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01/09/19

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A INCONSTÂNCIA DA VERDADE

Mário Martins
https://www.fnac.pt/O-Livro-do-Universo-Joaquim-Fernandes/a735329

“Uma vez, num futuro indeterminado, mas certo (sublinhado meu), a natureza humana (ou as suas sucedâneas, seja que formas, estrutura e essência possam assumir…) virá a ser confrontada, pela primeira vez na sua história, com outras existências, realidades e dimensões exógenas, não-humanas, que muito provavelmente tornam anacrónico qualquer tipo de prognóstico ou antecipação das suas características (…)

Joaquim Fernandes
O Livro do Universo


Onde o ilustre autor, doutor em História das Ciências, alicerça esta certeza, é coisa que, estranhamente, não transparece da leitura do seu interessante livro nem, seguramente, da evidência científica que seja do domínio público. Não deixa, pois, de ser irónico que o autor aponte como “prova da inconstância e mutação dos critérios de verdade, ao longo da História, o facto de a crença contemporânea subscritora da hipótese de «não estarmos sós» ter adquirido um estatuto quase religioso, ou de para-religião (…)” 

Mas o que interessa aqui, para lá da angústia existencial de não sabermos se estamos ou não sós, é a questão central da “inconstância e mutação dos critérios de verdade”ao longo de um percurso histórico que, paradoxalmente, conduziu, numa época de consolidação científica, ao advento de um conceito concorrente da verdade: a pós-verdade.

Até que tenhamos provas da existência de seres inteligentes extraterrestres - eventualidade que, contrariamente ao defendido pelo autor, pode ser mais ou menos provável, mas não é certa –, tenho por axioma que a verdade é, e só pode ser, humana, na medida em que todo o conhecimento - sensorial, emocional, e racional - tem origem em nós, com as propriedades que a Natureza nos conferiu.

Não há, com efeito, outra fonte de conhecimento que não seja nós próprios, em relação com os outros e com a realidade circundante, mesmo quando, no foro religioso, idealizamos uma fonte divina. Esta realidade, cuja existência é apreendida pelos nossos sentidos e categorizada pela nossa mente, e a que chamamos objectiva para nos distinguirmos dela, é, e só pode ser, subjectiva, na medida em que passa pelo filtro da nossa experiência e compreensão, individual e grupal, que é sujeito a todo o tipo de influências culturais, e depende da incessante evolução tecnológica. A realidade natural objectiva, independente da nossa leitura, é simplesmente inacessível. Condenados a beber desta única fonte, estranho seria que não houvesse “inconstância e mutação dos critérios de verdade”, ao longo das diferentes épocas históricas.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa dá-nos um (entre vários) significado de verdade que, se por um lado me parece o mais ajustado, por outro encerra um problema: “Correspondência, adequação ou harmonia passível de ser estabelecida, por meio de um discurso ou pensamento, entre a subjectividade cognitiva do intelecto humano e os factos, eventos e seres da realidade objectiva”. O problema, evidentemente, é a nossa “subjectividade cognitiva”, e é por este ponto fraco da verdade que se insinua a pós-verdade.

Poderá então a pós-verdade concorrer ou mesmo suceder à verdade? Tendo em conta a definição que, por exemplo, o dicionário on line Priberam da Língua Portuguesa nos dá de pós-verdade: “Conjunto de circunstâncias ou contexto em que é atribuída grande importância, sobretudo social, política e jornalística, a notícias falsas ou a versões verosímeis dos factos, com apelo às emoções e às crenças pessoais, em detrimento de factos apurados ou da verdade objectiva”, não é de augurar grande futuro para conceito tão malicioso, não obstante Agustina, sempre interpelativa, pôr Camilo, em “Fanny Owen”, a afirmar que “neste mundo ou tudo é verdade, ou não há verdade nenhuma”

Apesar de condenados à “subjectividade cognitiva”, não há alternativa à verdade suportada pela prova, nem, muito menos, à conhecida citação de Carl Sagan, de que afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias”.

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

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Há aspectos da vida de algumas pessoas que nunca conheceremos na sua totalidade, apenas na proporcionalidade do que é visível e nos faz recriar paisagens para o que desconhecemos, para o que é omisso nos seus relatos, mas perceptível nas expressões e comportamentos. Talvez nem o próprio saiba dizer de onde advinha o seu gosto, mesmo encanto e atracção, pelas falésias, com as suas pedras, numa mistura de cinzento e castanho, a derramarem-se sobre o mar, pelos faróis e as ilhas, lugares que em comum, tinham o isolamento, a grandeza, uma fusão de infinito e eternidade. Contudo, a vida foi passando, os sonhos voaram para espaços distantes e a viagem aos lugares de atraimento, ficaram no pretérito da sua existência. Nos dias que correm, talvez seja já uma sombra de si próprio que todas as manhãs se acolhe numa mesa escondida de um Café de bairro. Fica longas horas escrevendo, ao que se crê, cartas de amor para uma mulher que nunca existiu, as quais direcciona para um destino desconhecido. Escreve e reflecte e todas as missivas que redige começam invariavelmente por, «Meu estimado e profundo amor, amada minha». De seguida parece abordar o tempo meteorológico, pois do espacial, a sua vida já não tem nada. «Nesta manhã de excelsa claridade, pequenos núcleos de nuvens brancas, brincam, divertindo-se sobre um céu azul puríssimo, fazendo-me descer na escala do tempo até aos instantes em que a intensidade do teu olhar, bailava ao som de cânticos longínquos, com as minhas utopias, os meus anseios»Em certos momentos, a sua reflexão deixa-o demasiado tempo parado, com o olhar fixo na pequena janela de onde lhe chega a visão do mar. Ocorrem-lhe à memória, dias remotos. Lembra-se da Judite. A Dite, a filha do senhor Belmiro, que na beleza dos seus vinte anos era a menina bonita do bairro que com o seu sorriso aberto, cheio de luz, encantava os homens e os adolescentes. Quantos pretendentes, quantos galanteios recebeu! Mas o tempo passou. Os homens a quem encantou, morreram todos e os adolescentes que a amaram, vão terminando, como ela, o seu tempo de vida. De tanto ser amada, acabou sozinha, na velha casa do bairro que a viu crescer. Tentava que o seu pensamento regressasse ao presente, mas não parecia uma tarefa fácil. Numa noite, de tempestade temerosa, deixou à solta as suas quimeras. Viu-se atravessar o Estreito de Magalhães dessa mulher que terá amado e para quem escrevia, e ao sair ao encontro do Pacífico, pareceu-lhe que a infinitude se abria no seu horizonte. Mas eram apenas delírios. De novo voltava à carta e as suas palavras pareciam adquirir mais fulgor numa escrita que parecia contrariar o começo, «No exterior, o sol apaga-se em triste cinza, ou reacende-se em cálida luz. O olhar viaja entre a ameaça de chuva, ou aquecimento súbito como uma estrada sulcando as colinas, como a minha alma, já sem chama nem ardor, no lume apagado de um tempo vibrante, recordando apenas, a revolução por onde passou quando as bandeiras ululantes do teu olhar acenderam fogueiras na planície sem luz onde habitava. Hoje, só o vento uiva no chão onde brotou uma alegria triunfante». Gostava de se sentir, como numa estória ouvida, como o cego que caminhando na noite, levava uma candeia acesa. «Para iluminar o caminho àqueles que vêem», respondia quando questionado. Mas na sua vida, já só a obscuridade, que o isola do mundo, persiste. Não podia alumiar, como antes, o caminho aos outros caminhantes o que se torna visível no terminar das suas cartas, «O tempo, o meu, chegou ao fim. Só em fantasias ilusórias sinto o teu olhar, límpido e apelativo, passeando na minha direcção, mas a estrada divide-se antes de chegar ao espaço onde habito. Despeço-me. Envio-te o abraço que um dia fez-me sentir o teu corpo no meu, e um beijo longo e cativo, de uma esperança que naufragou nas praias de uma ilha sem nome». Aparecia-lhe ainda a dança do universo galáctico, com a Lua volteando sobre si própria ao mesmo tempo que roda em torno da Terra e o planeta onde habitamos, prosseguindo a mesma dança com o luminoso Sol, num expoente de beleza que se acreditava ter vivido com a destinatária das cartas que escrevia. A redacção chegava então ao fim. Já no declinar do dia, encerrava as folhas de papel num envelope, saía para o exterior e deixava-o no primeiro marco do correio que encontrasse, no interior de uma rajada de vento que por si passasse.

O jornalista, Julien Brygo em artigo no Le Monde Diplomatique-edição portuguesa leva-nos até ao uso da internet no Norte de França, com estes esclarecedores depoimentos: “David Lecompte dirigiu-se directamente às Finanças de Lambersart. Mais do mesmo.” «Claro que me disseram que tinha que ser feito pela Internet. Perguntei-lhes onde estava a máquina à disposição do público… E não há nenhuma. Não faz nenhum sentido. Obrigam-me a fazer a minha declaração pela Internet, mas na condição de eu comprar um computador, de o trocar ao fim de dois anos porque se tornou obsoleto, de fazer um contrato com um fornecedor de acesso privado e que, para além de tudo isto, dê uma quantidade enorme de informações sobre a minha vida privada? Não. Não, obrigado» ” e ainda, “Acreditaríamos estar num filme de Ken Loach "Eu, Daniel Blake" (2016). O procedimento é-lhe explicado por um dos dez «jovenzinhos de azul», como lhes chamam os agentes. Toda a manhã (o único horário de abertura do dia), eles repetem as mesmas frases: «Tem as suas identificações? Vá para o seu espaço. Vá para “Os meus contactos com o Centro de Emprego”, clique em “Enviar e seguir um documento por correio electrónico”; depois clique em “Digitalizar”, “Acrescentar uma página”, “Validar”, “Confirmar”, “Enviar um outro documento”, “Confirmar”, “Validar”. Repita este procedimento tantas vezes quantos os papéis que tem para enviar.»”. O autor, diz-nos também que, “Em França, mais de treze milhões de pessoas estão «pouco à vontade» com a Internet, ou seja, 23% da população com mais de 18 anos. As pessoas idosas representam 66% das que estão mais afastadas do digital; 55% das que têm mais de 70 anos não têm acesso à Internet nas suas casas.

Zita Seabra, no fim da década de 80, considerou que tinha estado equivocada politicamente nos 30 anos anteriores e mudou-se…, para o PSD. Há dias, a mesma Zita Seabra, descobre que viveu outros trinta anos equivocada e mudou-se para a Iniciativa Liberal! Quer dizer, é uma vida permanente de equívocos! E pensar que há trinta anos atrás queria arrastar consigo uma organização política com décadas de história!

Antes de Rui Rio assumir a liderança do PSD, um conjunto de deputados desta formação política, destacava-se na Assembleia da República, pelos seus discursos, inflamados, violentos e insultuosos, uma espécie de MRPP da Direita, mas na versão malcriada. Há dias, um desses deputados, Duarte Marques de sua graça, chamou «besta» ao primeiro-ministro! À falta de argumentos políticos e incapazes de falar da verdade que os move e dos interesses que de facto representam, recorrem ao insulto desbocado! É a Direita no seu melhor. A Geringonça deixou a Direita em estado de sítio.

A greve dos motoristas de matérias perigosas, levou-me à leitura de um artigo do jornalista Daniel Oliveira de há meses atrás, no qual falava num sindicalismo solidário e colectivo. Quando grupos profissionais, se isolam dos seus companheiros do mesmo Sector ou Ramo de actividade para, servindo-se da condição específica da sua profissão, procurarem obter situações de privilégio, mesmo quando justas as suas reivindicações, significa que pouco lhes interessa a situação desses companheiros de trabalho, como é o caso dos motoristas de matérias perigosas (que consideram que ninguém sabe como é a sua profissão, como se eles soubessem como é a profissão dos outros), dos enfermeiros, dos médicos, dos pilotos da aviação ou dos maquinistas da CP. Por outro lado, o sindicalismo não pode abrandar o questionamento constante sobre a realidade que o cerca, sob pena de ver a Direita, servindo-se de justas reivindicações dos trabalhadores, infiltrar-se através de um sindicalismo mais que suspeito, exibir uma acção política de contrapoder, ao mesmo tempo que com a sua acção radical, contribui para o cercear de direitos laborais.

Segundo os jornais, o corpo de operações especiais da PSP colocou o Estado em tribunal por não lhe pagar o subsídio de risco quando se encontram em teatros de operações. Se percebi bem, os homens e mulheres (agora tem de se escrever assim!) que se alistam neste corpo policial específico, entendem que a remuneração que recebem é para não fazerem nada e que quando têm de realizar as acções para as quais foram contratados, «operações especiais» querem um acréscimo salarial a que chamam subsídio de risco! Como me disse um amigo, um destes dias vão reclamar um seguro de vida!


CARTA A UM MENINO DO LÍBANO

Manuel Joaquim



No domingo passado, Israel bombardeou, desta vez, zonas da cidade de Beirute, capital do Líbano. Ao longo dos anos, já ocorreram várias guerras entre os dois países. O Líbano já foi considerado a Suíça do Médio Oriente. As lutas internas e externas alteraram significativamente as condições de vida da maior parte da sua população.

O presidente libanês considerou este ataque de Israel como uma “declaração de guerra”. É de temer que mais uma guerra, esteja iminente.

Encontrei “Carta a um menino do Líbano”, publicada no Dia Mundial da Criança, em Junho de 1984, trabalho colectivo das turmas do 1º e 2º ano da Escola Preparatória de Irene Lisboa, do Porto. Já passaram 35 anos, mas o poema infelizmente continua actual.


O ADMINISTRATIVO INVISÍVEL

António Mesquita
Vista do Afsluitdijk na direção da província da Frísia 



Uma recente experiência com a venda dum pequeno terreno, em Trás-os-Montes, fez-me perceber melhor a importância dum trabalho de colmeia invisível, tão indiferenciado e sujeito a tanta pressão do público que, mais cedo ou mais tarde, de Simplex em Simplex, cairá na sua maior parte no domínio do Automatismo Numérico dum outro HAL 9000.

Nessa ocasião, percebi também a encrenca que é atribuir responsabilidades na prevenção dos fogos florestais, quando as terras não têm dono ou não estão registadas. Como é que o Estado e os municípios podem exigir o cumprimento das leis e dos regulamentos se as terras, numa família, não têm dono ou estão ainda no nome dum antepassado que chegou a conhecer os tempos da Monarquia?

Outro problema bem conhecido é o da dispersão da propriedade. Quando existem os registos, as "parcelas" não são contíguas e os herdeiros ficam sem passagem entre os seus retalhos. 

Na falta de "dono legal", existem soluções pontuais como a do 'usucapião' que são morosas e caras. As revoluções sociais trazem às vezes a única correcção possível. De qualquer modo, a actualização dos cadastros imposta de cima é sempre preferível ao abandono e à desordem. Foi nesse sentido que o parlamento votou recentemente uma proposta do governo de um "sistema de informação cadastral simplificada" (que teve parecer negativo da Associação Nacional de Municípios Portugueses), diploma que o Presidente da República promulgou “esperando que passe da letra de lei para a realidade a ritmo mais sustentado que no passado”. 

Algumas injustiças poderão ocorrer neste processo, e terá sido essa a preocupação da ANMP, mas sem comparação com as vantagens esperadas, por exemplo, na prevenção dos incêndios florestais. 

Numa conferência realizada na Faculdade de Direito – Escola de Lisboa, da Universidade Católica, sob o tema “As Funções Soberanas do Estado”: “Por que razão o valor acrescentado pelo Registo não se evidencia de forma notória, pelo menos para o cidadão médio?", a prof. dra. Mónica Jardim argumenta: 

"Pois bem, a resposta é simples: a razão da falta de evidência da mais-valia do Registo resulta do facto do papel do registo ser antilitigioso e profilático no tráfico jurídico, ou, por outra via, de a segurança jurídica gerada pelo registo ser preventiva e, por isso, apesar de imprescindível, ser algo diáfana. Explicitemos o afirmado: 

"A cidade de Amesterdão está toda ela assente em grandes vigas de madeira enterradas a grande profundidade no terreno pantanoso que caracteriza a região. Sem estas vigas invisíveis a cidade afundar-se-ia na lama. E, no entanto, a generalidade das pessoas que por ela passeia ou que nela vive não têm real consciência da importância vital de tais vigas. O mesmo acontece com o bem da segurança jurídica preventiva! Enquanto existe não se dá conta dela! Mas se faltasse todos notariam, pois a sociedade afundar-se-ia na lama da insegurança e o progresso económico desapareceria como por magia.”(*) 

Assim, a administração que é quase sempre vista pelo seu lado negativo, de entrave à acção expedita e sem formalidades, pode equiparar-se, na sua utilidade, às grandes vigas de madeira do país dos diques. 


(*) citado em "Os 'Registos' e o seu valor social e económico" 
de Arménio Maximino, no "Público". 



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