António Mesquita
A primeira coisa que se destaca neste filme duma tunisina (Ben Hania) sobre a guerra em Gaza é a centralidade dum episódio que não tem peso nenhum na guerra, nos seus motivos, ou interesses: uma criança palestiniana sobrevive no carro bombardeado em que seguia com a família. Ao longo de horas, pretende-se socorrê-la mas para isso é preciso acordar com os israelitas o livre trânsito duma ambulância na zona ocupada. A autorização acaba por chegar ao fim do dia, mas a luz verde não é respeitada pelas forças no terreno e a viatura é alvejada, matando todos os ocupantes. A menina é entregue à sua sorte.
Casos como este são o mais comum nas várias frentes de guerra. E o que é que se tira daqui senão a confirmação de que o "pior dos males" não depende de que lado estamos, mas nos atinge a todos duma maneira ou doutra?
A luz verde de Telavive não foi obedecida pela própria tropa israelita, levando assim a aparência de perversidade a um novo patamar. Mas as comunicações falham e a informação falha, mesmo quando é do interesse vital dos mandatários, como foi a "surpresa" do 7 de Outubro que deu início a esta ofensiva contra o Hamas. Pelo estreito entrosamento familiar do grupo armado com a população, esta acção surge como uma guerra contra o povo da Palestina. Os judeus, pelo seu lado, têm aqui a sua anti-Shoah.
O cinema, neste caso, não escapa a uma leitura instrumentalizada que pretende fazer da tragédia dum ser indefeso o símbolo de todo um povo.
O espectador europeu, reage, no seu teatro longe da guerra, com a sensibilidade esperada a uma injustiça deste tamanho. E nisso, participa duma audiência, pode-se dizer mundial, numa tragédia-espectáculo que o deixa frustrado, mas o poupa à consciência mais "realista" do que se passa no mundo, às vezes bem perto de casa. O povo americano que vive em tendas no perímetro das grandes cidades não se sente em contradição quando vota num milionário que faz tudo para lhes tornar a vida mais negra. Mas não podemos descartar o problema chamando-lhe masoquismo ou falta de informação.
A doutrina, agora como na Idade Média, explica este voluntariado da desgraça.
A verdade é que não poderíamos viver as nossas vidas, sofrendo ou simplesmente simpatizando com todas as vìtimas das guerras, da violência social, económica ou familiar que existem a todo o momento neste singular planeta. É, pois, uma espécie de privilégio, a somar aos outros mais ou menos certos, este do não-conhecimento.
Há nomes de figuras sinistras para todos os gostos, desde Putin a Netanyahu, para não falar das que fizeram a história do martírio de sempre, que nos permitem, por assim dizer, sintetizar o problema, vencer ilusoriamente, por um tempo, o "Mal" (vai com aspas porque estamos a escamotear a questão do que o que chamamos mal é apenas o que já os Gregos chamavam de Necessidade), seja lá o que isso for.
A julgar pelo passado e, sem dúvida, pelo presente de tantas situações, do que precisamos com toda a urgência, é duma doutrina.
As mulheres muçulmanas, em certas sociedades, são vistas por detrás duma fresta para os olhos. Até a dor tem que passar pela fresta. Esse é bem o exemplo do papel duma doutrina.
E o dogma da Imaculada Conceição, definido por Pio IX há cento e setenta e dois anos, a 8 de Dezembro de 1854. Outra fresta...
Sem comentários:
Enviar um comentário