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01/02/26

PALLAS ERRÁTICA

António Mesquita


"A sua crítica anda à volta de uma estrutura, na qual a vida descobre que possui mais moral do que vitalidade, mais recordação do que espírito de empreendimento, mais inibições do que incitamentos.
Só o historicismo torna sensível o pesadelo das gerações passadas, que pesa sobre as gerações presentes"
 (Peter Sloterdijk sobre Hegel)



Marx, o mais célebre dos discípulos de Hegel, numa carta ao seu amigo Engels que se sentiu ofendido com a resposta a uma das suas cartas em que expunha as dificuldades que encontrava para apoiar financeiramente o amigo, confessa que em determinadas situações só encontra saída no cinismo. E acrescenta: "Acontece-me o mesmo com os idiomas. Compreendo as leis matemáticas, mas a realidade técnica mais elementar para a qual se necessita de intuição, acaba por ser mais difícil que os problemas mais intrincados." (carta de 28/1/1863)

Não sei porquê relaciono esta atitude e esta argumentação com a incapacidade revelada por Freud, no seu estudo  "O Moisés de Miguel Ângelo": "Algum viés mental racionalista, ou analítico talvez, revolta-se em mim contra a emoção despertada por qualquer coisa sem saber por que sou assim afectado e o que é que me afecta."  Freud invoca explicitamente o caso da música.

A música que,  já Platão considerava parte essencial da 'Paideia' e não luxo estético. O neurologista e escritor, Oliver Sacks, confirma-o no seu "Musicophilia" e em entrevistas: "Sacks mostra que a experiência musical mobiliza vastas redes cerebrais (auditivas, motoras, emocionais, executivas), o que ajuda a explicar por que a música pode reorganizar a vida psíquica de doentes com Parkinson, afasia ou Alzheimer." (*)

Depois deste cúmulo de citações, vamos à ideia que pode estar por detrás deste artigo, sem pretensões, de resto.

O presidente americano mostrou que a revolução (ou a contra-revolução) pode começar aos oitenta anos. Já Mao Tse Tung tinha mostrado o mesmo e num país conhecido pelas suas tradições milenárias. Como aparte, direi que talvez fosse preciso "limpar a lousa" para que outros líderes pudessem estabelecer o gigantesco sucesso actual, em termos, por muito que pese ao Grande Timoneiro lá na sua pirâmide, capitalistas e ditatoriais.

De resto, o que o homem do boné vermelho está a fazer é uma espécie de 'revolucāo cultural', de tábua rasa que prepara, sem ele saber até que ponto, o mundo novo da utopia digital. De resto, o que o homem do boné vermelho está a fazer nos USA é uma espécie de 'revolucāo cultural', de tábua rasa que prepara, sem ele saber até que ponto, o mundo novo da utopia digital. O célebre comportamento errático do personagem por que não há de ter uma lógica por detrás, mesmo que subliminar e artificialmente  motivada? Agora que tanto se fala de IA, não é descabido pensar, que o dito a consulte para os seus inúmeros disparates e idiossincrasias de primeiro grau e que, "por linhas tortas", como se diz que Deus escreve,  o errático se transforma em estratégico.

Fechemos o parêntesis. Os casos de Marx e de Freud e as dificuldades auto-admitidas, de um e outro, para a intuição (incluindo no que se refere à música) não são nada de novo. Qualquer trabalho aprofundado (até o de corrigir um teste universitário) exige adoptar "palas" para outras dimensões da vida. A teoria da alienação do filósofo de Iena, a teoria da luta de classes do amigo de Engels ou a psicanálise precisam dum 'parti pris' de abstracão.  No lado 'oposto' , nāo conheço nenhum grande músico que conseguisse brilhar na matemática. É assim, diria Hegel.

O que espanta, pois, o que um neurologista e ensaista como Oliver Sacks diz sobre a música como terapêutica de certas doenças mentais e nervosas? Se pelo menos algumas doenças podem ganhar com um tratamento pela linguagem (musical)?


                                                                                  (*) https://www.sciencefriday.com/segments/oliver-sacks-music-brain/








A LELLO


"As origens da Livraria Lello remetem a 1906, quando os irmãos José e António Lello inauguram o edifício da Livraria Lello, moldado pela visão do engenheiro Francisco Xavier Esteves." 

(Expresso, 13/1/2026)



A Livraria Lello é um fenómeno turístico, mais devido ao mito (*) de  Harry Potter e à famosa escada nos livros de J.K. Rowling, cidadã inglesa que viveu no Porto, do que ao êxito comercial da venda de livros.

A consagração da Lello como monumento nacional é, apesar disso, uma boa notícia  que não desagradaria a Guerra Junqueiro, Bento Carqueja ou Aurélio Paz dos Reis que estiveram presentes na inauguração em 1906. (A Capela das Almas, na rua de Sta. Catarina, é outro 'must' turístico, mas as fotografias que toda a gente lhe tira não geram receita para a Igreja.)

Todos temos a noção de que a leitura de livros em papel tem vindo a decrescer e as vendas confirmam essa tendência (20% foi quanto cairam  entre 2009 e 2018, por exemplo). O que não nos deve desmoralizar, pois a leitura em boa parte tornou-se digital e os que lêem o mau português das plataformas em mensagens curtas e na gíria da rede, é provável que antes dos telemóveis não lessem de todo.

Não me surpreenderia que agora se lesse mais, mas cada vez mais lixo.

Afinal, talvez Guerra Junqueiro, cáustico como era, não apreciasse tanto a passagem a monumento da Lello. E os amantes da leitura da minha geração têm que se acautelar contra um pessimismo de fim-do-mundo que é o conselho da velhice.

Saudemos, pois, o gesto duma livraria mais do que centenária que se não vive dos livros, vive duma ficção literária que já chegou ao cinema e há-de passar de moda como a nossa juventude.


(*) Apesar de já ter sido desmentido pela própria autora da saga Harry Potter, o mito de que a Livraria Lello terá inspirado locais e emblemas associados ao pequeno feiticeiro e ao colégio de magia de Hogwarts continua a alimentar o imaginário de muitos visitantes, assegura Sérgio Sousa que aqui trabalha desde 2015, antes do restauro que lhe devolveu o esplendor original, terminado em 2018. O facto de a escritora britânica J.K.Rowling ter vivido alguns anos no Porto continua a alimentar a lenda, desmentida por quem guia os visitantes pelo espaço (...) [ Maria Fonseca, 16/1/2026, Expresso]

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