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01/04/26

CINEMA

António Mesquita





O ESTRANGEIRO
(Filme de François Ozon de 2025)






"Como se esta grande cólera me tivesse purgado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraterno, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, só me faltava desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que eles me acolhessem com gritos de ódio."
              (Albert Camus, "O Estrangeiro")



É assim que termina o célebre romance de Camus, no tom apaziguado e acima das querelas desse e de qualquer tempo, dum filósofo mais budista do que europeu, e como a tese é a do absurdo, nos antípodas duma explicação do homem pelo contexto.

É precisamente no final que o filme de François Ozon diverge do texto camusiano. No resto, é exemplarmente fiel. Rodado em preto e branco “frappant”, o filme aposta num classicismo retro‑modernista, com um tratamento fotográfico que captura o “calor”, a luz e a secura existencial do texto.

O filme começa com um jornal de actualidades num registo turístico e superficial, seguido de cenas de rua de que uma toada árabe mais grave revela o significado escondido. A ausência de cor funciona maravilhosamente  com a narração depurada. A música é de Fatima Al Qadiri.

A personagem principal, Meursault (Benjamin Voisin), um escriturário francês a trabalhar em Argel, nos anos da ocupação colonial, não pretende defender-se em tribunal por ter assassinado na praia, com alguns tiros, um indígena que não lhe dizia nada - era apenas  o irmão da argelina de quem o seu vizinho Sintès (Pierre Lotin) era o proxeneta.  

Ninguém, no julgamento, magistrados e júri, compreende a sua aparente indiferença, tal como ficaram chocados, antes, na ocasião da morte da mãe - no mesmo dia do funeral, foi capaz de ir à praia e de namoriscar Marie (Rebecca Marder), uma jovem da sua raça, e acabar com ela na cama, depois duma comédia de Fernandel, num cinema local.

Meursault alega, como única defesa, que o outro puxou duma navalha e o brilho do sol na lâmina o perturbou ao ponto de lhe provocar o reflexo assassino.

Apesar de ter recusado a assistência dum padre, na prisão, é visitado por um homem da igreja, apostado em "salvar a sua alma". É aí que o prisioneiro revela, no auge da discussão, os seus verdadeiros motivos, circunstância em que, embora ao arrepio da construção da personagem - mas evitando por outto lado, a suspeita de uma doença mental, expõe as ideias mais marcantes do romancista, nascido na Argélia, recorde-se.

Todos os franceses na sala, não fosse a sua atitude, lhe seriam favoráveis, dentro do espírito colonial, mas a sua  apatia, tal como no enterro da progenitora, deitara tudo a perder. Também era de indiferença a sua atitude quanto ao futuro e ao veredicto pendente - nem a própria ideia de uma absolvição, ou de uma curta pena para a seguir se casar com Marie o comoviam. 

A sanção do tribunal, contra todas as expectativas à partida, é a morte por decapitação, "à la française". Quer o sonho da giilhotina, em vez da actualidade da execução, como outras sequências oníricas são magistrais.

O livro não termina com a visita da prostituta argelina à campa do irmão  num promontório, imagina-se, perto da praia em que ocorreu o crime. Só as "más-línguas" atribuem isso a uma concessão do realizador  a interesses da produção ou outros, alheios à história camusiana.

É claro que na situação da colónia, nenhuma justiça era esperada pelos "indígenas'. Se há um vislumbre dela é só porque o  criminoso se excluiu, talvez numa espécie de identificação subliminar com a atmosfera envenenada da cultura ocupante, ao ponto do seu gesto,  aos seus olhos, não ser consciente, mas maquinal, determinado pela situação. Chamar-lhe reflexo do sol não altera nada. Esta interpretação, porém, não é camusiana, como ficamos a saber com a discussão com o prelado.

O sistema judicial neste filme espelha a crítica de Camus à moralidade. Enquanto Meursault é julgado não apenas por seus actos, mas pela sua indiferença e falta de conformidade com as expectativas sociais, a obra de Camus questiona os critérios pelos quais a sociedade define o "crime" e o "pecado". O filme de Ozon mantém esse diálogo crítico, colocando em evidência a hipocrisia das normas sociais.

Vem a propósito uma citação final de Marco Aurélio, na versão de Ernest Renan, se quisermos compreender o texto camusiano.

"A mais perfeita bondade é a que se baseia no tédio perfeito, na certeza  de que tudo neste mundo é frívolo e carece de base real. Nunca existiu culto mais legítimo e hoje em dia continua a ser o nosso."




PILLION




O filme de Harry Lighton, "Pillion", não é a vida — mas o que a arte sempre foi: uma tentativa de lhe apreender um sentido.

Pensei em Pelion, terra dos centauros e nos costumes gregos. Mas é só o lugar atrás do condutor da mota (pellion). Porque é um filme de motoqueiros gay com a particularidade de se organizarem sexualmente como sado-madoquistas.

A paisagem 'motard', com a sua poeira, o ronco metálico e a promessa de liberdade, esconde afinal uma estrutura de dependência e dominação que o realizador não mitiga nem glorifica. A menor tragédia não é a de Ray (Alexander Skarsgård), incapaz de viver fora do seu papel de 'dominus'; é a do mundo que torna esse papel inevitável.

O  inconformismo do 'servus', Colin (Harry Melling) embora genuíno, é absorvido pela estrutura: obtém compensações, perde-as, e repete o ciclo como se a dependência fosse um ritual de iniciação. A comunidade em torno de Ray, unida por um culto pagão de força e dor, vive o erotismo como exorcismo; a ferida é também a marca da pertença. 

As cenas íntimas, filmadas com contenção, não cedem ao escândalo nem ao voyeurisme. No entanto, o olhar do espectador é conduzido a um desconforto mais profundo: o de reconhecer na relação entre Ray e Colin a sombra dos papéis conjugais tradicionais. O sadismo de Ray não é apenas sexual — é uma pedagogia da virilidade, eco de uma cultura em que o poder masculino define a gramática do afecto.

Como coisa pensada, o sexo, não importando a modalidade nem o desvio em relação à 'norma' é problemático. A relação de forças adoptada no sado-masoquismo é vista como uma solução degradante.

O ambiente familiar de Colin é o mais favorável possível à sua homossexualidade e os encontros com Ray são até encorajados. Até à cena em que a mãe de Colin, quando formalmente se conhecem, denuncia o sadismo de Ray.

O argumento é inspirado em "Box Hill" de Adam Mars-Jones e o filme não pretenderá ser, por isso, um retrato da sexualidade gay.


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