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01/11/19

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O POVO E A MULTIDÃO

António Mesquita



"Levar uma multidão a pensar é quase tão impossível como levá-la a praticar uma acção inútil - ela está destinada a agir por necessidade, e a sua razão é apenas impulso do inevitável. Mas um povo pode ser apto para se renovar, enquanto que a multidão é apenas apta para sobreviver. Um deve sobrepor-se à outra; a obra dum povo não pode ser considerada acessível a uma multidão."

"Embaixada a Calígula" (Agustina Bessa Luís)


Será que esta moral ficou desactualizada pelas redes sociais e os telemóveis?

Dos tumultos em Hong Kong e das manifestações de massa em Barcelona pode dizer-se que são regidos pela necessidade ou pela lei da sobrevivência? Há aqui algum "impulso do inevitável" ou são antes actos colectivos combinados e  deliberados que parecem prescindir duma vanguarda, revolucionária?

Trata-se de movimentos "infiltrados" por organizações oportunistas  com os seus fins próprios, como dizem as autoridades da China ou de Espanha, ou antes, serão ambos tropismos duma multidão encandeada por uma ideia de justiça ou uma "fúria de viver", nascidas no pequeno écrã de cada manifestante e que tem uma capacidade inédita de resposta, no terreno, à acção do Estado?

O fenómeno das redes sociais baralha todas as referências. Ele é em si mesmo um princípio de organização muito mais eficaz do que um jornal ou um panfleto, e até a palavra rede evoca o papel político das redes clandestinas.

A comunicação moderna permite ao indivíduo ter a sensação de participar num acto espontâneo com "feedback" imediato de muitos outros, de estar a "fazer história", ou simplesmente a "curtir" o espectáculo da violência. 

Alguns observadores falam numa ausência de causa e, nalguns, a "procura da adrenalina" e do perigo excitante, mais do que uma ideia política, qualquer que ela seja, o que vem ao encontro duma corrente actual de "apoliticismo" ou mesmo de abominação da política, sentimento que sem ser exclusivo dos nossos tempos se encontra exacerbado pela volatilidade dos novos meios de comunicação e da perda de credibilidade da missão informativa.

O cinema, com "Fúria de viver" (Rebel without a cause), de Nicholas Ray, de 1958, fez eco duma rebelião da juventude americana que parecia não ter causa nem objectivo. O adolescente representado por James Dean não se conhece a si próprio, não sabe o que quer e é infeliz por isso. 

Não é o caso do filme de Tod Philips que conquistou o festival de Veneza deste ano e que tem sido um êxito de bilheteira, apesar de ser uma obra deprimente, penosa de ver e a raiar o niilismo. Alguns filiam-no na tradição de "Taxi driver", o filme de 1976 de Martin Scorcese que acaba numa explosão de violência estética (muito por mérito da música de Bernard Herrmann). A personagem de Joaquin Phoenix que "nunca teve um dia feliz na sua vida," também encontra uma saída violenta para a sua esquizofrenia, mas aqui há um outro sentido de oportunidade, dado o momento que se vive na cultura mediática, que carrega o desfecho desta história com uma simbologia aterradora, de fim do mundo, que explicará o sucesso do filme junto duma juventude que tem na crise climática um paralelo com a Gotham crepuscular de Tod Philips. No meio do caos provocado por uma interminável greve do lixo, a juventude desta Nova Iorque da banda desenhada parece rebelar-se contra tudo e todos replicando, euforicamente, a violência de Joker, o palhaço assassino que mata e ri.

Daí que o interesse deste filme seja ainda mais sociológico do que cinematográfico. Todd Philips mostra-nos a máscara  dos tempos que correm. O seu exagero vem, talvez,  do facto de na origem estar uma história aos quadradinhos.

O final faz-nos pensar também na espécie de cura pelo caos que eram as festas dionisíacas da Antiga Grécia. E não será que a sociedade moderna está a revelar na violência que vemos aqui e ali, um pouco por todo o lado, que não pode passar sem o histerismo colectivo, como o que se vê nalgumas claques desportivas, como exutório para as suas contradições sociais? 

De qualquer modo, isso viria dar razão a Agustina. 


AS MULHERES DE LEONARDO

Mário Martins




Pode parecer paradoxal que um homem que preferia amantes masculinos pintasse, sobretudo, mulheres. Para a autora, a pintura de Leonardo é feminina, o que será explicável pela veneração que tinha pelas mulheres, naturais portadoras da função essencial de renovação humana, numa Florença do último quartel de quatrocentos, que perseguia os homossexuais e confinava as mulheres ao exíguo espaço caseiro.

A República de Florença, estreita, barulhenta e malcheirosa, em que uma escassa minoria de ricos se tornara mais rica e os pobres mais pobres, é então uma metrópole da finança e dos têxteis, governada por um clã de banqueiros, os Médicis.

Num gesto artístico revolucionário como, dois mil anos antes, fora a descoberta do escorço, esse atrevimento dos artistas gregos de pintar um pé tal como é visto de frente, foi Leonardo quem, pela primeira vez, voltou para o observador as mulheres que retratava, elas que eram sempre, na pintura italiana, representadas de perfil e com uma aparência casta, sem voz e intelecto. O retrato da poetisa florentina Ginevra de Benci, https://www.leonardodavinci.net/portrait-of-ginevra-de-benci.jsp, é a primeira obra-chave de Leonardo. Nele, ela mostra-se a quem a observa, não esconde o seu ar melancólico de mulher casada alvo de um amor impossível de um diplomata veneziano, igualmente comprometido, que encomenda a obra. “É o primeiro retrato psicológico até então feito e o começo de uma arte nova, tocante e cheia de vida”.

Mais tarde, já em Milão, pinta o retrato da adolescente Cecília Gallerani, https://www.leonardodavinci.net/lady-with-an-ermine.jsp, amante do autocrata Ludovico Sforza, por encomenda deste, a quem Leonardo oferecera as suas ideias de engenharia militar. No retrato, a adolescente e o arminho, ou doninha, estão em movimento, a olhar na mesma direcção, para fora do quadro. É a segunda obra-chave do artista.

É no seu regresso a Florença, quase a fazer 50 anos, que Leonardo encontra a mulher, Lisa del Giocondo, que, possivelmente e no seu começo, dará lugar à pintura em tela mais conhecida de todo o Ocidente: La Gioconda ou Mona Lisa, https://www.leonardodavinci.net/the-mona-lisa.jsp, a terceira obra-chave do Mestre de Vinci. Lisa é casada e já mãe de quatro filhos, e Leonardo representa-a com um vestido de gaze transparente que era usado pelas mulheres grávidas. É uma pintura que demorará vários anos a acabar e que o acompanhará até à morte: “Dos cantos dos olhos escuros, a mulher fita o seu observador, amável, sabedora, tão profundo e tão confiante é o seu olhar. Sorri suavemente pelo canto esquerdo da boca. Corresponde ao nome: giocondo significa jocunda, alegre, consoladora.”

Leonardo pintou igualmente, várias vezes, Maria, mãe de Jesus, o Filho de Deus na mitologia cristã, mas contrariamente à tradição pictórica, no quadro da Anunciação, https://www.leonardodavinci.net/the-annunciation.jsp, ele não curva Maria perante o Anjo que lhe anuncia que ela vai ser a Mãe do Filho de Deus; é o Anjo que se ajoelha perante ela, senhora de si.

O mestre da técnica do sombreado, o sfumato, viveria os dois últimos anos em França, sob a protecção do rei Francisco I, onde acabaria por morrer há exactamente 500 anos, legando ao mundo uma obra que o juízo do tempo, justamente, consagrou.





NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva


Há momentos da vida em que as palavras se esgotam. Resta-nos o silêncio como refúgio da violência e das injustiças do mundo. Na ausência das palavras, recorro a um poema cantado, para homenagear a coragem e a dignidade do povo da Catalunha: 
e um mapa, que mostra um Estado cujo poder está nas mãos de criminosos de guerra. Um mapa da infâmia que dá pelo nome de Israel:



O CONTO DO VIGÁRIO

Manuel Joaquim
https://olhares.sapo.pt/estacao-de-sbento-foto5384426.html

O Professor Pinto da Costa, no último programa da manhã da RTP, Praça da Alegria, onde participou, falou, entre outras coisas, de “Burlas a idosos”, tema muito antigo, mas muito actual. Lembra-me de quando era menino, meu Pai contar  de pessoas vindas de longe, chegarem nos comboios, na estação de S. Bento,  serem abordadas por burlões para comprarem um vigésimo (cautela) premiado. Outras eram abordadas para comprarem eléctricos. Os jornais da época noticiavam muitos destes acontecimentos.

O Professor Pinto da Costa comentou que o tema é actual porque, infelizmente, há uma percentagem significativa de população idosa com muitas debilidades. 

Ontem, deparei com uma notícia na imprensa, que me levou a pensar nas palavras do Professor Pinto da Costa. O presidente, de um determinado partido, demitiu-se da sua presidência e abandona-o. Segundo ele, dedicou um ano da sua vida a formá-lo, partindo do zero. Elegeu um deputado à Assembleia da República com mais de 65.000 votos.

Como é possível tanta gente confiar o seu voto, do qual pode depender uma vida melhor ou uma vida pior, a paz ou a guerra, a uma organização (?) completamente desconhecida, que simplesmente se ouve falar nas rádios, nas televisões, nos jornais ou se vê algumas figuras em grandes cartazes?

Cá para mim, não é só uma parte da população idosa que cai no conto do vigário, nas burlas. Há muita gente, que, por dificuldades de compreensão e de preconceitos, cai facilmente, pela demagogia, em caminhos que mais tarde verificam ser errados. 

O que se passou com a defesa do valor do salário mínimo nacional, com o aumento das pensões, com a aplicação dos novos passes sociais, com os livros escolares, em que alguns, teatralmente, apregoam vitoriosamente, como se fossem de sua iniciativa e responsabilidade, é paradigmático. Quando agora se defende um valor do salário mínimo nacional igual ao que defende a UGT, menor do que já foi falado pelo patronato, é para facilitar a vida ao governo e depois, em bicos de pés, dizerem que foi o valor que defendiam. Votações que se fazem na Assembleia Municipal de Lisboa que contrariam o que defendem posteriormente em artigos publicados  é falta de vergonha. Para não falar na cópia de fundamentações de propostas de outros para fundamentar as suas. 

Infelizmente, a demagogia, o populismo, o atrevimento, devidamente acompanhados pelos media,  permite enganar muita gente, e não são só os idosos  enganados.


01/10/19

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

https://images.app.goo.gl/wU45VKwuyPYfXest7



O Outono chegou com aquela leveza dos dias com calor diminuído, brisas suaves e chuva com alguma delicadeza. As minhas visitas tornar-se-ão mais raras, pois o que é essencial preservar, o tempo meteorológico substitui-me e suspende as viagens que aqui me trazem. Talvez seja a fragilidade da energia que nos chega da estrela solar e a placidez deste lugar que me incentiva ainda mais à reflexão, enquanto contemplo a ponte e a passagem de comboios sonolentos quase sem ruído. Não direi que é nostalgia, mas o nosso diálogo vai até aos tempos em que viver era uma aventura, os sonhos tinham estrada e cada dia era uma batalha que perseguia uma utopia. Quando olhamos em direcção a esses anos, sentimos a beleza que foi fazer parte de um colectivo, em que cada um, era uma barreira, que somadas, erguiam um muro à passagem da ignomínia. Havia pessoas com muita coragem, outros tinham apenas a suficiente para não se deterem. Outros havia que tinham medo e até havia cobardes, mas todos, cada um à sua maneira, prosseguiam nesse trabalho de fazer regressar a dignidade a uma nação milenar. Nós chegamos naquela época em que o tripa de porco caiu do banco e bateu com os cornos no chão. Ao contrário do que alguns pensavam, o nosso combate tornou-se ainda mais difícil, mais sujeito à violência de um poder infame. Caminhávamos na noite entre as sombras de candeeiros de débil luz, procurando descortinar nas trevas, as silhuetas assassinas de lobos selvagens que saciavam a sede no sangue da liberdade. Olhávamos as montras das lojas como espelho para detectar os vermes que rastejavam por entre a multidão. “Sete flores de limão para lutar até vencer”, lembras-te, quando cantávamos em sussurros palavras que só nós escutávamos? E não deixávamos de amar no meio de tanta podridão faminta da dor que geravam numa nação violentada. Estávamos tão perto, mas ainda não sabíamos, até que naquele Verão começámos a desaparecer, uns atrás dos outros. Ninguém fazia perguntas, pois todos conhecíamos o caminho escolhido. Era um mergulho na noite ainda mais profundo. De certa forma, abdicávamos da nossa liberdade para que ela pudesse chegar para todos. Os esbirros davam conta que estavam a perder e assanhavam-se ainda mais na perseguição daqueles que sonhavam. Que ousadia, sonhar! Em duas ocasiões, perdi-me, fiquei uma ilha sem ligação a terra e lembrei-me que tu poderias fazer com que voltasse à estrada onde havia caixas de correio. Da segunda vez que trouxeste o santo-e-senha, foi a última vez que nos encontramos. Não podíamos saber, mas não nos voltaríamos a ver. Recordo-te sempre com o anoraque azul, os óculos que caíam sobre o nariz, a voz pausada e as palavras serenas em tom de quase silêncio. Os nossos caminhos separaram-se nesse dia, sem que se voltassem a juntar apesar de caminharmos no mesmo sentido. Agora, sabes, quarenta e cinco anos depois, um bastardo de Santa Comba quer-nos ensinar a interpretar o Estado Novo, que foi sempre tão velho como a exploração humana e há um grupo de historiadores, gente séria, pronta para reinterpretar a história, como se não a conhecêssemos. A acreditar no seu propósito ainda têm dúvidas de cinquenta anos de exploração violenta do trabalho, da miséria económica e social da esmagadora maioria da população, de décadas de torturas, privação da liberdade em condições ignominiosas, de perseguições, de exílios, do coartar da liberdade de pensamento e expressão, de terror e de medo. Mas não importa, haverá sempre servidores da indignidade, imitação de gente, capaz de ressuscitar os “mordomos do universo todo, senhores à força, mandadores sem lei”. Para nós, que ainda nos sentimos soldados do exército de Dario, o mais importante é o que a história jamais poderá apagar, aquele dia em que pudemos cantar, “já estremece a tirania, já o sol amanheceu”. O resto, são apenas os dejectos humanos da história.
     
Rui Rio levava uma campanha criando a ideia de um homem de princípios, de bom rapaz, de seriedade na política. Era com estes argumentos que procurava superar o que o seu programa eleitoral escondia, o benefício de quem tem muito e pretende ainda mais. De um momento para o outro, derrapou, descambou e mostrou o que se esconde por trás daquela face que se pretende amável. Com base numa acusação do Ministério Público, passou a julgar, através de um processo de intenções e com base em afirmações que no âmbito da prova, valem zero. Vir dizer que «é crível», «é admissível», «é suposto», «é indiciador», coloca-o ao nível de um farsante que dá pelo nome de Sérgio Moro. É uma questão política e não jurídica vem argumentar em seu socorro. «É crível que o primeiro-ministro foi informado» e «se não foi, significa que não tem mão no governo». Fazer juízos políticos com base em suposições é a forma mais miserável de fazer política. Rui Rio, desceu a esse nível e não vejo que possa sair desse terreno pantanoso. Tanto mais que o primeiro-ministro não é arguido nem tão pouco faz parte do processo.

Por outro lado, ninguém menciona o essencial, o estado de degradação ética e moral a que chegaram as chefias militares. Não esqueçamos que tudo nasceu e se desenvolveu no seu interior. Quanto ao Ministério Público, mais uma vez tem uma agenda política. Há mais de um ano que instrui um processo que havia de produzir acusação no meio de uma campanha eleitoral em que a Direita vivia num estado comatoso. Acresce que a vida mostrou que grande parte das suas acusações derrete-se à velocidade em que se desmoronam os glaciares do Monte Branco. Um MP que nem sequer consegue guardar o segredo de justiça sem que se conheça qualquer responsável, merece-nos credibilidade zero. Aliás, se existe instituição que merece uma quase unânime reprovação dos cidadãos, é a Justiça.

É interessante que até ao momento, ninguém se preocupou em saber o que diz a Defesa!

Assunção Cristas, passou a falar por metáforas. Diz-nos que a classe média alta é das mais desprotegidas. A classe média alta é, em linguagem popular, os mais ricos. Quanto ao Estado diz-nos que privatizaria tudo, quer dizer, distribuía pelos amigos o que no Estado é lucrativo.

No dia 1 de Outubro faz dois anos que a população da Catalunha enfrentou a barbárie da autoridade colonial e ocupante que no Estado espanhol dá pelo nome de Polícia Nacional e Guardia Civil. Puderam reviver os longos anos do fascismo franquista, um sedicioso e golpista que em nome dos seus interesses espúrios, matou, assassinou e fuzilou milhares e milhares de cidadãos, não só da Espanha como das nações que se encontram expurgadas da sua auto-determinação, numa guerra que contabilizaria 500 mil mortos. Quase desde esse dia 1 de Outubro, mais de uma dezena de políticos e líderes catalães encontram-se em prisão preventiva sem qualquer condenação. Sim, há 2 anos, com o silêncio cúmplice da tão democrática Europa. 


A ECONOMIA DA CARNE

Manuel Joaquim
https://images.app.goo.gl/PeEmKq5vRqUagGR79



Com a grande polémica que se instalou recentemente sobre a decisão da Universidade de Coimbra proibir nas suas cantinas o consumo de carne de vaca, veio-me ao pensamento o que Friedrich Engels escreveu na sua obra, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, sobre os efeitos no seu desenvolvimento físico e intelectual, do Homem passar a incluir na sua alimentação a carne. Provavelmente seríamos uma civilização muito diferente.

Sabemos que o consumo de carne sem regras não é saudável. Mas a sua total eliminação da alimentação humana também não será muito saudável. São discussões, de carácter científico, muito antigas e permanentes, sem fim à vista. 

Sabemos que a nossa civilização está assente na produção de animais destinados à alimentação e ao trabalho, não falando já nos animais ditos de companhia.

Gerações de famílias sobreviveram durante longos anos e continuam a sobreviver, com a criação de animais, destinados à sua própria alimentação e para a sua economia doméstica, obtendo rendimentos. Leite, cabritos, bois, vacas, vitelas, cavalos, ovos, galinhas, galos, coelhos, que pequenos produtores vendem, a maior parte das vezes para alimentar a família e educar filhos e netos. 

O abandono desse tipo de economia é provocar o abandono de grande parte do território, a destruição do que ainda resta para habitar. Um Amigo meu referiu-me, por conhecimento de causa, que quem trata dos lameiros, onde existe pasto natural, são os pastores e os guardadores de gado. Se não fossem eles as terras estariam ao abandono e sujeitos aos incêndios destruidores.

Sobre este assunto, não produzir animais, alguém, que visitou os Açores há pouco tempo, referiu que, por esse caminho, as ilhas do arquipélago, tinham de ser todas abandonadas. Toda a sua economia assenta na produção de carne, de leite, de manteiga e queijo.

A Universidade de Coimbra devia fazer pedagogia sobre alimentação saudável, ensinar a população a alimentar-se, fazer jus à dieta mediterrânea. Denunciar o que acontece nos viveiros da sua vizinhança, na produção de frangos. Muitos são lançados no mercado da alimentação humana com 8-10 dias de vida, cheios de produtos químicos. Denunciar o que acontece com a produção de ovos, cujas gemas obtêm cor pela introdução de produtos químicos na alimentação das galinhas. Denunciar a produção intensiva de animais que contribui decisivamente para muitas doenças humanas. Denunciar a poluição produzida pelos navios de cruzeiro que muito alegremente visitam o nosso país, pelos aviões das companhias de low-cost que permanentemente estão no nosso espaço aéreo.

 Podia, ainda, denunciar vigorosamente o que mais contribui para destruição das nossas vidas e do próprio planeta, que é a guerra.




ERA UMA VEZ

António Mesquita



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O título diz-nos que é uma história. É assim que temos de compreender a reescrita do caso da Família Manson, em que a vítima mais famosa (Sharon Tate) aparece no final como tendo escapado ao massacre.

Para que esta 'liberdade' com os factos seja aceite pelo espectador, seguimos ao longo de quase três horas a vida hollywoodesca, do estúdio para a piscina de um actor de westerns decadente, Rick Dalton (DiCaprio) e do seu duplo (stuntman) Cliff Booth (Brad Pitt) que divide o seu tempo entre fazer de chofer de Rick e dar de comer ao cão na sua caravana.

Algumas cenas movimentadas pontuam este rame-rame, a mais divertida das quais é o duelo com Bruce Lee, em que a basófia deste é posta a ridículo pela competência do 'stuntman'.

Não é dizer nada que não se saiba que a 'fábrica dos sonhos' é também a 'fábrica dos pesadelos'. E, nesse sentido não é a realidade, assuma ela a forma mais anárquica da cultura hippy (de que Charles Manson seria um subproduto) ou as repercussões do assassinato de Kennedy e da guerra do Vietnam, que irrompe no circuito feérico e alienígena da produção do cinema e da televisão em Los Angeles, mas a chacina de 1 de agosto de 1969 é ela própria uma 'produção' de Hollywood, não no estado de 'privação do sono', apenas, mas sob o efeito da droga.

E não é isso que Tarantino nos diz tratando os factos como um cenário alternativo, em que as personagens fictícias de Rick, Cliff e o molosso fazem justiça imediata sobre o gang transado, e a bela Tate (Margot Robbie), que ainda há pouco víramos gozando a eternidade de se ver na tela dum cinema qualquer, surgir de entre os mortos e justiçados como um holograma feliz?

Podemos deplorar que a preparação deste final se tivesse arrastado por cenas que nada acrescentam ao drama (mas não é essa a marca dum autor que gosta de 'esticar a corda' e sabe que pode contar com a benevolência do público? É quase como a extravagãncia na indumentária de Dali, por exemplo.
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"Era uma vez...em Hollywood" não é o filme definitivo sobre a psicose dum tal lugar, mas é um bom candidato.

Depois há aquela despedida de Cliff e Rick na ambulância que salva o filme, pela amizade viril ao gosto dum Hawks ou de um Ford, que salvava o filme se fosse preciso tanto.



NIETZSCHE AO SOM DE WAGNER

Mário Martins

https://www.temasedebates.pt/produtos/ficha/eu-sou-dinamite/


O que é uma biografia? Agustina Bessa-Luís, na sua biografia da pintora Maria Helena Vieira da Silva, “Longos Dias têm Cem Anos”, afirma que “os factos não são importantes numa biografia a não ser como o seu folclore”, afirmação que, sobretudo, se compreende no contexto da escassez de dados da biografada a que teve acesso, daí resultando uma biografia porventura mais imaginada, ainda que comentada e autorizada pela amiga pintora, mas talvez mais exigente na compreensão do sentido essencial de uma vida; afirmação, de resto, corroborada por outra do mesmo jaez, do colega de ofício Mário Cláudio, de que “toda a biografia é um romance”.

No entanto, decerto que os graves padecimentos físicos, que frequentemente o retiam deitado na penumbra de um quarto dias a fio, como repetidos acessos de vómitos, fortes dores de cabeça, progressiva perda de visão e excessiva sensibilidade à luz, que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche sofreu ao longo da sua vida (1844/1900), terão influenciado a sua filosofia, mormente o seu estilo. Os seus conhecidos aforismos, como forma de expressão curta e incisiva, são tanto o resultado directo da sua mente brilhante como da sua quase cegueira, que o impedia de escrever normalmente.

Como também o facto de se ter relacionado e vivido intensos momentos de comunhão espiritual com o célebre compositor operático germânico Richard Wagner  (e com sua mulher Cosima Wagner, filha do grande pianista e compositor húngaro, Franz Liszt), que considerava um verdadeiro Mestre e cuja música o punha fora de si, a ele, Nietzsche, que gostava de tocar piano e de compor, e que dizia, num dos seus famosos aforismos, que “sem música, a vida seria um erro”; bem como a ulterior ruptura pessoal e intelectual, terão, certamente, afectado a sua filosofia.

Ambos, Nietzshe e Wagner, partilhavam o desejo de pôr fim ao que consideravam ser a decadência cultural da Alemanha, mas enquanto o compositor era germanófilo e anti-semita, o filósofo não era nacionalista e recusava o ódio aos judeus. Essas diferenças e considerações mútuas nem sempre simpáticas, acabariam por prevalecer sobre o idêntico gosto pela Grécia clássica, conduzindo à separação e inimizade.

Com antecedentes familiares, Nietzsche viveu os últimos doze anos da sua vida no estado de loucura que, todavia, amigos mais chegados tiveram alguma dificuldade em reconhecer, sabendo como sabiam que o filósofo considerava que “todos os homens superiores que eram levados irresistivelmente a livrar-se do jugo de morais banais, se não fossem realmente loucos, não tinham outra opção para além de fingir a loucura”.

Tal como Wagner, mas mais abusivamente dadas as suas diferenças políticas, Nietzsche e a sua obra, simplificada e adulterada, nomeadamente pela sua irmã Elisabeth, uma fervorosa defensora da pureza da raça ariana e admiradora de Hitler, viriam a ser usados, anos depois do falecimento do filósofo, como caução da prática e objectivos do partido nazi. Mas como até um seu proeminente ideólogo sarcasticamente reconhecia, “se não fosse o facto de não ser socialista, nem nacionalista e se opor ao pensamento racista, Nietzsche poderia ter sido um grande pensador nacional-socialista”

01/09/19

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A INCONSTÂNCIA DA VERDADE

Mário Martins
https://www.fnac.pt/O-Livro-do-Universo-Joaquim-Fernandes/a735329

“Uma vez, num futuro indeterminado, mas certo (sublinhado meu), a natureza humana (ou as suas sucedâneas, seja que formas, estrutura e essência possam assumir…) virá a ser confrontada, pela primeira vez na sua história, com outras existências, realidades e dimensões exógenas, não-humanas, que muito provavelmente tornam anacrónico qualquer tipo de prognóstico ou antecipação das suas características (…)

Joaquim Fernandes
O Livro do Universo


Onde o ilustre autor, doutor em História das Ciências, alicerça esta certeza, é coisa que, estranhamente, não transparece da leitura do seu interessante livro nem, seguramente, da evidência científica que seja do domínio público. Não deixa, pois, de ser irónico que o autor aponte como “prova da inconstância e mutação dos critérios de verdade, ao longo da História, o facto de a crença contemporânea subscritora da hipótese de «não estarmos sós» ter adquirido um estatuto quase religioso, ou de para-religião (…)” 

Mas o que interessa aqui, para lá da angústia existencial de não sabermos se estamos ou não sós, é a questão central da “inconstância e mutação dos critérios de verdade”ao longo de um percurso histórico que, paradoxalmente, conduziu, numa época de consolidação científica, ao advento de um conceito concorrente da verdade: a pós-verdade.

Até que tenhamos provas da existência de seres inteligentes extraterrestres - eventualidade que, contrariamente ao defendido pelo autor, pode ser mais ou menos provável, mas não é certa –, tenho por axioma que a verdade é, e só pode ser, humana, na medida em que todo o conhecimento - sensorial, emocional, e racional - tem origem em nós, com as propriedades que a Natureza nos conferiu.

Não há, com efeito, outra fonte de conhecimento que não seja nós próprios, em relação com os outros e com a realidade circundante, mesmo quando, no foro religioso, idealizamos uma fonte divina. Esta realidade, cuja existência é apreendida pelos nossos sentidos e categorizada pela nossa mente, e a que chamamos objectiva para nos distinguirmos dela, é, e só pode ser, subjectiva, na medida em que passa pelo filtro da nossa experiência e compreensão, individual e grupal, que é sujeito a todo o tipo de influências culturais, e depende da incessante evolução tecnológica. A realidade natural objectiva, independente da nossa leitura, é simplesmente inacessível. Condenados a beber desta única fonte, estranho seria que não houvesse “inconstância e mutação dos critérios de verdade”, ao longo das diferentes épocas históricas.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa dá-nos um (entre vários) significado de verdade que, se por um lado me parece o mais ajustado, por outro encerra um problema: “Correspondência, adequação ou harmonia passível de ser estabelecida, por meio de um discurso ou pensamento, entre a subjectividade cognitiva do intelecto humano e os factos, eventos e seres da realidade objectiva”. O problema, evidentemente, é a nossa “subjectividade cognitiva”, e é por este ponto fraco da verdade que se insinua a pós-verdade.

Poderá então a pós-verdade concorrer ou mesmo suceder à verdade? Tendo em conta a definição que, por exemplo, o dicionário on line Priberam da Língua Portuguesa nos dá de pós-verdade: “Conjunto de circunstâncias ou contexto em que é atribuída grande importância, sobretudo social, política e jornalística, a notícias falsas ou a versões verosímeis dos factos, com apelo às emoções e às crenças pessoais, em detrimento de factos apurados ou da verdade objectiva”, não é de augurar grande futuro para conceito tão malicioso, não obstante Agustina, sempre interpelativa, pôr Camilo, em “Fanny Owen”, a afirmar que “neste mundo ou tudo é verdade, ou não há verdade nenhuma”

Apesar de condenados à “subjectividade cognitiva”, não há alternativa à verdade suportada pela prova, nem, muito menos, à conhecida citação de Carl Sagan, de que afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias”.

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

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Há aspectos da vida de algumas pessoas que nunca conheceremos na sua totalidade, apenas na proporcionalidade do que é visível e nos faz recriar paisagens para o que desconhecemos, para o que é omisso nos seus relatos, mas perceptível nas expressões e comportamentos. Talvez nem o próprio saiba dizer de onde advinha o seu gosto, mesmo encanto e atracção, pelas falésias, com as suas pedras, numa mistura de cinzento e castanho, a derramarem-se sobre o mar, pelos faróis e as ilhas, lugares que em comum, tinham o isolamento, a grandeza, uma fusão de infinito e eternidade. Contudo, a vida foi passando, os sonhos voaram para espaços distantes e a viagem aos lugares de atraimento, ficaram no pretérito da sua existência. Nos dias que correm, talvez seja já uma sombra de si próprio que todas as manhãs se acolhe numa mesa escondida de um Café de bairro. Fica longas horas escrevendo, ao que se crê, cartas de amor para uma mulher que nunca existiu, as quais direcciona para um destino desconhecido. Escreve e reflecte e todas as missivas que redige começam invariavelmente por, «Meu estimado e profundo amor, amada minha». De seguida parece abordar o tempo meteorológico, pois do espacial, a sua vida já não tem nada. «Nesta manhã de excelsa claridade, pequenos núcleos de nuvens brancas, brincam, divertindo-se sobre um céu azul puríssimo, fazendo-me descer na escala do tempo até aos instantes em que a intensidade do teu olhar, bailava ao som de cânticos longínquos, com as minhas utopias, os meus anseios»Em certos momentos, a sua reflexão deixa-o demasiado tempo parado, com o olhar fixo na pequena janela de onde lhe chega a visão do mar. Ocorrem-lhe à memória, dias remotos. Lembra-se da Judite. A Dite, a filha do senhor Belmiro, que na beleza dos seus vinte anos era a menina bonita do bairro que com o seu sorriso aberto, cheio de luz, encantava os homens e os adolescentes. Quantos pretendentes, quantos galanteios recebeu! Mas o tempo passou. Os homens a quem encantou, morreram todos e os adolescentes que a amaram, vão terminando, como ela, o seu tempo de vida. De tanto ser amada, acabou sozinha, na velha casa do bairro que a viu crescer. Tentava que o seu pensamento regressasse ao presente, mas não parecia uma tarefa fácil. Numa noite, de tempestade temerosa, deixou à solta as suas quimeras. Viu-se atravessar o Estreito de Magalhães dessa mulher que terá amado e para quem escrevia, e ao sair ao encontro do Pacífico, pareceu-lhe que a infinitude se abria no seu horizonte. Mas eram apenas delírios. De novo voltava à carta e as suas palavras pareciam adquirir mais fulgor numa escrita que parecia contrariar o começo, «No exterior, o sol apaga-se em triste cinza, ou reacende-se em cálida luz. O olhar viaja entre a ameaça de chuva, ou aquecimento súbito como uma estrada sulcando as colinas, como a minha alma, já sem chama nem ardor, no lume apagado de um tempo vibrante, recordando apenas, a revolução por onde passou quando as bandeiras ululantes do teu olhar acenderam fogueiras na planície sem luz onde habitava. Hoje, só o vento uiva no chão onde brotou uma alegria triunfante». Gostava de se sentir, como numa estória ouvida, como o cego que caminhando na noite, levava uma candeia acesa. «Para iluminar o caminho àqueles que vêem», respondia quando questionado. Mas na sua vida, já só a obscuridade, que o isola do mundo, persiste. Não podia alumiar, como antes, o caminho aos outros caminhantes o que se torna visível no terminar das suas cartas, «O tempo, o meu, chegou ao fim. Só em fantasias ilusórias sinto o teu olhar, límpido e apelativo, passeando na minha direcção, mas a estrada divide-se antes de chegar ao espaço onde habito. Despeço-me. Envio-te o abraço que um dia fez-me sentir o teu corpo no meu, e um beijo longo e cativo, de uma esperança que naufragou nas praias de uma ilha sem nome». Aparecia-lhe ainda a dança do universo galáctico, com a Lua volteando sobre si própria ao mesmo tempo que roda em torno da Terra e o planeta onde habitamos, prosseguindo a mesma dança com o luminoso Sol, num expoente de beleza que se acreditava ter vivido com a destinatária das cartas que escrevia. A redacção chegava então ao fim. Já no declinar do dia, encerrava as folhas de papel num envelope, saía para o exterior e deixava-o no primeiro marco do correio que encontrasse, no interior de uma rajada de vento que por si passasse.

O jornalista, Julien Brygo em artigo no Le Monde Diplomatique-edição portuguesa leva-nos até ao uso da internet no Norte de França, com estes esclarecedores depoimentos: “David Lecompte dirigiu-se directamente às Finanças de Lambersart. Mais do mesmo.” «Claro que me disseram que tinha que ser feito pela Internet. Perguntei-lhes onde estava a máquina à disposição do público… E não há nenhuma. Não faz nenhum sentido. Obrigam-me a fazer a minha declaração pela Internet, mas na condição de eu comprar um computador, de o trocar ao fim de dois anos porque se tornou obsoleto, de fazer um contrato com um fornecedor de acesso privado e que, para além de tudo isto, dê uma quantidade enorme de informações sobre a minha vida privada? Não. Não, obrigado» ” e ainda, “Acreditaríamos estar num filme de Ken Loach "Eu, Daniel Blake" (2016). O procedimento é-lhe explicado por um dos dez «jovenzinhos de azul», como lhes chamam os agentes. Toda a manhã (o único horário de abertura do dia), eles repetem as mesmas frases: «Tem as suas identificações? Vá para o seu espaço. Vá para “Os meus contactos com o Centro de Emprego”, clique em “Enviar e seguir um documento por correio electrónico”; depois clique em “Digitalizar”, “Acrescentar uma página”, “Validar”, “Confirmar”, “Enviar um outro documento”, “Confirmar”, “Validar”. Repita este procedimento tantas vezes quantos os papéis que tem para enviar.»”. O autor, diz-nos também que, “Em França, mais de treze milhões de pessoas estão «pouco à vontade» com a Internet, ou seja, 23% da população com mais de 18 anos. As pessoas idosas representam 66% das que estão mais afastadas do digital; 55% das que têm mais de 70 anos não têm acesso à Internet nas suas casas.

Zita Seabra, no fim da década de 80, considerou que tinha estado equivocada politicamente nos 30 anos anteriores e mudou-se…, para o PSD. Há dias, a mesma Zita Seabra, descobre que viveu outros trinta anos equivocada e mudou-se para a Iniciativa Liberal! Quer dizer, é uma vida permanente de equívocos! E pensar que há trinta anos atrás queria arrastar consigo uma organização política com décadas de história!

Antes de Rui Rio assumir a liderança do PSD, um conjunto de deputados desta formação política, destacava-se na Assembleia da República, pelos seus discursos, inflamados, violentos e insultuosos, uma espécie de MRPP da Direita, mas na versão malcriada. Há dias, um desses deputados, Duarte Marques de sua graça, chamou «besta» ao primeiro-ministro! À falta de argumentos políticos e incapazes de falar da verdade que os move e dos interesses que de facto representam, recorrem ao insulto desbocado! É a Direita no seu melhor. A Geringonça deixou a Direita em estado de sítio.

A greve dos motoristas de matérias perigosas, levou-me à leitura de um artigo do jornalista Daniel Oliveira de há meses atrás, no qual falava num sindicalismo solidário e colectivo. Quando grupos profissionais, se isolam dos seus companheiros do mesmo Sector ou Ramo de actividade para, servindo-se da condição específica da sua profissão, procurarem obter situações de privilégio, mesmo quando justas as suas reivindicações, significa que pouco lhes interessa a situação desses companheiros de trabalho, como é o caso dos motoristas de matérias perigosas (que consideram que ninguém sabe como é a sua profissão, como se eles soubessem como é a profissão dos outros), dos enfermeiros, dos médicos, dos pilotos da aviação ou dos maquinistas da CP. Por outro lado, o sindicalismo não pode abrandar o questionamento constante sobre a realidade que o cerca, sob pena de ver a Direita, servindo-se de justas reivindicações dos trabalhadores, infiltrar-se através de um sindicalismo mais que suspeito, exibir uma acção política de contrapoder, ao mesmo tempo que com a sua acção radical, contribui para o cercear de direitos laborais.

Segundo os jornais, o corpo de operações especiais da PSP colocou o Estado em tribunal por não lhe pagar o subsídio de risco quando se encontram em teatros de operações. Se percebi bem, os homens e mulheres (agora tem de se escrever assim!) que se alistam neste corpo policial específico, entendem que a remuneração que recebem é para não fazerem nada e que quando têm de realizar as acções para as quais foram contratados, «operações especiais» querem um acréscimo salarial a que chamam subsídio de risco! Como me disse um amigo, um destes dias vão reclamar um seguro de vida!


CARTA A UM MENINO DO LÍBANO

Manuel Joaquim



No domingo passado, Israel bombardeou, desta vez, zonas da cidade de Beirute, capital do Líbano. Ao longo dos anos, já ocorreram várias guerras entre os dois países. O Líbano já foi considerado a Suíça do Médio Oriente. As lutas internas e externas alteraram significativamente as condições de vida da maior parte da sua população.

O presidente libanês considerou este ataque de Israel como uma “declaração de guerra”. É de temer que mais uma guerra, esteja iminente.

Encontrei “Carta a um menino do Líbano”, publicada no Dia Mundial da Criança, em Junho de 1984, trabalho colectivo das turmas do 1º e 2º ano da Escola Preparatória de Irene Lisboa, do Porto. Já passaram 35 anos, mas o poema infelizmente continua actual.


O ADMINISTRATIVO INVISÍVEL

António Mesquita
Vista do Afsluitdijk na direção da província da Frísia 



Uma recente experiência com a venda dum pequeno terreno, em Trás-os-Montes, fez-me perceber melhor a importância dum trabalho de colmeia invisível, tão indiferenciado e sujeito a tanta pressão do público que, mais cedo ou mais tarde, de Simplex em Simplex, cairá na sua maior parte no domínio do Automatismo Numérico dum outro HAL 9000.

Nessa ocasião, percebi também a encrenca que é atribuir responsabilidades na prevenção dos fogos florestais, quando as terras não têm dono ou não estão registadas. Como é que o Estado e os municípios podem exigir o cumprimento das leis e dos regulamentos se as terras, numa família, não têm dono ou estão ainda no nome dum antepassado que chegou a conhecer os tempos da Monarquia?

Outro problema bem conhecido é o da dispersão da propriedade. Quando existem os registos, as "parcelas" não são contíguas e os herdeiros ficam sem passagem entre os seus retalhos. 

Na falta de "dono legal", existem soluções pontuais como a do 'usucapião' que são morosas e caras. As revoluções sociais trazem às vezes a única correcção possível. De qualquer modo, a actualização dos cadastros imposta de cima é sempre preferível ao abandono e à desordem. Foi nesse sentido que o parlamento votou recentemente uma proposta do governo de um "sistema de informação cadastral simplificada" (que teve parecer negativo da Associação Nacional de Municípios Portugueses), diploma que o Presidente da República promulgou “esperando que passe da letra de lei para a realidade a ritmo mais sustentado que no passado”. 

Algumas injustiças poderão ocorrer neste processo, e terá sido essa a preocupação da ANMP, mas sem comparação com as vantagens esperadas, por exemplo, na prevenção dos incêndios florestais. 

Numa conferência realizada na Faculdade de Direito – Escola de Lisboa, da Universidade Católica, sob o tema “As Funções Soberanas do Estado”: “Por que razão o valor acrescentado pelo Registo não se evidencia de forma notória, pelo menos para o cidadão médio?", a prof. dra. Mónica Jardim argumenta: 

"Pois bem, a resposta é simples: a razão da falta de evidência da mais-valia do Registo resulta do facto do papel do registo ser antilitigioso e profilático no tráfico jurídico, ou, por outra via, de a segurança jurídica gerada pelo registo ser preventiva e, por isso, apesar de imprescindível, ser algo diáfana. Explicitemos o afirmado: 

"A cidade de Amesterdão está toda ela assente em grandes vigas de madeira enterradas a grande profundidade no terreno pantanoso que caracteriza a região. Sem estas vigas invisíveis a cidade afundar-se-ia na lama. E, no entanto, a generalidade das pessoas que por ela passeia ou que nela vive não têm real consciência da importância vital de tais vigas. O mesmo acontece com o bem da segurança jurídica preventiva! Enquanto existe não se dá conta dela! Mas se faltasse todos notariam, pois a sociedade afundar-se-ia na lama da insegurança e o progresso económico desapareceria como por magia.”(*) 

Assim, a administração que é quase sempre vista pelo seu lado negativo, de entrave à acção expedita e sem formalidades, pode equiparar-se, na sua utilidade, às grandes vigas de madeira do país dos diques. 


(*) citado em "Os 'Registos' e o seu valor social e económico" 
de Arménio Maximino, no "Público". 



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