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01/07/07

A HISTÓRIA, SEMPRE A HISTÓRIA


Arte da Mesopotâmia

Quantas vezes é bom que para uma melhor reflexão sejamos capazes de parar um pouco, saibamos deter a marcha dos nossos passos e, olhemos, mesmo que por um breve instante, em redor, contemplemos o que nos oferece no horizonte e deixemos que a memória absorva tudo aquilo que os olhos vêem.

Há ocasiões em que faço exercícios de reflexão. Abro o atlas e percorro o mundo, interrogando espaços e gentes, viajo no tempo e tento perceber as mudanças. Seduz-me descer a cordilheira andina até Santiago e viajar de seguida, tomando o comboio para Temuco, a cidade de Neruda, o poeta.

Porém, ultimamente, tenho retido a atenção nessa região devastada do Médio Oriente e, pensativo, sigo o curso do Tigre e do Eufrates, terra de Caldeus e Assírios, da Babilónia, de civilizações excepcionais, quando o Homem iniciou a sua caminhada fantástica pela História. “A história começa na Suméria”, assim titulou a sua obra Samuel Noah Kramer e, começou mesmo. Ali se ergueu um dos berços civilizacionais de maior relevância e de mais alta referência para a humanidade. Por ali passaram, o macedónio Alexandre, o persa Xerxes e toda uma plêiade de homens que a história registou de forma particular.

Território de civilizações, de travessias guerreiras, de batalhas extraordinárias que chegaram até este século XXI que se pensava mais humano, mais generoso, mais equilibrado. Bastou a chegada de um homúnculo desequilibrado e insensato ao poder, para que o espaço entre os dois rios voltasse a ser terra de sangue numa girândola de violência sem precedentes. Os homens, sobretudo os que ocupam os corredores do poder, teimam em não olhar para o passado, como forma de interpretar e compreender o presente antes de agirem, em nome dos seus interesses e dos senhores da guerra que lhes pagam, teimam em não olhar para as sucessivas lições que constam dos manuais de história.

Escreveu March Bloch que “a ignorância do passado não se limita a prejudicar o conhecimento do presente; compromete no presente, a própria acção.”(1). Mas por razões só perceptíveis na ganância e estupidez, as reflexões dos homens cuja sensatez resultou, não só da sua formação humana, mas também da experiência adquirida no exercício da sua profissão de estudar e interrogar o passado, são deixadas pelo caminho, relegadas para estantes esquecidas em quartos de arrumos e, tomando-se por donos do universo, assumem decisões consoantes os interesses dos grupos que lhes subsidiam a vida, esquecendo a pergunta do grande historiador francês já citado, “não é verdade que para agir avisadamente é necessário, primeiro, compreender?”(2) É, na verdade, é assim mesmo e esta verdade deve ser martelada mil vezes nas cabeças dos senhores da guerra que hoje detêm nas mãos os destinos da Humanidade.

Um dia, ao chegar a Estocolmo acompanhado de Bloch, Henri Pirenne, um outro historiador, disse, “«Se eu fosse um antiquário, só teria olhos para as coisas velhas. Mas sou um historiador. É por isso que amo a vida»”(3). Pese embora, os meus desejos, não sou historiador, mas amo a vida, pelo que quando olho através do mapa para as areias do deserto entre o Tigre e o Eufrates e vejo blindados de morte semeando destruição em doses maciças, a voz que chama para a oração da manhã interrompida por bombas que arrasam os minaretes das mesquitas, soldados tontos sem destino e sem rumo vagueando em cenários tumulares, interrogo-me, pergunto a mim próprio, até quando? e, regressando à primeira frase do manual onde Bloch procurou definir história para, como a criança que ali surge interrogativa, perguntar também “«Pai, diga-me lá para que serve a história.»”?(4).

Alcino Silva

(1) – “Introdução à História”, March Bloch, pág. 40, publicações Europa-América, 4ª edição,

(2) – ob. cit., pág. 17

(3) – ob. cit., pág. 43

(4) – ob. cit., pág. 11

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1 comentário:

Erica disse...

E acabamos por sempre nos perguntar "para que ela serve"..

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