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01/03/26

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COLONIALISMOS

Manuel Joaquim

(Gungunhana)

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A Illustração Portuguesa, edição semanal do Jornal O Século, nº 124, de 6 de Julho de 1908, Director Carlos Malheiro Dias, noticia que o Capitão João de Almeida tinha regressado há dias a Lisboa, “que além de tantos outros serviços brilhantes prestados em África, comandou, em setembro do anno passado, a campanha contra os Dembos, que constituiu, como não pode estar esquecido, um dos mais gloriosos feitos modernos das armas portuguezas no ultramar, que elle conseguiu cumprir, de um modo notável, apezar dos combates que teve de sustentar e de ferido durante a marcha”

Os povos da região dos Dembos, nordeste de Luanda, Angola, lutavam contra a escravatura e a colonização. A guerra durou entre 1872 e 1919, 47 anos, o que levou à mobilização de milhares de militares portugueses para a guerra. O capitão João de Almeida regressou a Portugal, vítima de guerra. Quantos mais regressaram?

Em Moçambique a luta contra a colonização também durou vários anos, sendo mais conhecidas as campanhas durante finais do século XIX e princípios do século XX. Ainda está na memória de muita gente a figura de Gungunhana, capturado em 28 de Dezembro de 1895 por Mouzinho de Albuquerque com a respectiva família e transferido para Angra do Heroísmo, onde veio a falecer em 23 de Dezembro de 1906. Os seus apetrechos foram objecto de exposições na cidade do Porto e noutros lugares para os alunos das escolas apreciarem o que usava e restava do “inimigo”. Os nacionalistas moçambicanos consideravam-no um Herói Nacional. Os pretensos restos mortais, depois do 25 de Abril, em resultado de negociações entre Portugal e Moçambique foram transferidos para Moçambique.

Estas guerras acentuaram-se em consequência da Conferência de Berlim, de 1884. Os países imperialistas europeus pretendiam dividir entre si todo o continente africano, para obterem matérias-primas e mercados o que, de certo modo, aconteceu.

Contrariamente ao que muita gente pensa, a guerra colonial portuguesa, não se iniciou em 1960/1961. Os povos nunca se conformaram com o colonialismo.

As guerras que aconteceram ao longo dos tempos foram sempre para explorar e roubar. Aquelas a que estamos a assistir têm sempre o mesmo objectivo com os mais diversos pretextos: defesa dos valores democráticos, alcançar espaços vitais, luta contra armas nucleares ou outras, contra o terrorismo, contra o tráfico de drogas, etc., explorar e roubar.

Os portugueses andaram a exibir o Gungunhana. O Trump, de certo modo, andou a exibir o Maduro.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva


Peniche. A Linha do Oeste e a do Norte quase nascem paralelas, nas bandas do Mondego, mas a primeira começa a afastar-se em direcção ao litoral e a segunda ruma ao Vale do Tejo. A infra-estrutura ferroviária pensada e executada há quase cento e cinquenta anos, não contemplou a ligação da costa à lezíria. Compreende-se, era um tempo em que o importante e necessário era a ligação à capital. Do interior ainda não se procuravam as praias. O prazer do areal ainda era propriedade de uma minoria. Mas no presente a ligação existe, mas em alcatrão como os novos donos do território gostam. Evitei as Caldas, não por serem da rainha, mas porque não me cativou a imagem que se desenhou no pensamento. Já Óbidos me deixou na profunda dúvida, pelo seu ar medieval e pela graciosidade do seu casario. Mas já levava Peniche como destino. Entre a estação e a cidade medeia essa distância que não convida a caminhar, mas acabei por alcançar essa espécie de punho rochoso que se enfia na cabeça do mar. Já foi uma ilha e, na verdade continua a sê-lo pela existência de um canal que apenas cento e cinquenta metros de areia da praia da Gamboa permitem a ligação do território. É longa no tempo a presença humana nesta terra de pescadores, mas é o passado próximo que os meus olhos procuram e a memória demanda. É a fortaleza do século XVII, com as suas muralhas de pedra dura que nalgum ponto se aprumam sobre o mar que os meus passos indagam. Ainda trago o silêncio contemplativo das abóbodas de Santa Maria dos cistercienses, mas aqui, neste espaço agora com luz e brancura, o silêncio parece de chumbo. Se paramos na tentativa de interrogar essa ausência de sons, acreditamos ouvir vozes clamando, gritos profundos de sonhos amordaçados, contidos entre gradeamentos de ferro, salas inquisitoriais, predadores armados vociferando, animais humanos procurando rasgar ideias e, lá no fundo, onde a muralha toca o mar, escuta-se o verso de quem viria a escrever História, “sou barco abandonado/na praia ao pé do mar/e os pensamentos/são meninos a brincar”. Mas os barcos nunca estavam abandonados, nem na esperança nem no acreditar na palavra liberdade, “noiva dos rebeldes”, como escreveu o poeta Thiago de Melo. Nestes corredores por onde agora o sol penetra, quantas sombras obscureceram centenas ou milhares de vidas, sonhos interrompidos, vidas suspensas que quando aqui chegavam já tinham passado pelas masmorras da tortura, do asselvajamento daqueles que nunca viriam a ser julgados e menos ainda condenados. Devia este ser um lugar de visita obrigatória para que não se esqueça e para que o nunca mais seja isso mesmo. Os que por aqui deixaram tanto da sua vida, poucos são os que têm o seu nome gravado na toponímia dos lugares, como homenagem ao seu esforço de justiça, mas aquele que aqui chegou na noite da libertação, enviado pelo zarolho para decidir quem era libertado, tem o nome espalhado por qualquer pedra que se encontre desde a remota aldeia até ao aeroporto da nobre e sempre invicta cidade. A liberdade e a democracia nem sempre é grata aos que a defenderam como interesse de vida colectiva. Resta este Museu como memória recordatória e símbolo de dignidade. O postal deixo-o na cidade e regresso a pé para arejar o pensamento e a desolação que levo pela continuidade da maldade humana.    

FRESTAS

António Mesquita



A primeira coisa que se destaca neste filme duma tunisina (Ben Hania) sobre a guerra em Gaza é a centralidade dum episódio que não tem peso nenhum na guerra,  nos seus motivos, ou interesses: uma criança palestiniana sobrevive no carro bombardeado em que seguia com a família. Ao longo de horas, pretende-se socorrê-la mas para isso é preciso acordar com os israelitas o livre trânsito duma ambulância na zona ocupada. A autorização acaba por chegar ao fim do dia, mas a luz verde não é respeitada pelas forças no terreno e a viatura é alvejada, matando todos os ocupantes. A menina é entregue à sua sorte.

Casos como este são o mais comum nas várias frentes de guerra. E o que é que se tira daqui senão a confirmação de que o "pior dos males" não depende de que lado estamos, mas nos atinge a todos duma maneira ou doutra? 
A luz verde de Telavive não foi obedecida pela própria tropa israelita, levando assim a aparência de perversidade a um novo patamar. Mas as comunicações falham e a informação falha, mesmo quando é do interesse vital dos mandatários, como foi a "surpresa" do 7 de Outubro que deu início a esta ofensiva contra o Hamas. Pelo estreito entrosamento familiar do grupo armado com a população, esta acção surge como uma guerra contra o povo da Palestina. Os judeus, pelo seu lado, têm aqui a sua anti-Shoah.

O cinema, neste caso, não escapa a uma leitura instrumentalizada que pretende fazer da tragédia dum ser indefeso o símbolo de todo um povo.
O espectador europeu, reage, no seu teatro longe da guerra,  com a sensibilidade esperada a uma injustiça deste tamanho. E nisso, participa duma audiência, pode-se dizer mundial, numa tragédia-espectáculo que o deixa frustrado, mas o poupa à consciência mais "realista" do que se passa no mundo, às vezes  bem perto de casa. O povo americano que vive em tendas no perímetro das grandes cidades não se sente em contradição quando vota num milionário que faz tudo para lhes tornar a vida mais negra. Mas não podemos descartar o problema chamando-lhe masoquismo ou falta de informação. 

A doutrina, agora como na Idade Média, explica este voluntariado da desgraça.
A verdade é que não poderíamos viver as nossas vidas, sofrendo ou simplesmente simpatizando com todas as vìtimas das guerras, da violência  social, económica ou familiar que existem a todo o momento neste singular planeta. É, pois, uma espécie de privilégio, a somar aos outros mais ou menos certos, este do não-conhecimento.

Há nomes de figuras sinistras para todos os gostos, desde Putin a Netanyahu, para não falar das que fizeram a história do martírio de sempre, que nos permitem, por assim dizer,  sintetizar  o problema, vencer ilusoriamente,  por um tempo, o "Mal" (vai com aspas porque estamos a escamotear a questão do que o que chamamos mal é apenas o que já os Gregos chamavam de Necessidade), seja lá o que isso for.
A julgar pelo passado e, sem dúvida, pelo presente de tantas situações, do que precisamos com toda a urgência, é duma doutrina. 

As mulheres muçulmanas, em certas sociedades, são vistas por detrás duma fresta para os olhos. Até a dor tem que passar pela fresta. Esse é bem o exemplo do papel duma doutrina.

E o dogma da Imaculada Conceição, definido por Pio IX há cento e setenta e dois anos, a 8 de Dezembro de 1854. Outra fresta...

PENSAMENTOS SORTIDOS

Mário Martins



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Uma frase política muito em moda, que o presidente da república eleito não deixou de dizer no seu voluntarioso discurso de vitória, é “que ninguém fique para trás”. Trata-se de um floreado do jargão político, no melhor dos casos bem-intencionado, mas que a história humana não autoriza.

A pobreza, que o senador americano Robert Kennedy, antes de sucumbir à lei da bala, considerava ser uma falha moral, aparenta estar para durar; as eufemísticas “assimetrias” grassam por esse mundo fora, numa escala talvez sem precedentes, mas, no essencial, em linha com o passado.

Não falta justificação para a revolução social. Contudo, as conexões intrincadas e dependentes do mundo actual impossibilitam, praticamente, a sua realização num só país, e o conceito de “revolução mundial” pertence ao passado.

A revolução social produz(iu) a chamada “legitimidade revolucionária”, e esta o poder indefinidamente prolongado, sem liberdade e audição regular dos cidadãos, porque os seus dirigentes “sabem” o que o povo quer.

Sempre houve e haverá revoltas populares, mais ou menos inorgânicas. A dos “coletes amarelos” acossou o governo francês, terá conseguido a satisfação de algumas reivindicações, mas o “sistema” não foi posto em causa nem para tal havia ou há alternativa.

Paradoxalmente, o inebriante progresso tecnológico é uma linha paralela que, como tal, não intersecta a paralela da pobreza e injustiça, apesar de moldar o modo de vida.

O humano é demasiadamente complexo para caber numa “lei”. Em carta ao poeta Eugénio de Andrade, Agustina escreveu que “A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses”. Eis um modo de dizer que o mistério da existência (que povoámos com deuses) nos é inacessível, apesar do esforço filosófico, científico, poético, literário, ou da “revelação” mítico-religiosa.

O mundo está (novamente) louco, e a precisar de se deitar no divã da             psicanálise. Mas a cura não está à vista. Caberá aos jovens, de hoje e de amanhã, encontrá-la.

POESIA

Helena Serôdio





 


OLHA MAIS ACIMA


Não te queixes da sorte, meu amor
Na verdade, ela às vezes é cruel...
Ainda assim, seja mesmo como for,
Suporta do destino todo o fel.
O desespero aumenta nossa dor...
Dirige com coragem teu batel,
Nem sempre tem o céu a mesma cor
E nem tudo na vida é sempre mel.
Crê mais em Deus! Tem fé! Tem esperança...
Pois tudo é passageiro neste mundo
E após o temporal vem a bonança.
E não esqueças nunca essa verdade.
O nosso amor é por demais profundo,
Só cabe mesmo numa eternidade!..



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