01/02/26
NO CORRER DOS DIAS
Valado dos Frades. A tarde já dobrou a sua metade e ora me
sento, ora me levanto. O horário do comboio é uma questão e a sua chegada é
outra e nunca coincidem. Ocorre até em algumas ocasiões que o primeiro existe,
mas o segundo fica pelas aparências. É a Linha do Oeste, mas podia ser qualquer
outra. A figura sinistra do ministro dos Transportes, segue à risca o conselho
do Dr. João das Regras, adaptado ao nosso tempo, dá o que não é teu e promete o
que não vais fazer. A aldeia é grande, o que se compreende por ficar a quatro quilómetros
da Nazaré e, para que ninguém se sinta afastado, a estação tem três nomes,
Valado, Nazaré e Alcobaça. Encontramos um pouco de tudo ao percorrermos as ruas
estreitas do lugar, casas fechadas, muros em ruínas, janelas sem vidros e
paredes de casas brancas, pinturas vivas, com as pedras laterais que desenham
as entradas, pintadas de azul ou amarelo. É o Sul que se aproxima com a
intensidade da luz a sentir-se com mais premência. Com o dia a declinar,
sente-se uma mansidão repousante. Aproveito para serenar e interrompo o
pensamento. Das ocasiões em que me levanto, aprecio os azulejos da estação. Já
lhes memorizei os pormenores. São reproduções dos lugares que serve e o central
tem um apelo, «visitem Alcobaça». Hesitei imenso em abandonar o comboio em
Leiria, mas quer Santa Maria da Vitória quer o Real Mosteiro de Santa Maria de
Alcobaça, eram impossíveis de ignorar. Desci devagar ao longo do Liz, por entre
aldeias onde o tempo tem essa lentidão de prazer, e permite-nos admirar o
horizonte, fixar memórias e sentir o viver da vida. O que primeiro nos surge no
olhar quando nos aproximamos, são as Capelas Imperfeitas, mas o que poderá ser
imperfeito nesta beleza gótica? Abandono a ideia dos pormenores, retenho-me na
grandeza e sinto necessidade de comparar as igrejas, a cisterciense e esta dos
dominicanos. Separam-nas dois séculos na construção, mas era um tempo em que
trabalhar a pedra e o vidro eram uma arte, o tempo em que os mesteirais enchiam
as cidades com os seus saberes e as ruas tinham o nome dos seus mesteres. Ambas
as construções se assemelham, na fortaleza das colunas, nas dimensões da
abóboda, na explosão de luz que penetra dos vitrais e, no gótico. Cativa-me a
dos cistercienses por algo inexprimível, mas a de Santa Maria da Vitória tem
outra dimensão que percepciono mas não distingo de imediato. Em Alcobaça
reza-se a Deus pelos pecados terrenos e apela-se pela vida eterna. Na Batalha
também, mas contém outro plano, agradece-se a Deus por um momento ímpar da
história colectiva, que se vem escrevendo há nove séculos, engrandeceu o reino
e fez alvorecer a ideia de pátria. Os túmulos, em ambos os espaços sagrados,
expressam a dimensão dos seres mortais que acolhem, enquanto viveram, mas por
razões distintas. Uns pela forma como reinaram, os outros pela forma como amaram.
Os primeiros têm um lugar próprio, uma capela para repousar no sossego da
eternidade, mas num espaço exterior ao dos crentes que rezam e apelam, os
segundos estão no próprio corpo da igreja, recebem a luz que chega de Deus e
alimenta, hoje em mito, o que foi o amor imperecível a que se dedicaram. Por
aqui, por estes espaços se queda sempre o meu olhar renovado por tanta arte e
mestria do trabalho de cantaria. Por fim, refugio-me nos jardins dos claustros,
territórios perfeitos para a reflexão, um deleite de conforto. Procuro sentir a
emoção desse final de tarde de Verão nos campos de Aljubarrota. Milhares de
homens no calor tórrido de Agosto e um extenso campo a separá-los. Tudo parece
ter-se extinguido em menos de uma hora. A nata da nobreza castelhana jazia por
terra, o que restava, cavalgava desvairadamente e do lado dos vencedores, um
sentimento pátrio nascia. Ainda sem o saberem, estavam a projectar o reino para
dimensões de uma grandeza que ainda ofusca o presente. D. João terá hesitado
nos momentos que antecederam a disputa, e não seria a primeira vez, mas por
vontade própria ou sem terreno para recuar, instalou-se na refrega e saiu rei.
A coroação chegaria depois, com tempo, pela arte da oratória ou da engenharia
jurídica, mas isso que importa, sabendo nós hoje o que sabemos. Este quadro traz-nos
à memória um outro personagem do nosso tempo que também por estas terras
próximas se dedicou às uvas e às rosas até aparecer um Álvaro Pais que o
colocou em cima do cavalo e o pôs a galopar. Vai ser rei, sem saber ler
nem escrever como diz o povo mínimo. Mas quanto à grandeza do futuro, podemos
recolher ao claustro para sossegar. D. João, o verdadeiro rei, não o que ainda
não é, era um homem devoto com particular admiração pela Nossa Senhora da
Oliveira, daí as suas viagens a Guimarães e ao Minho com passagem pelo Porto.
Numa dessas viagens acordou casamento e de D. Filipa saíram aqueles que
projectaram o que hoje chamaríamos um tempo e um mundo novo. Ainda o rumor da
batalha se escutava quando o que antes foi Mestre de Avis dava ordem de
construção a esta maravilha gótica com a pedra trabalhada como filigrana. Longa
vida foi a deste rei, filho bastardo daquele que em Alcobaça repousa e que
morreu amando. Ao longe, no final desta recta extensa que o meu olhar alcança
do lado esquerdo, pestanejaram umas luzes ínfimas e tremelicantes parecendo
aproximar-se. Está dentro do horário o comboio que me vai levar, porque o
horário não é o que está escrito, mas quando aquele chega à estação. Ainda não
decidi onde vou sair. O postal envio à chegada.
AS ELEIÇÕES E O RESTO
Manuel Joaquim
Marina Costa Lobo, Politóloga, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, publicou no Público de 21 de Janeiro, o texto “Desalinhamento ou realinhamento eleitoral?”, onde refere que Gouveia e Melo teve cerca de 700 mil votos, 12% do eleitorado; que Marques Mendes (PSD +CDS) teve menos 68% dos votos do que PSD+CDS em 2025; que André Ventura teve 23% dos votos, menos 10% do que o Chega em 2025; que Seguro teve 31% dos votos, mais 20% do que o PS em 2025; que Cotrim teve três vezes mais votos do que Iniciativa Liberal em 2025,
Nas eleições de 1986, Freitas do Amaral teve na primeira volta 46% dos votos e Mário Soares 25%. A soma dos votos da 1ª volta de Freitas do Amaral e de Mário Soares foi de 71% e a soma dos votos de Seguro e Ventura foi de 55%. Aconteceu que Mário Soares foi eleito na 2ª volta.
Depois dos resultados da primeira volta nestas eleições Gouveia e Melo sugeriu que tinha a intenção de formar um novo partido ou um movimento para dar corpo aos votantes que votaram na sua candidatura. Cotrim também manifestou a mesma intenção dando já o possível nome ao movimento.
Freitas do Amaral que fez uma campanha muito forte, criando a imagem do sobretudo verde azeitona, de triste lembrança, que muitos correligionários copiaram e que, de certa forma, foi agora copiado pelo triste americano Bovino, do ICE, foi perdendo pedalada e desapareceu com os seus votos, deixando grandes dívidas da campanha eleitoral por pagar, incluindo os sobretudos verdes.
O PRD do Eanes, liderado por Martinho, criado para dar corpo à votação que teve nas eleições presidenciais, que chegou a ter uma grande representação da Assembleia da República, também desapareceu da vida política, sem deixar rasto.
A esmagadora maioria da população não é filiada em nenhum partido político. As pessoas são condicionadas pela comunicação que lhes é dada e pelas circunstâncias da vida. Por isso a votação é volátil, é mudável.
As campanhas eleitorais custam muito dinheiro. A campanha do Marques Mendes, segundo os jornais, ficou com um buraco financeiro enorme. Vai ter que arranjar uns servicitos para tapar o buraco.
Vamos ver o tempo de vida dos movimentos do Melo e do Cotrim. Provavelmente desaparecem como todos os outros que nasceram e morreram.
No próximo dia 8 de Fevereiro vai realizar-se a 2ª volta das eleições, donde vai sair o próximo Presidente da República. Os eleitores vão ser confrontados com dois candidatos, um dos quais representa a opção mais reaccionária que pretende pôr em causa o que ainda existe das conquistas resultantes do 25 de Abril que têm sido atacadas pelos sucessivos governos de direita e quejandos. O perigo do fascismo é real, tendo presente a situação política nacional e internacional. Racionalmente temos de evitar o “quanto pior melhor” porque a luta pela liberdade e pela democracia seria muito pior. Assim, mesmo com sapos e elefantes à nossa frente, é melhor não desperdiçar o nosso voto e votar contra o fascismo, votando no outro candidato.
Nesta terça-feira foi assinado o Acordo de Comércio Livre Entre a União Europeia e a Índia. Ainda não se conhece integralmente o texto do acordo, sabendo-se que trata de automóveis, de máquinas e têxteis. À primeira vista, parece que a Alemanha e a França serão as mais beneficiadas pelos automóveis, mas só a prazo é que se vai realmente saber quem beneficia do acordo. A Índia fabrica os seus próprios automóveis e diversas marcas japonesas e coreanas fabricam lá muitas das suas viaturas. A indústria têxtil da Índia é muito poderosa, o que certamente vai acelerar ainda mais a destruição do sector têxtil português. Para António Costa, Presidente do Conselho Europeu, que nessa qualidade assinou o acordo, tudo está bem, pois, orgulhosamente, se identificou como cidadão indiano.
Este acordo, apesar de estar a ser negociado há muito tempo, é muito estranho ter sido assinado agora. A partir de 2027 a União Europeia vai proibir a importação de gás e petróleo da Rússia. Apesar de todos os pacotes aprovados contra a Rússia, neste momento ainda se importa gás e componentes do petróleo da Rússia. A energia que a União Europeia está a consumir, uma parte significativa é importada dos EUA, a preços nada convidativos. A partir de 2027, se cumprir com as decisões tomadas, ficará ainda mais vulnerável das decisões de Trump. Será que o acordo já tem em mente a importação de gás e de petróleo da Rússia através da Índia? Vamos aguardar para ver.
Também, anteriormente, a Comissão Europeia assinou o acordo de EU-Mercosul, que foi contestado por muitas organizações europeias ligadas ao sector agro-pecuário e que foi remetido com pedido de Parecer ao Tribunal de Justiça da União Europeia pelo Parlamento Europeu. O que essas organizações europeias defendem é a salvaguarda da sua sobrevivência, pois, em princípio, os grandes interessados são as grandes multinacionais. Vamos ver se a montanha vai parir um rato.
O Melo, do governo, foi à Turquia comprar com dinheiro emprestado equipamentos militares para a guerra. Pelo que se lê, a União Europeia, de organização económica, social e política, quer transformar-se numa organização militar para a guerra. A psicose da guerra permanece nas mentes destes inteligentes. Este Melo, aqui há uns tempos, disse que a decisão de comprar armamentos seria muito bom para Portugal, pois seriam fabricados em Portugal e aumentava os postos de trabalho. Pelos vistos, começou por dar trabalho à Turquia e não a Portugal. Não é preciso falar no que vai comprar aos EUA, conforme o “PAPÁ” mandou.
As televisões têm mostrado os desastres com o temporal. Centenas de milhares de habitações sem água, sem energia, sem comunicações, e muitas completamente destruídas. Pessoas sem-abrigo, sem alimentação, sem apoio na saúde, sem apoios, sem nada.
Muito pouca gente se lembra das cheias de Novembro de 1967, em Lisboa, causadas pela chuva que causaram mais de 700 mortos e milhares de desalojados e a destruição de mais de 20 mil casas. A censura do regime fascista não permitiu notícias sobre esse horrível acontecimento. Os fascistas de hoje ignoram ou fazem por ignorar o que se passou.
Muitas das vítimas dos incêndios dos últimos anos ainda aguardam o cumprimento das promessas que os governantes efectuaram. É um truque que estes inteligentes fazem, “fingem que resolvem os problemas que não existem para ocultar os problemas que existem e não resolvem” palavras de Cláudia Santos, professora da Faculdade de Direito de Coimbra, em “Muito Estado primitivo e pouco Estado Social”, Público de 14 de Janeiro.
Se houvesse mais Estado social, não se via tantas crianças e jovens nas escolas debaixo destas invernias com nenhumas roupas de inverno, com sapatilhas de verão e umas camisolas de malha como se fosse verão, muitas sem merenda para comer.
A falta de água e de energia durante tantos dias demonstra o estado das estruturas existentes no país. Agora, pouco se fala das startup em Lisboa e dos seus êxitos. Dos dinheiros gastos a fundo perdido para os grandes espectáculos organizados. Parece que se esfumaram.
No tempo do Costa falou-se dos grandes investimentos em Sines para grandes empresas de Bases de Dados. “É uma coisa do futuro!”.
Essas empresas têm uma necessidade de água e de energia, que Portugal não tem capacidade de responder. Os próprios EUA não têm capacidade estrutural para responder a essas necessidades. Se Portugal não tem capacidade de responder às necessidades das populações quando é confrontado com estre tipo de desastres naturais, como vai ser com essas empresas?
Elefantes brancos como se chamou no tempo da “outra senhora” aos investimentos efectuados precisamente em Sines?
PALLAS ERRÁTICA
PARTIR CASCALHO
Mário Martins
https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=geopolitica#
Enquanto a Nasa decidiu o regresso antecipado de quatro astronautas que integravam a missão Crew-11, por doença não divulgada de um dos seus membros, igualmente não identificado, coisa que nunca tinha acontecido desde o início das operações da Estação Espacial Internacional, há 25 anos;
Enquanto a Inteligência Artificial continua a fazer o seu caminho, gerando grandes expectativas e não menores temores, (o reputado neurocientista António Damásio, em entrevista ao Expresso – Revista de 26 de Dezembro de 2025 – acredita que “Há possibilidade de alguns desses organismos {máquinas com IA} se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador. É previsível que isso possa acontecer. Depois, é imprevisível dizer quais seriam as consequências e qual o modo como seria possível controlar um tal desenvolvimento.”) Entretanto, se a maioria dos especialistas americanos estima que os efeitos da IA, nos próximos 20 anos, serão globalmente positivos, a grande maioria do público leigo norte-americano não acredita nesses efeitos positivos. Em Portugal, uma sondagem recente concluiu que a maioria dos inquiridos dispensa a IA e defende maior regulação, mas os autores da sondagem consideram que a atitude pode mudar rapidamente “à medida que a familiaridade com a tecnologia cresça e que os seus múltiplos efeitos se façam sentir.” (Expresso de 9 de Janeiro passado);
Enquanto, estatisticamente, se “lambem as feridas” dos incêndios do ano passado, concluindo que “2025 foi o segundo pior ano (o primeiro foi 2017, o ano da tragédia de Pedrógão) da década em área ardida”, destacando-se, “entre as causas mais frequentes detectadas, o incendiarismo/imputáveis (30%) e os reacendimentos (11%)”. Perante esta realidade persistente e o receio de retrocessos a nível nacional, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais apelou para que, em 2026, haja um reforço do Programa Nacional de Acção, nomeadamente “se organize uma força rural especializada para apoiar o comando de incêndios complexos, a trabalhar 365 dias por ano ao serviço da floresta e da conservação da natureza. O Presidente da AGIF lembra que “um pequeno fogo se apaga com os pés e um grande incêndio com a cabeça.” (Expresso de 9 de Janeiro);
Enquanto, enfim, a “vidinha”, fora dos teatros de guerra, prossegue o curso do costume, as superpotências, de um modo e numa escala sem precedentes desde o fim da segunda guerra mundial, agem como se fossem donos do mundo, em nome do seu exclusivo e propalado interesse, ameaçando, invadindo, rapinando, desprezando a ONU e fazendo tábua rasa dos princípios laboriosamente edificados dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos e da soberania dos Estados. Se Putin e a actual clique dirigente do Kremlin, não têm perdão pela invasão e destruição da Ucrânia, as recentes acções arbitrárias de Trump e do seu séquito de doutrinadores do Maga, “absolvem” o urso russo.
Eis-nos, enfim, chegados à nova “ordem” internacional. Doravante, cada país “soberano” terá de conformar-se com os ditames das potências hegemónicas, sob pena de o frio da lâmina económica ou militar, forçar o seu alinhamento. Como, há uns tempos, alguém afirmou na televisão, o interesse geopolítico das superpotências sobrepõe-se a tudo, o resto é cascalho…
POESIA
Helena SerôdioDESESPERODesce lento o crepúsculo, meu amor,Trazendo em sios meus sonhos alados,num prepassar de rendas e brocadosem que me envolve toda, o teu calor.É a hora das sombras. Teu ardorvem até mim em gestos compassadosde figuras bizarras, em bailadosde delírio febril e abrasador!Por ti o meu amor se desespera,numa ânsia incontida de desejosque eu vivo inutilmente à tua espera.A noite desce, acaba mais um dia,os meus lábios procuram os teus beijose vivo uma vez mais minha agonia!...
SENSUALISMO
Noites de Verão glorioso e ardente,Noites só de luar e encantamento,Com astros povoando o firmamentoEm que a lua é um facho incandescente!Lá fora um ar embalsamado e quente,Mas eu fico no meu isolamento,Sofrendo uma vez mais o meu tormentoDe estar sòzinha e te sentir ausente.A solidão da noite me apavora,Mas na febre de amor que me devora,Perco-me loucamente a imaginar0 teu corpo estuante de desejoE teus lábios, no frémito de um beijo,A minha boca rubra a desfolhar !
