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01/09/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Vila do Bispo. Prossigo o caminho, mas afastada da via férrea, o que me entristece o olhar, mas a Costa Vicentina reclamava a minha necessidade de infinito. No comboio descansamos o corpo e a alma e a natureza corre em sentido oposto ao nosso criando-nos a ilusão que vamos ao encontro do seu passado. Os seres humanos são os únicos que no planeta podem, na sua vida, olhar para a viagem da história, conhecer, analisar e reconstruir a vida humana até ao momento em que se encontram, mas nunca saberão o que ocorrerá após o final da sua viagem, a qual parece mais uma visita do que um tempo de vida. Por estas terras litorais e atlânticas também do tempo pretérito sabemos, podemos recuar a Idades como a Calcolítica ou do Ferro, como a vivência humana por aqui se instalou na recolha de metais entre a pré-história e o nascimento da escrita e da sedentarização. Em Cercal do Alentejo, falaram-me de barita, manganésio e manganite, por vezes quartzo, minerais ferrosos, mas aqui explorados já num tempo menos tardio. A vila não me cativou, não encontrei aquela chama escondida que nos impele para o desconhecido e preferi a aventura marítima de Vila Nova na foz do Mira. Com rio e mar é como atrair por sucção povos do passado que à aventura do comércio e da rapina andavam. Dos Fenícios e Cartagineses aos Gregos e Romanos, o território da hoje Vila Nova, foi sustentando a permanência de povos e gentes, somando conhecimento, vivências e culturas que enriquecem a comunidade do presente. Naturalmente que se seguiram Alanos e Visigodos a quem o Califado Omíada havia de afastar. Cinco séculos depois chegaram os monges-soldados da Ordem de Santiago com quem vimos tropeçando a cada passo da nossa caminhada. Não falta história a esta povoação que hoje em dia agrega mais de cinco mil pessoas. Os meus olhos estão presos na cor da água, a alma vai-se perdendo em lembranças de quem não vemos e entre hoje e o amanhã, apesar dos nossos passos já nos orientarem para Sul ainda procuramos uma pequena casa que há muito nos atraiu e encantou. Havia qualquer coisa de sublime naquele pequeno recanto de uma parede branca com duas janelas e uma porta. Lá estava, sem mudar de lugar, a buganvília continuava viçosa, mas sem flor e uns ramos débeis erguiam-se ornamentando a entrada. Com o sorriso que nasceu, e as lembranças que chegaram, quase não senti o tempo que me levou até à falésia do Farol do Cabo Sardão. Estes edifícios que residem solitários sobre o mar numa vigília mútua atraem-me como uma vertigem. A beleza da paisagem marítima, a solidão que nasce de ermos lugares, com os silêncios ventosos que chegam, inserem em nós um sentimento aconchegante de ternura. É como uma espécie de eternidade que nos rodeia, nos enleia em abraços e nos deixa num misto de querer e não poder, seja o que for. Acode-me à memória o pensamento de Unamuno quando perante mares de beleza, sente a necessidade de um amigo com quem pudesse comungar daqueles instantes emocionais e, ao mesmo tempo, receia que a sua presença possa abalar tudo o que sente. Unamuno decidiu-se pela solidão. Aspirar o aroma em momentos em que a paisagem nos coloca num limbo entre o ser e o não ser, carece de solidão da alma e outro, que não nós próprios, sempre pode diminuir a sensibilidade que nos arrasta e não sabemos definir. Só alguém que pudesse ser a parte que nos falta ou que nos completaria, poderia acrescentar mais beleza àquela que estamos a viver. Estes espaços terrenos em que a terra alcança o mar e lhe veda a passagem, são perfeitos para que no sossego ambiental que nos cerca, a memória vá abrindo arquivos, fechando e abrindo gavetas, fazendo leituras serenas de outros tempos e das pessoas que foram surgindo ou passando na nossa vida. Mal ouço o bulício das ondas tentando vencer a rudeza da muralha que se ergue na sua passagem e acreditei ver o dia em que chegamos à estação à beira-rio, e os nossos passos foram até ao final do cais onde passamos para o carreiro de terra. Quis acreditar que só nós estávamos presentes, enquanto deixávamos o olhar pousar nas pequenas rosas que ladeavam o caminho, e assim fomos subindo ladeira acima. No regresso, enquanto obtinhas uma fotografia, ainda ouço o teu grito de admiração por veres surgir o comboio, como um fantasma misterioso, naqueles segundos em que atravessava a ponte quase submersa pelas águas do lago, num viajar de silêncio. De silêncio era todo o ambiente que vivíamos, como se nos isolasse do mundo. Que te posso dizer de Odemira neste postal de tão curto tamanho onde só cabe um grão de sumo de tudo o que vem ao encontro do meu olhar. Ao rodearmos a retenção de águas de Santa Clara deparamos com uma espécie de cenário como um silêncio parado, uma quase natureza morta subtraída de uma obra de arte. A hora do dia, as sombras de um sol afadigado em recolher-se e a cor das águas em contraste com a que, indefinida, pousava nas pequenas colinas que as abrigam. De longe vem a ocupação humana das terras de Odemira e a sua designação derivará das línguas, árabe e pré-céltica, de cuja junção das palavras terá irradiado o nome que hoje conhecemos. Foi ao longo do tempo terra de lutas e combates e em 1920 já o poder escrevia sobre que, por aqui, «se desenvolvem extraordinariamente as ideias mais avançadas, nocivas e perigosas ao sossego, à tranquilidade pública e ao próprio regime». Cativa-me a Capela de Nossa Senhora do Mar, pela brancura, aquele branco brilhante que reluz de forma intensa e uma espécie de arco romano duplo desenhado nos contornos da porta e que entre as duas linhas paralelas abriga pequenos orifícios que expandem a luminosidade para o interior. Perturba, pelo deslumbramento, o contraste entre o branco e o azul. Que dizer da pequena Aljezur se o meu olhar já descia apressado rumo a outros horizontes! Aqui já não é possível esconder no subterrâneo do esquecimento a presença árabe. Chegamos ao Algarve que fica entre a serra e o mar entre o Atlântico e o Mediterrâneo e à Vila do Bispo que afinal não chegou a ser. Os meus passos já não me levam mais longe do que este lugar, mas sinto o cheiro da linha ferroviária que em breve vou reencontrar. O postal segue amanhã, pois não tenho luz para as palavras que escrevo.

PEQUENOS GRANDES

Mário Martins


https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&sca_esv=2a69430fbf050389&sxsrf=APpeQnu94FVVfv-vFWbNqniZKYPz0wK3WQ:1786808956007&q=PEQ+E+GRANDES


Tal como os homens, os países não se medem aos palmos.

É, de facto, deveras surpreendente e inesperada a resistência arrogante da ditadura religiosa iraniana ao colosso americano, que já havia claudicado no Vietname e no Afeganistão.

Como é o desafio do partido religioso armado, no Líbano, à potência militar e pária nuclear sionista.

E o mesmo poderíamos dizer do partido religioso, outrora financiado, entre outros, por Israel, numa Gaza reduzida a cinzas.

E o que dizer do líder ucraniano, que preferiu, ao “táxi”, apelar à resistência nacional contra a invasão da superpotência militar russa, que já havia sido derrotada no Afeganistão?

É verdade que a guerra é uma constante da história humana (como são, aliás, os tempos de paz nos seus intervalos), mas nem por isso deixa de ser dolorosa para os que, de uma maneira ou doutra lhes sofrem as consequências.

O palco político mundial é dominado por três governos rivais: um errático “Tio Sam”, que considera o hemisfério ocidental a sua “quinta”; um “Urso” imperial; e um “Império do Meio” voltado para fora. A União Europeia, cuja fraqueza é tantas vezes salientada, com a sua diversidade cultural e linguística bem funda, e objectivos contraditórios, é incomparável a governos de unidade nacional.

A Natureza autoriza a guerra, o assassínio, a predação e a violência em geral, contra a nossa melhor moral. Contradição grave, mas sobretudo incompreensível.

                         

POESIA

Helena Serôdio



 

ROTA INCERTA

Não sei quem sou,
Nem donde vim,
Não sei se fico,
Não sei se vou...
Um barco trouxe-me um dia
Dos extremos confins do mar..
O mesmo barco, decerto,
Um dia me há-de levar.
O meu barco anda perdido,
Sem saber onde aportar,
Não tem rumo definido,
Nem leme para o guiar...
Não sei, por isso, em que mar
O meu destino navega,
Nem qual o porto de abrigo
Que poderá escalar...
O meu barco é vagabundo,
Não sei aonde me leva
Nem sei se irá naufragar!..

O QUE SE PASSA NO MUNDO

Manuel Joaquim


O orçamento da U.E
(https://share.google/3eTCoGqLJiv1ceYRF)


O derrotado nas últimas eleições presidenciais ao participar na chamada universidade de verão do PSD realizada em Castelo de Vide criticou o clima de crispação que se vive no país, dizendo que “parece que vamos ter eleições nos próximos meses” e pediu ao governo e à oposição humildade democrática.

O líder da bancada do PS, duas semanas atrás, disse que o primeiro- ministro estava esgotado e sem projecto para o país. O secretário-geral do PS, entre outros assuntos, diz que aguarda o orçamento de estado para 2027.

Devemos ter presente que este governo existe por o PS ter deixado passar o orçamento para 2026. Os dois últimos orçamentos passaram com a posição assumida pelo PS. E como não há duas sem três, vamos aguardar para ver se assim é. Fomento de ilusões e falsas alternativas para enganar as pessoas estamos habituados ao longo dos anos.

O governo sabe o que faz e é eficiente na garantia de canalização directa de grandes recursos para o grande capital.

O pacote laboral foi derrotado mas os que mandam no governo não desistiram. Em lugar de aumentarem os salários querem continuar a apostar em baixos salários como factor de competitividade. Todos sabemos que o salário actual  é insuficiente para garantir níveis de vida mais decentes. Os reformados e pensionistas debatem-se com a erosão das suas condições de vida. A inflação que é sentida por toda a população através dos preços que pagam é uma transferência de rendimentos para o capital e é um imposto sobre o consumo. A inflação castiga mais quem tem menos.

O que se passa com o ensino, com a saúde, com a justiça, com investimentos públicos, com o INEM, com submarinos e fragatas, com os processos de privatização que pouco se fala, é um lote cheio de problemas que cheiram bem mal pelo que este governo é um verdadeiro desastre para o país e para os portugueses. Para já o governo vai aumentar em 0,5% a taxa do INEM que incide sobre seguros. O governo a mando da EU pretende abocanhar as receitas e reservas da segurança social e fundos de pensões. A EU está aflita com falta de capital para responder às suas responsabilidades financeiras já assumidas e as que vai ter que assumir. A proposta de orçamento da EU 2028-2034 vai sofrer profundos cortes por imposição dos 6 chamados países frugais.

Se olharmos para o que se passa no mundo vemos coisas que nos obrigam a pensar.

O governo argentino, liderado pelo tal da motosserra e beijocado por alguns dirigentes políticos portugueses por ser ultra liberal, defendendo que o estado não deve interferir no sacrossanto “mercado”, assumiu um programa económico financiado com os fundos de pensão. O governo está a intervir no mercado para recuperar a economia.

Os países baixos (Holanda) por falta de dinheiro volta a tentar utilizar os fundos congelados da Rússia só que se o fizer assumirá consequências como já foram avisados.

A situação nos EUA não é brilhante em todos os aspectos. Manifestações, protestos, desencanto com a situação económica e social, professores terem como habitação as suas viaturas, vivendo como sem abrigo, o desemprego a crescer.

O processo eleitoral a ser discutido nos tribunais, particularmente o problema dos votos por correspondência, com o argumento da possibilidade de fraudes nas eleições.

A dívida pública dos EUA, para não falar nas dívidas privadas, atingiu níveis impagáveis. Como vai ser?

Trump vai anular o processo eleitoral?

Trump vai anular a dívida externa americana?

UMA VISITA AO MUSEU

António Mesquita


(Gare de Austerlitz, Nadir Afonso)


"Em qualquer assunto, cingir-se à "verdade", fundar-se na pura observação, tem por efeito paradoxal conduzir à inconsistência total."
(Paul Valéry)


Há dias estive em Chaves, terra natal de Nadir Afonso - a casa onde nasceu está em ruínas, junto à ponte romana - e pude revisitar o Museu que lhe é dedicado. Foi inaugurado em 2016 e é obra de Siza Vieira, cujas aguarelas, de excelente qualidade, estão patentes no primeiro espaço. O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso está situado na margem direita do Tãmega e ao fundo dum grande espaço relvado.

Nadir, nome que vem a calhar para o tipo de pintura que ali encontramos, no sentido de que sendo arte abstracta podia dizer-se que é o ponto mais baixo do realismo. O pintor teve outras fases, em que o figurativo ou o bilhete postal revisto ou transfigurado da cidade do Porto é o tema de dezenas dos seus quadros.

Mas, ali, em Chaves, o abstracto, à Kandinsky  domina em absoluto, dando a falsa ideia de que o pintor não teve outro passado. Pode-se imaginar que o realismo ou o expressionismo  do primeiro período  o levaram a uma espécie de castidade em que o mundo que nos rodeia e que é objecto do nosso desejo, da nossa experiência, já só podia ser aludido de muito longe. Porque o seu tema predilecto é a cidade, que é nomeada, nunca podendo ser confundida com a fotografia ou com o lugar-comum, o hábito que sempre nos escamoteia a realidade. 

A alusão, a conotação quase, é um pedaço, uma pequena parte da geometria da obra. Mas é o suficiente para nos envolver num jogo de identificação que nos leva, se calhar, para longe da arte e do seu sagrado (a história obriga-nos a empregar este termo).
Nisso, a arte moderna trabalha no mesmo sentido do turismo de massas  que "banaliza a experiência humana, reduzindo a natureza, a arte e a arquitectura a espectáculos instagramáveis" (Stuart Jeffries). Aqui não é para o álbum de viagem, mas para a curiosidade identificadora, o "quiz". Muitos quadros sem título pedem uma interpretação.

Ninguém melhor do que Paul Valéry diagnosticou os impasses da arte:

(...) Em suma, todo o pensamento, a partir de agora, poupado ao artista, com toda a cultura, de ora em diante, mais prejudicial do que inútil, toda a exigência reduzida à das reacções da retina, o "mais ou menos" das formas, e todas as dificuldades de detalhe escamoteadas, - uma engenhosidade incrível nas explicações, e mesmo uma apologia destes falhanços, - e todos estes males se estendendo da paisagem à figura humana, por uma espécie de contágio da facilidade; enfim, a negligência técnica à qual o hábito do trabalho imediato no campo é por de mais favorável, a ausência de preparações, o emprego de rudes procedimentos, - tais são, parece-me, os efeitos demasiado lamentáveis de muito bons exemplos e de admiráveis produções."

Valéry escreve a propósito de Corot ("Autour de Corot"), o admirável paisagista que, trabalhando com paisagens imaginárias, não sofre as facilidades do improviso no campo. Mas, sobrerudo, é a comparação com o cânone florentino e os pintores do Renascimento, com a sua arte laboriosa, o seu gosto da composição, mesmo um maneirista como Paolo Veronese surge nos antípodas da técnica facilitista dos impressionistas e das escolas que se lhes seguiram.

O desafio dum medium como a fotografia (Nicéphore Niépce registou a primeira imagem em 1826, muito antes de nascer Claude Monet) estará por detrás da necessidade de encontrar novas formas de representação na pintura. Quem pode competir na perfeição do detalhe com uma fotografia?

Hoje, o computador e a IA  levam esse desafio a extremos inimagináveis uns anos atrás. Podem-se simular todos os estilos de pintura e criar novos estilos, como se nada fosse.

O Nadir do último período não pode ser acusado de pintar o que vê numa reacção simples da retina, como diz Valéry, e a fotografia não se pode confundir com o seu trabalho. Mas o domínio do algoritmo faz dele um arcaísmo...muito aprazível.

01/08/26

229

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Miróbriga. Ao deixar Alcácer não consigo apagar a lembrança da tua presença, como se se colasse à pele, fizesse parte de mim. Fiquei cativa da tua recordação e em cada lugar reencontro o farol do Cabo da Roca, emergindo com a sua luz pela noite que se abre no silêncio da tua ausência e os meus olhos tornam-se num lago onde viaja o navio da tua alegria. Regressei ao comboio e o deslizar sereno das rodas nos trilhos, apazigua o ânimo que esmorece. Entro em Grândola com interrogações sobre a vida colectiva. Será ainda a “terra da fraternidade” onde podemos encontrar “em cada esquina um amigo”? Deambulo pelas ruas mais antigas e a resposta parece não chegar. Encontro a Sociedade Musical Fraternidade Operária, mas nem aqui sinto as palavras que procuro. Talvez o mundo já não esteja receptivo aos sons de instrumentos que a humanidade criou para o bem-estar da alma e devaneio do pensamento. O ruído é muito, mas quando nos detemos para escutar, a musicalidade advém só da vontade aterradora de bombas a tombar, sobre os povos, os lugares, o património, o passado de civilizações milenares. Os fanáticos do partido do chapeuzinho, estrangulam o futuro de um povo, dilacerando as suas crianças. Sem elas, o amanhã será um vazio e as mentes enfezadas dos seus algozes querem-nos fazer acreditar que é matando que alcançarão o reino de Deus, do seu, naturalmente. Um deus concebido ao nível da mais impiedosa maldade humana. E dizem-se felizes no interior desse charco de sangue que todos os dias alimentam. E os poderes do mundo, mergulhados num silêncio aterrador face a gigantescos crimes, prestam vassalagem a esse deus maldito que é o dinheiro dos degenerados que transformam matanças em actos divinos prometidos, alimentando assim, as suas vaidades, a sua incultura, o seu desprezo pelos povos que dizem governar. Chamam a este antro miserável onde vive a sua ética e a sua moral, democracia. É um tempo de destempero que quase apaga a serenidade das cores vivas e claras das paredes do casario que reina nestas ruas que vou percorrendo desta “Morena” urbe que já viu dias melhores na sua longa vivência centenária. Da exploração mineira ao cultivo de cereais foi terra de paragem mais do que de partida das gentes. Por agora, vai caminhando na serenidade do estio alentejano. Quando procuramos no passado, aparece-nos uma vez mais a presença do império, tão comum de Norte a Sul do país, mas da presença árabe parece não se encontrar rasto. Para onde terão ido os cinco séculos da vida que aqui tiveram os povos vindos do Norte de África! Será que nada deixaram ou somos nós que não procurando apagamos séculos de história?  É ainda o comboio que de novo me leva para Ocidente para a proximidade do mar. A estação que deixo aparece-nos com um prédio limpo de luz clara pela brancura das paredes, mas de portas e janelas encerradas. Edifícios com tanta beleza surgem ao nosso olhar com a inércia do abandono e da inutilidade enquanto vão definhando pelo desgaste do tempo. O mesmo acontece na cidade de Sines até onde o comboio não me leva. Sines é hoje um grande polígono industrial que tudo apaga em seu redor, inclusive a vida da terra onde se implantou. Foram estas terras, das Ordens Militares, mais precisamente de Santiago da Espada. Eram monges guerreiros. A palavra falava pelo fio da espada, sempre e necessariamente pela vontade divina, da qual se assumiam como seus executores. E assim, matando e catequizando tornaram-se donos de poderosos senhorios feudais. Também povoavam o território, não por falta de gente, mas para substituir os que enviavam para a eternidade e para controlar os moçárabes de cuja fé duvidavam. Nada que não conheçamos no nosso tempo presente. Neste território urbano, em diversos locais nos é lembrado o navegador que foi Vasco da Gama que por aqui terá nascido. Além de figurante da nobreza viria a ser um senhor feudal e só um temperamento aventureiro, audaz e de desprestígio para com os povos que viria a encontrar no Oriente, se permitiu agir como senhor absoluto submetendo-os a bem ou a mal, o que quer dizer, por boas palavras ou a canhonaço. Assim se erguiam os impérios. Quando o dia se apruma para o final, descanso nas ruínas do primeiro grande império europeu. No declínio da luz, o pensamento aborda-nos com maior lucidez sobre o tempo em que vivemos, sobre a amargura com que a humanidade vê como os impérios de hoje, tal como os do passado, vão desaparecendo e só ruínas como as que me rodeiam, restarão para falar dos seus feitos e das suas misérias. No reino do orangetão a violência das armas continua a carimbar as atrocidades dos que acreditam ser os senhores da vida e da morte. Nas margens do Dnieper continua a romaria daqueles que desenfreadamente batem nos tambores da guerra, fazendo-nos recuar a memória até Munique em 1938 quando a coisa chamada social-democracia abriu-se em sorrisos e apertos de mão para com o sátrapa de Berlim que levou o mundo até ao abismo. À sombra da monumentalidade do Príncipe Vladimir, vão distribuindo agora abraços, beijos, sorrisos abertos e todos os que por ali passam têm algo em comum, ou acabam demitidos ou se demitem, daí a nossa admiração quando num dos últimos retratos não resistimos a dizer, também tu, Marta? Há momentos na vivência humana em que a roda da história acelera, rodopia a um ritmo que a qualquer momento se pode descontrolar e os aprendizes de feiticeiro que governam a Europa, embarcados na nave do homem laranja, mergulharam num pântano de lama do qual já não é possível sair. Para que a geração seguinte possa viver, talvez o círculo da loucura em que estamos, possa deter o seu movimento; pese embora, a manipulação dos povos e as escolhas destes pareçam indiciar que a bússola gira no sentido oposto. O postal deixo-o em Santiago.

ATENA DECAPITADA

António Mesquita


Christopher Nolan dá-nos nesta novíssima versão da "Odisseia" o prazer mais puro do cinema. Homero não está em questão. O nosso conceituado tradutor, Frederico Lourenço (disse-o num  podcast por outras palavras) não quer arriscar com a visão deste 'blockbuster' perder a sua própria intuição da obra-prima de Homero. E concordo que o seu conhecimento é superior e mais genuíno para estar à altura de traduzir o texto grego.

Mas Nolan tem uma paixão pelo cinema - a prova está na sua carreira, com filmes como "Oppenheimer" ou "Tenet" - que o leva a experimentar novos caminhos que passam tanto pela técnica ( o IMAX que obriga a carregar uma câmara de 100 kgs e a fazer kms de 'takes' de 3 minutos para alcançar uma definição dupla dos filmes de 35mm) mas também pelo método narrativo.

A tomada de Tróia é um puro êxtase cinematográfico, em que a poesia dos grandes clássicos da literatura grega é convertida em imagens inesquecíveis. A iluminação, a filmagem do fogo, com recurso a processos inovadores nem sempre digitais permitem, nesses momentos privilegiados, viver a acção  com a intimação do sonho.

O filme é, evidentemente, desigual. A queda de Tróia, o episódio de Polífemo  ou o dos ciclopes que utilizam toda a sabedoria do cinema com a elipse, o fragmento que nos obrigam a imaginar, isto é, a participar na criação da obra, vão a par de cenas menos conseguidas como a do célebre cavalo  na praia (embora da narrativa constem  jóias de realismo, como o pormenor dos embuscados dentro da estátua, sofrerem, nesse confinamento, durante horas, o fedor da urina e das fezes que não podiam lançar para o exterior) ou a ilha em que um leão, um tigre e outras feras surgem aos olhos do espectador como uma filmagem do jardim zoológico. 

A recorrência das imagens mais marcantes da conquista da cidade espartana podia ser dispensada, se o espectador soubesse ler a primeira apresentação. Por exemplo, a estátua decapitada no tumulto da refrega representa Atena e com essa cabeça decepada, o Ulisses de Nolan reflecte sobre a grande desgraça da guerra, o que quer que Agamemnon, o chefe dos exércitos pensasse. 

Este Ulisses não é o herói das versões anteriores - estou a pensar em Kirk Douglas - que se descobre no final para atingir os pretendentes com as flechas certeiras do seu arco - que mais ninguém consegue dobrar. É um homem sem ilusões, tirando a dos deuses a que não poderia escapar, modesto e humano ao ponto de ouvir os outros.

Não, isso não podia estar em Homero. E depois? Quem podia esperar que um mortal que fez um filme em que os soldados gregos da famosa epopeia dizem O.K. e falam americano pudesse   realizar o milagre de superar os quase três milénios que nos separam da história do vate dos vates?

Uma palavra sobre a música do sueco Ludwig Göransson. Não fica no ouvido  porque não é melodiosa. Podia ter sido escrita por um dodecafonista, um cultor de Hip-Hop ou R&B e soul. Mas tem o grande mérito de servir as imagens sem nos distrair delas. Nessa função, responde à figura do herói de Nolan que Matt Damon cumpre sem génio mas com toda a eficácia.

A minha resposta aos escrúpulos de Frederico Lourenço é a de que é necessário, depois do entretenimento, voltar a ler Homero.

A "resposta" turística é visitar o Peloponeso.

NOITE SEM CLASSES

Mário Martins

 

Noite de S. João, 1960 – Teófilo Rego

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A noite apelidada de S. João, mas que, na verdade, celebra o advento do solstício astrofísico do Verão, é, genericamente, uma noite sem classes, em que se misturam, na rua, pobres e ricos, exceptuados os que, por razões várias, preferem ficar em casa.

 

O que mais surpreende é o contacto físico, embora fugaz, entre desconhecidas gentes “tripeiras”, refiro-me à “Antiga, Mui nobre, Sempre leal e Invicta cidade do Porto”, onde nasci e resido, como se fosse a minha casa. Nesse contacto momentâneo, em que se deixa cair a máscara, é a igualdade humana que se manifesta.

 

Quando eu era pequeno, os meus pais sempre me levaram à noite de S. João, ao tempo concentrada na baixa e nas Fontaínhas. Usava-se o alho-porro, cuja cabeça pousava, brevemente, na cabeça dos passantes, e o ramo de cidreira para dar a cheirar às meninas e senhoras. Mais tarde, o cumprimento sanjoanino passou a ser feito pelo martelo de plástico, com o seu característico ressoar na noite.

 

Na minha rua, um meio pobre ou remediado, com o santo de barro na mão, instávamos os passantes a dar-nos um tostãozinho para o S. João, enquanto na quinta ao lado se fazia a degola dos inocentes, para, no dia, as “donas de casa” prepararem a assadeira com o anho e as batatas, e a levarem, coberta com um pano, ao forno da padaria. À hora de almoço, voltavam â padaria para levantarem a sua assadeira. Em casa, trinchava-se, sem remorso, o produto do sacrifício sanjoanino.

 

“Meu senhor, dê um tostãozinho para o S. João. Oh! dê…”

PIRATARIAS

Manuel Joaquim




Ao longo da História deparámos sempre com a actividade de piratas que assaltavam embarcações nos mares para roubar mercadorias e afundarem ou apoderarem-se das próprias embarcações. Muitas vezes faziam-no com o apoio dos próprios governos (reis) com quem dividiam os respectivos espólios. Eram os corsários dos mares. A Inglaterra, a França e a Holanda tiveram uma grande experiência nessa actividade.

Durante o século XX, a pirataria esteve sempre presente nos mares, apesar de pouco falada, comandada por organizações de traficantes. As companhias de seguros que faziam e fazem seguros marítimos de danos de cascos e de mercadorias sempre tiveram registo de sinistros nestes ramos de seguros. É muito difícil, se não impossível, fazer peritagens a sinistros acontecidos em alto mar. Barcos “afundados” sem o serem, pintados de novo e com nova identificação, mercadorias “roubadas” no alto mar transferidas para outras embarcações para serem vendidas em contrabando por baixo preço, com as indemnizações pagas pelas seguradoras e resseguradoras.

Há uns tempos falou-se muito de assaltos a cargueiros nos mares do oriente, obrigando vários países a patrulharem esses mares. Pequenas embarcações com pessoas armadas assaltavam os barcos e roubavam mercadorias e outros bens. Parece que com a guerra no médio oriente essas actividades decresceram ou simplesmente desapareceram.

Hoje temos pirataria no Atlântico, no Báltico e no Mediterrâneo por países da União Europeia, particularmente pela Inglaterra, França e Países Baixos (Holanda), (os mesmos de séculos anteriores) sobre embarcações ditas fantasmas por não estarem registadas nesses países e os seguros não estarem em Londres e por transportarem petróleo da Rússia. Os assaltantes roubam o petróleo e vendem-no. Nesse seguimento, património é confiscado na EU e Inglaterra de cidadãos e de empresas russas e bielorrussas. Os autores estão identificados e naturalmente que as vítimas vão ter que ser indemnizadas. Quando e como não se sabe.

A União Europeia acabou de aprovar o 21º pacote de sanções à Rússia. A proposta inicial sofreu desta vez mais alterações do que aquelas que eram de prever. Além de outras situações, foi retirada por imposição da Grécia a proibição de transbordo de GNL russo para outros países e impedida por Portugal a proibição de importação de peixes russos, designadamente de bacalhau. O fiel amigo vai continuar a frequentar a mesa dos portugueses, apesar de estar a atingir preços cada vez mais altos. Entretanto já está a ser preparado o 22º pacote de sanções para ser aplicado lá para o mês de Outubro a mais 1600 empresas. A Rússia, neste momento, sofre mais de 30.000 sanções, situação inédita na História. Tudo aponta que quem sofre mais com estas sanções são os próprios países da União Europeia que deixaram de ter disponíveis grandes mercados para exportações e fontes de energia mais baratas.

Portugal não consegue exportar o vinho nas quantidades desejáveis. As uvas no Douro, este ano, vão ficar nas videiras. Não há quem as compre. A indústria de cerâmica portuguesa não é a primeira vez que pede socorro ao governo por causa dos preços incomportáveis da energia e tendo à perna a concorrência da indústria indiana. Emprega largas centenas de trabalhadores cujo desemprego pode estar à porta.

Alemanha vai encerrar fábricas, designadamente VW e BMW, com milhares de trabalhadores a caminho do desemprego. Compra gás mais caro 500% do que comprava anteriormente à Rússia. Os incêndios em Portugal, na Espanha e na França também sofrem consequências. Portugal e Espanha não podem usar helicópteros russos KAMOV por impedimento da EU. São mais eficazes e mais baratos dos que estão a ser usados que carregam menos 30% de água.

As pessoas devem estar atentas às alterações legislativas que o actual governo pretende publicar, sobre a Prestação Social Única e quais as forças políticas que apoiam ou são coniventes com essas alterações. Será menos protecção social e mais pobreza.

Como devem estar atentas ao que pretendem fazer, por indicação da União Europeia, com os fundos da Segurança Social, com pensões sociais, com depósitos a prazo e outros depósitos bancários. A indústria da guerra está sôfrega de  dinheiro.


POESIA

Helena Serôdio




QUANDO...


Quando te vi surgir, qual sol ardente,
Envolvido num halo deslumbrante,
Quando tive na alma a luz fremente
Da chama dos teus beijos, triunfante;

Quando te pressenti todo tremente
De ternura e carinho suplicante,
E teus lábios, num beijo que não mente,
Tocaram minha boca insinuante;

E quando, enfim, trouxeres a eternidade
E tornares imortal a natureza
Das minhas ilusões sem realidade,

Viverei este amor que me domina
Vencerei as barreiras da incerteza,
Terei, então, cumprido a minha sina!

01/07/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Alcácer do Sal. Creio ter sido Sophia, a nossa poetisa inesquecível de quem nos privaram do usufruto dos seus Jardins onde convivia na serenidade do mundo poético com a galega Rosalia, que disse um dia que viajar é olhar. Muitas vezes viajei por outro dos seus jardins, os da infância, onde, tal como agora, pensava que as separações nos privam sempre de algo que faz parte de nós. Ficaste em Azóia e pensava que ainda me acompanharias para Sul e agora ao deixar Espichel encontrei outra Azóia e a memória abriu os braços à procura de onde pousar. Talvez tenha sido isso que me deixou por aqui longas horas, por estas arribas, a permitir que o olhar viajasse, e o usufruto do mar oceânico, é sempre um consolo para a alma. Apreciado de longe, parece uma planície de azul. Tive tempo de procurar ver como vai o estado da arte. Vivemos num planeta de plena beleza, sobretudo se olhado da solidão do cosmos, mas a cada momento que o olhar se aproxima a formosura vai-se diluindo nas imperfeições humanas. A sedentarização conduziu à divisão territorial e daí, aos poderes e ao seu exercício, foi um pulo na evolução humana. O resultado civilizacional de milénios é o que vemos hoje, invadem-se países para raptar presidentes, assaltam-se petroleiros em alto-mar para roubar petróleo, liquidam-se líderes e ameaça-se fazer desaparecer civilizações milenares com o único objectivo de se apossar de reservas petrolíferas, alimenta-se uma guerra com a única finalidade de destruir supostos concorrentes. Os assaltantes gabam-se publicamente dos seus actos de pirataria e roubo. Tudo isto em nome da liberdade, da democracia dos direitos humanos. Este novo normal, entrou num habitualismo que já nem notícia chega a ser. Mesmo ignorando o campo de concentração dos doentes mentais que se instalaram a ferro e fogo na Palestina, o nosso mundo, o nosso tempo, atravessa caminhos de selvas sombrias. No entanto, a contemplação desta serenidade marítima ao lado desta Arrábida que parece repousar em sossego, transmite-nos uma sensação de acalmia, de conforto. Por isso, soltei-me das memórias e vagueei, por esta Azóia, não a que nos viu seguir caminhos opostos, mas a que leva até ao castelo de Sesimbra, erguido bem no alto e do cimo da torre de menagem hei-de voltar a ver o mar. Olvido os apontamentos que trazia, sobre Templários, supostas reconquistas, assaltos medievais, e caminhei apenas pelas ameias do castelo. É sempre interessante quando analisamos os outros com os nossos juízos de valor, pelo que não é surpresa quando abrimos certos livros e na mesma frase, falam-nos do reino Visigodo, da invasão árabe ou, carregando no pejorativo, o domínio dos mouros. Os Visigodos foram apenas um reino, não nos invadiram nem nos dominaram! O jogo das palavras pode sempre distorcer a verdade e destruir a realidade. Mouros, aparecem-nos sempre como seres malévolos, os malditos, raramente como participantes da história que é a nossa, a palavra não é sinónimo do povo mauri, mas de gente malvada que invadiu este território cujo domínio visigodo não tinha mais de dois séculos. E entre mouros e árabes não vêem diferença. Quando nos aproximamos um pouco, na verdade, nem sabemos que árabes e mauris estiveram por cá, que na corte árabe, quer de Sevilha, Córdova ou Granada, vivia a cultura mais avançada da época. Claro, temos Alfama e a Mouraria, que giro!, e Mafamude foi árabe, o castelo de Gaia, até a lenda da Fonte da Moura, que coisas giras temos para falar aos que nos visitam! É isto que leio nas pedras deste castelo. É verdade que os árabes estiveram aqui, não é fácil ignorá-lo, mas logo acrescentam que foi por ordem de D. Afonso I que o castelo foi reerguido. Temos também os romanos, em Setúbal, em Troia e por esse Alentejo fora, mas da presença árabe quase nem uma sombra, mesmo que Alcácer do Sal, ficasse com esse nome. Escutamos, sal, e já não ouvimos alcácer. A historiografia actual tende a actualizar o tema e vai escrevendo que não devemos falar em invasão, mas em movimento de povos tão frequentes na época. Afinal, por aqui não passaram romanos, Suevos e Visigodos? Porque há-de a presença árabe ser diferente, se pensarmos que essa presença alentejana e algarvia durou cinco séculos, que podemos alargar por mais três séculos se pensarmos que entre nós, fazendo parte do todo que éramos, permaneceram até à infame expulsão do reino dos súbditos que professavam a religião muçulmana e judaica. Para a velha Sesimbra baixa-se por estrada que mais parece um rio descendo de montanha abrupta e no final entra mar adentro como um turbilhão. Mas a vila que fazia parte dos teus contos nos dias sem termo, inovou-se, sendo mais verdadeiro dizer, aceitou o poder do betão. Ainda vemos algumas dessas ruas de outrora, desse passado lento em que os pescadores desembarcavam o pescado na praia, mas tudo parece já tão distante. Vale a orla marítima nos momentos de sossego para contemplação do mar que aqui chega. Setúbal é já demasiado cidade e quando a atravessamos sem intenção de parar, algo nos trouxe à memória a lembrança do José Afonso e da canção O Pastor de Bensafrim, “Ó ventos do monte ó brisas do mar”. Fomos nas brisas do mar fazendo a travessia proibida até Troia, não a de Helena ou de Ulisses, mas a da família Azevedo que a vendeu aos ingleses, naturalmente tudo no interior do império romano. Não, Roma não é só ruínas, continua a ser um poder imperial, como o mostra a nossa Troia. Já não se salga peixe, agora o pescado é mais graúdo e já chega pronto. É só comprar. O fim do dia, leva-nos deste infinito azul pérola para chegarmos a Alcácer, nas margens do Sado, encostada ao morro e pela primeira vez, temos a notícia de que o nome da cidade foi de autoria árabe, mas com a recomendação de que já no tempo dos romanos “chamavam à povoação salacia”. Fugimos de séculos de história como a lebre do lobo. A noite vem do Oeste e vai tombar sobre este recanto alentejano. O postal segue amanhã, no primeiro comboio.


AS GUERRAS EM CURSO


Manuel Joaquim

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Todos os dias temos notícias sobre as guerras no Irão e na Ucrânia e de longe a longe sobre outras guerras que estão a acontecer em África e noutros lugares.

Sobre o Irão, os comentadores disseram-nos que o Povo sofria e que esteve na iminência de provocar a queda do regime com as manifestações que estavam a acontecer. O que é estranho é que nunca falaram da verdadeira natureza do regime político, das lutas políticas e sindicais que sempre aconteceram no Irão.

A economia nacional do Irão, após décadas de políticas neoliberais, é dominada pela classe capitalista parasitária e vulnerável às sanções dos países imperialistas. O povo do Irão, antes da guerra, enfrentava condições sociais e económicas muito pesadas. A escassez de água e de electricidade e o aumento dos preços agravam as condições de vida de milhões de pessoas. As exigências por direitos democráticos, civis, sindicais e nacionais sempre estiveram na ordem do dia. O povo iraniano considera a paz e a estabilidade vitais para alcançar a liberdade e a justiça social.

O Partido Tudeh do Irão (PTI) é um partido internacionalista com uma estreita relação fraterna com partidos comunistas e operários de todo o mundo. É o partido da classe operária iraniana e sucessor do Partido Comunista do Irão, fundado em 1920. O PCI foi proibido no início da década de 1930 pelo monarca pró-britânico Reza Xá. Na década de 1940 e no início da década de 1950, durante o movimento pela nacionalização da indústria petrolífera, o PTI desempenhou um papel influente. O golpe de Estado organizado pelos serviços secretos da Inglaterra e dos EUA (MI6 e CIA) em Agosto de 1953 derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh e restabeleceu a ditadura do Xá. O PTI foi perseguido e milhares dos seus membros e apoiantes foram presos e muitos executados. O PTI participou activamente na Revolução de Fevereiro de 1979 para derrubar a ditadura do Xá. Mas as forças islâmicas assumiram o novo regime e reprimiram ferozmente a esquerda e o PTI em particular. Desde 1983 que a actuação do PTI dentro do Irão tem sido clandestina, mas conseguiu reorganizar-se eficazmente e construir fortes laços com os movimentos laborais e sindicais, da juventude e feministas e exercer profunda influência na luta popular dentro do Irão. O PTI está a trabalhar para construir uma Frente Unida capaz de enfrentar a ditadura e as ameaças imperialistas e encabeçar a luta pela paz, democracia, soberania e por uma República Democrática Nacional.

O imperialismo nunca abandonou os seus objectivos de colonizar e explorar os povos e as riquezas dos países. Serve-se do seu poder económico e do seu poder bélico e vai colocando os seus alcagotes, como dizia um Amigo meu, Jorge Cruz, nos lugares do poder político. Os EUA instalaram à volta do mundo cerca de 800 bases militares. No Médio Oriente quase todos os países têm bases militares. Nesta guerra todas elas foram destruídas pelo Irão, apesar de Trump,  nos primeiros dias de guerra, ter anunciado que as bases de mísseis, aviação e a marinha tinham sido totalmente destruídas com os comentadores de serviço, sorridentes, a dizerem que sim. No entanto, é o Irão que pelos vistos está a determinar as regras da negociação. Parece que o que está a condicionar os EUA é o escoamento das suas reservas estratégicas de petróleo. Estão a ficar assustados com o que pode acontecer durante o segundo semestre deste ano. Mas a guerra está longe de ser resolvida. ”O acordo de paz está a adiar a batalha final que se avizinha e que vai determinar o vencedor” segundo um jornal iraniano. O Irão não precisa de bombas atómicas. Provavelmente, dispõe de bombas de outra natureza mais letais que a própria bomba atómica.

O senado dos EUA votou contra a guerra, retirando poderes a Trump.

Os EUA não são uma máquina de ganhar guerras mas uma máquina de gerar lucros através das guerras.

A guerra da Ucrânia está a aproximar-se do fim?

A Rússia já não espera a implementação dos acordos de Anchorage, na altura apresentados por Trump, segundo é dito. A Rússia começa a preparar-se para o fim da guerra não através de negociações. A União Europeia, agora braço armado da Nato ao serviço dos EUA, está a acelerar a sua militarização, apontando sem rebuços a futura guerra com a Rússia, e com afirmações de dirigentes e militares importantes nesse sentido que levaram o major general Agostinho Costa a dizer numa entrevista na CNN que não sabe o que esses senhores andam a fumar.

Na primeira semana de Julho vai reunir-se em Ancara a Nato. Preparam-se para sacar aos contribuintes mais 70 mil milhões anuais para financiar a guerra. A Nato não é nem nunca foi uma organização defensiva mas sim ofensiva como se pode verificar pelas suas intervenções ao longo do tempo. Prepara-se para atacar a Rússia. Como vai ser?

Para melhor esclarecimento de todo este processo que nos bate à porta é importante ler o livro recentemente publicado do Major-General Carlos Branco “Ucrânia – Variações de uma guerra inacabada” das Edições Colibri.

LAWRENCE REVISITADO

António Mesquita


(T.E. Lawrence)


"A maior parte das pessoas, naquele tempo, não prestava atenção ao curso geral dos acontecimentos, sendo guiada apenas pelos seus interesses privados — e eram precisamente essas pessoas cujas atividades, nesse período, eram mais úteis. Aqueles que procuravam compreender o curso geral dos acontecimentos e nele participar através do sacrifício pessoal e do heroísmo eram os membros mais inúteis da sociedade; viam tudo ao contrário, e tudo o que faziam pelo bem comum acabava por se revelar inútil e absurdo — como os regimentos de Pierre e de Mamonov, que pilharam aldeias russas, e a gaze que as jovens preparavam e que nunca chegava aos feridos, e assim por diante."

("Guerra e Paz", Leão Tolstoi)


Tolstoi ajuda-me a compreender Lawrence.

David Lean, que nos deu dos maiores épicos do cinema e dos mais populares, realizou em 1962, provavelmente, o seu maior êxito: "Lawrence da Arábia". 

O herói do filme não podia ser mais controverso. Um inglês de Oxford, imbuído da grande cultura clássica, capaz de troçar das instituições e dos protocolos,  com um belo sentido de humor, constrói frente a uma cultura fatalista, nos seus antípodas, um mito em que, a princípio, só ele acredita, mas que, muito antes dos media modernos, se impõe a homens práticos e divididos pelo ódio tribal, através do  exemplo prático e do credo pessoal de que "nada está escrito".

De encontrar o rei Faisal (Alec Guiness),  como fautor da unidade possível entre Hararis, Howeitat e outros   corpúsculos  em que sempre se dividiram os povos do deserto (a sua definição de deserto dada ao jornalista americano - Arthur Kennedy - não deixa dúvidas sobre o seu cariz ético: Lawrence gosta do deserto porque é limpo), ao ataque a Aqaba por terra, através do deserto de Nefud que ninguém tinha tentado antes, a ponto da fortaleza turca ter todos os canhões  virados para o mar, foram empresas que inspiradas pela política colonial inglesa não deixavam de servir, por um tempo, a proto-nação árabe oprimida. 

Mesmo no final da aventura de T.E. (Thomas Eduard), quando as tribos que chefia ocuparam Damasco, impedindo os Ingleses de se vangloriarem de libertadores, com o seu domínio associado, é ainda a ambiguidade do cometimento que ressalta. O conselho árabe proclamado à chegada à velha cidade síria fica, em poucos dias, reduzido a um punhado de seguidores mais fiéis, porque o grosso do contingente tribal abandona a cidade para regressar ao deserto com o saque.

O 'herói' não deixa de ser visto na sua verdade humana pelo jornalista e pelo mais fiel dos seus companheiros, Sherif Ali (Omar Sharif), depois do ataque selvático, "sem prisioneiros", a uma  coluna turca antes de Damasco. O seu "gosto do sangue" é sobretudo uma revelação para si próprio e está na origem do mal-viver a que põe termo com o seu "suicídio" na moto com que começa a narrativa.

No funeral, na catedral de St. Paul, também, os  comentários não poupam o estilo histriónico da personagem  que, porém, não põem em causa a coragem e o génio.

Quando se revê a obra-prima de Lean, a primeira constatação é o carácter histórico, ligado a uma época que não pode ser ressuscitada, deste filme e do seu tratamento da personagem. Não é só o tom épico e a construção quase didáctica da personagem, com os exemplos de bravura sempre pagos com o próprio corpo.  

Numa cena depois de Aqaba, quando Lawrence é acareado e torturado pela polícia turca, há uma nuance de erótica homossexual que o "herói" rejeita violentamente, com as piores consequências para si próprio. A anedota só tem interesse por assinalar, uma vez mais, a ambígua complexidade da sua psicologia. Numa versão moderna, aliás, seria a pormenores como este que a história recorreria para despertar o interesse do espectador.

Interpretar o filme de Lean à luz do pensamento de Tolstoi, em "Guerra e Paz", é o caminho mais directo para sair da psicologia de Lawrence, mesmo se o filme não é um panegírico, evidentemente, a complexidade da personagem é por de mais patente.

É a proibição de provar da "árvore do conhecimento", de origem bíblica, que explica a filosofia do escritor russo.

As tribos árabes que abandonaram o seu ídolo inglês depois do saque de Damasco é o melhor exemplo. Tal como a tropa russa que abandonou Moscovo às chamas, à chegada de Napoleão,  não foi o ódio aos franceses nem a promessa de se vingarem que ocupou os seus espíritos, "mas o próximo soldo, o próximo aquartelamento, Matreshka, a vivandeira e coisas do género."

Os ingleses, em Damasco, tiveram que, relutantemente, contemporizar com Faisal e este de se ver, uma vez mais, como a cabeça dum reino inexistente.

Auda Abu Tayi (Anthony Quinn) e os seus Howeitat foram por um momento a força de emancipação da unidade árabe, mas só na cabeça de Lawrence. Os interesses tribais prevaleceram sempre e, como diria Leão Tolstoi, foi sendo isso que eles puderam ser úteis para o "progresso geral"...

A "paixão" do "scholar" inglês e a sua transformação interior numa criatura sedenta de sangue só podiam acabar (e começar) no desastre.

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