01/12/25
CIÊNCIA, PARA QUE TE QUERO?
Mário Martins
“Uma revoada de novas questões emerge de cada problema que eles (os cientistas) resolvem. Qualquer que seja a inspiração, ela nasce de um contínuo “não sei”. (…) Por isso valorizo tanto a curta frase “não sei”. É pequena, mas voa com asas poderosas. (…) Torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos de todos os tipos (…) “sabem”. Eles sabem, e tudo o que sabem é suficiente para eles de uma vez por todas. Eles não querem saber de mais nada, por isso pode diminuir a força dos seus argumentos. E qualquer conhecimento que não conduza a novas perguntas rapidamente desaparece.”
Wislawa Szymborska, Nobel da literatura
A ciência quer-se útil, de aplicação imediatista, ou, como defende a investigadora Joana Gonçalves de Sá, no seu excelente ensaio “Uma Ideia de Ciência”, a investigação aplicada não deve desincentivar a investigação pura ou fundamental?
Apropriadamente, a autora cita a crítica que o matemático Carl Gustav Jacobi fez à opinião do igualmente matemático (Joseph) Fourier, “de que o objectivo principal da matemática era a utilidade pública e a explicação dos fenómenos naturais; (quando) um filósofo como ele deveria saber que o único fim da ciência é a honra da mente humana e que, sob este propósito, uma questão sobre números vale tanto quanto uma questão sobre o sistema do mundo.”
O que não impede, como refere a autora, que o trabalho em matemática pura de Alan Turing tenha sido crucial para quebrar os códigos nazis.
Ou que a World Wide Web tenha sido criada no CERN (Organização europeia que investiga a física das partículas elementares), para resolver um problema logístico dos investigadores, mas que acabou por mudar o mundo para sempre.
Ou ainda, nas palavras da autora, a descoberta da estrutura da dupla hélice do ADN, que abriu portas à genética molecular e à medicina personalizada; os princípios da mecânica quântica, que abriram a porta a lasers e transístores; ou a teoria da relatividade geral, cujas aplicações usamos todos os dias através do GPS.
A investigadora dedica um capítulo ao “futuro agora”, não sem antes citar o aforismo atribuído ao físico Niels Bohr, segundo o qual é muito difícil fazer previsões, principalmente quando estas são sobre o futuro. E, como não podia deixar de abordar um tema que está na berlinda, foca-se na Inteligência Artificial.
Numa visão “não alarmista”, a Inteligência Artificial, na medida em que é uma criação humana, não passaria de mais uma ferramenta computacional, revolucionária sem dúvida, mas com funcionamento definido pelas regras de programação. Contudo, talvez esta seja uma ideia ingénua, própria de um leigo como eu.
A autora é, todavia, mais cautelosa, pois admite que ela (a IA) passe a ser geral, “ou seja, capaz de resolver muitos problemas diferentes, oferecer soluções criativas e talvez até desenvolver consciência, potencialmente substituindo ou, quem sabe, voltando-se contra a humanidade.” Sublinha, no entanto, que “ninguém pode determinar com certeza quão próximos estamos ou qual a probabilidade de isso acontecer.”
Enfim, tal como Arthur C. Clark manifestou, esperemos que conservemos sempre a faculdade de desligar a ficha quando quisermos.
NO CORRER DOS DIAS
Figueira da Foz. Ainda não alcancei o mar, o mar da Figueira
como dizem os seus amantes, o mar daquela imensidão de areia que se espraia até
Buarcos e nos faz perder o olhar em horizontes sonhadores. Por enquanto caminho
por Coimbra B, enquanto existe, e aguardo agora um outro comboio, mais lento,
mais ondulante, com essa serenidade que nos faz aquietar a alma. A saída é
sobre esse arvoredo que esconde o rio. Passamos como se fôssemos em voo suave e
ocorre-nos a canção vibrante, “do Choupal até à Lapa”. Talvez seja um
cantar de todos os tempos, mas aquele que recordamos é sempre o irrepetível. Nesta
composição de amarelo vestida, com reforços a vermelho, já não é a velhinha
automotora azul em que viajaste, mas na minha imaginação, acredito que seja,
pelo que vou como se sentisse o seu balouçar e o som do motor, quando o consumo
de mais combustível é maior, e o fumo se espalha por esta planície verdejante.
O Mondego também já não é o que foi, puseram-no manso e cortaram-lhe aquelas
asas que estendia pelas margens dentro, em enxurradas de lama que deixava
miséria em cima da que já existia. Aquietou-se pelos canais que rasgaram na
terra e segue lento e ameno. Este comboio que me leva, volta a aproximar-se
dele quando me apresso para sair, mas não o vemos, esconde-se atrás dos
aterros. Olho em redor tentando redesenhar a paisagem que encontraste, mas nada
é como outrora. Até o cenário paisagístico mudou, quase sempre para melhor.
Alento-me para percorrer os quatro quilómetros que te levaram até à vila. Hoje
já não jornadeamos distâncias tão longas, a não ser quando nos aventuramos no
que chamamos hoje, caminhadas. O automóvel passeia por nós. Do tempo que por
aqui te levou, talvez só exista esta serenidade que me envolve. É uma paisagem
bucólica com um silêncio que nos procura e nos transporta para outros lugares.
Se esta estrada foi a tua, já não se encontram as árvores centenárias que te
protegeram nem consigo descortinar o ribeiro em cuja margem te sentaste num
lanche vagaroso. Percorro agora as velhas ruas da vila, com esse sabor medieval
que me sempre me cativa, na ascensão ao castelo. Que pena, não estares aqui,
por todos os motivos e para veres como mudou o seu interior. Não o
reconhecerias. De tudo o que falaste, de ter visto, já nada existe. É um
jardim, cuidado, bonito, com caminhos desenhados. O que primeiro procurei foram
as muralhas a oeste, a curiosidade de encontrar o quadro que pintaste na minha
memória, dos campos de arrozais banhados pelos clarões brilhantes do sol que se
punha. Está lá tudo, mas o painel mudou no cuidado com que agora semeia as
pétalas de água nos campos e a estrela solar está longe de pousar no mar. Mas
não é importante, pois sei o que desejava ver e é isso que o meu olhar
encontra. Volto-me para o interior e os meus passos seguem em direcção à
pequena igreja de Santa Maria de Alcáçova, na sua vetustez milenar que a época
manuelina modificou, acrescentando arte à que já vestia. E enquanto com o olhar
procuro aquelas pedras, este pensamento que albergo, trabalha a palavra alcáçova,
e outra viagem se me depara, pois aqui conspirou o IV Afonso da primeira
dinastia, com os seus vassalos, que na sua obediência partiram pelos campos
adentro até às terras dos crúzios para cometer o crime dos crimes. Este Afonso,
pode ter sido O Bravo, como ficou na história, mas foi um rebelde e nem
sempre no bom sentido. Lutou contra o pai e mais tarde contra o filho, esse que
viria a ser o I Pedro na realeza pátria, que nunca lhe perdoou ter enviado os
seus bastardos decepar a cabeça da princesa galega, o amor da sua vida. De
pouco valeu esta atitude a Afonso que IV foi da dinastia afonsina. De Constança
Manuel, a rainha institucional, quase ninguém recorda, mas Inês, a princesa
amada, está em Alcobaça num túmulo de mármore, que é uma joia gótica, como uma
rainha. Regresso às muralhas e debruço o olhar de novo sobre o poente. Deixo-o
à solta na procura do teu relato e ao sentir a tua falta, ocorre-me por
momentos as palavras de Óscar Lopes nas suas cartas da prisão. O grande
intelectual que foi, professor e investigador era ao mesmo tempo de uma
simplicidade e de uma inteligência que deslumbrava. Nas masmorras da infame
polícia da Ditadura ao longo de cinco meses, escrevia cartas onde expandia o
amor que dedicava à sua companheira de sempre. Numa dessas páginas de letras,
rememorando uma peça de Paul Claudel, escreveu, “Tu és minha sobre o leito
da ausência e da impossibilidade!” Desço agora e com a luz da tarde a
visitar-me volto a atravessar os campos molhados do Mondego e embarco na
velhinha automotora que te levou. Quando se alcança a Figueira em dias de sol
intenso, a primeira diferença que se sente para quem ruma do Norte, é a luz.
Esta luminosidade já tem muito do Sul e os verdes já nos aparecem um pouco
queimados. Chegaste de noite como disseste e uma surpresa aguardava-te, uma
surpresa que sem o saberes seria o princípio de um tempo que não podias ter
imaginado. A estação não mudou, mas sente-se nas suas paredes o renascer de
outro tempo. Caminho, ou melhor dito, deixo-me ir, creio que estas eram as mais
velhas ruas desta cidade. Procuro aquela onde esteve o teu viver temporário,
mas as pequenas e velhinhas casas foram absorvidas pela modernidade, pelo
menos, há uma nova claridade que deixa perceber um melhor viver. Onde estará,
se ainda existe, a placa marmórea onde lias as palavras de João de Barros? Mas
encontrei o teu Café da Sacor onde devoravas os nacos de sol em manhãs
distantes. A pequena aldeia de Buarcos parece resistir a uma dessas ondas que
tudo levam, mas o tempo tudo muda, as mentalidades também, apenas as acções
humanas, aquelas que conduzem aos corredores do poder onde se escutam os
tambores da guerra, essas permanecem, apenas rejuvenescem no nível da violência.
No mesmo instante em que estes pensamentos germinam, alcançam-me as palavras de
Alain Corbin, na sua “História do Silêncio”: “No passado, os
ocidentais desfrutavam a profundidade e o sabor do silêncio. Consideravam-no
como condição do recolhimento, da escuta de si mesmo, da meditação, da oração,
do devaneio, da criação; sobretudo como lugar íntimo do qual a palavra emerge.”
No passado! Vou tentar alcançá-lo, esse “lugar íntimo”. O postal segue
amanhã.
A ETERNIDADE
POESIA
Helena SerôdioCONTRADIÇÃOIdealizo teu rostoDe límpidas feiçõesDesenhadas no vento.Os teus cabelos cinza,Revoltos,Que o sol incendeia,Rolando em ondas de luz sobre a tua cabeça.Os teus olhos escuros,Profundos,Serenos, como noites estivaisEm que o céu e o mar se fundem como duas gotas de chuva!E não sei compreender que estranha purezaModelou as formas do teu corpo,Que música suave escorre dos teus gestos,Me embalaE me faz cativa dessa tua beleza!Aventuro-me no abismo do teu olhar,Tentando devassar o enigma do teu íntimo.Debruço-me sobre o mapa complexo da tua anatomia,Estudo todos os ângulos dos teus movimentos,Analiso cada gesto e cada átomo,Cada célula do teu ser,Penetro em todos os teus órgãos,Navego nas tuas veias,Caminho nessa floresta virgem dos teus nervos,Revolvo as tuas entranhas,Mas não desvendo o secreto lugar onde se esconde a tua alma…Inacessível,Intacta,Muralha de silêncio e de mistério,Tua alma indecifrávelÉ umbral que eu não transponho.E eu estarei sempre só,Presa a um mito,Perdida num labirinto de dúvidasBuscando em vão a verdade…( A alma é um rio sem margensEm que nós ousamos singrarAtravés das neblinas,EscolhosE águas revoltas,Sem nunca encontrar um horizonte.É uma longa travessia sem rumo,Em que todos naufragamos…).Mas se és tão único e singularE tens em ti a poesia,A música,O céu ,E o mar,Para que quero eu a tua alma?
TERCEIRA GUERRA MUNDIAL?
Hoje, sábado, 29 de Novembro, Dia
Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizou-se na cidade
do Porto, uma grande manifestação na qual participei, apesar da chuva abundante.
Muita juventude, muita determinação, com palavras de ordem muito
significativas:
- Hoje e sempre, Palestina
Independente!
- Palestina Vencerá!
- Libertar a Palestina – acabar
com a chacina!
- Israel é violência, Palestina é
resistência!
- Israel é culpado de um povo
massacrado!
- Em cada cidade, em cada
esquina, Somos todos Palestina!
Relativamente ao conflito na
Europa, li no facebook um texto de uma importante personalidade política do
Partido Socialista, daqui do Porto, que é o seguinte: ”Esta liderança europeia
é muito fraca. Não teve capacidade para fazer a Paz entre a Rússia e a Ucrânia
e pelo contrário sempre contrariou essa tendência sempre que a Paz esteve para
acontecer empenhou-se em impedi-la. Por detrás de todas estas manobras espreita
a III Guerra Mundial”
São palavras que mereceram a
minha atenção. São palavras que confirmam o que muita gente diz há muito tempo.
Bruxelas sempre investiu de forma muito clara no inevitável colapso e pilhagem
da Rússia. Os dinheiros gastos na guerra eram um investimento a prazo que seria
recuperado quando a Rússia fosse desmantelada. A Rússia teria uma derrota estratégica.
Há muitas afirmações de altos dirigentes da União Europeia a começar pela sua
Presidente e a terminar na que faz de Negócios Estrangeiros que acabou de declarar
que “se quisermos impedir que esta guerra continue precisamos reduzir o tamanho
do exército russo e o seu orçamento militar.” Esta senhora nunca se encontrou
com o Secretário de Estado Norte-americano, pois ele ainda não a recebeu,
provavelmente por não lhe reconhecer competência.
O único dirigente da EU que esta semana disse
através do jornal Expresso que é preciso falar com a Rússia, mas que ainda não é
o momento, foi António Costa.
Pelos vistos o programa para
negociações para a Paz apresentado por Donald Trump já foi alterado, mas a
última versão não é pública e os fazedores de opinião andam tontos pois não
sabem o que dizer. Entretanto Putin já acrescentou o seu Plano de Paz “As
forças ucranianas se retiram voluntariamente dos territórios russos
recentemente ocupados ou serão expulsos pela força militar para pôr fim aos
combates”.
Essas pessoas esquecem-se que “os
perdedores nas guerras não ditam os termos”, segundo Pepe Escobar.
Muitas pessoas sofrem de
complexos de colonialismo por o terem servido directamente ou por ligações
familiares e ainda não se conformaram com o 25 de Abril e com a democracia,
independentemente da sua instrução. A ignorância histórica leva-os a manifestarem
opiniões não racionais, mas emocionais, demonstrando que não percebem nada do
que se passa confundindo a sua opinião com a realidade. São vítimas das
manobras de diversão e de contra-informação, da arrogância que pretende
confundir, mas a realidade é que vivemos uma situação de crise internacional que
pode redundar num grande conflito.
01/11/25
NO CORRER DOS DIAS
Coimbra. O primeiro momento do dia, volta a ser a estação. Cativam-me os momentos da partida, mais do que os de chegada. Quando nos afastamos e observamos com cuidado, podemos idealizar o que cada um deixa transparecer ou pretende esconder. Na chegada, há cansaço, por vezes irritação, mas quando iniciamos uma viagem, sente-se ansiedade, a vontade da descoberta, a interrogação do que encontraremos no destino. Alguns, acomodam-se num pequeno espaço, outros espreitam o relógio ou o espaço de informação e outros ainda, caminham com ar pensativo. Num intervalo desta observação, espreito os títulos dos jornais do dia e ao folhear um deles, deparo-me com esta pérola, “Se conseguir negociar uma coligação com maioria no Parlamento (…) poderá ser o mais novo de sempre a ocupar o cargo de primeiro-ministro e o primeiro assumidamente homossexual.” Presume-se que o sexo deve fazer parte do Curriculum Vitae do provável primeiro-ministro dos Países Baixos. O Público insiste em erguer muros onde se abriam portas. Quase silenciosamente, o comboio aproxima-se lançando um som de buzina curto, mas estridente. Oitenta e sete toneladas de metal deslizam nos carris até se deter. O meu olhar ergue-se por sobre a multidão que procura as portas na expectativa de que me pudesses surpreender com a tua companhia. Foi apenas um sonho, uma ilusão. Viajamos agora nas planícies desta Beira Litoral que faz a ligação entre o mar e o interior montanhoso. Enquanto a paisagem passa pelo nosso olhar em sentido oposto, deixamos que o pensamento examine o mundo que nos rodeia neste tempo atropelado por malfeitorias e acções devastadoras sobre os colectivos humanos, das quais nenhum espaço terreno parece poder escapar, ou até iludir. No Auschwitz palestiniano, o sionismo judeu continua a matar. Existe uma diferença qualitativa entre o nazismo e o sionismo judeu. Ao nazismo, a humanidade conseguiu parar, julgar e condenar, mas o sionismo judeu, é que submete a humanidade a uma derrota humilhante. Em nome de loucuras bíblicas que só existem na cabeça de doentes mentais, um Estado ergueu-se à bomba e sobre acções criminosas constantes e, ao longo de oitenta anos, têm obrigado a humanidade a pedir desculpa quando num lapso de coragem os critica. Sem a Nuremberga do sionismo judeu, temos de aceitar que a humanidade ultrapassará uma linha sem retorno. Esta locomotiva que impulsiona este comboio, entrou em marcha de retenção e uma voz apressada avisa que vamos entrar na estação de Coimbra B. É o efeito do hábito, pois já não existe Coimbra A. É um autocarro que nos leva por estes dias até ao centro da cidade, ou até Coimbra A, se assim quisermos recordar o passado recente. É tempo de caminhar na procura do que aqui me trouxe, o passado, esse tempo vivido, esse espaço pretérito tão cheio de presentes. A velha cidade romana de Aeminium. Onde o império necessitava de atravessar cursos de água, nascia uma cidade ou um lugar habitado. Depois dos Suevos chegaram os muçulmanos e os árabes e Aeminium passou a Qulumbriya. No século XI por fim, Coimbra passou para a posse da realeza leonesa, não deixando, todavia, de ser cercada mais tarde pelas hostes árabes. Resistiram a Condessa Portucalense, viúva que era de D. Henrique e mãe de Afonso que virá a ser rei. O meu pensamento ganha asas enquanto caminho pela airosa avenida da margem direita deste Mondego e os meus passos dirigem-se para a antiga urbe que olhada do outro lado, o seu casario se assemelha a velhinha cidade de onde provimos. Caminho sobre as pedras centenárias desta solidão que me embala, me conduz entre as paredes das ruas estreitas do silêncio. Há em cada um de nós o desejo de voar, olhar de cima o chão que pisamos. Percorremos o tempo de vida, o nosso, e o daqueles que nos trouxeram aqui, e não resistimos a desenhar os contornos das avenidas por onde passarão os que ainda não chegaram. Tudo é História, tudo é vida entre o nascimento e a viagem que nos levará pelo espaço da eternidade. Por agora caminho apenas e usufruo das alas deste silêncio como se fosse a tua companhia e os meus braços prendem-te para que não fujas da minha memória e me guies nos caminhos infinitos do amor pelo passado, esse pretérito que hoje visito, onde cavalgaram as hostes árabes dos almorávidas. No acabar desta estreita rua, um largo se abre, e altaneira, olhando de cima, a Sé Velha ou Catedral de Santa Maria de Coimbra. Uma frontaria austera, castelã e românica faz-nos sentir temor, como se pretendesse representar, o poder de Deus sobre a pequenez humana. A nave central aberta em arcos laterais suportados por colunas de boa dimensão, na sua singeleza, só é abafada pelo barroco do altar, essa ousadia dourada a tentar sobrepor-se à beleza da pedra e do mármore. Mas é na pulcritude quase gótica do claustro que o meu olhar se deliquesce em descanso. O pensamento voa na procura de sanar o que me surge como uma contradição. Afonso, derrota as hostes da mãe e da nobreza galega dos Trava em 1128 e tendo já como objectivo assumir-se como rei de um reino que não tinha, rumou à Coimbra moçárabe, onde ficava o que hoje chamaríamos a fronteira entre os cristãos e os muçulmanos. A construção da catedral terá começado após a vitória na batalha de Ourique, a qual, em boa verdade, não sabemos onde ocorreu e terá terminado pelos finais do século XII. Assim sendo, como explicar que numa das paredes laterais aparece gravada na pedra uma inscrição em árabe, quando estes já não voltaram a entrar na cidade desde o século XI. Terão sido os moçárabes que gravaram naquela pedraria “Escrevi [isto] como um registo permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza permanecerá”? Procuro-te no pensamento enquanto desço pela Rua dos Coutinhos para alcançar o Mosteiro de Santa Cruz. A tua presença certamente me ajudaria neste nó górdio da humanidade, a procurar os caminhos escondidos desta Coimbra onde Afonso escolheu viver para melhor guerrear, sabendo que sem a temperança de guerreiro, de um combatente da fé, nunca seria rei. Os Agostinhos Regrantes muito o ajudaram com as palavras de Deus e em compensação, o futuro rei que já agia como tal, ajudou-os a erguer este mosteiro. Já depois da sua morte, os crúzios haveriam de legitimar os seus actos com o mito da batalha de Ourique e o aparecimento de Deus na véspera dessa liça guerreira, não foi um acaso. Pela pena dos Crúzios, Deus não lhe apareceu apenas para o galvanizar, mas antes para lhe impor o combate como uma vontade Dele. Já não dependia de o futuro rei desejar ou não o combate, este estava-lhe imposto pela vontade divina. A História, quantas vezes, se traça pela pena escrevendo movida pela mão humana. Sentada na esplanada do Café Santa Cruz, aprecio os raios luminosos do sol, espargindo-se nas janelas altas dos prédios, derretendo-se nessas cores douradas de despedida. Saboreio um crúzio, não um dos frades, mas antes algo delicioso que nos deixaram, enquanto escrevo o postal que aqui te deixo. A minha viagem prossegue.
FILOSOFIA NA LITERATURA
Não é raro que a grande Literatura
seja permeada, por entre a trama psicológica dos personagens ficcionados, pela
melhor Filosofia.
É o caso de Os Sonâmbulos,
obra do austríaco, nascido em Viena, Hermann Broch, depois naturalizado
americano após conseguir escapar aos nazis, pelos quais foi preso durante algum
tempo.
Trata-se de uma trilogia
romanesca, publicada nos inícios dos anos trinta, “que é um fresco da Alemanha
de 1888 a 1918 e em que confluem análise psicológica, poesia e ensaio
filosófico. A obra foi elogiada por Thomas Mann e Hermann Hesse.
A partir daí, Broch tornou-se um dos principais expoentes da literatura
centro-europeia, entre as duas guerras, ao lado de Kafka e Musil.”
O conhecimento dos assassínios
colectivos em campos de concentração europeus, levou Broch, decerto
amargurado, a decidir não continuar a escrever literatura, continuando, apenas,
a publicar ensaios críticos e filosóficos e poesia, prefaciados por Hannah
Arendt, antes de morrer em 1951.
Filosofia 1
“O irreal é o ilógico. E esta
época parece já não conseguir superar o clima do ilógico, do antilógico: é como
se a realidade tremenda da guerra tivesse suspendido a realidade do mundo. O
fantástico torna-se uma realidade lógica, mas a realidade dissolve-se na mais
ilógica das fantasmagorias. Uma época que é mais cobarde e tristonha do que
qualquer época precedente afoga-se em sangue e gases venenosos, multidões de
empregados bancários e especuladores atiram-se para o arame farpado, um
espírito humanista bem organizado nada impede, antes se organiza como Cruz
Vermelha e para produzir próteses; as cidades morrem de fome e cunham moeda com
a sua própria fome, mestres-escola de óculos chefiam pelotões de assalto, gente
da grande cidade vive em cavernas, operários fabris e outros civis rastejam a
fazer patrulhas de reconhecimento, e, finalmente, quando regressaram ilesos à
retaguarda, as próteses transformam-se de novo em especuladores (…)
O horror patético com que esta
época é designada como louca, o comprazimento patético com que lhe chamam
grande, procuram justificação na dimensão hipertrófica inconcebível e ilógica
dos acontecimentos que, na aparência, constituem a sua realidade. Na aparência!
Porque uma época não pode nunca ser louca ou grande, só um destino individual é
que pode. (…)
A grande questão é: como é que o
indivíduo, cuja ideologia, normalmente, visava verdadeiramente outras coisas,
pode compreender a ideologia e a realidade da morte e submeter-se a elas? (…)
Esta época tinha, algures, um desejo genuíno de conhecimento, tinha, de alguma
maneira, uma vontade artística genuína, tinha uma consciência social de
inegável precisão, como pode o ser humano, criador de todos estes valores e
participante neles, como é que ele pode “compreender” a ideologia da guerra,
acolhê-la e aprová-la sem contestação? Como pôde agarrar na arma, como pôde ir
para as trincheiras, para lá perecer ou para regressar de lá novamente para o
seu trabalho habitual, sem enlouquecer? Como é possível uma tal versatilidade?
Como é que a ideologia da guerra pôde, de todo em todo, encontrar lugar nestas
pessoas, como é que estas pessoas puderam, afinal, compreender uma tal
ideologia e a sua esfera de realidade? Já sem falar de uma aceitação
entusiástica, perfeitamente possível! Serão loucos porque não enlouqueceram?
(…)
Filosofia 2
“A posição preponderante do
estilo arquitectónico entre as características de uma época é uma das questões
mais singulares. E, em geral, esta posição de privilégio estranhíssima que as
artes plásticas conquistaram na história! Elas são, com toda a certeza, apenas
uma fracção muito pequena da pletora de actividades humanas de que uma época
está cheia, não são, seguramente, sequer uma fracção muito espiritual e, apesar
disso, sobrepujam todos os outros domínios do espírito no que toca ao poder de
caracterização, sobrepujam a literatura, sobrepujam mesmo a ciência, sobrepujam
mesmo a religião. O que perdura ao longo dos milénios é a obra das artes
plásticas, ela permanece o expoente da época e do estilo desta (…)
Se existe explicação possível,
ela tem de estar na essência do próprio conceito de “estilo”. Porque o estilo
não é, seguramente, algo que esteja limitado à arquitectura ou às artes
plásticas, estilo é uma coisa que atravessa da mesma forma todas as expressões
vitais de uma época (…)
Talvez fosse ocioso pensar nisto,
se não estivesse subjacente o problema que é o único que legitima todo o
filosofar: o medo do nada, o medo do tempo que conduz à morte (…) Pois, seja o
que for que o ser humano faça, fá-lo para destruir o tempo, para o revogar, e
essa revogação chama-se espaço. Mesmo a música, que só existe no tempo e
preenche o tempo, transforma o tempo em espaço, e a teoria de que todo o
pensamento ocorre no espaço, de que o processo de pensamento representa uma
combinação de espaços lógicos multidimensionais incrivelmente complexos, tem o
máximo de plausibilidade. Mas, sendo assim, torna-se claro que todas as
expressões que se relacionam directamente com o espaço possuem um significado e
uma evidência que nenhuma outra actividade humana alguma vez pode possuir (…)"
PARAPEITO
POESIA
Helena SerôdioÚLTIMA SAZÃO
É a refracçãoDa luz que cintilou,Que pálida se tornouLuar nos cabelos e na alma.É o tempo da reflexão,Também de redençãoPelo sofrer sofrido.Tempo de compreensão,De franca aceitaçãoRosários de mágoas preciosas,Contas negras não rezadas !Tempo de doçuraE de amargura.
MEUS BRAÇOS
Abro os braços grandesNum abrir que quero, imenso.Puxo a mim o mundo,Num fôlego que eu quero, eterno.Salto para o vazio,Num nada que me acorda a imaginação,Me desperta para o além.Aqui,A sós comigoRelembro num canto da mente cansadaO amor que consegui.Sinto o corpo tremer ,O espirito elevar-se no éter...Queria abraçar-te agora !Abraçar o nadaQue pode ser tudo.Porque és tu,Porque sou eu,Porque somos nós...É para sempre !!!