Se a União Europeia sacasse os instrumentos de dívida propriedade da Rússia do Euroclear estava a libertar-se da sua própria dívida. Mas o dinheiro não existe porque a União Europeia já o gastou quando o recebeu da Rússia. Para obter o dinheiro teria que o pedir em novos empréstimos.
Em 12 de Dezembro, a EU aprovou o congelamento dos activos russos por tempo indeterminado. Os juros desses activos estão a ser utilizados pela EU, isto é, não estão a ser pagos pelo devedor que é a EU.
90 Países têm fundos em bancos europeus. A Arábia Saudita já havia começado a repatriar parte dos seus fundos depositados na Europa. A China deposita menos fundos na Europa e compra mais ouro. Outros países seguem esse caminho.
Entretanto a Rússia, em 19 de Dezembro, já apresentou aos tribunais competentes as necessárias acções.
Os EUA não autorizaram uma operação cambial entre o dólar e o euro necessária para a EU sacar a sua própria divida, o que poderá esclarecer que o euro não é uma moeda independente.
Entretanto, Macron, ainda presidente de França, vem agora dizer que é preciso dialogar com a Rússia. Assim, seja!
Grande trapalhada de amadores.
HÁ UMA CRISE DA FICÇÃO?
“Escrevem-se romances porque não queremo uma única vida, uma única identidade.”
Juan Gabriel Vásquez
A Revista trimestral LER, publicada no Verão passado, lança a interrogação: Num mundo que frequentemente confunde ficção e realidade por que razão estamos nós preocupados com “a crise da ficção”? Seremos capazes de encontrar leitores para uma revolução do século XVII?
Segundo a revista americana The Atlantic, em 1976, 40% dos estudantes do superior tinham lido cerca de seis livros num ano – contra 11% que não tinham lido um único. Passados 50 anos, a percentagem mais do que se inverteu: 65% declarou que não tinha lido sequer um livro (editorial da Ler).
Entretanto, o presidente do júri do prémio Booker deste ano, o irlandês Roddy Doyle, considerou que muitos dos 153 romances que o júri teve de apreciar eram “uma perda de tempo”. E o romancista norte-americano Philip Roth decidira deixar de ler ficção (o autor faleceu em 2018) porque os seus padrões actuais não o interessavam muito (“Roth criticava uma tendência literária para se ver o mundo como um problema contingente e resolúvel”), e porque “a concentração, o foco, a solidão o silêncio (…) já não estão ao alcance das pessoas”.
Na década de 60 do século passado, Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, achava que a literatura estava contaminada por frivolidades, que as vanguardas envelheciam mal e os livros eram triviais e pomposos: “O lixo piroso, os clichés, o filistinismo em todas as suas fases, as imitações de imitações, profundidades artificiais, pseudoliteratura grosseira, idiota e desonesta – são tudo exemplos óbvios. Agora, se queremos encontrar o poshlost (o que é de mau gosto e o banal) na escrita contemporânea, temos de a procurar no simbolismo freudiano, nas mitologias carcomidas por traças, no comentário social, nas mensagens humanísticas, nas alegorias políticas, sobreocupadas com as classes ou raças, e as generalidades jornalísticas que todos conhecemos.”
Em 1994, o crítico literário George Steiner alertava para o problema da arte de consumo rápido: “Porque diabo é que mais ninguém tem tempo para nada, apesar dos telefones, faxes e emails?”
Para Luís Naves, os escritores contemporâneos pertencem a duas categorias: os que são estudados nas universidades, embora pouco lidos fora destes ambientes; ou os que são êxitos comerciais, mas sempre desprezados nas academias e círculos de prémios (…) Os gigantes literários estão adormecidos e as revoluções estéticas do século XX parecem ter sido esquecidas.
Segundo este autor, apesar destes sinais, há quem possa sorrir nas artes narrativas. Números sobre o terceiro trimestre deste ano mostram um aumento de 3,7% no número de livros vendidos (face ao período homólogo do ano anterior) e também um aumento de 1,2% no preço médio. A ficção representa mais de um terço dos livros vendidos e 41% das vendas. Basta entrar numa livraria para perceber que a crise, se existe, não é inevitável (...)
Em 2006, o nosso Nobel da Literatura José Saramago afirmava, na esteira de outro Nobel, o peruano Mário Vargas Llosa, que “Há uma cultura da banalização. Tudo é banal, tudo está sujeito ao consumo (…) Não quero ser apocalíptico, mas o espectáculo tomou o lugar da cultura.”
Mas para o Nobel da Literatura deste ano, o húngaro László Kraznahorkai, não há crise da literatura: “Nunca senti que a literatura esteja em crise, sempre senti que nós estamos em crise.”
Em suma, já não há gigantes, mas como poderia haver numa cultura de massas em acentuado agravamento?
NUREMBERGA
POESIA
Helena SerôdioOutra vez...Outra vez o sonoA submergir o homem,Outra vez a noiteA prolongar o dia,Outra vez a cançãoMorta nos lábios,Outra vez o declinar do brilhoEnvolto na névoa,Outra vez a sedeNa fonte já seca.Sempre...outra vez !!!..............Na clareira de um bosque,Finas areias doiradasDeslizando por entre os dedos.É tornar perto a distância,Converter um eco em presença,Corporizar um sonho,Condensar num momentoA existência.É ter-te ao meu alcance,Em cada instante que passaE não te poder tocar,Como se fosses silêncioQue a um gesto meu,Ou palavra,Se pudesse quebrar....
