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01/04/22

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O CONCERTO DA PAZ

Manuel Joaquim





No passado domingo, dia 27, o CPPC - Conselho Português para a Paz e Cooperação realizou na Praça D. João I, aqui, no Porto, uma iniciativa pública “PARAR A GUERRA! DAR UMA OPORTUNIDADE À PAZ”, apelando ao fim da guerra na Ucrânia, “ao estabelecimento de um clima de paz, confiança e de segurança para todos os países e povos da Europa e do mundo.”

Há vários anos que o CPPC realiza  concertos em várias cidades do País, do Minho ao Algarve, com a colaboração das várias autarquias e instituições locais, designadamente escolas.

Os Concertos da Paz no Porto foram sempre realizados no Teatro Rivoli com a colaboração da CMP,  com grande participação de crianças das diversas escolas e com artistas consagrados.

Inesperadamente, a CMP, decidiu, desta vez, não autorizar a realização do concerto no Rivoli tomando uma posição de hostilidade em relação ao CPPC, com considerações de alguns dos seus dirigentes demonstrativas de insanidade, como se pode verificar por alguns comentários que vieram a público no facebook

Argumentos de anticomunismo e de superioridades de doutores perante outros que para eles não passam da reles chinela, apesar de pertenceram às mesmas elites da classe dominante, tentam mascarar-se com argumentos de superioridade, tentando justificar-se com o problema da guerra na Ucrânia e colarem-se às posições da Nato. Pretendem apresentar-se como democratas, bem falantes, bem vestidos, que fazem depilação para serem mais “bonitos” mas no fundo não são mais do que o produto que resultou do leite com que sempre se alimentaram toda uma vida, produzido pelas tetas fascistas.  A participação em reuniões do ELP em Espanha no tempo da rede bombista é uma mancha desse leite.

Esta gente não quer a PAZ quer a guerra, alimentam-na de várias formas. 

A Praça D. João I esteve cheia de gente, gritando PAZ SIM, GUERRA NÂO.
As crianças e jovens participaram como sempre. O espectáculo correu muito bem com grande qualidade dos participantes.

Foram lidos dois poemas sobre a PAZ. Um,   de Sophia de Mello Breyner Andersen. Outro, de Natália Correia, que passo a transcrever

ODE À PAZ


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas  radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa
       Passar a Vida!

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva





Hoje que tantos anos passaram, vejo com ternura esses dias que nos encontravam, olhando-nos de frente num cruzamento lento como se saboreássemos aqueles segundos de delícia. Que letícia aquela de te ver passar, de movimentar os dias levando-te em imagem sonhadora pelas acções da vida. Olho agora para a pele morena do teu rosto cansado, os traços de um tempo vivido ao longo desse percurso humano a que chamamos vida. Perscruto ainda no amendoado dos teus olhos aqueles sonhos que a memória ainda visita. A rua onde o nosso olhar murmurava mensagens de uma alegria infindável, ainda existe e até muitas daquelas casas que nos contemplavam resistem à passagem avassaladora do novo. A grande fábrica pereceu há muito, a casa da quinta, com a sua árvore soberba, ainda se ergue altaneira e altiva, pertença de uma burguesia recatada que, também ela, foi levada pela ânsia da ostentação. Já não encontro as buganvílias e as rosas que naquela Primavera enchiam de cor o espaço onde os nossos olhares trocavam mensagens de esperança. Aquela mistura de verdes, vermelhos e amarelos agarrados às paredes musgosas enfeitavam o cenário dos nossos encontros, mas por trás dos muros elevados de casas que já ruíram, percebem-se os verdes de árvores viçosas. Abril foi sempre um mês muito belo. Deixamos o Inverno para trás, os dias crescem como os nossos sonhos juvenis, a natureza explode em cor e luminosidade, tudo se conjugando para que os sorrisos brotem no rosto humano. Mas naquele ano, Abril trazia mensagens de liberdade, de coragem e de combate. Sim, a vida humana para ser vivida com dignidade, tem de trazer sempre essa componente de acção que impeça a maldade e a avareza de alcançarem objectivos obscenos. Naquela batalha de decência que se travava, a pureza do teu rosto, esse teu olhar que agora admiro na sua velhice, os teus longos cabelos negros, representavam o alento que permitia à alma erguer muros de resistência nas longas noites em que a mensagem de esperança, de incentivo, como uma campainha que soava clamando para que se rompesse a neblina que embargava a voz daqueles que acreditavam num outro mundo, mais humano e mais livre, rompesse as correntes do medo, da negritude em que os poderes maléficos mergulhavam o quotidiano do nosso povo secular. Ainda não sabíamos, mas um outro Abril se aproximava, mais puro, mais livre, mais solidário em que colectivamente diríamos daquele tempo, “Ontem apenas/fomos a voz sufocada/dum povo a dizer não quero;/fomos os bobos do rei/mastigando desespero.”*. Mas nos dias em que nos víamos, transformávamos em audácia as correntes que nos prendiam e quando à noite caminhava pelas ruas, subia e descia escadas espalhando recados, incentivos, apelos e sopros de vida e de humanidade, levava comigo a recordação da imagem que deixavas em mim naquele território povoado de silêncios, de um colorido que cobria de fantasia os ideais que o pensamento alimentava e o corpo impulsionava. Eras também tu, um símbolo de esperança de um mundo novo onde todos desejávamos viver. Enquanto os meus passos se escoavam num silêncio nocturno e clandestino, alimentava a alma com a tua recordação, preenchia o tempo com a lembrança da vivência que deixavas na tua passagem e soletrava as palavras do poema que então tanto entoávamos, “Só te peço que te ergas quando no meio da noite todos estiverem dormindo e que a tua voz ecoe terna vibrante e concisa nos becos desta cidade”**. A vida movia-se então pela pureza cristalina de nobres ideais. O futuro aparecia como ave liberta de ventos e tempestades e seguíamos embarcados numa nau rumando ao novo mundo. No final daquelas semanas de cansaço, do fragor das palavras soltas ao vento, despertando vontades e desejos, chegou o dia grande, um desses momentos em que a alma humana se supera para ultrapassar negros medos e rebenta com mordaças que há muito emudeciam a sua voz. Nesse dia, os nossos passos não se cruzaram, mas o teu rosto vivia em mim com tal intensidade que senti que caminhávamos lado a lado em direcção à praça grande. Ao chegarmos emudecemos com aquele anfiteatro pleno de gente como nós que marcavam presença em desafio aos senhores do mundo. Um silêncio esmagador deixava escutar o canto dos pássaros e alguns minutos após a nossa chegada, logo depois de os nossos olhos terem percorrido a extensão da avenida, aquele cartaz de coragem, de desafio, transportado por gente livre irrompeu do passeio para o centro da praça e os abutres sedentos de sangue, saíram das cavernas nocturnas onde se acoitavam e destravaram a alavanca do ódio e da violência, mas já não pareciam suficientes para conter aquele grito de futuro que os rodeava e só na aparência os faziam vencer. Lembras-te que unimos as nossas mãos e lançamos ao vento aquelas palavras todas que levávamos encostadas ao peito, guardadas e não escondidas, enquanto atravessámos a praça incólumes. No final, olhamos para o caminho percorrido e contrariamente ao cavaleiro teutónico que morreu de susto ao ver que tinha atravessado um lago gelado, nós erguemos os olhos e sentimo-nos vencedores. O negro poder de chumbo que nos amordaçava, temblava já no seu trono, num oscilar desequilibrado enquanto nós nos sentíamos como os blindados de Vassili Grossman a correr noite e dia a caminho de Rostov ***. Hoje, tudo é passado, até as palavras que os nossos olhos segredavam se perderam na longitude do tempo. Nos teus traços vetustos continuo a encontrar a beleza daquela época inesquecível. Para mim, o teu rosto não se alterou e continuas a guardar na profundidade oriental dos teus olhos, os sonhos e os ideais daqueles dias que olhamos e vivemos com a energia de quem se sentia imortal.


* https://www.musica-portuguesa.com/somos-livres-uma-gaivota-voava-ermelinda-duarte-letra/
** canção de António Macedo, “Só te peço que não pares”
*** Vassili Grossman, “Vida e Destino”

 

A LESTE TUDO DE NOVO

Mário Martins
 
Pedro, o Grande
Lobusdaestepe's Weblog



Tal como no apaixonado mundo do futebol, em que se assobia ou insulta o árbitro quando, mal ou bem, decide contra o nosso clube mas se faz vista grossa aos erros que favorecem a nossa equipa, também nesta desgraçada guerra da Ucrânia se digladiam, não menos apaixonadamente, opiniões ideologicamente clubistas sobre os imperialismos reinantes, a Ocidente e Oriente, tudo se desculpando ao nosso “clube” imperialista, desde que se oponha aos demais.

O primado da geopolítica das super-potências que procede a uma nova repartição do mundo, assente numa ostensiva lei da força, tudo lhe submete: a soberania, o regime político, seja ele de índole democrática ou ditatorial, ou o direito internacional, este último há muito feito em cacos.

O reacender da guerra na Europa, depois de 20 anos de acalmia que sucederam à trágica guerra da Jugoslávia, mais enfatiza a tolice de se considerarem, porventura confundidos pela parafernália tecnológica, estes e outros funestos acontecimentos, indignos do século XXI. Se a História ensina algumas coisas, uma delas é, certamente, a prática humana da arte da guerra ao longo dos séculos.

A Revista do Expresso, de 11 de Março passado, adopta uma abordagem mais vertical e profunda do que está em jogo, de que transcrevo, a seguir, alguns excertos, aos quais nada mais acrescentarei: 

Neste ano da graça de 2017, com a Europa virada para dentro, obcecada pelo risco de se desagregar, Putin labuta para corrigir o que, para as suas luzes, foi falta imperdoável de Gorbachev e, depois, de Yeltsin: esquecerem a grandeza da Rússia.”

“A Sérvia, nos anos 90, apenas fora derrotada por ter sido abandonada pelo seu ‘grande irmão eslavo’.”

“Foi a fraqueza russa nesses anos que encheu Putin de vergonha ressabiada e lhe deu o duro génio de vinganças que nada parece fartar.”
Embaixador José Cutileiro, falecido em 2020

A guerra, na mais famosa máxima de Carl von Clausewitz, teórico  militar prussiano, “não é senão a continuação da política por outros meios.”

A menos que, em última instância estejam preparados para recorrer à força, as negociações são apenas um adiamento da agressão da outra parte. Só conseguirão evitar a guerra se derem pacificamente ao agressor o que este está preparado para tirar pela força.”

É o império czarista russo que Putin está a tentar reconstruir. Pedro, o Grande, é o seu herói, muito mais do que Estaline.”

Niall Ferguson, historiador e autor de “A guerra do mundo – uma idade histórica de ódio”

Queria expressar o desejo de que os portugueses não se afastem da Rússia e dos russos (…) Que tenhamos um céu pacífico sobre nós. Mas a Rússia nunca vai menosprezar os seus interesses vitais de segurança.”
Entrevista ao embaixador russo em Portugal, Mikhail Kamynin

“Se for eleito Presidente, eles primeiro jogarão lama sobre mim, depois respeitar-me-ão e depois chorarão quando eu sair.”
“Estou disposto a perder a  minha popularidade e, se for necessário, o meu cargo para estabelecer a paz.”
Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia, no discurso de posse em Maio de 2019.

“Por toda a Europa, as pessoas estão a perceber que vivem num continente onde a guerra, no seu próprio tempo, nos seus próprios países, já não é impossível.” 
Anne Applebaum, jornalista e escritora

A QUINTA COLUNA DO PÓS-PÓS

António Mesquita


Russia Today



Espera-se que a informação em tempo de guerra seja mobilizadora, desmobilizadora, ou neutra, isto é, uma arma. A vantagem é a de quem a usa mais focada e  sem desvio do objectivo militar. Quem controla todos os meios de comunicação não dá nenhuma hipótese à verdade.

Se considerarmos de um lado o agressor  e do outro o Ocidente (é essa a teoria do agressor), a realidade aparece "construída" de um lado e do outro, graças ao poder da linguagem. A Ucrânia, essa está noutro plano, não o da "construção", mas o da destruição pura e simples, é a vítima desta guerra. Há quem lhe chame "barriga de aluguer" de interesses alheios.

A conversa da neutralidade quer-nos convencer de que os crimes de guerra estão de ambos os lados, a propaganda é de um e do outro e por isso uma "operação especial" como esta equivale a um dos muitos golpes dos serviços secretos americanos. Mais uma vez, a vítima desaparece por obra e graça da retórica com mísseis.
 
Bárbara Reis, no Público, lembra a propósito  da censura dos jornais de Putin "Russia Today" e "Sputnik" , a reacção do papa Francisco ao atentado contra o jornal satírico "Charlie Hebdo", em 2015, em Paris: “Não se pode ridicularizar a religião dos outros.” No resto do artigo defende que o papa não tinha razão porque não se pode censurar a  crítica da religião,  porque não saberíamos depois como impedir a censura de tudo o resto. A UE com esta medida terá entrado em contradição consigo mesma.

Que um regime laico aceite essa liberdade de crítica parece-me da natureza das coisas.  Macron aproveitou para fazer de Paty, o professor decapitado por ter mostrado numa aula uma caricatura de Maomé, um herói dos valores da República.

Fora do tempo de guerra e dos regimes liberticidas, a informação, porém,  já não é o que era. Por força da tecnologia, do populismo, do consumismo e enfim, dos aperfeiçoamentos no domínio da compreensão e dissecação da linguagem, a  peneira da desinformação consegue tapar o sol da verdade.

Graças aos novos algoritmos do "lip-synching", a sincronização do movimento dos lábios, já se consegue a partir dum ficheiro de áudio pôr Obama a dar a entrevista que nunca deu e até pôr os mortos a falar.

Entre nós,  RAP,  no seu  programa "Isto é brincar com quem trabalha", de 6 de Março, fez-nos  rir com a repetição do adjectivo veemente na boca do presidente e do primeiro ministro, quando mostravam na televisão o seu repúdio pela invasão russa. Isso não me parece muito diferente de  brincar com a religião (a nossa, ou a dos outros). Mas não deixei de ficar fascinado com a técnica e com as possibilidades de recriação da realidade, mesmo tratando-se apenas duma desconstrução da linguagem, independentemente da intenção do locutor e da gravidade do momento. Aliás, quanto mais grave, mais cómico. O problema é que não estamos a ver até onde pode chegar esta procura do efeito a todo o custo. A linguagem torna-se assim, como agora se diz, uma "construção". Os valores que as sociedades sentiram a necessidade de proteger ao longo da história, nestes tempos, não têm refúgio possível, quando os limites da "desconstrução" se abatem. 

E por que censurar Trump quando, alarvemente, contou a anedota dos caças chineses a bombardear a Rússia para a América obter o "dois em um"?

A corrosão não é, claro,  visível. Faz parte dum caldo cultural em mudança acelerada, enquanto as instituições permanecem na sua tinta de sempre. A tecnologia mudou tudo e os valores não ficaram incólumes. Pôr o presidente da república a gaguejar requer inteligência e domínio técnico.

É o tempo do cancelamento, do "woke" e de outros tropismos pós-modernos. O pior é que ninguém deseja o regresso da Censura que, aliás, só se cobriria de ridículo em tempo de redes sociais. A mordaça funciona bem em regimes autocráticos, mas nós já tivemos uma experiência de 40 anos  e não queremos repetí-la.

É um nó inextrincável. Será esta a decadência do Ocidente de que fala o senhor do Kremlin? Ele desataria o nó com uma guerra de "purificação" e uma censura ditada pela  necessidade de segurança. 

Em 1943, a França subjugada e a liberdade no exílio, fez-se sentir a necessidade de preparar o futuro e os tempos de paz com uma verdadeira regeneração. Simone Weil, como lembra, no Expresso de 18 de Março, Tolentino de Mendonça, chamou-he "L'enracinement". Em Londres, ao serviço da "France Livre", escreveu, a pedido do General de Gaulle, essa espécie de "relatório sobre as possibilidades de renascimento da França", o desejo do general sendo, para a Libertação, uma nova Declaração dos Direitos do Homem.

Com a guerra na Europa fazendo adiar para as calendas a política ambiental  que, nas palavras de António Guterres,  “está em cuidados intensivos”, parecendo nós, “sonâmbulos a caminho da catástrofe”, os esforços de paz já se confundem com o da renovação dos valores. Não para abolir a liberdade e a subversão de todo e qualquer "pensamento correcto", mas para afirmar o essencial. No caso do "enraizamento", tratava-se de levantar um país caído na anomia da crise cultural. Agora é a Europa e o Mundo que estão em causa.

Para não cairmos na armadilha do nacionalismo e de outros dogmas e censuras,  vem a propósito citar Amos Oz, o grande escritor israelita: "Existe uma teologia judaica da "Chutzpah". Ela reside na subtil junção de fé, tendência a discutir e fazer humor de si mesmo. E redunda numa reverência especialmente irreverente.  Nada é tão sagrado que não mereça uma zombaria ocasional. Podemos rir do rabino, de Moisés, dos anjos e até mesmo do Todo-Poderoso."

O povo judeu não é, infelizmente para ele, um exemplo de "enraizamento". As suas raízes estão no universal que é o que esta emergência requer como "pão para a boca".

               
            
C I N E M A

DRIVE MY CAR 
de Ryusuke Hamaguchi (2021) inspirado num conto de Haruki Murakami


Em "Drive my car", título duma canção dos Beatles, ensaia-se o "Tio Vânia", passado e presente estranham-se um ao outro. Uma mulher morre e o encenador,  seu marido, não se perdoa tê-la obrigado a viver com a mentira da sua fidelidade. A motorista que contrataram para guiar o seu carro vive com o remorso de ter deixado a mãe sob os escombros da casa. Era uma má mãe.

Mas o que me parece mais relevante é que, na peça de Tchekov, Sónia não diz as suas deixas. É muda e exprime-se por gestos. O maravilhoso texto aparece no teleponto. Mas aqueles braços e mãos contorcem-se numa dança delicada para nos "dizer" o que não é dito por palavras. A atmosfera do interior russo, com babá (ama) e samovar, a nostalgia e o "mal de vivre" tchekoviano torna-se ainda mais misteriosa. Não se compreende tudo porque a aparência não consente. Mas a mudez de Sónia parece traduzir o intraduzível.
 
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