Leiria. Voltei ao comboio. O dia ainda renasce quando subo
para uma carruagem que me acolherá em direcção a Sul. Apesar da destruição
planificada a que tem sido submetida a ferrovia, ainda é possível conhecer o
país viajando de comboio. O abandono, deste meio de transporte, por parte do
Estado começou há muito. O faraó de Boliqueime quase lhe deu um golpe fatal,
mas sobreviveu. Como quase sempre acontece, estamos em contraciclo com a
Europa, ou seja, com o espaço territorial que nos rodeia. Quando à nossa volta
se efectuavam investimentos nos caminhos de ferro, esta espécie de muchões que
se auto-intitulam de «arco do poder» encheram o país de auto-estradas. Vamos em
quarenta e sete. Esta Linha onde vou viajar é o espelho da decadência putrefacta
que invadiu os corredores do poder. Arrasta-se em obras há longos anos com a
certeza de que ninguém sabe quando possam terminar. Entretanto, há meses que se
discute se o comboio de Alta Velocidade – é uma moda a que não resistimos – tem
uma paragem em Santo Ovídio ou em Vilar do Paraíso, quando nem sequer devia
parar em V.N. de Gaia. Um comboio de Alta Velocidade que custa milhares de
milhões não é um comboio turístico. Acordei azeda, hoje e não consigo evitar
esta náusea que se evapora da terra e me invade o cérebro e com isto quase
perco a paisagem que se passeia perante o meu olhar. Acabamos de passar Vila
Verde o que traz recordações nostálgicas de uma noite distante em que ouvimos
falar da tragédia que tem sido a Palestina. Longe estávamos de imaginar até
onde chegaria o destempero criminoso de doentes mentais que se apoderaram de um
território e se digladiam a destruir por completo um povo inteiro, perante os
olhares do mundo, num misto de incredulidade e impotência. A infâmia gerou um
monstro de tal amplitude que já não é possível destruí-lo. Ganhou asas,
corrompeu, destruiu, criou uma realidade paralela que o fez perder a noção do
mundo onde está. Não acreditam apenas ser Deus, vão mais além, o seu pretenso
Deus despreza a humanidade com a excepção daqueles atrasados mentais que se
julgam eleitos. Atravessamos o Mondego e olho com vagar para as suas águas e
para as margens ao longo desta extensa planície. Sinto essa quietude que me
serena e apazigua. A ponte é longa, em ferro, como uma espécie de túnel o que
me faz levar a memória para Krasnoiarsk e a travessia do Ienissei. Deixo-me ir
com o pensamento em sossego. Olho apenas e procuro recriar a vida das pessoas
que os meus olhos encontram, de relance, numa rua, numa casa, aguardando a passagem
do comboio. A estação fica longe da cidade. O seu edifício aparece, como seria
de supor, desgastado pelo tempo, sem a mão humana cuidando do seu estado, a não
ser pelo mínimo necessário. Procuramos nos azulejos alguma originalidade. Há
sempre, pois cada uma destas estações procurava recriar um pouco a região que
servia. Tenho uma longa recta para caminhar, mas não me preocupo. De certa
forma, far-me-á bem para deixar soltar-se este azedume que trouxe do nascer do
dia. A um quilómetro do centro da cidade, avisto a Torre de Menagem do castelo
que vigia Leiria. Contorno o monumento à imbecilidade que é o Estádio Municipal
e ignoro o novo elevador. Escolho o trajecto mais longo e menos íngreme. Dá-me
tempo para interiorizar o que vejo. Esta pedraria castelã no topo do monte é
imponente. Sente-se o peso da sua resistência. D. Afonso o perdeu por duas
vezes e por outras duas o conquistou. Ficava nas terras de fronteira e a sua
conquista, só por si, não afastou a presença árabe. Engrandeceu-se durante toda
a 1ª Dinastia e D. João, o de Boa Memória, introduziu-lhe a beleza luminosa do
gótico. Apesar de renovado, ainda se nota o abandono do passado. A Leiria
medieval cresceu para Sul, certamente procurando a intensidade da luz. Para
Norte cresce a nova cidade. De há longo tempo que memorizei o nome dos rios que
a atravessam. O Lis sempre me retira da memória os sacos de cimento que recordo
com essa crueza do que se não quer voltar a viver. O pequenino Lena, conduz-me
até à Sibéria, às montanhas do Baikal onde nasce o outro Lena que viaja para
Norte ao longo de milhares de quilómetros. Das alturas desta Torre de Menagem
pode olhar-se a cidade em 360 graus e aparece-nos com essa beleza do que é
perfeito. É a ilusão da distância. Uma cosmonauta que voou para a estação
espacial dizia mais tarde que, conforme se vai subindo, se vai deixando de ver
os caminhos, depois as estradas, os bosques, as cidades e quanto mais a nave se
afastava, mais perfeito parecia o mundo que deixava. Por fim, aparecia toda a
Terra, num azul luminoso e não se distinguia qualquer espécie de imperfeição,
mas no regresso, a visão oposta passava da beleza para a fealdade. De certa
forma, é a história da humanidade. A cada avanço científico, corresponde um
acto de maldade humana, uma acção insidiosa de quem detém o poder, pela
violência, pelo engano, pelas narrativas paralelas à realidade. O sol tomba a
Oeste nas areias das praias de Vieira onde Pedro Barroso nos dizia, “Pus-me
à noite a ouvir o mar / sentado na pedra sentado na areia / e
senti uma barcarola criar devagar / esta melodia”. É ao som dessa
melodia que desço por entre o casario do centro histórico desta Leiria que olha
mais para Sul do que para Norte. Ainda me invade o núcleo das ideias que viajam
sossegadamente comigo, a história da Amélia do Eça, essa menina que sonhou por
entre as paredes destas calçadas e cuja morte é um símbolo da maior solidão. O
postal por agora fica comigo.
01/01/26
NO CORRER DOS DIAS
Marques da Silva
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