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01/01/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Leiria. Voltei ao comboio. O dia ainda renasce quando subo para uma carruagem que me acolherá em direcção a Sul. Apesar da destruição planificada a que tem sido submetida a ferrovia, ainda é possível conhecer o país viajando de comboio. O abandono, deste meio de transporte, por parte do Estado começou há muito. O faraó de Boliqueime quase lhe deu um golpe fatal, mas sobreviveu. Como quase sempre acontece, estamos em contraciclo com a Europa, ou seja, com o espaço territorial que nos rodeia. Quando à nossa volta se efectuavam investimentos nos caminhos de ferro, esta espécie de muchões que se auto-intitulam de «arco do poder» encheram o país de auto-estradas. Vamos em quarenta e sete. Esta Linha onde vou viajar é o espelho da decadência putrefacta que invadiu os corredores do poder. Arrasta-se em obras há longos anos com a certeza de que ninguém sabe quando possam terminar. Entretanto, há meses que se discute se o comboio de Alta Velocidade – é uma moda a que não resistimos – tem uma paragem em Santo Ovídio ou em Vilar do Paraíso, quando nem sequer devia parar em V.N. de Gaia. Um comboio de Alta Velocidade que custa milhares de milhões não é um comboio turístico. Acordei azeda, hoje e não consigo evitar esta náusea que se evapora da terra e me invade o cérebro e com isto quase perco a paisagem que se passeia perante o meu olhar. Acabamos de passar Vila Verde o que traz recordações nostálgicas de uma noite distante em que ouvimos falar da tragédia que tem sido a Palestina. Longe estávamos de imaginar até onde chegaria o destempero criminoso de doentes mentais que se apoderaram de um território e se digladiam a destruir por completo um povo inteiro, perante os olhares do mundo, num misto de incredulidade e impotência. A infâmia gerou um monstro de tal amplitude que já não é possível destruí-lo. Ganhou asas, corrompeu, destruiu, criou uma realidade paralela que o fez perder a noção do mundo onde está. Não acreditam apenas ser Deus, vão mais além, o seu pretenso Deus despreza a humanidade com a excepção daqueles atrasados mentais que se julgam eleitos. Atravessamos o Mondego e olho com vagar para as suas águas e para as margens ao longo desta extensa planície. Sinto essa quietude que me serena e apazigua. A ponte é longa, em ferro, como uma espécie de túnel o que me faz levar a memória para Krasnoiarsk e a travessia do Ienissei. Deixo-me ir com o pensamento em sossego. Olho apenas e procuro recriar a vida das pessoas que os meus olhos encontram, de relance, numa rua, numa casa, aguardando a passagem do comboio. A estação fica longe da cidade. O seu edifício aparece, como seria de supor, desgastado pelo tempo, sem a mão humana cuidando do seu estado, a não ser pelo mínimo necessário. Procuramos nos azulejos alguma originalidade. Há sempre, pois cada uma destas estações procurava recriar um pouco a região que servia. Tenho uma longa recta para caminhar, mas não me preocupo. De certa forma, far-me-á bem para deixar soltar-se este azedume que trouxe do nascer do dia. A um quilómetro do centro da cidade, avisto a Torre de Menagem do castelo que vigia Leiria. Contorno o monumento à imbecilidade que é o Estádio Municipal e ignoro o novo elevador. Escolho o trajecto mais longo e menos íngreme. Dá-me tempo para interiorizar o que vejo. Esta pedraria castelã no topo do monte é imponente. Sente-se o peso da sua resistência. D. Afonso o perdeu por duas vezes e por outras duas o conquistou. Ficava nas terras de fronteira e a sua conquista, só por si, não afastou a presença árabe. Engrandeceu-se durante toda a 1ª Dinastia e D. João, o de Boa Memória, introduziu-lhe a beleza luminosa do gótico. Apesar de renovado, ainda se nota o abandono do passado. A Leiria medieval cresceu para Sul, certamente procurando a intensidade da luz. Para Norte cresce a nova cidade. De há longo tempo que memorizei o nome dos rios que a atravessam. O Lis sempre me retira da memória os sacos de cimento que recordo com essa crueza do que se não quer voltar a viver. O pequenino Lena, conduz-me até à Sibéria, às montanhas do Baikal onde nasce o outro Lena que viaja para Norte ao longo de milhares de quilómetros. Das alturas desta Torre de Menagem pode olhar-se a cidade em 360 graus e aparece-nos com essa beleza do que é perfeito. É a ilusão da distância. Uma cosmonauta que voou para a estação espacial dizia mais tarde que, conforme se vai subindo, se vai deixando de ver os caminhos, depois as estradas, os bosques, as cidades e quanto mais a nave se afastava, mais perfeito parecia o mundo que deixava. Por fim, aparecia toda a Terra, num azul luminoso e não se distinguia qualquer espécie de imperfeição, mas no regresso, a visão oposta passava da beleza para a fealdade. De certa forma, é a história da humanidade. A cada avanço científico, corresponde um acto de maldade humana, uma acção insidiosa de quem detém o poder, pela violência, pelo engano, pelas narrativas paralelas à realidade. O sol tomba a Oeste nas areias das praias de Vieira onde Pedro Barroso nos dizia, “Pus-me à noite a ouvir o mar / sentado na pedra sentado na areia / e senti uma barcarola criar devagar / esta melodia”. É ao som dessa melodia que desço por entre o casario do centro histórico desta Leiria que olha mais para Sul do que para Norte. Ainda me invade o núcleo das ideias que viajam sossegadamente comigo, a história da Amélia do Eça, essa menina que sonhou por entre as paredes destas calçadas e cuja morte é um símbolo da maior solidão. O postal por agora fica comigo.


GRANDE TRAPALHADA

Manuel Joaquim



Euroclear, activos russos, para aqui e para acolá, foi o que ouvimos mais nos últimos tempos, com os comentadores do costume a salivarem de contentes porque agora é que a Rússia ia ser derrotada por deixar de ter dinheiro para alimentar a sua guerra. Tudo ia ser decidido na reunião do Conselho Europeu sem ninguém poder sair da mesma sem a tomada de decisão final, como o seu presidente António Costa tinha declarado publicamente com alguns dias de antecedência para não haver dúvidas.

Na conferência de imprensa que António Costa realizou para dar a conhecer os resultados da reunião realizada em 18 e 19 de Dezembro, informou que decidiram nesse dia disponibilizarem 90 mil milhões de euros à Ucrânia durante os próximos dois anos, empréstimo sustentado pelo Orçamento da EU, que será reembolsado quando a Rússia pagar as reparações.

Palavras de tristeza de alguns comentadores e apesar de António Costa ter falado nos activos russos, o Euroclear e os activos russos desapareceram de cena. Pouca gente ficou a perceber muito bem o que realmente se passou e as consequências das decisões tomadas.

Porque é que dias antes da reunião tudo estava preparado para utilizar os activos russos e não foi aprovado? Já antes não havia unanimidade. O Banco Central Europeu não aprovou. A Bélgica, onde se encontra a sede do Euroclear, não aprovou. Os EUA não aprovaram. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa não aprovaram. Na própria reunião, que durou mais de 16 horas, tomaram posições tímidas a Itália, a Bélgica, Malta, Bulgária. A França terá ficado em silêncio. A proposta do CE  era defendida pela Alemanha.

A proposta do empréstimo dos 90 mil milhões de euros foi aprovada sem pagamento de juros pela Ucrânia, com a Hungria, a Eslováquia e a República Checa a ficarem de fora, não participando na respectiva dívida conjunta que vai ser assumida pelos outros 24 estados, onde se encontra Portugal. Assim, a União Europeia ( 24) vai pedir emprestado aquele valor pagando os respectivos custos de financiamento.

É importante registar que nos dias 18 e 19 de Dezembro, quando se realizou a reunião do Conselho Europeu, realizaram-se grandes manifestações de organizações de agricultores e de criadores de gado em Bruxelas, em Paris e noutras cidades em protestos pelos cortes de 20% no Orçamento destinado na Política Agrícola Comum (PAC) quando, ao mesmo tempo, aumentaram em cinco vezes os gastos militares. Estiveram presentes representantes de organizações agrícolas portuguesas. Os manifestantes denunciaram que estavam confrontados com uma política de “tanques em vez de tratores” e que a Europa pode-se transformar numa “terra de sangue”.

O Euroclear é uma instituição financeira, privada, com sede na Bélgica, com representação em diversos países que gere carteiras de títulos de clientes. Desconheço quem são os principais accionistas mas teve como origem o Morgan.

Em 2022 a EU congelou os fundos russos. É importante dizer que outros países têm bens congelados, como Irão, Venezuela, Emiratos Árabes Unidos, Vietname, para não falar em bens da Líbia depositados em Portugal que desapareceram.

Os activos russos não são dinheiro. São dívida da própria União Europeia. A Rússia comprou divida da União Europeia e os respectivos títulos depositou-os no Euroclear.

Qualquer cidadão português que tenha poupanças vai aos CTT subscrever títulos do Tesouro ou Certificados de Aforro ou a um Banco subscrever Obrigações ou Acções de uma empresa e os respectivos títulos, que estão desmaterializados, ficam depositados em registos electrónicos das instituições financeiras.

Se a União Europeia sacasse os instrumentos de dívida propriedade da Rússia do Euroclear estava a libertar-se da sua própria dívida. Mas o dinheiro não existe porque a União Europeia já o gastou quando o recebeu da Rússia. Para obter o dinheiro teria que o pedir em novos empréstimos.

Em 12 de Dezembro, a EU aprovou o congelamento dos activos russos por tempo indeterminado. Os juros desses activos estão a ser utilizados pela EU, isto é, não estão a ser pagos pelo devedor que é a EU.

90 Países têm fundos em bancos europeus. A Arábia Saudita já havia começado a repatriar parte dos seus fundos depositados na Europa. A China deposita menos fundos na Europa e compra mais ouro. Outros países seguem esse caminho.

Entretanto a Rússia, em 19 de Dezembro, já apresentou aos tribunais competentes as necessárias acções.

Os EUA não autorizaram uma operação cambial entre o dólar e o euro necessária para a EU sacar a sua própria divida, o que poderá esclarecer que o euro não é uma moeda independente.

Entretanto, Macron, ainda presidente de França, vem agora dizer que é preciso dialogar com a Rússia. Assim, seja!

Grande trapalhada de amadores.


HÁ UMA CRISE DA FICÇÃO?

Mário Martins


                  “Escrevem-se romances porque não queremo uma única vida, uma única identidade.”

                                                                                                                                   Juan Gabriel Vásquez


A Revista trimestral LER, publicada no Verão passado, lança a interrogação: Num mundo que frequentemente confunde ficção e realidade por que razão estamos nós preocupados com “a crise da ficção”? Seremos capazes de encontrar leitores para uma revolução do século XVII?

Segundo a revista americana The Atlantic, em 1976, 40% dos estudantes do superior tinham lido cerca de seis livros num ano – contra 11% que não tinham lido um único. Passados 50 anos, a percentagem mais do que se inverteu: 65% declarou que não tinha lido sequer um livro (editorial da Ler).

Entretanto, o presidente do júri do prémio Booker deste ano, o irlandês Roddy Doyle, considerou que muitos dos 153 romances que o júri teve de apreciar eram “uma perda de tempo”. E o romancista norte-americano Philip Roth decidira deixar de ler ficção (o autor faleceu em 2018) porque os seus padrões actuais não o interessavam muito (“Roth criticava uma tendência literária para se ver o mundo como um problema contingente e resolúvel”), e porque “a concentração, o foco, a solidão o silêncio (…) já não estão ao alcance das pessoas”. 

Na década de 60 do século passado, Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, achava que a literatura estava contaminada por frivolidades, que as vanguardas envelheciam mal e os livros eram triviais e pomposos: “O lixo piroso, os clichés, o filistinismo em todas as suas fases, as imitações de imitações, profundidades artificiais, pseudoliteratura grosseira, idiota e desonesta – são tudo exemplos óbvios. Agora, se queremos encontrar o poshlost (o que é de mau gosto e o banal) na escrita contemporânea, temos de a procurar no simbolismo freudiano, nas mitologias carcomidas por traças, no comentário social, nas mensagens humanísticas, nas alegorias políticas, sobreocupadas com as classes ou raças, e as generalidades jornalísticas que todos conhecemos.”

Em 1994, o crítico literário George Steiner alertava para o problema da arte de consumo rápido: “Porque diabo é que mais ninguém tem tempo para nada, apesar dos telefones, faxes e emails?”

Para Luís Naves, os escritores contemporâneos pertencem a duas categorias: os que são estudados nas universidades, embora pouco lidos fora destes ambientes; ou os que são êxitos comerciais, mas sempre desprezados nas academias e círculos de prémios (…) Os gigantes literários estão adormecidos e as revoluções estéticas do século XX parecem ter sido esquecidas.

Segundo este autor, apesar destes sinais, há quem possa sorrir nas artes narrativas. Números sobre o terceiro trimestre deste ano mostram um aumento de 3,7% no número de livros vendidos (face ao período homólogo do ano anterior) e também um aumento de 1,2% no preço médio. A ficção representa mais de um terço dos livros vendidos e 41% das vendas. Basta entrar numa livraria para perceber que a crise, se existe, não é inevitável (...)

Em 2006, o nosso Nobel da Literatura José Saramago afirmava, na esteira de outro Nobel, o peruano Mário Vargas Llosa, que “Há uma cultura da banalização. Tudo é banal, tudo está sujeito ao consumo (…) Não quero ser apocalíptico, mas o espectáculo tomou o lugar da cultura.”

Mas para o Nobel da Literatura deste ano, o húngaro László Kraznahorkai, não há crise da literatura: “Nunca senti que a literatura esteja em crise, sempre senti que nós estamos em crise.”

Em suma, já não há gigantes, mas como poderia haver numa cultura de massas em acentuado agravamento?


NUREMBERGA

António Mesquita




Esta é mais uma variação sobre os julgamentos de Nuremberga. A  de Stanley Kramer (1961) era, contudo, com nomes fictícios e não houve condenações à morte. Foi um momento crucial da Guerra Fria e os americanos não quiseram deixar uma Alemanha sem apelo nem agravo. 

Depois da famosa e polémica interpretação de Hannah Arendt do caso Eichman, julgado em Israel no ano do filme de Kramer,  e se a aplicarmos a Nuremberga, procuraremos, com sucesso garantido, no grupo dos acusados a normalidade e o humano, demasiado humano.

Göring (um Russell Crowe deformado e impressionante) é a figura central deste drama. Douglas Kelly (Rami Malik), o psiquiatra destacado pelo exército americano  não se poupa na tentativa de procurar compreender o dirigente nazi.  Ao ponto de visitar a mulher e a filha do Reichsmarschall e de se mostrar empático para lá do que era esperado. Para o final, a sua zanga com o colega que o vai substituir revela um desequilíbrio que não surpreende. Se Göring, para escapar  à forca, recorre à pastilha de cianeto, o seu psiquiatra há-de suicidar-se da mesma maneira. O que quer isto dizer? Que o médico se identificou, de algum modo, com o seu "doente", ou que o contacto com o "monstro" o alterou definitivamente?

A fraqueza dos restantes acusados, desde o choro e o mijo de Streicher,  à amnésia de Hess e ao suicídio de Ley, parece não atingir o número dois que mantém a fábula de que desconhecia a real função dos läger. Nem o procurador americano Robert Jackson (Michael Shannon), com as suas hesitações, consegue demolir a sua defesa. É o delegado britânico que, no julgamento, consegue fazer a pergunta crucial: se Hitler fosse vivo ainda o seguiria? Göring não podia dizer que não sem pôr em causa a sua imagem de líder nazi e a superioridade com que se confortava.

No momento da sentença, Göring continua a ser o único a envergar a farda do seu posto militar, numa excepção difícil de compreender, mas, pela primeira vez aparece de óculos escuros. Deixara de apresentar a sua imperturbável máscara de detentor da razão histórica e a certeza de que o futuro lhe haveria de fazer justiça.

O filme de James Vanderbilt  coloca-nos algumas questões interessantes. Os juízes americanos insistiram no acompanhamento psiquiátrico dos prisioneiros nazis, sobretudo Göring, para compreenderem a sua mente e anteciparem os seus argumentos, com vista a um desfecho do processo conforme a ideia de justiça dos vencedores e não para saberem se eles estavam em condições psicológicas para aguentarem a prova.  Em certo momento da acção,  quando o juiz Jackson se confunde perante a sobranceria e a convicção de Göring e nós chegamos a pensar que, por hipótese absurda, os réus seriam ilibados por provas insuficientes, outra questão mais pertinente ainda se nos coloca: o julgamento dos crimes nazis, em Nuremberga, poderia ilibar os  dirigentes do regime? Então, o que foi esse tribunal senão uma fachada de justiça para apaziguar os pruridos moralistas dos Americanos? A condenação 'tout court' seria compreendida por todos, mas decerto modo era uma prerrogativa da força vencedora. E era isso que não se podia aceitar porque punha esta ao nível da força vencida.

Göring, a certa altura do seu depoimento, compara a "solução final"  como consequência da política e da guerra, ao bombardeamento de Hiroshima e Nagazaki que teve outras proporções,  mas muito menos "escandalosas". Dois pesos, duas medidas?

O filme, se mais não fosse, tem o mérito de renovar a leitura dos acontecimentos inquietando, a justo título, a acomodação histórica a que nos habituamos.

Hannah Arendt empregou pela primeira vez a expressão "banalidade do mal", o que pareceu, na altura, uma desvalorização do crime. A verdade é que todos os dias assistimos a essa banalização que é muito pior do que a ignorância.

POESIA

Helena Serôdio




Outra vez...
Outra vez o sono
A submergir o homem,
Outra vez a noite
A prolongar o dia,
Outra vez a canção
Morta nos lábios,
Outra vez o declinar do brilho
Envolto na névoa,
Outra vez a sede
Na fonte já seca.
Sempre...outra vez !!!


           ..............



Na clareira de um bosque,
Finas areias doiradas
Deslizando por entre os dedos.
É tornar perto a distância,
Converter um eco em presença,
Corporizar um sonho,
Condensar num momento
A existência.
É ter-te ao meu alcance,
Em cada instante que passa
E não te poder tocar,
Como se fosses silêncio
Que a um gesto meu,
Ou palavra,
Se pudesse quebrar....


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