Marques da Silva
Mafra. Olho para o postal que te escrevo e sinto falta de palavras, espaços em branco que não consigo preencher. As emoções retiram ao pensamento a capacidade de raciocínio, de tentar compreender a diferença entre a realidade desejada e aquela que observo e sinto no pulsar do planeta. A pena não corre, tolhida pelo estupor das notícias que lemos e ouvimos e, assim crescem os espaços onde deviam estar letras formando palavras e frases. É possível que já viesse embebido dessa turbulência nas ideias quando a composição ferroviária demorou a chegar à estação. O seu movimento transmitia-nos a sensação de ter tempo demasiado como se os horários não existissem. Saí com os olhos embargados de luminosidade como se alguém tivesse ligado uma luz na escuridão universal e me cegasse momentaneamente. Demorei a acordar e criei em mim a ideia que já conhecia a Malveira, mas tudo quanto os meus olhos viam, era novidade. Ainda subi e desci, fui de Oeste para Leste, mas foi inútil, nunca tinha pisado aquela terra. Foi só ao atravessar S. Miguel de Alcainça que um clarão de luz vitralino me estimulou a memória. É verdade que tinha atravessado a Malveira mais do que uma vez, mas era a Malveira da Serra e estas Malveiras não são o mesmo espaço urbano. Pelo menos, espevitou um pouco de alegria na marcha triste que me levava para o Palácio Nacional. Sento-me voltado para a imponente fachada enquanto te escrevo. É mais um símbolo de poder e riqueza. Sim, naturalmente que sim, a biblioteca, os jardins, o claustro, a igreja basilical, merecem ser visitados, nesse tempo em que deixamos o olhar à vontade percorrendo cada recanto, apreciando e glosando cada bocado de arte, mas continua a ser um símbolo de poder imperial que se ergueu como afirmação disso mesmo. O ouro do Brasil transformado nessa arte barroca a que o meu olhar não consegue habituar-se. D. João V, fez erguer tudo isso para evidenciar o seu poder absoluto e tentar integrar-se nesse despotismo que grassava pelos impérios coloniais europeus. Punha-se em bicos de pés para que o vissem. Fomos sempre assim, quando o dinheiro jorrou desses tesouros coloniais, comportamo-nos como se o mundo acabasse amanhã e esbanjamos a riqueza numa roleta. Só por acaso, deixamos estas pedras que falam desses dias de loucura endinheirada. Aqui tudo são números grandiosos, nas paredes, nas janelas, nos torreões, nos carrilhões nas obras bibliotecadas. É tudo ouro que reluz. No século seguinte, a elite real em cruzador fugidio abandona o reino, deixando o terreno livre para a ocupação estrangeira. Nada de novo na história pátria. Afastei os passos para o silêncio e sossego da Tapada, mas se escapei aos tremores da nossa nobreza, caíram-me de frente os furacões do mundo. Acreditamos sempre na evolução da espécie humana, mas esquecemos que até as cordilheiras têm obscuros e profundos vales, gargantas estreitas, onde se podem juntar todos os perigos que nascem na perfídia mental da escumalha que engoliu o poder dos Estados. Já não é apenas a avareza, a ganância, a luxúria desvairada de um colectivo epsteiniano, é uma quadrilha monstruosa que se masturba bombardeando os povos no declinar imperial. Os judeus do chamado Estado de Israel alcançam orgasmos bíblicos em cada bombardeamento que dizima bairros residenciais, perseguindo o aniquilamento de civilizações milenares, e o homem laranja, com a extraordinária capacidade de dizer uma coisa e o seu contrário numa frase de quatro palavras, incapaz de conhecer a realidade que o envolve coloca o poder militar do império que desvanece numa espiral sangrenta e irremediável. Os Persas resistem com dignidade e só essa resistência é uma vitória sobre a barbárie. A investigadora Moudhy Al-Rashid fala-nos da Mesopotâmia em termos de aviso: “Um poema sumério, conhecido como ‘Lamento pela Suméria e por Ur’, escrito muito antes do abandono final da cidade na sequência de uma derrota militar durante os últimos dias da Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2000 antes da nossa era (…). O poema descreve um cataclismo tão terrível que até os mortos varreu para longe, com cadáveres a flutuar no Eufrates. «Os tempos escuros arderam em granizo e chamas», lê-se numa secção, «os tempos brilhantes foram apagados por uma sombra». Verso atrás de verso descrevem a mais completa devastação e mortandade com todas as metáforas possíveis.” O império está a deslizar para a morte, pode ainda arrasar cidades como em Ur, mas este escorregar contínuo na pedra nua, terminará no pântano enlameado da tumescência humana. Observo de novo a imponência do edifício, conto o número de janelas como se contasse os séculos percorridos pela Humanidade. Adquirimos muito conhecimento, sabemos imenso do nosso passado, mas cada geração insiste em parir o gérmen da maldade que se prolonga nas cadeiras sujas do poder e da luxúria e mata sem pudor quando lhe retiram o lugar onde vomita o manjar que sofregamente rouba. O postal segue hoje, enquanto embarco em novo comboio.
Sem comentários:
Enviar um comentário