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01/12/25

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CIÊNCIA, PARA QUE TE QUERO?

Mário Martins

https://www.wook.pt/livro/uma-ideia-de-ciencia-joana-goncalves-de-sa

 

“Uma revoada de novas questões emerge de cada problema que eles (os cientistas) resolvem. Qualquer que seja a inspiração, ela nasce de um contínuo “não sei”. (…) Por isso valorizo tanto a curta frase “não sei”. É pequena, mas voa com asas poderosas. (…) Torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos de todos os tipos (…) “sabem”. Eles sabem, e tudo o que sabem é suficiente para eles de uma vez por todas. Eles não querem saber de mais nada, por isso pode diminuir a força dos seus argumentos. E qualquer conhecimento que não conduza a novas perguntas rapidamente desaparece.”

Wislawa Szymborska, Nobel da literatura



A ciência quer-se útil, de aplicação imediatista, ou, como defende a investigadora Joana Gonçalves de Sá, no seu excelente ensaio “Uma Ideia de Ciência”, a investigação aplicada não deve desincentivar a investigação pura ou fundamental?

Apropriadamente, a autora cita a crítica que o matemático Carl Gustav Jacobi fez à opinião do igualmente matemático (JosephFourier, “de que o objectivo principal da matemática era a utilidade pública e a explicação dos fenómenos naturais; (quando) um filósofo como ele deveria saber que o único fim da ciência é a honra da mente humana e que, sob este propósito, uma questão sobre números vale tanto quanto uma questão sobre o sistema do mundo.”  

O que não impede, como refere a autora, que o trabalho em matemática pura de Alan Turing tenha sido crucial para quebrar os códigos nazis.

Ou que a World Wide Web tenha sido criada no CERN (Organização europeia que investiga a física das partículas elementares), para resolver um problema logístico dos investigadores, mas que acabou por mudar o mundo para sempre.

Ou ainda, nas palavras da autora, a descoberta da estrutura da dupla hélice do ADN, que abriu portas à genética molecular e à medicina personalizada; os princípios da mecânica quântica, que abriram a porta a lasers e transístores; ou a teoria da relatividade geral, cujas aplicações usamos todos os dias através do GPS.

A investigadora dedica um capítulo ao “futuro agora”, não sem antes citar o aforismo atribuído ao físico Niels Bohr, segundo o qual é muito difícil fazer previsões, principalmente quando estas são sobre o futuro. E, como não podia deixar de abordar um tema que está na berlinda, foca-se na Inteligência Artificial.

Numa visão “não alarmista”, a Inteligência Artificial, na medida em que é uma criação humana, não passaria de mais uma ferramenta computacional, revolucionária sem dúvida, mas com funcionamento definido pelas regras de programação. Contudo, talvez esta seja uma ideia ingénua, própria de um leigo como eu.

A autora é, todavia, mais cautelosa, pois admite que ela (a IA) passe a ser geral, “ou seja, capaz de resolver muitos problemas diferentes, oferecer soluções criativas e talvez até desenvolver consciência, potencialmente substituindo ou, quem sabe, voltando-se contra a humanidade.” Sublinha, no entanto, que “ninguém pode determinar com certeza quão próximos estamos ou qual a probabilidade de isso acontecer.”

Enfim, tal como Arthur C. Clark manifestou, esperemos que conservemos sempre a faculdade de desligar a ficha quando quisermos.

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Figueira da Foz. Ainda não alcancei o mar, o mar da Figueira como dizem os seus amantes, o mar daquela imensidão de areia que se espraia até Buarcos e nos faz perder o olhar em horizontes sonhadores. Por enquanto caminho por Coimbra B, enquanto existe, e aguardo agora um outro comboio, mais lento, mais ondulante, com essa serenidade que nos faz aquietar a alma. A saída é sobre esse arvoredo que esconde o rio. Passamos como se fôssemos em voo suave e ocorre-nos a canção vibrante, “do Choupal até à Lapa”. Talvez seja um cantar de todos os tempos, mas aquele que recordamos é sempre o irrepetível. Nesta composição de amarelo vestida, com reforços a vermelho, já não é a velhinha automotora azul em que viajaste, mas na minha imaginação, acredito que seja, pelo que vou como se sentisse o seu balouçar e o som do motor, quando o consumo de mais combustível é maior, e o fumo se espalha por esta planície verdejante. O Mondego também já não é o que foi, puseram-no manso e cortaram-lhe aquelas asas que estendia pelas margens dentro, em enxurradas de lama que deixava miséria em cima da que já existia. Aquietou-se pelos canais que rasgaram na terra e segue lento e ameno. Este comboio que me leva, volta a aproximar-se dele quando me apresso para sair, mas não o vemos, esconde-se atrás dos aterros. Olho em redor tentando redesenhar a paisagem que encontraste, mas nada é como outrora. Até o cenário paisagístico mudou, quase sempre para melhor. Alento-me para percorrer os quatro quilómetros que te levaram até à vila. Hoje já não jornadeamos distâncias tão longas, a não ser quando nos aventuramos no que chamamos hoje, caminhadas. O automóvel passeia por nós. Do tempo que por aqui te levou, talvez só exista esta serenidade que me envolve. É uma paisagem bucólica com um silêncio que nos procura e nos transporta para outros lugares. Se esta estrada foi a tua, já não se encontram as árvores centenárias que te protegeram nem consigo descortinar o ribeiro em cuja margem te sentaste num lanche vagaroso. Percorro agora as velhas ruas da vila, com esse sabor medieval que me sempre me cativa, na ascensão ao castelo. Que pena, não estares aqui, por todos os motivos e para veres como mudou o seu interior. Não o reconhecerias. De tudo o que falaste, de ter visto, já nada existe. É um jardim, cuidado, bonito, com caminhos desenhados. O que primeiro procurei foram as muralhas a oeste, a curiosidade de encontrar o quadro que pintaste na minha memória, dos campos de arrozais banhados pelos clarões brilhantes do sol que se punha. Está lá tudo, mas o painel mudou no cuidado com que agora semeia as pétalas de água nos campos e a estrela solar está longe de pousar no mar. Mas não é importante, pois sei o que desejava ver e é isso que o meu olhar encontra. Volto-me para o interior e os meus passos seguem em direcção à pequena igreja de Santa Maria de Alcáçova, na sua vetustez milenar que a época manuelina modificou, acrescentando arte à que já vestia. E enquanto com o olhar procuro aquelas pedras, este pensamento que albergo, trabalha a palavra alcáçova, e outra viagem se me depara, pois aqui conspirou o IV Afonso da primeira dinastia, com os seus vassalos, que na sua obediência partiram pelos campos adentro até às terras dos crúzios para cometer o crime dos crimes. Este Afonso, pode ter sido O Bravo, como ficou na história, mas foi um rebelde e nem sempre no bom sentido. Lutou contra o pai e mais tarde contra o filho, esse que viria a ser o I Pedro na realeza pátria, que nunca lhe perdoou ter enviado os seus bastardos decepar a cabeça da princesa galega, o amor da sua vida. De pouco valeu esta atitude a Afonso que IV foi da dinastia afonsina. De Constança Manuel, a rainha institucional, quase ninguém recorda, mas Inês, a princesa amada, está em Alcobaça num túmulo de mármore, que é uma joia gótica, como uma rainha. Regresso às muralhas e debruço o olhar de novo sobre o poente. Deixo-o à solta na procura do teu relato e ao sentir a tua falta, ocorre-me por momentos as palavras de Óscar Lopes nas suas cartas da prisão. O grande intelectual que foi, professor e investigador era ao mesmo tempo de uma simplicidade e de uma inteligência que deslumbrava. Nas masmorras da infame polícia da Ditadura ao longo de cinco meses, escrevia cartas onde expandia o amor que dedicava à sua companheira de sempre. Numa dessas páginas de letras, rememorando uma peça de Paul Claudel, escreveu, “Tu és minha sobre o leito da ausência e da impossibilidade!” Desço agora e com a luz da tarde a visitar-me volto a atravessar os campos molhados do Mondego e embarco na velhinha automotora que te levou. Quando se alcança a Figueira em dias de sol intenso, a primeira diferença que se sente para quem ruma do Norte, é a luz. Esta luminosidade já tem muito do Sul e os verdes já nos aparecem um pouco queimados. Chegaste de noite como disseste e uma surpresa aguardava-te, uma surpresa que sem o saberes seria o princípio de um tempo que não podias ter imaginado. A estação não mudou, mas sente-se nas suas paredes o renascer de outro tempo. Caminho, ou melhor dito, deixo-me ir, creio que estas eram as mais velhas ruas desta cidade. Procuro aquela onde esteve o teu viver temporário, mas as pequenas e velhinhas casas foram absorvidas pela modernidade, pelo menos, há uma nova claridade que deixa perceber um melhor viver. Onde estará, se ainda existe, a placa marmórea onde lias as palavras de João de Barros? Mas encontrei o teu Café da Sacor onde devoravas os nacos de sol em manhãs distantes. A pequena aldeia de Buarcos parece resistir a uma dessas ondas que tudo levam, mas o tempo tudo muda, as mentalidades também, apenas as acções humanas, aquelas que conduzem aos corredores do poder onde se escutam os tambores da guerra, essas permanecem, apenas rejuvenescem no nível da violência. No mesmo instante em que estes pensamentos germinam, alcançam-me as palavras de Alain Corbin, na sua “História do Silêncio”: “No passado, os ocidentais desfrutavam a profundidade e o sabor do silêncio. Consideravam-no como condição do recolhimento, da escuta de si mesmo, da meditação, da oração, do devaneio, da criação; sobretudo como lugar íntimo do qual a palavra emerge.” No passado! Vou tentar alcançá-lo, esse “lugar íntimo”. O postal segue amanhã.

 

A ETERNIDADE

António Mesquita



"Deve o bom pintor pintar duas coisas principais, isto é, o homem e o conceito da sua mente; o primeiro é fácil, o segundo difícil, porque se há-de representar com gestos e movimentos dos membros."
(Leonardo da Vinci)


A RTP apresentou, há pouco tempo, um documentário sobre Leonardo da Vinci, o paradigma do génio. Se pensarmos noutros grandes vultos da arte ou das ciências, nenhum há que se lhe compare na vastidão dos seus interesses. O que conta mais: a sua pintura, os seus desenhos ou os seus primeiros passos em engenharia, anatomia ou aeronáutica?

Claro que não há ninguém que desconheça o seu retrato da "Mona Lisa" e o  enigmático sorriso. Mas nem na pintura ele se ficou pela tradição ou a imitação dos seus predecessores. E desde que, em 1911,  um carpinteiro italiano,  Vincenzo Peruggia, por motivos patrióticos (achava que a pintura pertencia à Itália) levou o quadro debaixo do braço para casa,  parece que o mundo descobriu a maravilha.

E o que há nesse sorriso para dentro? Pela epígrafe somos levados a pensar que o único gesto nesse retrato e a sua perfeita imobilidade é aquele sorriso. Com esse esboço de gesto, quase imperceptível, percebemos que há uma mente por detrás a desafiar a posteridade com o seu possível significado. Nenhum modelo, naturalmente, consegue disciplinar-se ao ponto de sorrir todo o tempo. Será, portanto, essa uma absoluta intervenção do seu criador. É uma mensagem para nos confundir até à eternidade.

Sobre outro dos seus mais célebres trabalhos, a "Última Ceia" no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, por que se arriscou Leonardo a perder a sua memória utilizando  uma técnica inovadora mas precária acima de tudo? Não quis pintar a fresco, como era usual, mas usou a têmpera dita "seca" sobre gesso, o que tornou as cores mais vibrantes, mas  com o resultado da obra ir desaparecendo com o tempo, apesar dos sucessivos restauros. João Bénard da Costa assistiu à abertura ao público durante  um desses restauros (de 1977 a 1999), "nos anos oitenta".  Eis o seu testemunho, depois de referir que já em 1568, Vasari escreveu que "a obra de Leonardo está em tão más condições que pouco mais se vê do que uma mancha fosca":

"Vi o triângulo equilátero da figura de Cristo, a forma indestrutível. Vi o perfil efeminadíssimo de Filipe, o mais alto de todos. Vi Tiago Menor, o único da família de Jesus, segundo alguns até seu irmão, visivelmente inspirado no mesmo modelo que serviu para a imagem de Cristo, dos doze o mais bonito, com os cabelos louros tão bem penteados. Vi o suavíssimo João, o único tão imóvel quanto Cristo, o único que não gesticula. Mas vi sobretudo o Senhor, sentado de costas para a maior das três janelas, com o espaço todo à direita e à esquerda, sem ser tocado por ninguém e sem tocar em ninguém, abertamente sozinho." (...)

"S. João, sempre segundo o mesmo Evangelho, estava reclinado no peito de Jesus, como discípulo amado que era. Pedro faz-lhe sinal para que ele interrogasse Jesus e soubesse quem era o traidor. João assim fez e Jesus respondeu: "É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado." E, molhado o bocado de pão, tomou-o e deu-o a Judas."

"Mas Leonardo não viu a cena como quase todos os pintores e comentadores a viram, nem sentou Pedro longe de João, o que "naturalisticamente" explicaria o pedido, que Pedro, de onde estava, não teria podido fazer. Pela primeira vez, na história de uma representação da Última Ceia, João não está reclinado no colo do Senhor, mas muito afastado dele, inclina-se para a direita, ouvindo S. Pedro, que se levantou do seu lugar. Este, João e Judas formam um outro triângulo, em que Pedro passa para trás de Judas, para falar ao ouvido de João. Judas, virado para os dois (único que volta as costas ao espectador), não pode deixar de ouvir o segredo. A não ser que o momento representado seja posterior a ele, hipótese que ao 7º minuto me comecei a pôr. Ou seja, João fez a pergunta a Cristo. Este já respondeu e é essa resposta que João, deixando o colo do Senhor para se aproximar de Pedro, transmite ao futuro papa, sem curar de Judas, que, incauto, já foi identificado e já não pode fugir. Mas nem todos o sabem àquela mesa e por isso tanto se dividem os grupos: os apóstolos, à esquerda do Senhor (mais longe de João, Judas e Pedro) em imensa agitação, protestam inocência; os da direita estão gelados pela descoberta. Por isso, a mão direita do Senhor retira-se da de Judas a quem deu o pão e a mão esquerda fica aberta sobre a mesa, no último sinal de oblação. Por isso, também, o olhar de Cristo é o único olhar que não vemos e não nos olha. Só a boca e os braços abertos exprimem a solidão suprema, nimbada ao fundo pela luz crepuscular, a mesma luz da transcendência, essa que, no mesmo ano, Bramante filtrou na cúpula de Santa Maria delle Grazie. Nunca tanta sombra deu tanta luz. Um segundo de tempo num infinito de espaço. Foi, também, o que me foi dado. E mais não peço e mais não quero."

A "Ceia" tornou-se assim uma obra ideal  cuja integralidade e originalidade apenas podemos imaginar. Que artista alguma vez sacrificou o seu legado a essa espécie de ironia desvanecente que é a obra em permanente desaparição? 

Voltando à citação dum dos seus Cadernos, que meios julgava Leonardo poderem aceder à realidade do pensamento? E como os movimentos do corpo poderiam, sem subterfúgios, representá-la? A certeza que o anima é a mesma dos seus estudos sobre a natureza, do vôo dos pássaros à circulação sanguínea. Ele acredita, na esteira do aristotelismo, que os segredos da vida podem ser desvendados pelo estudo e pela análise/dissecação. Estava a séculos de compreender a desilusão einsteiniana. Um optismo puro e sem limites move a sua vontade de aprender.

É isso que o torna humano, a par dos percalços da sua vida e da sua sexualidade.

A grandeza de Leonardo é incomensurável em termos locais e históricos. E se o humano é a medida de todas as coisas, poucos como ele se aproximam do sobre-humano por estar tão à frente do seu tempo.

O PÃO ENSOPADO

FOI SÓ UM ACIDENTE de Jafar Panahi



De noite, um condutor  com a mulher  e a filhita atropela um cão e a criança não se cansa de acusar o pai.

Estas personagens nunca mais aparecem no filme. É um prólogo, e como todos os prólogos anuncia e resume o que se vai seguir.

Depois, é a cena do mecânico Vahid que numa garagem avista um cliente coxo que lhe parece o torcionário Eghbal, de quem teve a infelicidade de ser uma das muitas vítimas. Com uma carrinha abalroa o homem e dá-lhe umas pancadas que o deixam inconsciente. No deserto,  abre-lhe uma cova e começa a cobri-lo de pazadas de terra, até que o homem protesta que não é o polícia que o outro julga que ele é. 

Seguem-se vários encontros com outras vítimas de Eghbal, com este amarrado num caixote dentro da carrinha. Os mais exaltados não têm dúvidas e querem acabar com ele. Ao procurarem a casa do polícia, deparam-se com a mulher nos trabalhos de parto e uma criança que os encanta. Levam a parturiente ao hospital e separam-se com o ódio esbatido e fica o mecânico e outra das antigas vítimas com a incubência de decidirem sobre o destino do prisioneiro. Este acaba por confessar, num estado de puro delírio, que é, de facto, Eghbal que tem muito orgulho nisso porque é um patriota e um bom mulçulmano, Em vez de o matarem, os outros dois deixam-lhe um canivete para se soltar e dizem-lhe que a estrada fica perto.

É aqui que o prólogo ganha sentido. Porque assim como o condutor não teve culpa que, com pouca visibilidade, o cão se atravessasse na estrada, o adepto do regime fez aquilo que se esperava de quem "atravessava a estrada". 

Concordemos ou não, a ideia duma máquina regendo a condição social  como metáfora política não deixa de ser sedutora. É a história do "pão ensopado" na "Última Ceia". 

O algoz é perdoado porque os seus captores não querem ser iguais a ele. 

A ambiguidade não deixa de nos interrogar e o regime iraniano não se zangou porque, embora com o filme proibido, deixou a equipa regressar ao seu país.


POESIA

Helena Serôdio




CONTRADIÇÃO

Idealizo teu rosto
De límpidas feições
Desenhadas no vento.
Os teus cabelos cinza,
Revoltos,
Que o sol incendeia,
Rolando em ondas de luz sobre a tua cabeça.
Os teus olhos escuros,
Profundos,
Serenos, como noites estivais
Em que o céu e o mar se fundem como duas gotas de chuva!

E não sei compreender que estranha pureza
Modelou as formas do teu corpo,
Que música suave escorre dos teus gestos,
Me embala
E me faz cativa dessa tua beleza!

Aventuro-me no abismo do teu olhar,
Tentando devassar o enigma do teu íntimo.
Debruço-me sobre o mapa complexo da tua anatomia,
Estudo todos os ângulos dos teus movimentos,
Analiso cada gesto e cada átomo,
Cada célula do teu ser,
Penetro em todos os teus órgãos,
Navego nas tuas veias,
Caminho nessa floresta virgem dos teus nervos,
Revolvo as tuas entranhas,
Mas não desvendo o secreto lugar onde se esconde a tua alma…
Inacessível,

Intacta,
Muralha de silêncio e de mistério,
Tua alma indecifrável
É umbral que eu não transponho.

E eu estarei sempre só,
Presa a um mito,
Perdida num labirinto de dúvidas
Buscando em vão a verdade…

( A alma é um rio sem margens
Em que nós ousamos singrar
Através das neblinas,
Escolhos
E águas revoltas,
Sem nunca encontrar um horizonte.
É uma longa travessia sem rumo,
Em que todos naufragamos…).

Mas se és tão único e singular
E tens em ti a poesia,
A música,
O céu ,
E o mar,
Para que quero eu a tua alma?


TERCEIRA GUERRA MUNDIAL?

Manuel Joaquim


https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/como-frear-marcha-para-a-iii-guerra-mundial/


Hoje, sábado, 29 de Novembro, Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizou-se na cidade do Porto, uma grande manifestação na qual participei, apesar da chuva abundante. Muita juventude, muita determinação, com palavras de ordem muito significativas:

- Hoje e sempre, Palestina Independente!

- Palestina Vencerá!

- Libertar a Palestina – acabar com a chacina!

- Israel é violência, Palestina é resistência!

- Israel é culpado de um povo massacrado!

- Em cada cidade, em cada esquina, Somos todos Palestina!

Relativamente ao conflito na Europa, li no facebook um texto de uma importante personalidade política do Partido Socialista, daqui do Porto, que é o seguinte: ”Esta liderança europeia é muito fraca. Não teve capacidade para fazer a Paz entre a Rússia e a Ucrânia e pelo contrário sempre contrariou essa tendência sempre que a Paz esteve para acontecer empenhou-se em impedi-la. Por detrás de todas estas manobras espreita a III Guerra Mundial”

São palavras que mereceram a minha atenção. São palavras que confirmam o que muita gente diz há muito tempo. Bruxelas sempre investiu de forma muito clara no inevitável colapso e pilhagem da Rússia. Os dinheiros gastos na guerra eram um investimento a prazo que seria recuperado quando a Rússia fosse desmantelada. A Rússia teria uma derrota estratégica. Há muitas afirmações de altos dirigentes da União Europeia a começar pela sua Presidente e a terminar na que faz de Negócios Estrangeiros que acabou de declarar que “se quisermos impedir que esta guerra continue precisamos reduzir o tamanho do exército russo e o seu orçamento militar.” Esta senhora nunca se encontrou com o Secretário de Estado Norte-americano, pois ele ainda não a recebeu, provavelmente por não lhe reconhecer competência.

O único dirigente da EU que esta semana disse através do jornal Expresso que é preciso falar com a Rússia, mas que ainda não é o momento, foi António Costa.

Pelos vistos o programa para negociações para a Paz apresentado por Donald Trump já foi alterado, mas a última versão não é pública e os fazedores de opinião andam tontos pois não sabem o que dizer. Entretanto Putin já acrescentou o seu Plano de Paz “As forças ucranianas se retiram voluntariamente dos territórios russos recentemente ocupados ou serão expulsos pela força militar para pôr fim aos combates”.

Essas pessoas esquecem-se que “os perdedores nas guerras não ditam os termos”, segundo Pepe Escobar.

Muitas pessoas sofrem de complexos de colonialismo por o terem servido directamente ou por ligações familiares e ainda não se conformaram com o 25 de Abril e com a democracia, independentemente da sua instrução. A ignorância histórica leva-os a manifestarem opiniões não racionais, mas emocionais, demonstrando que não percebem nada do que se passa confundindo a sua opinião com a realidade. São vítimas das manobras de diversão e de contra-informação, da arrogância que pretende confundir, mas a realidade é que vivemos uma situação de crise internacional que pode redundar num grande conflito.

 

01/11/25

220

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Coimbra. O primeiro momento do dia, volta a ser a estação. Cativam-me os momentos da partida, mais do que os de chegada. Quando nos afastamos e observamos com cuidado, podemos idealizar o que cada um deixa transparecer ou pretende esconder. Na chegada, há cansaço, por vezes irritação, mas quando iniciamos uma viagem, sente-se ansiedade, a vontade da descoberta, a interrogação do que encontraremos no destino. Alguns, acomodam-se num pequeno espaço, outros espreitam o relógio ou o espaço de informação e outros ainda, caminham com ar pensativo. Num intervalo desta observação, espreito os títulos dos jornais do dia e ao folhear um deles, deparo-me com esta pérola, “Se conseguir negociar uma coligação com maioria no Parlamento (…) poderá ser o mais novo de sempre a ocupar o cargo de primeiro-ministro e o primeiro assumidamente homossexual.” Presume-se que o sexo deve fazer parte do Curriculum Vitae do provável primeiro-ministro dos Países Baixos. O Público insiste em erguer muros onde se abriam portas. Quase silenciosamente, o comboio aproxima-se lançando um som de buzina curto, mas estridente. Oitenta e sete toneladas de metal deslizam nos carris até se deter. O meu olhar ergue-se por sobre a multidão que procura as portas na expectativa de que me pudesses surpreender com a tua companhia. Foi apenas um sonho, uma ilusão. Viajamos agora nas planícies desta Beira Litoral que faz a ligação entre o mar e o interior montanhoso. Enquanto a paisagem passa pelo nosso olhar em sentido oposto, deixamos que o pensamento examine o mundo que nos rodeia neste tempo atropelado por malfeitorias e acções devastadoras sobre os colectivos humanos, das quais nenhum espaço terreno parece poder escapar, ou até iludir. No Auschwitz palestiniano, o sionismo judeu continua a matar. Existe uma diferença qualitativa entre o nazismo e o sionismo judeu. Ao nazismo, a humanidade conseguiu parar, julgar e condenar, mas o sionismo judeu, é que submete a humanidade a uma derrota humilhante. Em nome de loucuras bíblicas que só existem na cabeça de doentes mentais, um Estado ergueu-se à bomba e sobre acções criminosas constantes e, ao longo de oitenta anos, têm obrigado a humanidade a pedir desculpa quando num lapso de coragem os critica. Sem a Nuremberga do sionismo judeu, temos de aceitar que a humanidade ultrapassará uma linha sem retorno. Esta locomotiva que impulsiona este comboio, entrou em marcha de retenção e uma voz apressada avisa que vamos entrar na estação de Coimbra B. É o efeito do hábito, pois já não existe Coimbra A. É um autocarro que nos leva por estes dias até ao centro da cidade, ou até Coimbra A, se assim quisermos recordar o passado recente. É tempo de caminhar na procura do que aqui me trouxe, o passado, esse tempo vivido, esse espaço pretérito tão cheio de presentes. A velha cidade romana de Aeminium. Onde o império necessitava de atravessar cursos de água, nascia uma cidade ou um lugar habitado. Depois dos Suevos chegaram os muçulmanos e os árabes e Aeminium  passou a Qulumbriya. No século XI por fim, Coimbra passou para a posse da realeza leonesa, não deixando, todavia, de ser cercada mais tarde pelas hostes árabes. Resistiram a Condessa Portucalense, viúva que era de D. Henrique e mãe de Afonso que virá a ser rei.  O meu pensamento ganha asas enquanto caminho pela airosa avenida da margem direita deste Mondego e os meus passos dirigem-se para a antiga urbe que olhada do outro lado, o seu casario se assemelha a velhinha cidade de onde provimos. Caminho sobre as pedras centenárias desta solidão que me embala, me conduz entre as paredes das ruas estreitas do silêncio. Há em cada um de nós o desejo de voar, olhar de cima o chão que pisamos. Percorremos o tempo de vida, o nosso, e o daqueles que nos trouxeram aqui, e não resistimos a desenhar os contornos das avenidas por onde passarão os que ainda não chegaram. Tudo é História, tudo é vida entre o nascimento e a viagem que nos levará pelo espaço da eternidade. Por agora caminho apenas e usufruo das alas deste silêncio como se fosse a tua companhia e os meus braços prendem-te para que não fujas da minha memória e me guies nos caminhos infinitos do amor pelo passado, esse pretérito que hoje visito, onde cavalgaram as hostes árabes dos almorávidas. No acabar desta estreita rua, um largo se abre, e altaneira, olhando de cima, a Sé Velha ou Catedral de Santa Maria de Coimbra. Uma frontaria austera, castelã e românica faz-nos sentir temor, como se pretendesse representar, o poder de Deus sobre a pequenez humana. A nave central aberta em arcos laterais suportados por colunas de boa dimensão, na sua singeleza, só é abafada pelo barroco do altar, essa ousadia dourada a tentar sobrepor-se à beleza da pedra e do mármore. Mas é na pulcritude quase gótica do claustro que o meu olhar se deliquesce em descanso. O pensamento voa na procura de sanar o que me surge como uma contradição. Afonso, derrota as hostes da mãe e da nobreza galega dos Trava em 1128 e tendo já como objectivo assumir-se como rei de um reino que não tinha, rumou à Coimbra moçárabe, onde ficava o que hoje chamaríamos a fronteira entre os cristãos e os muçulmanos. A construção da catedral terá começado após a vitória na batalha de Ourique, a qual, em boa verdade, não sabemos onde ocorreu e terá terminado pelos finais do século XII. Assim sendo, como explicar que numa das paredes laterais aparece gravada na pedra uma inscrição em árabe, quando estes já não voltaram a entrar na cidade desde o século XI. Terão sido os moçárabes que gravaram naquela pedraria “Escrevi [isto] como um registo permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza permanecerá”? Procuro-te no pensamento enquanto desço pela Rua dos Coutinhos para alcançar o Mosteiro de Santa Cruz. A tua presença certamente me ajudaria neste nó górdio da humanidade, a procurar os caminhos escondidos desta Coimbra onde Afonso escolheu viver para melhor guerrear, sabendo que sem a temperança de guerreiro, de um combatente da fé, nunca seria rei. Os Agostinhos Regrantes muito o ajudaram com as palavras de Deus e em compensação, o futuro rei que já agia como tal, ajudou-os a erguer este mosteiro. Já depois da sua morte, os crúzios haveriam de legitimar os seus actos com o mito da batalha de Ourique e o aparecimento de Deus na véspera dessa liça guerreira, não foi um acaso. Pela pena dos Crúzios, Deus não lhe apareceu apenas para o galvanizar, mas antes para lhe impor o combate como uma vontade Dele. Já não dependia de o futuro rei desejar ou não o combate, este estava-lhe imposto pela vontade divina. A História, quantas vezes, se traça pela pena escrevendo movida pela mão humana. Sentada na esplanada do Café Santa Cruz, aprecio os raios luminosos do sol, espargindo-se nas janelas altas dos prédios, derretendo-se nessas cores douradas de despedida. Saboreio um crúzio, não um dos frades, mas antes algo delicioso que nos deixaram, enquanto escrevo o postal que aqui te deixo. A minha viagem prossegue.  

 

 

FILOSOFIA NA LITERATURA

Mário Martins

 

Não é raro que a grande Literatura seja permeada, por entre a trama psicológica dos personagens ficcionados, pela melhor Filosofia.

É o caso de Os Sonâmbulos, obra do austríaco, nascido em Viena, Hermann Broch, depois naturalizado americano após conseguir escapar aos nazis, pelos quais foi preso durante algum tempo.

Trata-se de uma trilogia romanesca, publicada nos inícios dos anos trinta, “que é um fresco da Alemanha de 1888 a 1918 e em que confluem análise psicológica, poesia e ensaio filosófico. A obra foi elogiada por Thomas Mann e Hermann Hesse. A partir daí, Broch tornou-se um dos principais expoentes da literatura centro-europeia, entre as duas guerras, ao lado de Kafka e Musil.”

O conhecimento dos assassínios colectivos em campos de concentração europeus, levou Broch, decerto amargurado, a decidir não continuar a escrever literatura, continuando, apenas, a publicar ensaios críticos e filosóficos e poesia, prefaciados por Hannah Arendt, antes de morrer em 1951.

Filosofia 1

“O irreal é o ilógico. E esta época parece já não conseguir superar o clima do ilógico, do antilógico: é como se a realidade tremenda da guerra tivesse suspendido a realidade do mundo. O fantástico torna-se uma realidade lógica, mas a realidade dissolve-se na mais ilógica das fantasmagorias. Uma época que é mais cobarde e tristonha do que qualquer época precedente afoga-se em sangue e gases venenosos, multidões de empregados bancários e especuladores atiram-se para o arame farpado, um espírito humanista bem organizado nada impede, antes se organiza como Cruz Vermelha e para produzir próteses; as cidades morrem de fome e cunham moeda com a sua própria fome, mestres-escola de óculos chefiam pelotões de assalto, gente da grande cidade vive em cavernas, operários fabris e outros civis rastejam a fazer patrulhas de reconhecimento, e, finalmente, quando regressaram ilesos à retaguarda, as próteses transformam-se de novo em especuladores (…)

O horror patético com que esta época é designada como louca, o comprazimento patético com que lhe chamam grande, procuram justificação na dimensão hipertrófica inconcebível e ilógica dos acontecimentos que, na aparência, constituem a sua realidade. Na aparência! Porque uma época não pode nunca ser louca ou grande, só um destino individual é que pode. (…)

A grande questão é: como é que o indivíduo, cuja ideologia, normalmente, visava verdadeiramente outras coisas, pode compreender a ideologia e a realidade da morte e submeter-se a elas? (…) Esta época tinha, algures, um desejo genuíno de conhecimento, tinha, de alguma maneira, uma vontade artística genuína, tinha uma consciência social de inegável precisão, como pode o ser humano, criador de todos estes valores e participante neles, como é que ele pode “compreender” a ideologia da guerra, acolhê-la e aprová-la sem contestação? Como pôde agarrar na arma, como pôde ir para as trincheiras, para lá perecer ou para regressar de lá novamente para o seu trabalho habitual, sem enlouquecer? Como é possível uma tal versatilidade? Como é que a ideologia da guerra pôde, de todo em todo, encontrar lugar nestas pessoas, como é que estas pessoas puderam, afinal, compreender uma tal ideologia e a sua esfera de realidade? Já sem falar de uma aceitação entusiástica, perfeitamente possível! Serão loucos porque não enlouqueceram? (…)

Filosofia 2

“A posição preponderante do estilo arquitectónico entre as características de uma época é uma das questões mais singulares. E, em geral, esta posição de privilégio estranhíssima que as artes plásticas conquistaram na história! Elas são, com toda a certeza, apenas uma fracção muito pequena da pletora de actividades humanas de que uma época está cheia, não são, seguramente, sequer uma fracção muito espiritual e, apesar disso, sobrepujam todos os outros domínios do espírito no que toca ao poder de caracterização, sobrepujam a literatura, sobrepujam mesmo a ciência, sobrepujam mesmo a religião. O que perdura ao longo dos milénios é a obra das artes plásticas, ela permanece o expoente da época e do estilo desta (…)

Se existe explicação possível, ela tem de estar na essência do próprio conceito de “estilo”. Porque o estilo não é, seguramente, algo que esteja limitado à arquitectura ou às artes plásticas, estilo é uma coisa que atravessa da mesma forma todas as expressões vitais de uma época (…)

Talvez fosse ocioso pensar nisto, se não estivesse subjacente o problema que é o único que legitima todo o filosofar: o medo do nada, o medo do tempo que conduz à morte (…) Pois, seja o que for que o ser humano faça, fá-lo para destruir o tempo, para o revogar, e essa revogação chama-se espaço. Mesmo a música, que só existe no tempo e preenche o tempo, transforma o tempo em espaço, e a teoria de que todo o pensamento ocorre no espaço, de que o processo de pensamento representa uma combinação de espaços lógicos multidimensionais incrivelmente complexos, tem o máximo de plausibilidade. Mas, sendo assim, torna-se claro que todas as expressões que se relacionam directamente com o espaço possuem um significado e uma evidência que nenhuma outra actividade humana alguma vez pode possuir (…)"

PARAPEITO

António Mesquita

(Castelo de Sant'Angelo, Roma)



Escrevo sobre um filme que vi recentemente e a ópera que inspirou o conto de José Cardoso Pires que, por sua vez, esteve na origem do filme de Mário Barroso.

"Lavagante" é a história duma abdicação por amor. Durante a ditadura, Cecília (Júlia Palha) conhece um médico de esquerda - o polícia diz que "não é comunista, mas ajuda" -, Daniel (Francisco Froes), e enamora-se a ponto de sacrificar a sua reputação, para o libertar quando é preso pela PIDE. Quem o prende, Salaviza (Diogo Infante), é de há muito tempo um velho amigo da família de Cecília e tem-lhe uma paixão pouco secreta. Adivinha-se a que espécie de sacrifício pucciniano Cecília está disposta em favor do seu amante.

Daniel viu, primeiro, uma traição no jogo de Cecília, mas a política não tem aqui qualquer papel. Por fim, rendido à ideia do sacrifício por amor, não deixa de se sentir inconformado e céptico quanto àquela espécie de amor.

Num dos últimos planos do filme, vê-se a cabeça desta Floria Tosca, com o cabelo solto ao vento, num rochedo que faz de parapeito do Castelo de Sant'Angelo, a sugerir o suicídio. O desfecho não podia ser mais supérfluo. Está ali só para ligar a história à ópera.

A sua simplicidade  é, contudo, enganadora, porque tudo se passa como se Cecília, ao contrário da heroína de Puccini, sempre movida pelo ciúme, não precisasse para nada dum amante real e lhe bastasse a ideia duma imolação narcísica. Isto sim, é que não é lógico, nem razoável, mas está dentro dos cânones do romântico.

A "Tosca" não é bem isto. Nem a música que nos empolga, em árias como "Recondita armonia", "Vissi d'arte, vissi d'amore" ou "E lucevan le stelle" nos transmite qualquer sentimento de ambiguidade. Os excessos "lacrimejantes" que alguns críticos vêem nesses dramas líricos, não são afinal mais que a assinatura dum tempo que só tem este modo de voltar. Como diz Nietzsche: "A música, justamente, não é uma linguagem universal, intemporal, como já se disse tão frequentemente em sua glória; ao contrário, ela corresponde exatamente a uma certa medida do tempo, um certo grau de calor e de sentimento, que uma cultura bem distinta e determinada, definida no tempo e no espaço, reconhece por lei interior; a música de Palestrina teria sido perfeitamente inacessível a um grego, e, em sentido inverso, o que Palestrina escutaria na música de Rossini?" 

Palestrina não está aqui por acaso."O Concílio de Trento, sabe-se, prescrevia aos compositores que fizessem corresponder a cada sílaba uma nota, a fim de que os rextos sagrados fossem inteligíveis, e Palestrina reformou a música do seu tempo aplicando este método" (André Tubeuf). O que se adequa aqui ao argumento (era preciso que fosse cantado) não é, evidentemente, a música mas o enredo. Mas apraz-nos pensar que o cinema poderia encontrar aquela espécie de correspondência de que se serviu Palestrina. Não entre as imagens e as palavras (o que  é comum), mas entre as imagens físicas e as mentais.

"Lavagante", o filme, só podia ter sido feito neste tempo de revisitações alucinadas. Daniel não é Caravadossi. Não esconde um amigo, nem é fuzilado como ele. E Cecília não mata, nem tem a virgindade feroz de Floria Tosca. Também Cecília é dum individualismo moderno com outras ilusões que não as do século XIX.


POESIA

Helena Serôdio




ÚLTIMA SAZÃO

 

É a refracção
Da luz que cintilou,
Que pálida se tornou
Luar nos cabelos e na alma.

É o tempo da reflexão,
Também de redenção 
Pelo sofrer sofrido.
Tempo de compreensão,
De franca aceitação
Rosários de mágoas preciosas,
Contas negras não rezadas !

Tempo de doçura
E de amargura.

 



             MEUS BRAÇOS 

 


Abro os braços grandes
Num abrir que quero, imenso.
Puxo a mim o mundo,
Num fôlego que eu quero, eterno.
Salto para o vazio,
Num nada que me acorda a imaginação,
Me desperta para o além.
Aqui,
A sós comigo
Relembro num canto da mente cansada
O amor que consegui.
Sinto o corpo tremer ,
O espirito elevar-se no éter...
Queria abraçar-te agora !
Abraçar o nada
Que pode ser tudo.
Porque és tu,
Porque sou eu,
Porque somos nós...
É para sempre !!!
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