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01/07/18

A JUSTIÇA SEGUNDO EME

Mário Martins
https://www.google.com/search?q=livre+arbitrio


“Sou um determinista, compelido a agir como se o livre-arbítrio existisse, porque, se desejo viver numa sociedade civilizada, preciso agir de modo responsável. Sei filosoficamente que um assassino não é responsável por seus crimes, mas prefiro não tomar chá com ele (...) Tudo é determinado (…) por forças sobre as quais não temos nenhum controle (…)” 
Albert Einstein in "O cosmos de Einstein", de Michio Kaku 

Para Einstein um assassino não é responsável pelos crimes que comete, mas porquê então submeter essa afirmação escandalosa à expressão condicional “filosoficamente”? Para Eme esta palavra tem, neste contexto, um duplo sentido: se um assassino não é responsável do ponto de vista do máximo entendimento humano que a filosofia proporciona, já o será nos termos das regras necessárias à vida em sociedade. Daqui resulta uma contradição insanável: quando os nossos sistemas de justiça condenam um assassino, por uma razão utilitária de defesa da sociedade, estão a condenar, à luz da lógica filosófica, um inocente… E porque é, interroga-se Eme, que um assassino não é, filosoficamente, culpado? A resposta está contida na citação de Einstein: “Tudo é determinado (…) por forças sobre as quais não temos nenhum controle (…)”. Quer dizer, pensa Eme, que tudo o que existe, as coisas e os seres, e a forma como existe, tudo o que acontece ou não acontece, é o resultado daquilo a que, universalmente, chamamos Natureza. Naturalmente, os seres humanos não escapam a esta condição essencial: a sua existência, a sua evolução, as suas características, o seu comportamento, são determinados pela Natureza. Daqui decorre que o que chamamos de livre-arbítrio é um conceito útil e necessário à vida em sociedade, mas falso. As pessoas, verdadeiramente, não são livres de escolher praticar o mal ou o bem e é um absurdo pensar que os humanos se possam emancipar da Mãe Natureza. Esta, não sendo propriamente um modelo de virtude, é o que é: determinística, boa e má, acima de tudo misteriosa. Pelo menos é o que pensa Eme…

O JARDIM DA GUILHOTINA

António Mesquita

O Marquês de Sade na prisão
http://media-2.web.britannica.com/eb-media


"(...) quando foi preso sob a vigência de Robespierre, em Picpus, descreve nestes termos a sua estada: 'um paraíso terrestre; bela casa, soberbo jardim, sociedade escolhida, mulheres admiráveis, senão quando eis que o lugar das execuções é colocado positivamente sob as nossas janelas e o cemitério dos guilhotinados no centro do nosso jardim. Nós, meu caro amigo, retirámos 1800 em cinco dias, dos quais um terço da nossa desventurada casa."

"Sade, meu próximo" (Pierre Klossowski)


Estas cenas fazem-no ter saudades da Bastilha. Sade pode muito bem ter descrito nos seus romances um dos sistemas mais desesperados que alguma literatura já produziu, pois se serve dos instintos naturais para a destruição da própria vida. Mas diante dos sacrifícios exigidos pela deusa Razão, na versão ingénua do materialismo do século XVIII, tem de reconhecer que se podia ir muito mais longe no horror.

As fantasias assassinas do grande libertino encontram um eco surpreendente no "artificialismo" da Revolução, toda ela virada também contra a vida, tal como tinha sido antes, mesmo se se pensava atacar apenas um regime. Mas são ambas filhas do mesmo século, afinal.

Claro que as intenções dos jacobinos não eram simplesmente destrutivas: salvava-os o seu ideal humanitário, grande e vago, coisa que os distingue do famoso marquês, cujo ateísmo é, no fundo, uma provocação a Deus, para, paradoxalmente, obter dele uma resposta.

"O regime da liberdade, para Sade, não deveria ser - e não será de facto - nem pouco mais ou menos, a corrupção monárquica levada ao cúmulo." (ibidem)

O HORIZONTE AMEAÇADOR

Manuel Joaquim

Marcelo e Trump (https://goo.gl/images/EYpQJ8)

Quem acompanhar a situação internacional pela comunicação que é publicada, principalmente, em Portugal, fica sem perceber o que está a acontecer nos diversos teatros políticos do mundo. 

Ainda não passou muito tempo sobre as palavras de Trump de que estaria eminente a destruição da Coreia do Norte por ter na sua posse armas nucleares. Quase inesperadamente, Trump e Kim reúnem-se com pompa e assinam acordos que até hoje ainda não foram muito bem explicados. O que se sabe, para já, e à boca pequena, é que os exercícios militares dos EUA, Coreia do Sul e Japão, agendados para o próximo mês de Agosto, já não se vão realizar. 

Os EUA têm cerca de 30000 militares na Coreia do Sul, com o mais moderno material de guerra, incluindo armas nucleares, e, em termos de logística e familiares, mais de 200.000 pessoas. No Japão e Taiwan encontram-se também milhares de militares americanos. 

Pouco sabemos, porque a informação é muito escassa, certamente por razões políticas, das gravosas consequências económicas, sociais e ambientais do encerramento da base americana nos Açores. Mas o que se sabe é suficiente para podermos a avaliar as implicações da desnuclearização e desmilitarização da península coreana.

As acusações que se fazem à Rússia de interferir nas eleições de todos os países, de envenenar espiões, de tentar dividir o chamado ocidente, de boicote às trocas comerciais e a pessoas é o pão nosso de cada dia. Entretanto, há cada vez mais países a defenderem o fim dos embargos porque as suas economias estão a sofrer danos irreparáveis. Entretanto, está agendada uma reunião entre Trump e Putin para o próximo dia 16 de Julho na Finlândia. Naturalmente que vão discutir as relações entre os EUA e a Rússia e a situação no mundo.

A Europa está num processo de militarização impensável até há pouco tempo, através de Nato, com grande concentração de militares e de armamento, convencional e não convencional, mesmo junto das fronteiras com a Rússia. Sem que se saiba muito bem, militares portugueses estão a participar nestas movimentações, enquadrados nas tropas da Nato. A Rússia está a responder na mesma linha. Em alguns países da Europa, de forma metódica, estão a intoxicar psicologicamente as populações, desde as crianças nas escolas, contra a Rússia, como se fazia no tempo da guerra fria e do fascismo. Em Portugal, a luta ideológica segue na mesma esteira. Aproveitando o campeonato do mundo do futebol, os comentários de muitos são subliminares, desde falar que os jogos são na União Soviética, quando, no seu tempo, dizia-se que era a Rússia, que os jogos são disputados em determinada cidade que antes não existia porque o estádio só foi construído porque o presidente da câmara é amigo do Putin, para depois dizer que a cidade tem cerca de 400 mil habitantes, omitindo que tem pouco menos do que o dobro da cidade do Porto. 

O Presidente Marcelo foi encontrar-se com Trump aos EUA. O que encheu os jornais foram os cumprimentos, o vinho da Madeira e o Ronaldo. Não se comentou o que realmente trataram. Mas trataram de assuntos muito importantes, particularmente para os portugueses. Trataram do aumento das participações financeiras de Portugal para o armamento e estrutura da Nato. 

Merkel e Macron reuniram-se há duas semanas e acordaram criar uma nova força militar, de intervenção rápida, à margem de Nato, para responder a quaisquer necessidades urgentes em caso de perigos eminentes ou de socorro e, pelos vistos, Portugal anuiu a essa iniciativa. Mais compromissos, mais gastos militares, menos meios financeiros, para a saúde, para a educação e para outras coisas que fazem muita falta aos portugueses. Essas cabeças estão a tomar estas iniciativas porque estão com medo do que chamam de “perigo interno”: dos sindicatos, dos movimentos sociais, das alterações que estão a acontecer nas organizações políticas. Os perigos iminentes são de certeza estes. 

Os políticos que governam a Europa e o mundo são pessoas bem-falantes, simpáticas, vestem bem, sorriem, mas foram pessoas como estas que levaram a duas guerras mundiais. As crises do sistema levam à crise da democracia e são uma ameaça à Paz. A terceira guerra mundial tem estado no nosso horizonte.

Mas a Paz é possível.
  

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Digo-te com essa certeza inabalável que a História nos traz que a anteceder os grandes dramas, vivemos uma comédia gigantesca. Olho a perfeição e pureza dos teus olhos e recordo como dizias, «Hiroxima, meu amor», e só me lembro de uma nuvem, quase divina com a sua protuberância medonha a arranhar o limite celestial. Era a grande democracia a enviar um aviso de obediência, mas os homens tardaram em ouvir e, dias mais tarde, com mais amor ainda, voou Nagasáqui, também democraticamente. Depois sim, viveu-se a democracia na plenitude da paz que sempre nos traz o silêncio dos cemitérios. Era então o fim da tragédia, pensamos todos, antes tinha havido uma enorme e sorridente farsa irónica. Contudo, a democracia pede-nos sempre mais, exigente e avassaladora vive continuamente de comédias e dramas. Com amor levou uns quantos milhões da Coreia, outros tantos no Vietname e tínhamos democracias para todos os gostos, a francesa, enterrou um milhão de argelinos, a inglesa perdeu a conta a todos os que foi deixando na berma da estrada do seu império onde o sol nunca se punha. Com amor, sempre com muito amor. A democracia dos Judeus há setenta anos que semeia amor, este com a alegria de ser divino, numa farsa que torna a hipocrisia num berço angélico, num jogo de tiro ao alvo numa barraca de feira. Mas no nosso tempo, este que vivemos, hoje e aqui, a democracia presenteou-nos com algo mais comovente a que dá o nome de «comunidade internacional». Parece uma entidade abstracta, mas é real, formada por um conjunto de democratas que tomam decisões quando só trabalha a parte sanitária dos seus cérebros. E com amor, de novo com muito amor, a roleta russa voltou a girar, Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iémen, transformaram-se em enormes necrópoles, de terras silenciosas, de gentes em fuga, tentando escapar da democracia das bombas para as bombas da democracia. Tento fugir e só encontro lugar seguro no oceano azul do teu olhar, mas sinto o medo, o temor que me encontrem e me furtem o que me resta da alegria da vida. Tento escutar o som do mundo dos sonhos, mas as palavras também escondem outros receios, ocultos e enredados nelas. “De facto, há muitos elementos dissuasores que impedem que as vozes cidadãs cheguem onde devem chegar para ser ouvidas. A comunicação de que muito se fala, torna-se tantas vezes uma ilusão. É este o problema da democracia hoje, tão mergulhada em crises e perplexidades, porque faltam instituições mediadoras, que impeçam a teoria do número, do imediato e da indiferença” (1). É de ilusões que nos falam e de mediação, algo ou alguém que se interponha entre as bombas e o amor humano e, oculto no interior dos teus olhos esmeraldinos, lembro aquela poesia que de tão clandestina na democracia sinto medo de entoar, “eu quero cantar/ cantar uma canção/ feita de sol e de mar/ feita só com o coração”. (2). Todas as noites há uma criança que grita, apavorada, perdida, longe de casa e com a mãe a ser levada para essa prisão do mundo onde nos encerra a democracia. É numa fronteira, numa qualquer linha do mundo que separa os povos e foi democraticamente traçada pela «comunidade internacional» essa plêiade de sábios que habitam uma casa vazia onde só existe uma sanita, na qual despejam o seu cérebro insalubre. Pensávamos que todas as nossas lágrimas se tinham esgotado nas areias de uma praia turca perante o olhar atónito com que víamos o rosto meigo de Aylan Kurdi beijando as ondas, lentas e suaves que lhe lavavam a face, mas não, era apenas uma parte da comédia que antecede a tragédia o drama que está para chegar, vivemos apenas ainda o tempo da impostura. A democracia revela-nos as suas capacidades e surpreende-nos sempre. Éric Vuillard revela-nos, de forma brilhante, num dos seus livros, a comédia de outros tempos, tão idêntica, tão parecida, com a que vivemos. Num capítulo a que, com sarcasmo, deu o título de «Música no Coração», mostra-nos com profunda e magoada ironia os austríacos em 1938, “A 15 de Março, diante do palácio imperial, a toda a largura da praça, até à grande estátua equestre de Carlos de Áustria, a multidão, a pobre multidão austríaca, enganada, maltratada, mas em última análise aquiescente, está ali para aclamar. Quando se soerguem os horríveis andrajos da História, é isso que se encontra: a hierarquia contra a igualdade e a ordem contra a liberdade. De modo que, induzida em erro por uma ideia de nação mesquinha e perigosa, sem futuro, esta imensa multidão, frustrada por uma derrota precedente, estende o braço para o ar. Diante dela, da varanda do palácio de Sissi, com uma voz terrivelmente estranha, lírica, inquietante, eis que Hitler conclui o seu discurso num grito rouco e desagradável. Vocifera num alemão muito próximo da língua que será mais tarde inventada por Chaplin, feita de imprecações, e em que apenas se distinguem algumas palavras dispersas, «guerra», «judeus», «mundo». Neste ponto, a multidão uiva, é numerosíssima. (…). As aclamações são tão unânimes, tão poderosas, brotam com tamanha intensidade, (…), …vieram militantes nazis de toda a Áustria, prenderam-se os opositores, os judeus, trata-se de uma multidão escolhida, expurgada; mas os austríacos estão de facto lá, não se trata apenas de uma multidão cinematográfica. Estão lá aquelas jovenzinhas alegres, de tranças louras, está lá aquele parzinho que grita a sorrir – ah todos aqueles sorrisos! Aqueles gestos! As bandeirolas que estremecem à passagem do cortejo! Nem um só tiro foi disparado. Que tristeza!” (3).  Percebes agora porque me escondo no teu olhar, me oculto do medo, eles voltaram ou nunca chegaram a sair. Não me fujas, não me abandones ao tropel desta horda. Enquanto me falarem de democracia e de bombas, de democracia e crianças a chorar de pavor nas fronteiras ou a morrer em silêncio nas praias do mundo, de democracia e salários baixos e de trabalho sem dignidade, de democracia e tortura, prefiro viver esquecido no interior do teu olhar o único refúgio seguro num mundo de vilania, observando a pequena figura de Régio, sentado e protegido por uma das colunas do Diana Bar, enquanto escreve, o que quero dizer, “Sei que não vou por aí!” (4).  
– Guilherme D’Oliveira Martins em crónica no JL, «Resistência e emancipação» comentando o livro de Lídia Jorge, “Estuário”. 
Pedro Barroso
Éric Vuillard em “A Ordem do Dia”, D. Quixote, Alfragide, Abril de 2018. Prémio Goncourt 2017
José Régio em “Poemas de Deus e do Diabo”.

A luminosidade do dia inunda o horizonte e a alma, a minha, que não se cansa de procurar a tua. Largam barcos de um cais universal num rio de sonhos e saudades adiadas. Carregam quimeras que a vida gera no nosso pensamento inquieto. Procuro embarcar, fazer parte desta armada, quero desdobrar velas, segurar lemes, aproar futuros. Quero alcançar as largas portas do infinito, içar bandeiras, desembarcar nas praias arenosas onde vive a alegria de um mundo perdido e encontrar-te. Sim, encontrar-te. Afinal é a ti que procuro.

Uma notícia do JN diz-nos que a Ópera de Budapeste cancelou a apresentação do musical “Billy Elliot”, por imposição das notícias veiculadas pelo jornal Magyar Idök «que defendeu, em diversos artigos, que os jovens que vissem a apresentação se arriscavam a “converter à homossexualidade”». A acreditar no Magyar Idök, está a acontecer o que mais temia, a homossexualidade é contagiosa. O jornal só não nos esclarece como ocorre o contágio, mas presume-se das suas palavras que será através de uma espécie de célula cerebral. «O artigo também acusou o trabalho de "propagar" a homossexualidade de uma forma que "afecta o subconsciente de menores, apenas numa idade em que você ainda pode influenciar sua inclinação"». Como todos sabemos, desde 1990 a Hungria vive numa verdadeira democracia, como aliás, está sábia dissertação do Magyar Idök bem demonstra.                   




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