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01/05/20

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O TRIUNFO DO VIRTUAL

Mário Martins
O Distanciamento Social, Vírus
https://pixabay.com/pt/photos/search/dist%C3%A2ncia%20social/


O fenómeno é conhecido. É preciso que qualquer coisa falte para o toque de Midas funcionar e transformar essa coisa em ouro. É o caso da água quando falta nas torneiras, como é o caso da saúde quando estamos doentes. E há agora o inesperado caso da liberdade quando, para prevenir a doença, nos fechamos em casa. Dizer inesperado é dizer pouco. Estamos todos mais ou menos atónitos com o que se está a passar no século dos algoritmos, dos robôs e da inteligência artificial. A nossa vida, de repente, ficou de pernas para o ar e isso, como até agora, de artefactos tecnológicos em punho, nos vangloriávamos, “é indigno do século XXI”.

Por esse mundo fora, os políticos, em primeiro lugar os dos países mais poderosos, sublinham, à defesa, a novidade deste vírus mas, para lá das habituais teorias da conspiração, fica-se com a sensação, mais uma vez, de que, em toda a parte, perante eleitorados ou povos mais ou menos amorfos e ocupados com a sua “vidinha”, que, numa lógica de poder, importa seduzir quando não enganar, eles, os políticos, apenas sabem reagir, como bombeiros, ao “fogo” do momento. De contrário, teriam, prudentemente, face aos surtos virais e bacterianos ameaçadores dos últimos anos, restringido o contacto com animais exóticos, preparado os sistemas de saúde, concebido planos de contingência, e fomentado o aprofundamento da investigação científica à escala mundial, visando a produção atempada, nos limites do estado da arte, de vacinas e fármacos. O êxito dessa investigação não estaria, à partida, garantido, mas, seguramente, teriam despendido uma ínfima parte do autêntico rombo que os erários públicos vão sofrer agora, e, no caso de êxito, evitado a completa desordem da economia e um provável novo ciclo de empobrecimento da maioria da população. Acima de tudo, no caso de estarmos mais bem protegidos, ter-nos-iam poupado a um cortejo de sofrimento físico, psicológico e de morte acima da normal.

Acredita-se que nada ficará como dantes, agora que, como alguns interpretam, a Natureza “nos meteu na ordem”. Mas, sem pretender equiparar as situações, o facto de a anterior crise financeira não ter acabado com os paraísos fiscais e o crédito libertino, não autoriza elevadas expectativas, passado que seja o alarme sanitário.

Agora as nossas rotinas, as mais simples, passaram a valer ouro. A ida ao café do bairro ou aos restaurantes do nosso agrado, o encontro com familiares ou amigos, o toque amistoso, tornaram-se fruto proibido. O próximo passou a ser um potencial inimigo a evitar. Fechados em casa, recorremos, mais do que nunca, às tecnologias comunicacionais. É, sem dúvida, o triunfo do virtual, mas um triunfo amargo.


PS: Texto escrito na 1ª. quinzena de Abril. Prepara-se agora uma tímida mas necessária retoma da actividade já que, se é razoável proteger-nos da doença, não podemos morrer da cura. Será o início de uma nova normalidade. Oxalá corra bem.

O JORNALISTA DESPORTIVO

António Mesquita
The Sportswriter: Amazon.co.uk: Richard Ford: 9780747585176: Books


O título diz alguma coisa sobre um livro? Nem sempre diz. Neste romance de Richard Ford, o espectáculo desportivo é um dos gostos mais enraizados da personagem, Frank Bascombe, mas não ocupa quase nada das suas meditações. O jornalismo desportivo, por outro lado, é uma actividade de substituição que lhe dá algum prazer e não tem a responsabilidade da literatura - ele publicou um livro de contos há mais de 10 anos que interessou uma produtora cinematográfica (o que lhe grangeou e à sua família de então um bom impulso económico), mas a certa altura, a inspiração parece ter secado.

Nesse âmbito, entrevistar um antigo astro do futebol americano, atingido pela tragédia pessoal que o plantou numa cadeira de rodas, é literatura e da boa. Só que a circunstância jornalística o absolve de qualquer ambição intelectual ou artística. No fundo, Bascombe, enquanto não escreve a sequela do seu primeiro livro, vai afinando os seus instrumentos de bordo, com entrevistas como esta, que não poderia ser mais interessante do ponto de vista de uma "visão do mundo".

Eis um extracto da dita entrevista com Herb Wallagher:

"- Quer ouvir o sonho que eu tenho constantemente? 

Herb enrola o papel entre os dedos e depois empurra a cadeira rumo ao fim do cais. Eu fico sentado na balaustrada a olhar-lhe para as costas. Os ombros ossudos de Herb são como asas, O pescoço é esguio e tem rugas, e a cabeça aloirada está a ficar careca. Não sei se ele sabe ou não onde eu estou, ou mesmo onde ele próprio está. 

- Gostaria muito de ouvir o sonho. 

Herb fica a contemplar o lago como se nele estivessem todas as suas esperanças perdidas. 

- Sonho com três velhas num carro empanado numa estrada escura. Duas delas estão a levar a avó, uma velha muito velha, de volta ao lar de idosos. Algures. Digamos no Estado de Nova Iorque ou na Pensilvânia. Eu passo no meu jipe - em tempos tive um jipe -, paro e pergunto se precisam de ajuda. E elas dizem que sim. Que estão ali há muito tempo e que não apareceu ninguém. E percebo que estão preocupadas comigo. Uma delas até tira o dinheiro para me pagar antes mesmo de eu começar. Têm um pneu furado. Acendo os faróis do meu jipe virados para o carro delas e vejo que a avó está muito preocupada e cabisbaixa no banco da frente. E tem uma barbela que nem uma galinha. As outras duas ficam ao meu lado a ver-me mudar o pneu. E, enquanto estou a mudá-lo, penso em matá-las, às três. Estrangulá-las com as minhas próprias mãos e depois ir-me embora porque nunca ninguém iria descobrir quem as tinha matado, uma vez que eu não era um assassino e ninguém sabia que eu tinha estado ali. Mas nessa altura olho em volta e vejo um veado a olhar para mim por entre as árvores. Com aqueles olhos amarelos. E é tudo. Depois acordo.- Herb vira a cadeira de rodas e olha-me de frente. - Que tal este sonho? O que lhe parece, Frank? Já agora, lá está você com o halo outra vez. Voltou. parece mesmo um idiota." 

(...)

- Não falámos muito sobre futebol americano - diz Herb, pensativo. Mostra-se agora tão são e ponderado como um velho sextante. 

- Pareceu-me que não lhe estava a apetecer muito, Herb. 

- Realmente agora parece insignificante, Frank. Dá realmente uma preparação muito insuficiente para a vida, como acabei por descobrir. 

- Mas eu diria que tem algumas lições para dar às pessoas que o jogaram. Perseverança. Trabalho de equipa. Camaradagem. Esse tipo de coisas. 

- Esqueça essa treta toda, Frank. Eu tenho o resto da vida à minha disposição, é só descobrir para quê. E tenho grandes planos. 0 desporto é apenas uma recordação. 

- Está a referir-se ao curso de Direito e isso tudo. 

Herb meneia a cabeça como um cangalheiro. 

- É isso mesmo. 

- Tem muita coragem, Herb. É preciso coragem para se ser o Herb, acho eu.

-Talvez - diz ele, reflectindo - Mas por vezes tenho medo, Frank. Digo-lhe já. Um medo de morte."

E é o mais fundo que se entra no mundo desportivo. Para além duma alusão, noutro lado, à necessidade dos atletas de competição terem de estar "focados" no seu trabalho, com prejuízo da sua "humanidade" e da sua percepção da realidade: "(Um atleta ) provavelmente nunca sentirá a divisão dentro de si, ou a alienação, ou um pouco que seja de temor existencial... Anos de treino atlético ensinaram-lhe isso; a necessidade de abandonar a dúvida e a ambiguidade e o auto-questionamento, a favor duma agradável e conquistadora unidimensionalidade que tem uma recompensa instantânea no desporto.'' Em Herb, desse ponto de vista, a sua desgraça foi também ocasião dum verdadeiro renascimento como pessoa.

A vida de Frank Bascombe, a morte do primeiro filho e o divórcio que se seguiu de "X" (esta letra, em vez do nome da sua mulher, deixa pairar o anonimato sobre a personagem, como se qualquer personalidade servisse para o propósito), não é isenta de tragédia, mas isso, ao contrário de Herb, não o impede de "trabalhar", neste caso, de observar os outros com uma notável acutilância, o que mais tarde lhe permitirá voltar ao ofício da escrita a sério.

O "Jornalista Desportivo" ("The Sportswriter") faz parte duma tetralogia que inclui "Independence Day" - prémio Pullitzer -, "The Lay of the Land" e "Let Me Be Frank With You".

FANFARRONADAS

Manuel Joaquim


118 Times American Healthcare System Shocked The Rest Of The World(Bored Panda)



Os fanfarrões, que ainda há pouco tempo sorriam por o vírus estar a atacar violentamente a China e o Irão, hoje estão a padecer, mais do que todos os outros, do mal que desejaram.

O maior, hoje, vive uma catástrofe sanitária, económica e social de que muito poucos se lembram de ter existido equiparável. Sem serviços de saúde públicos dignos de nota, com mais de trinta milhões de trabalhadores lançados no desemprego no espaço de dois meses, com mais de 10 milhões a perderem assistência médica por não pagamento dos prémios dos seguros de saúde, a dependência quase total do exterior de medicamentos e de equipamentos sanitários, os desentendimentos políticos em pleno processo eleitoral, as pressões do grande capital para acabar com a quarentena, são alguns dos condimentos para o seu país caminhar para o desastre.

Acrescentar a estes condimentos as falências das empresas de petróleo de xisto, criadas a partir de créditos astronómicos da banca e do estado, tanto no seu país como na Ucrânia, em resultado da queda dos preços e da falta de condições para o seu armazenamento; o crédito mal parado na banca; movimentos para a secessão de estados da federação, com estruturas organizadas e públicas; governadores de estados a importarem directamente da China equipamentos sanitários para responderem às necessidades das populações sem conhecimento do governo federal, porta-aviões e outros equipamentos militares com centenas de militares infectados. 

Os conselheiros económicos, invocando a ciência económica (dominante), naturalmente em nome dos interesses do capital, defendendo que é necessário fazer take-off entre o número de mortos e a perda do PIB, pelo que é preciso dar prioridade à actividade económica. O valor da vida é muito relativa, tem a ver com a sua utilidade. Isto é, o capital tem de reproduzir-se, parado não aumenta a riqueza dos capitalistas. 

O inteligente referiu-se há poucos dias de que seria bom para matar o vírus beber lixívia. Acontece que correram para os hospitais algumas centenas de pessoas intoxicadas. Ainda há gente com muita fé no homem. Alguns, que utilizaram um outro remédio destinado à malária, também sugerido por ele, morreram. Entretanto, a OMS já alertou para a falta desse medicamento.

O governo português, aproveitando a oportunidade e as boas relações do ministro dos negócios estrangeiros com o seu chefe operacional, deveria tentar exportar o vinho do Porto e os vinhos de mesa que neste momento não são escoados dos armazéns, mesmo estando a serem oferecidos a preços vantajosos ao consumidor final e sem custos de transporte, para substituir a lixívia, pois os vinhos de qualidade destroem o vírus com mais categoria. E seria uma óptima ajuda aos produtores portugueses, que vão deparar com a mesma situação dos produtores de petróleo americanos, que não vão  conseguir armazenar a produção da próxima colheita.

Já não tendo a vitória assegurada nas próximas eleições, o inteligente vem acusar forças estrangeiras de estarem a contribuir para a sua derrota, demonstrando que está a perder o norte. Questão muito séria, pois, nestas circunstâncias criam-se por vezes manobras de diversão para desviar a atenção do eleitorado das questões internas. Normalmente é a guerra. Por isso a paz mundial poderá estar em risco.   

O outro fanfarrão, até já esteve internado com o vírus e até agradeceu a um jovem português por lhe ter salvado a vida. Engoliu tudo o que tinha dito anteriormente e já actua de forma diferente. Ignora-se se vai melhorar. As sequelas da doença ainda são desconhecidas. Sabe-se que afecta os pulmões, o coração, os rins, o sistema circulatório, a perda do olfato e do paladar, o cérebro, e outros órgãos. Este inteligente ainda conseguiu ser pai. Agora, provavelmente, já não conseguiria. De qualquer modo, parabéns para o bebé. 

Em Portugal, sabe-se que entre 15 de Março e 28 de Abril, cerca de setenta e cinco mil trabalhadores pediram subsídio de desemprego; um milhão, cento e trinta e três mil trabalhadores estão em Lay-off. Nem todos os trabalhadores desempregados têm acesso ao subsídio de desemprego. Há muitos trabalhadores e empregadores a trabalhar na economia paralela ou informal ou registada, que perderam os rendimentos das suas actividades. A precariedade é mato que as autoridades não querem resolver. Há salários na administração pública que foram aumentados ao fim de dez anos em dez euros mas os trabalhadores perdem vinte euros em resultado da passagem de escalão do IRS. Os sindicatos já reclamaram mas não são atendidos. Privilegiados no diálogo são os representantes do patronato que têm sempre as portas abertas do governo e da comunicação social. O senhor Saraiva está permanentemente nas TVs a ditar ordens. Na verdade, pretende, para o patronato, a apropriação dos recursos públicos, carta-branca para os despedimentos sem regras, cortes nos salários, alterações nas condições de trabalho e defendendo o mesmo que os conselheiros económicos do grande fanfarrão, pois a cartilha é a mesma. 

É cada vez mais evidente que sem uma nova política que permita a planificação da economia e uma nova política fiscal que tenha como centro as pessoas, uma sociedade mais igualitária, mais justa, mais equilibrada, não é possível construir um mundo melhor e de paz.

As televisões estão permanentemente a mostrar estatísticas, mapas e mais mapas, que no dia seguinte são alterados por não terem sido contabilizados números anteriores. Falam em picos, em planaltos, em linhas ascendentes e descendentes. Muitas delas parecem mais dentes de serrotes do que outra coisa.

O que me parece é que andam à procura de uma curva de distribuição normal, também chamado sino que tem o nome de um senhor que viveu entre 1777-1855, “o príncipe dos matemáticos”, assim chamado na altura. Mas para determinarem o cimo da curva, esta tem de ser padronizada, na qual intervém uma constante que resulta da razão entre o perímetro duma circunferência e o seu diâmetro, cujo nome foi oficializado por William Jones em 1706 e depois definitivamente fixado por Euler. Essa constante é o número mais conhecido da história da matemática.

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva






17 de Março; Subitamente, mergulhamos num país de sombras, num cerco que se aperta em torno do corpo e da alma. Subitamente, sem rosto, instalou-se, sem olhar a fronteiras nem a povos e amedrontou-nos mesmo sem o vermos e sem o podermos olhar e quando o percebemos, assentou no interior dos nossos sentimentos e emoções, adulterando a vida, mergulhando de braços estendidos no que muitos acreditávamos ser a melhor vida de sempre e outros a felicidade nunca vista, cheia de crescimentos e de bens sempre tão necessários quanto supérfluos. Com os poderes de um senhor divinal, move-se por entre as fileiras dos que agora aguardam silenciosamente a entrada nos supermercados e aceitam sem queixume todas as proibições que vão chegando e se oferecem para deixar os sonhos suspensos. O futuro curvou-se sobre todos e encerrados em casa, olhamos quase atónitos o vento que corre no exterior. Enquanto os aviões baixam as asas já não alimentamos o pensamento para além da esquina mais próxima. Tudo parecia infinito até ao momento em que o porvir nos entrou pelo cérebro dentro e escureceu o olhar. Aguardamos, tentando inventar a vida que ontem não imaginávamos existir. A realidade superou a ficção.

19 de Março; Acordo com o ladrar dos cães. Os olhos abrem-se doridos e adormecem de novo. Quando saímos para a rua, há uma serenidade plena. Um carro passa como algo invulgar. Como não circulam automóveis nem pessoas, podemos olhar toda a extensão das artérias e parece que as árvores que as ladeiam nunca tinham existido. Na rua principal, a serenidade é substituída pelo silêncio. A serenidade, sentimo-la, o silêncio escutamo-lo. Por aqui já um nadinha mais de movimento, os automóveis deixam um rasto de ruído a que já não estamos habituados. Passa um de cada vez. Só quando o sonido de um se apaga, outro recomeça. No centro há mais gente e mais veículos e no Café só duas pessoas nos aguardam. Prosseguimos a marcha para a loja das raspadinhas, dos lápis e papéis que também entrega o correio. Aguardamos no exterior, em fila distanciada, sem que alguém ordene ou se queixe, como se há muito assim acontecesse. Descemos até à avenida do porto, o movimento automóvel aumenta, mas nada como há uma semana atrás. Vivemos agora num país diferente como se tivéssemos esquecido o outro. O autocarro surge em marcha muito moderada, dez minutos antes do horário. Pode-se escolher o lugar e as janelas superiores estão abertas para que o ar circule. Em casa, procura-se entretimento, com o jardim, com as árvores, na companhia dos cães, alegrados por uma presença tão constante. As necessidades dividem-se em duas, as físicas e as psicológicas. À tarde, saímos para satisfazer as segundas, as que nos vão permitir aguentar o cerco dentro dos muros da residência. De novo o autocarro. Somos o primeiro passageiro. Seguem-se mais três. A velocidade é baixa e nas paragens não está ninguém para levantar o braço. A viagem de cinquenta minutos é agora de trinta e cinco. Na estação Casa da Música os passageiros são escassos, as máquinas de aquisição e de validação dos bilhetes estão desactivadas, as portas abrem automaticamente e cada composição é formada por dois veículos para evitar a proximidade dos passageiros. No Campo 24 de Agosto não há filas nos semáforos vermelhos e há um silêncio de fundo a encher o ambiente. Olhamos para a Rua Duque da Terceira e constatamos que nunca a tínhamos observado até ao fundo Sem automóveis, é como um desenho em perspectiva. Na loja da Barbot compreendemos que estamos no mundo da guerra biológica. Ao atravessarmos o Jardim de S. Lázaro, aparece um personagem com uma máscara na testa, como se de uma nova marca de óculos se tratasse. Ao descermos a Rua Passos Manuel a surpresa aumenta quando constatamos que não há um único estabelecimento aberto. O paradigma ruiu de um momento para o outro. Não houve decretos, não há polícia nas ruas, nem blindados, ninguém a dar ordens, e subitamente, acordamos com uma nova ordem, da qual ninguém discorda, ninguém protesta, ninguém reclama, tudo se aceita com a naturalidade de quem já nasceu neste ambiente. Bastou um miserável vírus microscópico para arrasar uma ordem estabelecida ferreamente amparada por guardas pretorianas, de leis e armas. Santa Catarina, Sá da Bandeira, encerradas como se o dia se transformasse em noite. No Bazar Paris, encerrado, protegeu-nos o acaso. Na larga e aberta Avenida apenas os autocarros marcam presença. No regresso ao Metro, confirmamos o que antes pressentíramos. Não há grupos, apenas pessoas isoladas. Não há sorrisos, fala-se baixo como se estivéssemos clandestinos face ao invisível. O autocarro chega de novo adiantado. A viagem é feita como se de um expresso se tratasse, calma, quase sem paragens. À chegada o primeiro-ministro anuncia o aumento do silêncio, o recolhimento, o apertar do cerco. É como se vivêssemos um pesadelo para o qual fomos anestesiados e ainda não compreendêssemos o que está a ocorrer. Amanhã vai chover.  
  
20 de Março; O dia amanhece com chuva como estava previsto. O medo é sempre irracional, tolhe-nos os sentidos, altera as emoções. É difícil não ter medo, mas podemos controlá-lo, domesticá-lo, e deixar apenas preocupações, as suficientes para termos cuidado, sermos preventivos nas acções. Saímos para ir ao hipermercado e as ruas mantêm o mesmo clima de ontem, tudo circula espaçadamente. Entra-se condicionado. As entradas têm de estar concordantes com as saídas. No interior, o número de pessoas é idêntico aos dias de paz. Carrinhos cheios, porque o mundo pode acabar, o que nos faz lembrar o título de uma obra do saudoso António Pina, Não é o fim do mundo, é apenas um pouco tarde. Os serviços de saúde de todo o mundo estão a ser postos à prova. No fim de tudo, vamos fazer contas, sobretudo com os incendiários que tentam colher dividendos da situação e todos os dias prognosticam o colapso do SNS. A justiça desde há muito está com a credibilidade no fundo do poço, mas os jornalistas não lhe ficam atrás. São verdadeiros pirómanos e as suas perguntas às autoridades, sanitárias ou outras, aparecem ao nível das dos alunos da primeira classe. A NATO não adia nem anula as suas grandes manobras militares, as quais obrigarão a transportar vinte mil soldados dos EUA para a Europa. Tudo em nome da defesa. Contra o vírus? Não, a defesa dos interesses da indústria de guerra. No mesmo tom, o governador do Banco de Portugal declarou numa entrevista que o governo tem de dar garantias públicas à Banca. E nós a pensarmos que estavam todos concentrados no vírus. Quis o acaso que a leitura de momento seja “Um Sentido para a Vida” de Antoine de Saint-Exupéry. O autor de “O Principezinho”, foi uma mistura de fascínio e mistério, numa vida curta com muitas viagens e aventuras. Nestas crónicas escolhidas, reflecte muito sobre a guerra e a paz, a natureza da humanidade, com a sua beleza e a sua maldade. Na frente de batalha da guerra civil espanhola, interroga-se sobre o porquê de morrer, sobre o que levou cada um daqueles soldados até à linha vermelha que separa a vida da morte. Nos seus relatos não nos fala do desenrolar da guerra, dos combates, mas apenas considerações sobre o que vê e o que ouve. Acabou por morrer no Verão de 1944, num voo de reconhecimento sobre o Sul da França. Fazia bom tempo e não se conhece a existência de actividade aérea do inimigo. O avião foi encontrado sessenta anos depois, mas ainda não se concluiu o porquê da sua queda. Foi misterioso até na morte. O dia mantém-se chuvoso e frio. A obrigação já não é apenas ficar em casa ou no seu território envolvente, é mesmo ficar em casa que a chuva não permite outro cenário. Itália vive uma catástrofe humanitária com os seus mais de quatro mil mortos, o que significa 8,5% do total de infectados. A nossa percentagem, por agora, não excede os 0,6%, o que no meio de tudo isto, é algo bom. O que mais custa é a falta do cimbalino, mas constou-nos que a padaria do bairro, vende café em copos de plástico. Amanhã vamos fazer a experiência.   

21 de Março; O dia abre cinzento, com ar de chuva. No Café que agora é só padaria, confirmo que posso saborear um cimbalino, mas em copo de plástico, deixa de o ser, mas é café o que nas circunstâncias que vivemos é quase ouro. Percorro a marginal de carro para verificar se o totoloto me sorriu. Foi pequenino, o sorriso, não chegou a desunir os lábios, nem aos seis euros chegou. A possibilidade de chuva e o vento frio não deixavam usufruir do ar livre e entre aviões e comboios foi o dia passando. Entre a precaução e o medo, esquecemo-nos que as árvores se enchiam de folhas e flores, dizendo-nos que a Primavera chegou. Esquecemos como vimos esquecendo tudo o que tínhamos até há uma semana atrás e aceitamos este novo normal tão oposto ao que vivíamos. Será que vamos descobrir uma nova vida, aqueles que saírem vencedores desta intempérie? Mas no esquecimento que nos leva, a memória apagou o dia das florestas e o Dia da Poesia. Como nos permitimos olvidar as palavras poéticas que tanto nos podem ajudar nos dias que vivemos cercados? Mas não desejamos esquecer e aqui quero deixar essas palavras belas de Pedro Barroso, “Diz-me lua que és tão bela/ por entre silvas e rosas/ diz-me qual é o caminho/ Quero o caminho do tempo/ quero ter tempo para o caminho/ quer olhar-te devagar/ Diz-me lua que és antiga/ quais os segredos da vida/ e por onde procurar”. Ou de Carlos Oliveira, “Transpondo os versos vieste à minha vida/ e um rio abriu-se onde era areia e dor./ Porque chegaste à hora prometida/ aqui te deixo tudo, meu amor!”

22 de Março; Os dias tendem a repetir-se. Comprado pão e bebido o café, foi o regresso a casa, o deambular pelo jardim, pintar os painéis do muro, limpar o que tem de ser limpo e, de novo, os aviões e comboios. Só à noite viajamos pelas palavras. Após o almoço acabou finda a leitura de “Um Sentido para a Vida”, algo que muito precisamos neste momento. Iremos no final desta prova, voltar à loucura do comboio a alta velocidade? Tememos bem que sim. Vamos de novo acreditar que superamos esta prova e voltar à espiral de correr de um local para outro, de não conseguirmos escolher o caminho que nos serene a alma, nos reconforte o olhar e nos apazigue o medo. A humanidade e cada um de nós, merecemos melhor e muito mais. É uma dádiva os dias em que formos capazes de percorrer o litoral sem hora marcada, de caminharmos nos bosques no interior das montanhas e de nos sentarmos numa esplanada saboreando um café, deixando o olhar percorrer o horizonte enquanto vemos as gentes passando. A Itália prossegue mergulhada numa tragédia humana. A ajuda que esperava da Europa, chegou apenas da, China, da Rússia e de Cuba. Tão unidos que nós éramos, diziam-nos os que nos massacraram com défices e agora aceitam abdicar deles. A NATO, generosa reduziu as manobras militares, mas não as anulou. A Europa encerrada em casa, a ver os seus a morrer aos milhares enquanto outros milhares aguardam sobre a linha vermelha se vivem ou morrem e os generais estado-unidenses, só lhes preocupa brincar à guerra contra um inimigo inventado, mas que lhes permiti usufruir de um estatuto que de outra forma não valeria nada. No meio do drama, aparece como de positivo, a saliência destas maldades e malfeitorias.  

23 de Março; Os dias repetem-se e os acontecimentos que nos rodeiam provêm do exterior, de perto e de longe. Para além da ida ao pão e ao café, dos arranjos do jardim e dos aviões e comboios, sonhamos com as montanhas, os caminhos que no Sábado não chegamos a percorrer e já só vislumbramos esse horizonte que acontecerá no primeiro dia que tenhamos vencido este medo que nos cerca e atemoriza. A travessia dos bosques, das linhas de água e o olhar sempre perdido no alto da fraga com aquele ponto sempre miraculosamente branco. E o longe se fará perto. Ao amanhecer as ruas do bairro apresentam-se com uma serenidade profunda e quando um carro passa, é como algo de estranho ocorresse, perturba-nos o som do motor. Depois dilui-se com o afastamento e tudo retorna a uma tranquilidade plena. Fazer fila para o pão, já nem sequer é tema, é apenas um acto de normalidade. É interessante que aquando dos ataques bombistas, os europeus diziam, «não nos vamos deixar atemorizar, querem instalar o medo, mas vamos continuar a sair à rua e a fazer a nossa vida normal» e agora, sem bombas, sem violência, sem ordens e decretos, deixamos as ruas vazias, se não estamos atemorizados, estamos preocupados e não sabemos quando regressará a normalidade às nossas vidas. Ao ruído ensurdecedor em que vivíamos, sucede agora um silêncio profundo. À cidade enorme, sucede agora uma aldeia de sossego.   

24 de Março; O que mais tarde iremos recordar com apreço, é a profunda serenidade que usufruímos nos trezentos metros de caminho até à padaria quando o dia começa. Certamente será irrepetível nos dias que se seguirão. Como as leituras ocorrem ao acaso, a que actualmente praticamos tem por título, A Sabedoria Secreta da Natureza, através da qual nos é mostrada a grande complexidade das florestas, do equilíbrio, por vezes frágil, em que evoluem e se desenvolvem e, quando a intervenção humana ocorre, o desastre aproxima-se, ou como inúmeras vezes acontece, se revela destruidora. Os dias continuam muito idênticos com as preocupações sempre acrescidas sobre a evolução da infecção no nosso país, a qual permanece sob controlo com grande esforço de todas as pessoas do serviço nacional de saúde a darem o melhor dos seus conhecimentos e de si próprios. Em Espanha e na Itália, continuamos a observar os dramas humanos que vivem esses Estados.

15 de Abril; Dos dias do medo há dois aspectos que vou sempre reter: a serenidade, a imensa serenidade do amanhecer que nos refresca a alma e nos alivia o pensamento, e o frio, esse frio cortante que chega pela tarde e se prolonga pela noite que varre o ambiente e nos devasta o corpo. Hoje, porém, o sol abriu sem vento, também ele em acalmia e foi aquecendo um pouco. A brisa chegou pela tarde, mas não arrefeceu, nem amainou a luminosidade solar. Com o aproximar do crepúsculo, arrefeceu e agora que os dias são longos, não podemos usufruir em pleno essa extensão da luz diurna. As árvores insistem em florir, encher-se de folhas verdes, e os pessegueiros de flor. É possível que os frutos cheguem nos meses de sempre, sem paragens. As roseiras também não obedeceram ao recolhimento e a cada dia, uma atrás da outra abrem as suas pétalas de fogo. Na natureza tudo parece continuar ordenado, enquanto a sociedade se voltou do avesso e navega um pouco sem rumo, por não conhecer o destino. Nas trirremes gregas, haviam três elementos decisivos, os remadores, o homem que comandava o ritmo e o comandante que orientava o rumo. A nossa trirreme está parada, os remos pousam na água, mas estão estagnados e o comandante não sabe para onde ir. Aguardam-se novos ventos, mas os que se anunciam, são de tempestade. Permanecemos cercados, sem ver o inimigo, mas este trepa as muralhas, passeia-se pelo castelo, sem licença e sem freio. Em três meses podemos acreditar que já vimos de quase tudo, cidades desertas, transportes vazios, comboios da morte, e mortos carregados por empilhador. Sucumbem aos milhares por terras que recordávamos com delícia, pela beleza, tranquilidade e bem-estar. O nosso sonho que seguia num impulso ascendente, jaz moribundo, num lago seco, cheio apenas de silêncio dos que partiram e dos que aguardam ansiosos para conhecer o seu futuro. Foi um vulcão calado que nos devastou tudo o que acreditávamos (?) como certo e definitivo e, de momento, até nos recusamos em pensar no amanhã.   

16 de Abril; O tempo agora é de oposições. Quanto mais afastados, mais próximos estamos, quanto mais longe, mais solidários, todos juntos numa só força mas cada um em sua casa. Aguardamos com ansiedade contida que o gráfico que apresenta o número daqueles que o inimigo alcançou, inicie a sua descida, quanto mais abrupta, mais tranquilizadora, contrariamente aos donos do dinheiro e do mundo que entram em pânico quando o gráfico dos seus interesses espúrios se apresenta assim, a descer, nesse campo de extermínio social a que chamam bolsa. A alegria dos cidadãos é o terror daqueles que os atormentam, com as suas ganâncias, os seus lucros desmedidos, a sua obscena riqueza, pelo que bem podemos dizer, viva a alegria, e assim, enquanto a espera se prolonga, sonhamos com “A Festa da Vida” de José Niza, “Que venha o sol o vinho as flores / Marés canções todas as cores / Guerras esquecidas por amores; / Que venham já trazendo abraços / Vistam sorrisos de palhaços / Esqueçam tristezas e cansaços; / Que tragam todos os festejos / E ninguém se esqueça de beijos / Que tragam prendas de alegria / E a festa dure até ser dia;”. Apesar da insídia do inimigo, os seus assaltos parecem estar a perder força. Resistimos na barreira da esperança e sem dúvida que vamos vencer com o desejo de que este planeta onde estamos, mude de forma transformadora a vida daqueles que nele habitam.

18 de Abril; Vivemos tempos de sonhar o impossível. Os nossos olhos repousam sobre as águas de azul vivo e luminoso do Lago Maggiore. Sente-se a calma e tranquilidade dos momentos irrepetíveis. Sobre a outra margem descansa uma nebulosidade de Monet a encher de fantasia o que vemos e um pouco adiante, as alturas alpinas emolduram este quadro de um maravilhoso divino. Mas o devaneio, subitamente dá lugar ao pesadelo e ao olharmos mais longe, para a Lombardia, para a bela e surpreendente Toscana com os seus fins de tarde soberbos entre o real e a ficção, ou ainda para as ruas da Sereníssima, vemos os mortos que se acumulam às centenas diárias, os fogos que os incineram e os comboios que os transportam, em Paris já não é só a Notre-Dame que arde, mas também as cidades e aldeias, desde o Loire até à terra dos Cátaros, em Espanha, já não são os ventos de Guadarrama que fustigam a capital, mas antes a insanidade de um inimigo cruel e desapiedado que semeia ondas de morte onde o mar não existe. No Equador com os campos santos esgotados, os mortos aguardam na rua que os levem. Olhamos paralisados para um acontecimento que ultrapassou a imaginação mais delirante e sentimos a fragilidade da nossa inteligência a dobrar-se perante a força do desconhecido e já só perguntamos, até quando seremos capazes de resistir?

25 de Abril; Se o vírus maléfico nos cerceou a liberdade, um outro vírus, não menos letal, tentou privar-nos de outra liberdade, a da alegria de poder festejar o dia que nos permitiu chegar aqui com as instituições que nos permitem hoje resistir ao desconhecido. Verdadeiramente, a maldade humana não tem limites e mesmo no meio de tanta dor e drama, consegue trazer os seus interesses espúrios por cima dos escombros.

28 de Abril; Escrevo de um tempo que já não existe. Será que ainda lembramos quando os encontros se marcavam no Café? Quando se ia ao Café depois do almoço e se ficava a conversar pela tarde dentro? Quando se estudava nos Cafés? Quando os contratos se tratavam nos restaurantes, ou se comemoravam datas e festejos em almoços de 20 ou 30? Quando na rua podíamos ver o sorriso de uma mulher? É desse tempo que ainda escrevo, mas já não existe. Levou-o o vento ou o espirro de um vírus no fim de um Inverno que parecia não acabar. A Primavera ainda viu as árvores cobrirem-se de flor e de folhas, talvez até dêem frutos, mas em seu redor tudo perdeu a forma do passado e ainda não desenhou a do futuro.

30 Abril; Dizem-nos que vai ficar tudo bem, mas não vai. A segunda parte pode transformar-se num processo social e economicamente traumático e, entre o desemprego e o aumento de impostos, vai ser um vírus tão letal como este. Dizem ainda as mentes esclarecidas que a sociedade vai mudar, não ser possível viver à velocidade anterior, que o isolamento fez-nos ver valores esquecidos esmagados pela voracidade do presente sem cuidar do futuro, que ao crescimento constante, deve sobrepor-se um desenvolvimento saudável. Nos primeiros meses é certo que o comportamento pessoal vai mudar, mas se reflectirmos sobre um horizonte ligeiramente mais distante, saberemos que, nem os 3 000 000 de infectados, nem os mais de 150 000 mortos, são números suficientes para alterar a sofreguidão gananciosa desse 1% da humanidade (?!) que oprime os restantes 99%.


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