António Mesquita
Esta é mais uma variação sobre os julgamentos de Nuremberga. A de Stanley Kramer (1961) era, contudo, com nomes fictícios e não houve condenações à morte. Foi um momento crucial da Guerra Fria e os americanos não quiseram deixar uma Alemanha sem apelo nem agravo.
Depois da famosa e polémica interpretação de Hannah Arendt do caso Eichman, julgado em Israel no ano do filme de Kramer, e se a aplicarmos a Nuremberga, procuraremos, com sucesso garantido, no grupo dos acusados a normalidade e o humano, demasiado humano.
Göring (um Russell Crowe deformado e impressionante) é a figura central deste drama. Douglas Kelly (Rami Malik), o psiquiatra destacado pelo exército americano não se poupa na tentativa de procurar compreender o dirigente nazi. Ao ponto de visitar a mulher e a filha do Reichsmarschall e de se mostrar empático para lá do que era esperado. Para o final, a sua zanga com o colega que o vai substituir revela um desequilíbrio que não surpreende. Se Göring, para escapar à forca, recorre à pastilha de cianeto, o seu psiquiatra há-de suicidar-se da mesma maneira. O que quer isto dizer? Que o médico se identificou, de algum modo, com o seu "doente", ou que o contacto com o "monstro" o alterou definitivamente?
A fraqueza dos restantes acusados, desde o choro e o mijo de Streicher, à amnésia de Hess e ao suicídio de Ley, parece não atingir o número dois que mantém a fábula de que desconhecia a real função dos läger. Nem o procurador americano Robert Jackson (Michael Shannon), com as suas hesitações, consegue demolir a sua defesa. É o delegado britânico que, no julgamento, consegue fazer a pergunta crucial: se Hitler fosse vivo ainda o seguiria? Göring não podia dizer que não sem pôr em causa a sua imagem de líder nazi e a superioridade com que se confortava.
No momento da sentença, Göring continua a ser o único a envergar a farda do seu posto militar, numa excepção difícil de compreender, mas, pela primeira vez aparece de óculos escuros. Deixara de apresentar a sua imperturbável máscara de detentor da razão histórica e a certeza de que o futuro lhe haveria de fazer justiça.
O filme de James Vanderbilt coloca-nos algumas questões interessantes. Os juízes americanos insistiram no acompanhamento psiquiátrico dos prisioneiros nazis, sobretudo Göring, para compreenderem a sua mente e anteciparem os seus argumentos, com vista a um desfecho do processo conforme a ideia de justiça dos vencedores e não para saberem se eles estavam em condições psicológicas para aguentarem a prova. Em certo momento da acção, quando o juiz Jackson se confunde perante a sobranceria e a convicção de Göring e nós chegamos a pensar que, por hipótese absurda, os réus seriam ilibados por provas insuficientes, outra questão mais pertinente ainda se nos coloca: o julgamento dos crimes nazis, em Nuremberga, poderia ilibar os dirigentes do regime? Então, o que foi esse tribunal senão uma fachada de justiça para apaziguar os pruridos moralistas dos Americanos? A condenação 'tout court' seria compreendida por todos, mas decerto modo era uma prerrogativa da força vencedora. E era isso que não se podia aceitar porque punha esta ao nível da força vencida.
Göring, a certa altura do seu depoimento, compara a "solução final" como consequência da política e da guerra, ao bombardeamento de Hiroshima e Nagazaki que teve outras proporções, mas muito menos "escandalosas". Dois pesos, duas medidas?
O filme, se mais não fosse, tem o mérito de renovar a leitura dos acontecimentos inquietando, a justo título, a acomodação histórica a que nos habituamos.
Hannah Arendt empregou pela primeira vez a expressão "banalidade do mal", o que pareceu, na altura, uma desvalorização do crime. A verdade é que todos os dias assistimos a essa banalização que é muito pior do que a ignorância.
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