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01/05/19

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CARTAS A MARIA

Artur Simões



A chuva chegou como previsto. A cada dia, os serviços de meteorologia tornam reais as suas previsões, utilizando métodos de cientificidade que nos auxiliam à compreensão e comportamento dos fenómenos da natureza. Chegou pois, na hora indicada, mansa e vagarosamente, para nos permitir adquirir um tempo de preparação e tomar providências que diminuíssem o seu efeito sobre o nosso corpo, as nossas acções, e nos deixasse aconchegar entre as paredes da casa, o refúgio adequado para tantas intempéries. A alma ressentiu-se, talvez fruto de um dia agitado e o passado tombou sobre a memória como uma ferida aberta. Procurei o abrigo das coisas sem importância para que as horas crepusculares não tornassem mais difícil essa angústia ansiosa que faz nascer imagens há muito guardadas. A subida foi lenta e pausada. A extensão e a inclinação assim o exigiam. Procurei, como quase sempre, olhar e pensar no que se encontrava mais próximo, no que se apresentava no horizonte visual, iludindo assim o tamanho da distância até ao destino. A cada passo, adivinhava-se o que em breve seria uma certeza. Foi já no ponto alto onde ascendeu a nossa vontade, depois de breves paragens para deleite do olhar sobre a beleza, tão natural, agreste, mas harmoniosa e sedutora, que a realidade se apresentou intransponível ou com demasiados riscos para prosseguir. Como na vida, também aqui, é preferível parar, quando um obstáculo se impõe ao sonho. Não que a fantasia que vivemos não compense, mas antes por os riscos desvanecerem a excelência da utopia. Perante o manto branco que alagava o olhar e o horizonte, voltei a cobrir de preto a esperança como as mulheres marítimas tapam de escuro o corpo para que o esquecimento não devore a mágoa e a dor do que perderam. Abandono-me a esse luto. Tudo aparece como no deserto, mas as formas alteram e fazem a diferença. Nenhum ponto espacial é igual, todos diferentes. Não se vislumbra alma humana e, no entanto, não há solidão, apenas essa formosura que tonaliza a paisagem, nos recomenda silêncio e contemplação. Detemo-nos a pensar, mais reflectir, mas sentimos que os pensamentos se desfazem como as nuvens que passam. Embalam-se numa dança celestial e desintegram-se ou alteram as formas. Ficamos calados, nesse êxtase enigmático para o qual não encontramos tradução e lembro o tempo em que escrevia palavras de madrugada como se os dias não tivessem, nem dia nem noite. Abre-se diante de mim, um sol luminoso. Sim, a luz alaga tudo e aquieta-nos o olhar, faz-nos viajar para tempos remotos para planícies que se viriam a cobrir de sombras como se desejassem tapar a alegria, escondê-la em lugares que não se vissem, como se nunca tivessem existido, como se as nossas mãos não se tivessem encontrado e entrelaçado como a fusão de corpos materiais. Gosto desta luz e os meus olhos cansados da longa jornada que do fim se aproxima ainda se erguem, ainda sentem a plenitude de percorrerem o teu corpo inteiro procurando um lugar de repouso, um sentir de eternidade. Levava-te um beijo que pousava num lugar à tua escolha e o desatino que dele nascia, impulsionava o pulsar da vida que compartíamos. Resta ainda esta luz, iluminadora de desejos e vontades. Vigora de dia, dá cor, alimenta a vida, mas é agora apenas lembrança sem caminho para caminhar.


CHURCHILL

Mário Martins

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https://expresso.pt/sociedade/humor-falhancos-conquistas-e-liberdade-ha-churchill-no-expresso


“Enquanto primeiro-ministro da Grã-Bretanha entre 1940 e 1945, Winston Churchill não só foi o maior líder da II Guerra Mundial mas também a voz desafiadora mais eloquente do mundo livre contra a tirania nazi.”
Expresso


Depois de ler as mais de 800 páginas destas memórias da segunda guerra mundial (que são um resumo de vários volumes da autoria de Winston Churchill, que lhe granjearam o Prémio Nobel da Literatura), parece-me inteiramente merecida esta apresentação do editor. 

De facto, foi Churchill quem, antes de todos, percebeu o perigo nazi e a necessidade de fazer frente a Hitler, desde logo criticando, no intervalo das duas guerras, a política pacifista e de conciliação das potências vencedoras da I Guerra Mundial, a Grã-Bretanha e a França, com o governo nazi, e liderando a guerra do seu país, isolado, com a Alemanha (com umas Polónia e França rapidamente vencidas e ocupadas, uns Estados Unidos oficialmente neutrais até ao ataque japonês a Pearl Harbour, e uma União Soviética enredada num pacto de não agressão com Hitler, que este haveria de romper, menos de dois anos depois, com uma invasão em larga escala, apesar de, nas vésperas, ainda estar a receber remessas soviéticas de cereais e outras matérias primas, ao abrigo do pacto).

Depois da invasão da União Soviética, em Junho de 1941, Churchill, que sempre fora um adversário confesso do regime, defendeu, resolutamente, o auxílio e uma aliança anti-nazi com aquele país, deslocando-se mais do que uma vez a Moscovo - ele que, a juntar a um brilhante pensamento estratégico, era um destemido homem de acção - para discutir o curso da guerra com Estaline.

Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em Dezembro de 1941, Churchill teve um papel de primeiro plano no seio da aliança americano-britânico-soviética contra a Alemanha nazi, a Itália fascista e o Japão imperialista.

No Outono de 1946, já “libertado” pelo eleitorado das funções governamentais, Churchill, que não escondia ser um admirador do Império Britânico de Sua Majestade, defendia a “urgência da fundação de uma espécie de Estados Unidos da Europa ou algo o mais parecido possível”. E avisava: “O tempo é curto. Presentemente, vivemos uma pausa. Os canhões cessaram de disparar. Os combates pararam. Se queremos formar os Estados Unidos da Europa, ou o que quer que lhe queiramos chamar, precisamos de começar agora.”

Os políticos britânicos de hoje só teriam a ganhar, e com eles a Europa, se relessem o velho senhor.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

Resultado de imagem para sophia de mello breyner O POVO ESTA NAS RUAS


São várias as estradas que se nos vão deparando ao longo da vida, das quais temos de escolher uma para a nossa viagem. Umas têm o destino bem identificado e aparentam segurança. Algumas não têm regras para caminhar. Outras, ficam ao sabor de quem caminha, umas quantas revelam-se perigosas, embora o lugar de chegada apareça com uma auréola de esperança. Um dia tive de escolher uma dessas estradas perigosas e inseguras, mas pareceu-me a mais adequada, a mais dignificadora, a que melhor nos faria conviver com a humanidade e alcançar um futuro de justiça e liberdade. Não hesitei em caminhar, mesmo quando compreendi que o futuro era mais longínquo do que parecia à partida, mais armadilhado, mais ardiloso e impostor nas malfeitorias que semeava a cada curva, em cada lomba, em cada cruzamento daquela via. Enquanto caminhava, ao conhecer novas gentes e outros lugares, vi quanta tristeza guardava o meu país. Não era melancolia, nem nostalgia, era uma tristeza profunda, invernal, noite sem estrelas e sem luar, apenas negrume, uma dor de miséria, uma imensa amargura. E quando dizia o lugar de onde vinha, não se viam sorrisos, nem rostos alegres, apenas um distanciamento, um desconhecimento, daquele espaço fora do tempo. Até que um dia, quando a neve parecia querer derreter-se, abrir passagem para os nossos pés irem mais longe, chegou, aquela «madrugada que eu esperava» e vi o meu país emergir «da noite e do silêncio», nas palavras de beleza com que Sophia nos presenteou. E de paradeiro longínquo, vi pela primeira vez, o meu país sorrir, de rosto aberto, sorria pela boca, pelo olhar, todo o rosto sorria. Era um sorriso desconhecido, mas que a todos alcançava, despontava daquela escuridão nocturna e enchia a madrugada de sons, de sabores desconhecidos e dia após dia, o sorriso crescia, sem se apagar nem dar mostras de cansaço, nem de temor. A estrada que me levou, foi a mesma que me trouxe, mas agora, já não me olhavam como uma doença, um fastio, alguém que morava num tempo parado e cinzento. O sorriso do meu país era contagiante e os olhares eram já de admiração e de apreço. Mas a nova estrada, também se revelou difícil e o passado parecia querer volver para satisfação de alguns. Os desafios que o caminho apresentou, levaram alguns a desistir, outros a mudarem de estrada e muitos a acomodarem-se, no aconchego de um bem-estar aparente e passivo, que apazigua a consciência, mas permite que a maldade reine à rédea solta. Segui a mesma estrada, com mais ou menos dificuldade. Pelo caminho, apareceram, salteadores, ladrões, aventureiros. Resisti como pude, seguindo o conselho de Torga, “a honra era lutar sem esperança de vencer e lutei ferozmente noite e dia”. Muito roubaram, muito saquearam. As nuvens de tristeza voltaram por vezes a cobrir o céu, mas algo nunca morreu, nunca mais deixou de viver, o sorriso do meu país.

Como todos sabemos, a «democracia ocidental» é o «fim da história» em termos de regimes políticos. Tem dois expoentes a consagrá-la, a liberdade de expressão e a liberdade de voto. Na primeira sobressaem os que «falam, falam e não dizem nada», são os que mandam e, os outros, os que falam, falam e não serve para nada, são os que sustentam os primeiros. Quanto ao acto de votar, assemelha-se muito a um orgasmo envelhecido. Tem um momento de grande cansaço, é o tempo da propaganda em que os que vão ganhar dizem o que não vão fazer, e de seguida, é tudo muito rápido. Esgotados, adormecemos por 4 anos. Este ano estou preocupado, pois chamam-nos a dois orgasmos seguidos. Tenho receio que o coração não aguente!

As «Avós da Praça de Maio», recuperaram a 129ª neta. A mãe foi sequestrada quando se encontrava grávida de 8 meses e é um dos 30 000 desaparecidos depois de torturados e assassinados, neste caso, pela ditadura argentina. A 129ª neta, hoje uma mulher com 40 anos, vai conhecer pela primeira vez o seu pai biológico, um homem de 70 anos e os seus irmãos que nunca desistiram de a procurar. O demente Elliot Abrams disse há dias que Portugal está na frente dos países que pretendem derrubar Maduro e o regime venezuelano, a bem ou a mal. Augusto Santos Silva deve sentir-se orgulhoso por acompanhar a escumalha da humanidade.

Num dos seus mais recentes livros, Júlio Machado Vaz diz ter encontrado, um dia, por acaso, Paulo Portas a quem define como um «homem muito inteligente e educadíssimo». A inteligência e a educação são muito relevantes, mas tanto são utilizadas a favor do bem como do mal, e no caso do nosso ex-político, foi sempre a favor do mal. Além de que, o uso do superlativo absoluto sintético é sempre um exercício perigoso. Esse excremento humano que deu pelo nome de Francisco Franco não se intitulou, generalíssimo? E ao seu cunhado, que se fartou de roubar o Estado espanhol, não chamaram os espanhóis de cunhadíssimo? E o cefaloide político de Boliqueime não meteu a mão no prato nas acções dos seus amigos do BPN, pese embora considerar-se, honestíssimo? Meu caro Machado Vaz, talvez fosse melhor falar só de amor que eu até gosto de o ouvir.

Perante os nossos olhos horrorizados, Notre-Dame de Paris foi consumida pelas chamas. Certamente que a reconstituirão e ficará mais bonita e segura que antes, mas a arte dos mestres canteiros e vidreiros da Idade Média, jamais será igualada.

Nas últimas eleições italianas, venceu o Partido de um palhaço. Agora na Ucrânia, venceu um comediante. Por fim, as democracias começaram a escolher profissionais!

As instituições brasileiras vivem num estado de tragédia, um terreno pantanoso e lamacento. Sérgio Moro é um desses personagens de opereta. Assumiu-se como justiceiro vingador e condenou Lula da Silva a mais de 9 anos de prisão, sem provas. Um tribunal superior aumentou a pena para mais de 12 anos e como afirmaram a maioria desses juízes, sem provas mas com convicção!? Agora um tribunal de apelação, reduz a pena para 8 anos de prisão. Só por si, estas sentenças mostram o estado putrefacto da justiça brasileira, que não é caso único, diga-se. Sérgio Moro, afastou da campanha eleitoral o candidato que previsivelmente iria ganhar as eleições para assim, permitir a vitória dessa anormalidade humana que dá pelo nome de, Bolsonaro, o qual de seguida o nomeou ministro. Há dias veio a Portugal e com a arrogância dos ignorantes, permitiu-se criticar a justiça portuguesa, identificando mesmo um arguido de um processo. Quando este lhe respondeu, permitiu elevar a arrogância ao nível do fascismo vigente no governo de que faz parte: «não dialogo com criminosos pela televisão»disse então, chamando criminoso a um arguido ainda não julgado. Não se ouviu qualquer clamor da justiça portuguesa, o que, só por si, também é significativo. Da próxima vez que visitar este país democrático, deveria ser exigido a este energúmeno que exerce o cargo de ministro e se julga deus na justiça, que lave as mãos e a boca no aeroporto. Já temos merda que chegue.

O FUTURO DA PINTURA

António Mesquita

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"A Leiteira" de Johannes Vermeer


Num tempo em que qualquer fotografia está em vias de se poder transformar em "pintura", ao estilo que se quiser, à maneira do artista que se pretender imitar, e se um elemento aleatório representado pela cor, o ritmo ou o espaço podem trazer-lhe uma maior complexidade e novidade, como se distingue a arte autêntica desta 'arte robótica'? 

Em vez de pintores inspirados pela luz e as gradações do dia sobre um objecto, pelo pregueado de um vestido ou o sentido fugidio da expressão num rosto, ou toda a escala e o ritmo das cores, a composição das formas que a aparenta, tão significativamente, à arte musical, o que temos hoje, graças à tecnologia digital e às inúmeras aplicações que nos oferecem, instantâneamente, na aparência pelo menos, todos os sortilégios dos artistas que todos admiram, senão o fim da pintura, dessa arte que acompanhou a humanidade desde as cavernas dos trogloditas, aos conventos e paços reais, ao Renascimento e à época moderna? 

Esta não é como a crise da representação que provocou a invenção da fotografia que levou os mais 'inovadores' a procurar refúgio na pintura abstracta.  No entanto, todos podemos observar a diferença que o estilo pessoal já estabelecia entre, por exemplo, a arte de um Boticelli e a de um Caravaggio. Embora se pudesse dizer que a partir da perfeição 'realista' de alguns mestres, o princípio da diferenciação se tornou uma cada vez maior "distorção", como se a continuação da arte da pintura requeresse, a cada novo início, uma mudança de lentes, desta vez, ao contrário do que faz o oftalmologista, devessemos escolher aquelas que corrigissem o mundo em vez de corrigirem os nossos olhos.

Agora, só estamos à espera que surja um quadro que se julgava perdido, ou que os historiadores da arte desconhecessem por completo, de um pintor cuja produção raríssima nos leva a pensar que quando pegou nos pincéis pela primeira vez já era um artista completo, sem os erros que todos os outros começam por praticar, digamos, Vermeer de Delft. E que se venha a saber que essa maravilha tinha sido pintada,  há muito pouco tempo, por um 'robot' da última geração, e a partir duma paisagem holandesa ou duma moçoila sem brincos, nem caneca de leite, vestida ao gosto do século XVII.

Dir-se-á que a tecnologia pode ultrapassar a nossa memória e a nossa inteligência, mas não pode simular uma experiência subjectiva, a sensibilidade e as emoções humanas. São elas que, no fundo, se exprimem em todas as formas de arte. Mas temos em comum com o 'cérebro artificial' o facto de não controlarmos as fontes daquilo a que tradicionalmente chamamos de inspiração (é essa característica que distingue a verdadeira originalidade, a verdadeira criação). Porque a partir duma certa complexidade, ninguém nos garante que o super-artefacto exerça sobre todos os seus processos, aleatórios ou não, um controlo do tipo racional e consiga prever os seus próprios resultados.

A pintura está assim na iminência de ter de se refundar em novos valores e numa nova crença. A sua vulnerabilidade maior é ser, desde sempre, um avatar da imagem. E, talvez,  nada tenha mudado tão radicalmente, na nossa época, como a nossa relação com as imagens e com uma nova preponderância destas sobre a linguagem.

GOLPE FALHADO

Manuel Joaquim
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Hoje, 30 de Abril de 2019, mais uma tentativa de golpe militar na Venezuela que encheu os tempos de antena de quase toda a comunicação dita social, instruída para relatar os acontecimentos de forma a criar as condições psicológicas para as pessoas aceitarem e apoiarem o fim do regime chavista.

Mais uma tentativa falhada. O imperialismo, liderado pelos Estados Unidos da América e apoiado pelos principais países da Europa e América e até por Portugal, (quem diria! o Santos Silva enviou militares armados para a Venezuela) organizando cenas de violência com mercenários, para justificar uma intervenção armada, fracassou. Entretanto, agências internacionais (Reuters) anunciaram hoje que a Blackwater, empresa que recruta mercenários para as diversas guerras no mundo, está a organizar um exército de 5 000 mercenários para intervir na Venezuela. Trump e seus muchachos estão a liderar directamente todo o processo.

Esperemos que sejam derrotados como foram em Cuba, no Vietname, no Iraque, na Síria, no Afeganistão e vão ser no Iémen, na Líbia e noutros lados.

A NATO, Organização do Tratado do Atlântico Norte, que já não é do Atlântico nem do norte, porque alterou o seu tratado e hoje intervém nas diversas partes do mundo, liderada pelos EUA, está a expandir-se e a implantar-se em cima das fronteiras da Rússia com material de guerra cada vez mais sofisticado. Aviões militares portugueses violam espaços aéreos de países do norte da Europa. A Rússia tem reclamado insistentemente pelas ameaças dessas armas. A corrida aos armamentos é cada vez maior. O que se pode esperar? A comunicação dita social tem dado pouca importância a estes acontecimentos. Como é que as pessoas os podem acompanhar criticamente?

Quando foi iniciada a guerra no Iraque muita gente não queria acreditar que o motivo fosse o petróleo. Mas os próprios organizadores da guerra vieram depois confirmar que o motivo era o petróleo.

E hoje continua a ser o petróleo o motivo da guerra. A Venezuela tem das maiores reservas do mundo. Dois terços das reservas do petróleo encontram-se numa faixa que vai do Médio Oriente à Sibéria Ocidental. Será que o imperialismo pretende entrar em guerra com a Rússia por causa das reservas de petróleo como o fez no Médio Oriente, por considerar que é seu espaço vital?

A batalha de Estalinegrado, na 2ª guerra mundial, deu-se porque o exército nazi pretendia chegar ao petróleo.

Os países industrializados precisam de grandes quantidades de matérias-primas para todas as actividades económicas. Mas o que mais condiciona todo o processo social e económico é a energia. Daí o controlo das fontes de energia ser o problema fundamental da época em que vivemos. O petróleo é a fonte de energia com a maior eficiência energética, superior ao gás natural, ao carvão e ao urânio. Os EUA já foram o maior produtor e exportador de petróleo, mas hoje a sua produção está reduzida a 40% desse máximo, dependendo agora em 70% do petróleo importado.

Toda a perturbação que o mundo atravessa - económica, social, política e militar – resulta das dificuldades cada vez maiores na obtenção de matérias e sobretudo de fontes de energia.

O SONHO NOS ANOS DE CHUMBO

Filipe Augusto



Aquele Outono parecia mais frio que o normal. Certamente seria igual a tantos outros, mas a aula de Pintura Decorativa com o Prof. António Cruz até às 22 horas, tornava a noite mais cinzenta. A aula era demasiado silenciosa, a face sorumbática do mestre e as luzes amarelas da sala em nada ajudavam a um ambiente sadio.

Hélder tinha um amigo, um jovem de Oliveira do Douro que aos Sábados organizava bailes na garagem, em frente ao Colégio do Sardão, onde meninas em regime interno, espreitavam pelas janelas. Hélder comparecia, mas a timidez e a incapacidade de movimentar os pés em ritmo de dança transformavam-no quase sempre num espectador do baile. Em casa, isolava-se em leituras da Vida Mundial e durante meses, levantava-se mais cedo para durante quinze minutos antes de caminhar para o trabalho, ler algumas páginas dos III volumes da Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial editado pelas Selecções do Reader’s Digest que tinha adquirido com as suas poupanças.

Algo ansiava na sua alma, mas o caminho que procurava não se desenhava na sua frente, aparecia disfarçado e camuflado, não visível aos olhos, não lhe conhecia os contornos. Mas, sobretudo, aquelas aulas nocturnas, foram-no aproximando de outros dois jovens recolhidos nos seus pensamentos e comedidos nos seus actos, o Fernando e o Rui. Talvez por mais aulas em comum, aproximou-se mais do Fernando e passou até a acompanhá-lo pela cidade e assim foi conhecendo a Unicepe, onde o seu amigo se enchia de livros. Foi ao conversar sobre um desses livros, “Asas de Israel”, a propósito da «Guerra dos Seis Dias» que tinha acompanhado pelo JN, que teve a primeira surpresa, Fernando estava ao lado dos maus, colocando dessa forma em causa tudo o que Hélder acreditava saber sobre o mundo.

Os passeios foram-se alongando e a amizade cimentando. Naquelas noites de Outono, começou a ver que a capa onde o Rui e o Fernando traziam os livros estava forrada com um pequeno cartaz com as palavras, «MDP – CDE – Comissão Eleitoral». Era uma grande novidade e as perguntas foram surgindo. Os pilares da sabedoria que Hélder trazia estremeciam como num tremor de terra. Um mundo desconhecido e escondido, emergia à superfície, cautelosa e paulatinamente.

Meses ainda haveriam de passar, até uma jovem de rosto bonito, alta e atractiva, o guiar uma noite e com grande atraso até casa do Fernando e na presença de ambos foi ouvindo falar de presos políticos e «Comissão de Apoio e Socorro» aos mesmos. Começou a ler documentos que não supunha existir e o novo mundo, essa esperança de um espaço de justiça e liberdade passou a fazer parte dos seus sonhos.

Mais tarde, apareceu o Serra e a sua vida passou a ficar dependente das imensas tarefas que apareciam a cada semana, a cada momento em episódios de resistência, de luta e combate por um futuro que todos acreditávamos ser melhor.

Nas comemorações do 31 de Janeiro de 1971, numa sala do 1º andar de um restaurante localizado na esquina das Ruas, de Sá da Bandeira e Formosa, perante dezenas de lutadores de longa data contra a ditadura, a dado momento, o Serra diz-lhe para falar em nome do MJT. Entrou em pânico, pois nem sequer sabia o que dizer e, menos ainda, ser capaz de enfrentar aquela plateia de pessoas de uma resistência tenaz ao longo dos anos. O Serra escrevinhou um texto em meia dúzia de pequenas folhas e, sem saber como, estava na frente de toda a sala a falar para um microfone, lendo as palavras que lhe foram escritas, enquanto a mão que segurava os papéis tremia de forma visível. Nesse dia, não perdeu o medo nem a timidez, mas aprendeu a controlá-los. Hélder tinha então 18 anos.

Os três anos que se seguiram são uma longa história, integrada numa mais ampla e colectiva, que o haveria de levar até ao sopé dos Himalaias, num combate desigual que nunca parou e que ainda hoje continua, noutros moldes e espaços, com outros métodos, nessa vontade de fazer avançar a utopia, esse sonho de esperança, esse querer do bem-comum.


01/04/19

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ALERTA VERMELHO

Mário Faria



Nas minhas incursões na zona de influência do Lidle, há bem mais de um ano fui testemunha de um insólito acontecimento. Um homem, entre os sessenta anos, passeava uma bicicleta no passeio de costas para o movimento dos carros. Ainda a uma certa distância do Coppi (assim o batizei), apercebi-me que gritava para os automóveis com gestos e palavras muito pouco amigáveis. Na dúvida, mudei de passeio para evitar encontros imediatos de 1º, 2º ou terceiro grau. O tipo topou e parou do outro lado da rua para me brindar com um vasto leque de cumprimentos ameaçadores. Cheguei são e salvo a casa. Cruzei-me com o Coppi mais uma dúzia de vezes. O registo era cada vez mais agressivo. Entretanto, desapareceu e não deixou saudades. Há dois meses e pico, apareceu profundamente mudado. Tinha deixado a bicicleta que substituiu por um carrinho de supermercado. Caminhava mais confiante, sereno e com algum orgulho. Parecia satisfeito com a responsabilidade da sua função. E foi assim que se passou durante semanas. Foi sol de pouca dura: desta vez voltou de bicicleta e com um carrinho de supermercado acoplado. Exibia sinais de intensa degradação; menos agressivo e mais estranho dava sinais de desorientação. O Coppi é um mistério: um homem que vi sempre sozinho de mal com a vida e o mundo. Muito provavelmente vítima de um qualquer fantasma que o habita e nada tem a ver com o Brexit. 
O Brexit tem ocupado uma boa parte da agenda informativa. Não entendo muito bem porque é tão complicado sair da UE. Os ingleses ainda vivem sob os vestígios do Império. Sentem-se sem a importância do antanho e esperam com este golpe ressuscitar os dias gloriosos da Commonwealth. Ao mesmo tempo, esperam ganhar oportunidades que os USA facilitarão. O processo de saída parece não ter fim. O Reino Unido ruge mas não deita fogo. Está no limbo e não encontra saída. Sua Alteza está atenta e serena. Não é nada com ela. Pela nossa parte, estamos descansados: basta mostrar o Tratado. Ainda vamos ser o anjo da guarda da Europa. O Centeno é homem para isso.
Sabia-se que Centeno seria o homem escolhido para Ministro das Finanças se o Costa formasse governo. Não sei como se selecionam os candidatos para preencher os diferentes cargos no Governo. Admito que haja procedimentos semelhantes aos que são seguidos no privado, nomeadamente quando se trata de empresas que seguem os bons costumes no recrutamento. Segui e conheci os passos e a exigência no IKEA no momento da selecção de candidatos. O processo é longo, diversificado e muito exigente. É normal que na vida pública seja diferente porque os membros do partido serão quase sempre prioritários. Só que o actual governo resolveu dar um passo atrás e permitiu encher o (nova) governo com muitos amigos e demasiados familiares. Não será por isso que o gato vai às filhoses, mas ao Governo não basta ser sério tem de parecê-lo. Que tiro no pé, Costa!
O gato foi às filhoses e Rui Pinto foi preso preventivamente. Há quem o condene e reclame um castigado exemplar e há quem o absolva e reclame para o Rui o estatuto de denunciante. A privacidade é um direito que não pode ser desvalorizado e quem a viola comete um crime. Sou austero na sua defesa. Mas fico dividido quando o que está em jogo é informação qualificada e de interesse público. Como sair deste nó górdio? Vai ser complicado dados os interesses em jogo e no futebol o escrutínio é um bico de obra. A toupeira que o diga!

 Nota: Coppi foi um ciclista italiano de eleição. 

CHUVA É CANTORIA

António Mesquita



"Quando agora olho para o filme, sinto alguma alegria ao perceber que ele em nada contribui para o estereótipo de filmar os índios como se fossem fósseis vivos”
JOÃO SALAVIZA

Salaviza e Renée Messora filmam uma história de vida dos índios krahô, na aldeia da Pena Branca, estado de Tocantins, no Brasil.

Um rapaz de 15 anos, Ihjãc (Henrique, em português), adoece e põe-se a falar com os mortos. Essas vozes e o espírito personificado pela arara cometem-lhe o ritual da 'tora', uma festa  para encerrar o luto do pai, mas ele teme, ao mesmo tempo, tornar-se xamã. O médico da localidade mais próxima, Itacajá, diagnostica-lhe hipocondria e Ihjãc  vai adiando o regresso à aldeia, com medo do seu 'destino'.

Enquanto vagueia pelas ruas de Itacajá, com a sua poeira, o seu  ruído e, sobretudo, a omnipresença dos altifalantes de feira sente a falta do coro dos insectos nocturnos e do grito das aves da floresta natal. Não é por acaso que este contraste nos aparece tão chocante. É um modo mais subtil de defender a ideia denegada da 'pureza' dos índios. Como diz Salaviza; "Filme realista acima de tudo, “Chuva...” não deseja “cristalizar uma pureza indígena” que ali possa ainda existir (ou ser encontrada pelos olhos do branco) desde o século XVI."

Finalmente, Ihjãc regressa à aldeia para cumprir a obrigação da festa do luto. Depois, vêmo-lo diante da cachoeira onde falava com a arara e o espírito dos mortos e mergulhar nas águas sem voltar a aparecer. Devemos concluir que esta 'solução" para o seu medo do xamanismo significa que, apesar de tudo, a cultura (branca) dominante já o tinha separado da sua comunidade, ao ponto de já não poder acreditar no papel do xamã, mas também não querer nem poder trair o seu povo?

"O seu discurso (de Bolsonaro) contra os indígenas é tenebroso.", diz o realizador,  mas o verdadeiro perigo para a mitologia dos índios,  mais do que  a política, parece ser o da contaminação das culturas, porque Ihjãc já foi tocado pelo mundo envolvente.

Ainda Salaviza: "É preciso, ao invés, reconhecer os krahô sem preconceitos: sabem mexer em telemóveis, têm garrafas de água em cima da mesa, as mulheres gostam de pintar as unhas dos pés... E até há palavras de português que já introduziram no seu vocabulário e em seu proveito. Eles não são menos índios, nem há uma perda cultural, pela inclusão que fazem desses elementos no seu quotidiano, antes pelo contrário, muitas vezes há até um reforço da sua cultura pela absorção e subversão destas coisas que vêm de fora”.

Será que essa identidade índia depende da vontade de resistir e que a verdadeira mudança não começa pelos actos mais triviais do quotidiano, como moldar-se a uma outra língua ou usar um telemóvel? Nesse sentido, tampouco se pode falar 'numa comunidade em vias de extinção".

Enfim, "Chuva é cantoria na aldeia dos mortos" é um filme muito estimulante.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Todos temos consciência que, com o avançar da idade, o nosso corpo vai colapsando fisicamente, vai encerrando quartos ao longo de um corredor e a cada um desses apagamentos, a memória anula registos, aquela memória mais activa que possui um arquivo de acesso imediato. Naquela manhã, procurava interrogar aquele catálogo das coisas breves, sobre o que me teria levado até Salzburgo nos últimos dias e não conseguia obter uma resposta que compensasse essa tentativa de saber o que fazia ali. Num primeiro instante, ocorria-me a palavra, Mozart, o génio, a música, o seu precioso Requiem. Mas a resposta que encontrava não me satisfazia. A última lembrança dizia-me que tinha entrado na Áustria para satisfazer uma curiosidade, o que me levou até Innsbruck, mas de seguida tudo se nebulava. O centro histórico, os carros eléctricos, o rio, a cor das águas e as montanhas a norte ainda cobertas da neve que a Primavera não derretera por completo. Para além da perfeição, dessa beleza que assenta na ordem natural das coisas, escondendo a intervenção humana, sempre tão modificadora, tão correctora do que nasceu no seu lugar, não esquecia a palavra «flughafen» que o cérebro repetia a si próprio como algo que tivesse algum significado para além daquele que a palavra guardava. Esta era a auréola que a memória acolhera e de seguida apagara-se até este momento em que o comboio me leva em direcção a Viena, com nova pergunta, porquê Viena? Rodava a fita do tempo e tentava ver Salzburgo, o rio Salzach, as margens nessa curva lenta, como cansada, de novo a cor das águas, o verde queimado das cúpulas, Mozart por todo o lado, os picos montanhosos agora a Sul, mas sem essa pressão esmagadora que se sente no Tirol, e sempre esse apuro que procuro como virtude da vida e dos materiais, a beleza das formas. Aliás, a Áustria aparece-nos como um desenho longamente estudado e com os traços certos, sem nada mais para além do necessário, uma ilustração simbiótica entre a natureza e a humanidade. Há instantes que essa perfeição é tamanha que chega a tornar-se perturbadora e ao recordar as aldeias montanhosas do meu país, feitas desse granito milenário, formosas pela sua irregularidade, aparecem-me, comparativamente como um esboço, um rascunho de algo inacabado, e no entanto, sinto um cântico que se ergue das suas calçadas como um chamamento, como uma recordação de um passado de luta contra os elementos físicos da natureza e do poder. Nas margens do Salzach, não senti com tanta intensidade a expressividade do Requiem, como sinto este canto que se ergue do silêncio do casario de telha vermelha que se esvai no meu corpo ao longo destes anos em que procuro a verdade da vida, na verdade dos seres humanos quando submetidos à rudeza da existência e à maldade pérfida dos tiranos, quantas vezes silenciosos, nos seus crimes e nas angústias e dramas que deixam escondidas na alma dos serranos dessas aldeias que laboram e oram, acreditando nesses dois predicados como actos únicos de perfeição perante a eternidade. O comboio desloca-se a uma velocidade assombrosa numa sequência de túneis cujos intervalos deixam escasso tempo para contemplar a paisagem que se estende no exterior e vou assemelhando estes espaços intercalados ao evoluir da vida humana, a cada momento de alegria, de cores vivas, de satisfação, surge um espaço escuro, um tempo sem luz em que apenas seguimos em frente com a convicção de que haverá um momento para o qual o sol adquira novo brilho, novo esplendor luminoso e assim, vou percorrendo os tempos que somam a minha experiência, essa vivência que já é passado e não será futuro. Há sonhos que se transformam em pesadelos e marasmos que se transmutam em fantasias luxuriantes de felicidade. Creio que foi numa dessa saídas de túnel para um espaço aberto que a memória trouxe até mim, um dia de caminhada num percurso de rudeza sem limites que nos fazia descer do Nepal para Darjeeling. Quando atravessamos cordilheiras acima dos três mil metros, sentimos que há uma separação física entre a cabeça e o resto do corpo, como se cada uma dessas partes adquirisse autonomia. Sentia-me perturbadoramente cansado, por que esses dias se arrastavam sem ideia de quando encontraríamos traçado que nos dissesse que o destino estava próximo. Foi num desses momentos de grande fadiga, sentado na extremidade de uma espécie de falésia, na proximidade da aldeia de Kalipokhri, olhando para o que acreditava parecer ser a fronteira que, sem qualquer razão aparente, me ocorreu o nome de Diotima (1) e o seu diálogo à procura de respostas para perguntas que o seu desejo de felicidade faziam aparecer, e a sua resposta enigmática à questão que lhe colocavam, «Aqueles que nos abraçam nunca são os que amamos mais profundamente…». Iludia assim o dilema que vivia entre o amor legal e contractualizado e aquele outro que irrompera pela sua vida, com a torrente de um glaciar alpino desintegrando-se perante uma súbita rajada de calor. Iludia o essencial com a sua resposta, mas aceitava o diálogo filosófico sobre a vida, os valores, o amor e as morais que comprimem os desejos como as margens comprimem o rio. «Não existe felicidade desregrada. Não existe grande felicidade sem grandes tabus», dizia um Arnheim (1) já convicto da sua derrota, ou dito com palavras menos rudes, incapaz de atravessar essa fronteira do proibido, «as grandes almas precisam de legitimidade», acrescentava tentando convencer-se a si próprio e assim ficavam ambos a atravessar uma ponte elevatória cujo mecanismo encravara no momento em que deveria unir-se, deixando-os separados perante um espaço vazio e intransponível. Falavam como se justificassem o que não ousavam viver, e mesmo que, em espírito, Diotima já aceitasse, que seria «mais sensível e sensato o risco do adultério à catástrofe de duas vidas destruídas». Contudo, pedia-lhe silêncio, que não falasse, pois «as palavras podem fazer grandes coisas mas há outras maiores!," pois, acrescentava, «A autêntica verdade entre duas pessoas não pode ser dita» porque «Assim que falamos há portas que se fecham;» Arnheim concordava e do seu pensamento saiu a frase que dizia que «As almas unem-se quando os lábios se separam». Os tabus sociais, as regras invioláveis que os cercavam, obrigavam, mesmo sem o querer, Diotima a domar as águas revoltas do rio que a arrastavam, que a impulsionavam para os braços daquele amor que transportava no olhar e a faziam mover-se entre os fantasmas da realidade. Com Arnheim algo idêntico se passava, pese embora sentir-se na maior parte do tempo com vontade «de se precipitar, como um satélite desorbitado, na massa solar de Diotima». A fonteira aparecia junto à aldeia, subindo e descendo numa linha exígua perante a grandeza da montanha, e ao longe, como um ponto entre cores profundas aparecia a aldeia que procurávamos. O desenrolar do meu pensamento deteve-se no momento em que o comboio deslizou pelo interior da Wien Hauptbahnhof e deixei-me ir, de novo, sem rumo, com o silêncio das palavras que pedia Diotima.   

(1) Personagens da obra literário, “O Homem sem Qualidades, de Robert Musil

Foi há 20 anos que a NATO realizou um dos seus maiores crimes na história da Europa recente. Durante 78 dias, bombardeou o que restava da Jugoslávia, deixando um rasto de mais de 2000 civis mortos e fazendo regredir, sobretudo a Sérvia, 50 anos em termos de infra-estruturas. Não hesitaram em bombardear a Televisão, para que a verdade dos seus crimes não aparecesse nos ecrãs do mundo. Na autoria do crime, estava gente democratíssima, como Javier Solana, o impagável Toni Blair, Bill Clinton ou António Guterres, todos bem recompensados no futuro. Quando a Jugoslávia se rendeu exangue e a sepultar os seus mortos, criaram o Estado fantoche do Kosovo, hoje placa giratória do tráfico humano e do negócio da droga e espaço de uma grande base militar da NATO. O presidente sérvio foi levado prisioneiro para Haia e morreu assassinado quando se encontrava à guarda do Tribunal Penal Internacional, assim se protegendo a democratíssima gente do que Slobodan Milosevic poderia vir a dizer.     



A população dos EUA escolheu para presidente do país uma espécie de loucura humana, um míssil em voo que não se sabe onde vai cair. Esta demência rodeou-se de gente inqualificável. John Bolton é um desses seres que nasceu com o intestino grosso no cérebro e Elliott Abrams é dessa espécie de gente que num país decente estaria internado num hospital psiquiátrico em regime fechado. Há dias teve um diálogo delicioso sobre Juan Guaidó, o auto-proclamado presidente interino da Venezuela e que nessa qualidade estava obrigado a convocar eleições nos 30 dias imediatos. Confrontado com esse facto, Abrams disse que o tempo só começa a contar quando Maduro deixar o poder, o que só pode significar que o auto-proclamado presidente interino, só pode ser interino após Maduro deixar o poder, pelo que de momento, Juan Guaidó é apenas candidato a presidente interino! Creio que é muito compreensível a explicação do pro-cônsul de Trump. Digamos que o inefável Augusto Santos Silva tem estado a reconhecer como representante do poder venezuelano um candidato a presidente interino. Parece um atentado à inteligência, mas é só apenas esta gente a fazer de nós palhaços.



Em Madrid prossegue a farsa do julgamento de 13 presos políticos catalães. Para eles envio a minha solidariedade através da poesia de Manuel Alegre:

Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida”


MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

Manuel Joaquim


Peniche, Museu Nacional da Resistência e Liberdade



O núcleo do Porto da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses vai realizar uma excursão, no próximo dia 27 de Abril, ao Forte de Peniche para participar na inauguração do Museu Nacional da Resistência e Liberdade, “uma vitória alcançada de uma luta pela Memória e Resistência”.

Centenas de resistentes ao fascismo passaram pelas celas do Forte de Peniche. Em Janeiro de 1960 deu-se uma fuga histórica com repercussões mundiais. Falou-se de barcos e de submarinos que teriam participado no apoio à fuga dos fugitivos daquela prisão de alta segurança. Simplesmente a capacidade de organização e a inteligência daqueles Homens é que lhes permitiu tal proeza.

Devemos ter na memória outro local de terror que o fascismo manteve durante muito tempo a funcionar em Cabo Verde. O movimento de contestação que entretanto se desenvolveu a nível mundial obrigou os fascistas a fechá-lo. Mais tarde, durante a guerra colonial, foi novamente aberto para prender lutadores pela liberdade das ex-colónias. O responsável pela sua reabertura ainda está vivo e é uma alta personalidade política. 

Ary dos Santos escreveu um poema dedicado aos mortos-vivos do Tarrafal. O texto obtive-o das mãos da Dra. Fátima Silva numa aula de História. Pela sua importância faço a sua transcrição.

AOS MORTOS-VIVOS DO TARRAFAL – ARY DOS SANTOS

Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue sabia a terra
acabou por ser mais forte 
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.
Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue 
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial, 
ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.
Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morreram ali
porque a esperança não se perde.
Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.
Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão 
contra o ódio  e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.
E tu também Araújo
E tu também Castelhano
E também cada marujo
Que morreu a todo o pano.
Todos vivos! Todos nossos!
Vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!
No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal 
a sua maior bandeira.
Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores 
pois o tempo do degredo
Mudava o sentido às cores:
O verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede 
duma água proletária.
Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa


José Carlos Ary dos Santos (poema feito aquando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)



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