Valado dos Frades. A tarde já dobrou a sua metade e ora me
sento, ora me levanto. O horário do comboio é uma questão e a sua chegada é
outra e nunca coincidem. Ocorre até em algumas ocasiões que o primeiro existe,
mas o segundo fica pelas aparências. É a Linha do Oeste, mas podia ser qualquer
outra. A figura sinistra do ministro dos Transportes, segue à risca o conselho
do Dr. João das Regras, adaptado ao nosso tempo, dá o que não é teu e promete o
que não vais fazer. A aldeia é grande, o que se compreende por ficar a quatro quilómetros
da Nazaré e, para que ninguém se sinta afastado, a estação tem três nomes,
Valado, Nazaré e Alcobaça. Encontramos um pouco de tudo ao percorrermos as ruas
estreitas do lugar, casas fechadas, muros em ruínas, janelas sem vidros e
paredes de casas brancas, pinturas vivas, com as pedras laterais que desenham
as entradas, pintadas de azul ou amarelo. É o Sul que se aproxima com a
intensidade da luz a sentir-se com mais premência. Com o dia a declinar,
sente-se uma mansidão repousante. Aproveito para serenar e interrompo o
pensamento. Das ocasiões em que me levanto, aprecio os azulejos da estação. Já
lhes memorizei os pormenores. São reproduções dos lugares que serve e o central
tem um apelo, «visitem Alcobaça». Hesitei imenso em abandonar o comboio em
Leiria, mas quer Santa Maria da Vitória quer o Real Mosteiro de Santa Maria de
Alcobaça, eram impossíveis de ignorar. Desci devagar ao longo do Liz, por entre
aldeias onde o tempo tem essa lentidão de prazer, e permite-nos admirar o
horizonte, fixar memórias e sentir o viver da vida. O que primeiro nos surge no
olhar quando nos aproximamos, são as Capelas Imperfeitas, mas o que poderá ser
imperfeito nesta beleza gótica? Abandono a ideia dos pormenores, retenho-me na
grandeza e sinto necessidade de comparar as igrejas, a cisterciense e esta dos
dominicanos. Separam-nas dois séculos na construção, mas era um tempo em que
trabalhar a pedra e o vidro eram uma arte, o tempo em que os mesteirais enchiam
as cidades com os seus saberes e as ruas tinham o nome dos seus mesteres. Ambas
as construções se assemelham, na fortaleza das colunas, nas dimensões da
abóboda, na explosão de luz que penetra dos vitrais e, no gótico. Cativa-me a
dos cistercienses por algo inexprimível, mas a de Santa Maria da Vitória tem
outra dimensão que percepciono mas não distingo de imediato. Em Alcobaça
reza-se a Deus pelos pecados terrenos e apela-se pela vida eterna. Na Batalha
também, mas contém outro plano, agradece-se a Deus por um momento ímpar da
história colectiva, que se vem escrevendo há nove séculos, engrandeceu o reino
e fez alvorecer a ideia de pátria. Os túmulos, em ambos os espaços sagrados,
expressam a dimensão dos seres mortais que acolhem, enquanto viveram, mas por
razões distintas. Uns pela forma como reinaram, os outros pela forma como amaram.
Os primeiros têm um lugar próprio, uma capela para repousar no sossego da
eternidade, mas num espaço exterior ao dos crentes que rezam e apelam, os
segundos estão no próprio corpo da igreja, recebem a luz que chega de Deus e
alimenta, hoje em mito, o que foi o amor imperecível a que se dedicaram. Por
aqui, por estes espaços se queda sempre o meu olhar renovado por tanta arte e
mestria do trabalho de cantaria. Por fim, refugio-me nos jardins dos claustros,
territórios perfeitos para a reflexão, um deleite de conforto. Procuro sentir a
emoção desse final de tarde de Verão nos campos de Aljubarrota. Milhares de
homens no calor tórrido de Agosto e um extenso campo a separá-los. Tudo parece
ter-se extinguido em menos de uma hora. A nata da nobreza castelhana jazia por
terra, o que restava, cavalgava desvairadamente e do lado dos vencedores, um
sentimento pátrio nascia. Ainda sem o saberem, estavam a projectar o reino para
dimensões de uma grandeza que ainda ofusca o presente. D. João terá hesitado
nos momentos que antecederam a disputa, e não seria a primeira vez, mas por
vontade própria ou sem terreno para recuar, instalou-se na refrega e saiu rei.
A coroação chegaria depois, com tempo, pela arte da oratória ou da engenharia
jurídica, mas isso que importa, sabendo nós hoje o que sabemos. Este quadro traz-nos
à memória um outro personagem do nosso tempo que também por estas terras
próximas se dedicou às uvas e às rosas até aparecer um Álvaro Pais que o
colocou em cima do cavalo e o pôs a galopar. Vai ser rei, sem saber ler
nem escrever como diz o povo mínimo. Mas quanto à grandeza do futuro, podemos
recolher ao claustro para sossegar. D. João, o verdadeiro rei, não o que ainda
não é, era um homem devoto com particular admiração pela Nossa Senhora da
Oliveira, daí as suas viagens a Guimarães e ao Minho com passagem pelo Porto.
Numa dessas viagens acordou casamento e de D. Filipa saíram aqueles que
projectaram o que hoje chamaríamos um tempo e um mundo novo. Ainda o rumor da
batalha se escutava quando o que antes foi Mestre de Avis dava ordem de
construção a esta maravilha gótica com a pedra trabalhada como filigrana. Longa
vida foi a deste rei, filho bastardo daquele que em Alcobaça repousa e que
morreu amando. Ao longe, no final desta recta extensa que o meu olhar alcança
do lado esquerdo, pestanejaram umas luzes ínfimas e tremelicantes parecendo
aproximar-se. Está dentro do horário o comboio que me vai levar, porque o
horário não é o que está escrito, mas quando aquele chega à estação. Ainda não
decidi onde vou sair. O postal envio à chegada.
01/02/26
NO CORRER DOS DIAS
Marques da Silva
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