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01/01/26

HÁ UMA CRISE DA FICÇÃO?

Mário Martins


                  “Escrevem-se romances porque não queremo uma única vida, uma única identidade.”

                                                                                                                                   Juan Gabriel Vásquez


A Revista trimestral LER, publicada no Verão passado, lança a interrogação: Num mundo que frequentemente confunde ficção e realidade por que razão estamos nós preocupados com “a crise da ficção”? Seremos capazes de encontrar leitores para uma revolução do século XVII?

Segundo a revista americana The Atlantic, em 1976, 40% dos estudantes do superior tinham lido cerca de seis livros num ano – contra 11% que não tinham lido um único. Passados 50 anos, a percentagem mais do que se inverteu: 65% declarou que não tinha lido sequer um livro (editorial da Ler).

Entretanto, o presidente do júri do prémio Booker deste ano, o irlandês Roddy Doyle, considerou que muitos dos 153 romances que o júri teve de apreciar eram “uma perda de tempo”. E o romancista norte-americano Philip Roth decidira deixar de ler ficção (o autor faleceu em 2018) porque os seus padrões actuais não o interessavam muito (“Roth criticava uma tendência literária para se ver o mundo como um problema contingente e resolúvel”), e porque “a concentração, o foco, a solidão o silêncio (…) já não estão ao alcance das pessoas”. 

Na década de 60 do século passado, Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, achava que a literatura estava contaminada por frivolidades, que as vanguardas envelheciam mal e os livros eram triviais e pomposos: “O lixo piroso, os clichés, o filistinismo em todas as suas fases, as imitações de imitações, profundidades artificiais, pseudoliteratura grosseira, idiota e desonesta – são tudo exemplos óbvios. Agora, se queremos encontrar o poshlost (o que é de mau gosto e o banal) na escrita contemporânea, temos de a procurar no simbolismo freudiano, nas mitologias carcomidas por traças, no comentário social, nas mensagens humanísticas, nas alegorias políticas, sobreocupadas com as classes ou raças, e as generalidades jornalísticas que todos conhecemos.”

Em 1994, o crítico literário George Steiner alertava para o problema da arte de consumo rápido: “Porque diabo é que mais ninguém tem tempo para nada, apesar dos telefones, faxes e emails?”

Para Luís Naves, os escritores contemporâneos pertencem a duas categorias: os que são estudados nas universidades, embora pouco lidos fora destes ambientes; ou os que são êxitos comerciais, mas sempre desprezados nas academias e círculos de prémios (…) Os gigantes literários estão adormecidos e as revoluções estéticas do século XX parecem ter sido esquecidas.

Segundo este autor, apesar destes sinais, há quem possa sorrir nas artes narrativas. Números sobre o terceiro trimestre deste ano mostram um aumento de 3,7% no número de livros vendidos (face ao período homólogo do ano anterior) e também um aumento de 1,2% no preço médio. A ficção representa mais de um terço dos livros vendidos e 41% das vendas. Basta entrar numa livraria para perceber que a crise, se existe, não é inevitável (...)

Em 2006, o nosso Nobel da Literatura José Saramago afirmava, na esteira de outro Nobel, o peruano Mário Vargas Llosa, que “Há uma cultura da banalização. Tudo é banal, tudo está sujeito ao consumo (…) Não quero ser apocalíptico, mas o espectáculo tomou o lugar da cultura.”

Mas para o Nobel da Literatura deste ano, o húngaro László Kraznahorkai, não há crise da literatura: “Nunca senti que a literatura esteja em crise, sempre senti que nós estamos em crise.”

Em suma, já não há gigantes, mas como poderia haver numa cultura de massas em acentuado agravamento?


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