Peniche. A Linha do Oeste e a do Norte quase nascem paralelas, nas bandas do Mondego, mas a primeira começa a afastar-se em direcção ao litoral e a segunda ruma ao Vale do Tejo. A infra-estrutura ferroviária pensada e executada há quase cento e cinquenta anos, não contemplou a ligação da costa à lezíria. Compreende-se, era um tempo em que o importante e necessário era a ligação à capital. Do interior ainda não se procuravam as praias. O prazer do areal ainda era propriedade de uma minoria. Mas no presente a ligação existe, mas em alcatrão como os novos donos do território gostam. Evitei as Caldas, não por serem da rainha, mas porque não me cativou a imagem que se desenhou no pensamento. Já Óbidos me deixou na profunda dúvida, pelo seu ar medieval e pela graciosidade do seu casario. Mas já levava Peniche como destino. Entre a estação e a cidade medeia essa distância que não convida a caminhar, mas acabei por alcançar essa espécie de punho rochoso que se enfia na cabeça do mar. Já foi uma ilha e, na verdade continua a sê-lo pela existência de um canal que apenas cento e cinquenta metros de areia da praia da Gamboa permitem a ligação do território. É longa no tempo a presença humana nesta terra de pescadores, mas é o passado próximo que os meus olhos procuram e a memória demanda. É a fortaleza do século XVII, com as suas muralhas de pedra dura que nalgum ponto se aprumam sobre o mar que os meus passos indagam. Ainda trago o silêncio contemplativo das abóbodas de Santa Maria dos cistercienses, mas aqui, neste espaço agora com luz e brancura, o silêncio parece de chumbo. Se paramos na tentativa de interrogar essa ausência de sons, acreditamos ouvir vozes clamando, gritos profundos de sonhos amordaçados, contidos entre gradeamentos de ferro, salas inquisitoriais, predadores armados vociferando, animais humanos procurando rasgar ideias e, lá no fundo, onde a muralha toca o mar, escuta-se o verso de quem viria a escrever História, “sou barco abandonado/na praia ao pé do mar/e os pensamentos/são meninos a brincar”. Mas os barcos nunca estavam abandonados, nem na esperança nem no acreditar na palavra liberdade, “noiva dos rebeldes”, como escreveu o poeta Thiago de Melo. Nestes corredores por onde agora o sol penetra, quantas sombras obscureceram centenas ou milhares de vidas, sonhos interrompidos, vidas suspensas que quando aqui chegavam já tinham passado pelas masmorras da tortura, do asselvajamento daqueles que nunca viriam a ser julgados e menos ainda condenados. Devia este ser um lugar de visita obrigatória para que não se esqueça e para que o nunca mais seja isso mesmo. Os que por aqui deixaram tanto da sua vida, poucos são os que têm o seu nome gravado na toponímia dos lugares, como homenagem ao seu esforço de justiça, mas aquele que aqui chegou na noite da libertação, enviado pelo zarolho para decidir quem era libertado, tem o nome espalhado por qualquer pedra que se encontre desde a remota aldeia até ao aeroporto da nobre e sempre invicta cidade. A liberdade e a democracia nem sempre é grata aos que a defenderam como interesse de vida colectiva. Resta este Museu como memória recordatória e símbolo de dignidade. O postal deixo-o na cidade e regresso a pé para arejar o pensamento e a desolação que levo pela continuidade da maldade humana.
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