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01/04/16

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA


Mário Martins
https://www.google.pt/search?q=a+sagração+da+primavera&tbm=


Como no início da obra-prima de Stravinsky, o reino vegetal desperta lentamente ao som melodioso do fagote, os campos tingem-se de verde, as andorinhas regressam aos seus beirais, tudo parece cumprir o ciclo natural, quando, de repente – acção! – bum!, bum!, bum!, bum!, bum!, bum!, bum!, bum! bum!, o som violento das cordas não consegue abafar o estrondo medonho das bombas, no instante anterior os mortos eram vivos com horários, tarefas, relações e sonhos, agora não têm que tratar dos estropiados num ambiente de fumo e pânico, nem que identificar, chorar e homenagear os que morreram (outros exultarão), nem que perseguir os autores vivos dos atentados (outros organizarão novos atentados), nem que levantar novas muralhas, nem que fingir que a vida continua como dantes. Insensíveis ao que se passa no topo do reino animal, ao sangue quente das vítimas que mancha o chão da cidade e aos rios de tinta dos analistas, as primeiras flores oferecem os seus cálices de néctar. Triste condição, a humana… 

O ESPELHO INTEIRO

António Mesquita





"O deserto é a única coisa que só pode ser destruída pela construção."

(Boris Vian)


Este deserto é o nada, e é uma abstracção. O construído, como uma cidade abandonada, pode também ser uma espécie de deserto. Mas Vian refere-se a uma cidade viva que só pode matar outra coisa viva que, neste caso, é o deserto real, que nada tem de abstracto. Eis um exemplo do jogo de palavras.

Este jogo pode alimentar uma discussão sem fim. Os defensores de pontos de vista diferentes nunca estarão, de facto, a falar da mesma coisa. 

Edgar Morin ("Le vif du sujet") elaborou uma teoria do sujeito individual que multiplica os efeitos babélicos da linguagem. Segundo ele (na linha de Freud), a unidade do sujeito é um mito. Todos somos duais (ou histéricos: desdobramo-nos num 'ego' e num 'alter ego') e temos múltiplas personalidades, conforme o contexto, os nossos interlocutores e a influência dos nossos 'génios' (o 'daimon' dos Gregos, a que Morin chama 'eloim'). No alto desta estrutura que assenta  no 'Inconsciente' e no 'id' psicanalíticos, temos ainda o Super Ego onde reside o poder do social. Para além disso, ignoramos tudo daquilo a que Morin chama de antropocosmologia, ciência ainda por fundar.

Este indivíduo estilhaçado parece à mercê de inúmeros demónios e potências. Como a rainha da Branca de Neve, precisamos do espelho inteiro que  nos minta completamente.

Eis um outro deserto.




CONCERTO PELA PAZ

Manuel Joaquim
("The Great Dictator")


O Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, no passado dia 18 de Março,  foi pequeno para as pessoas que pretendiam assistir ao  Concerto pela Paz,  organizado pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação,  com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e da Associação das Colectividades de Vila Nova de Gaia. 

A entusiástica participação de todos, mas muito particularmente da juventude, em  esmagadora maioria, através da Academia de Música de Vilar do Paraíso, da Associação Cultural e Musical de Avintes, do Conservatório de Música de Vila Nova de Gaia, da Escola De Música de Perosinho, do Ginasiano Escola de Dança, da Ilha Mágica, Orfeão da Madalena, de Daniel Cunha e Sérgio Garcia, demonstrou que as pessoas são sensíveis aos valores da Paz, da Solidariedade e da Fraternidade. Demonstrou também que a juventude, ao contrário do que alguns dizem,  é responsável, tem  grandes capacidades de trabalho e de organização, sensibilidades  e valores, como demonstrou  através da musica, da dança e do canto. Vila Nova de Gaia está recheada de jovens de grande talento , fruto de  todo um trabalho que tem sido desenvolvido ao longo de anos por pessoas e  instituições locais de grande prestigio nacional e internacional. 

A Ilha Mágica, grupo constituído por quatro pessoas,  divulgou  poesia adequada ao tema da Paz , e leu um texto que me impressionou bastante. Presente na minha memória há muitos anos, mas oportuno nos tempos negros que os povos estão presentemente a viver,  tempos de guerras que se alastram, envolvendo cada vez mais países. 

O texto foi divulgado através do cinema em 1940, no início da 2ª guerra mundial, cujos contornos ainda  eram mal conhecidos. É um grito extraordinariamente inteligente a favor da Paz,  de Charles Chaplin,  no seu filme “O Grande Ditador”  que  permito-me  transcrever:

O DISCURSO FINAL DE “O GRANDE DITADOR” 

 Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa   inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo fora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não  é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há-de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sóis! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia,  unamo-nos.   Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos! 

de Charles Chaplin, no filme The Great Dictator (O Grande Ditador) 1940.


CARTAS DE SANTA MARIA


(Ruínas do Palácio de Cristovão de Moura)

Barca d’Alva, 31 de Março 

Cheguei há três dias e por aqui fiquei neste pequeno lugar que nem aldeia chega a ser. Cerca de 40 casas, duas pequenas ruas, dois cafés e a N221. O resto é uma paisagem avassaladora e o rio. Com o curso sustido cerca de 15 quilómetros a montante, transforma-se em lago quando ladeado de duas margens portuguesas. Dizem que a sua riqueza são os olivais, os vinhedos e as amêndoas. Estas últimas engrandecem a beleza da paisagem nos meses finais do Inverno. No Verão o calor estiola. Em 1887, a linha férrea que sai do Porto para Leste, terminou aqui a construção do seu 200º quilómetro e o lugar passou a constar do mapa. A serenidade e a formosura do espaço mereciam esta paragem, mas também me sentia cansado de tão longa marcha. Vim ao longo da N108. Não trouxe máquina fotográfica, preferi que fossem os olhos a levar tudo que neles coubesse. Só a chuva me reteve um dia ou outro. Permiti-me o luxo de uma dormida no antigo convento de Alpendurada. Os claustros e a paisagem fizeram compensar o custo da estadia. O deslumbramento do Douro no entardecer. Em Ancede procurei o mosteiro de Santo André erguido em couto doado pelo primeiro rei nesse longínquo século XII, esteve na posse dos cónegos regrantes de Santo Agostinho até 1559, ano em que, pasme-se, passou para a jurisdição do mosteiro de S. Domingos de Lisboa. Como tantos edifícios medievais que os séculos foram deteriorando, também este sofreu alterações e acrescentos de outras artes que não a românica inicial. No entanto, as suas pedras seculares prosseguem a sua viagem no tempo, sobranceiras ao rio, voltadas a sul de onde recebem o sol que lhes alimenta a alma. Não podia deixar de parar em Tormes. Visitar a casa do escritor, reviver A Cidade e as Serras, nunca é demais, é quase um dever. Caminhar em silêncio pelas salas, pelos quartos, olhar o horizonte pelas janelas em guilhotina e de pequenos vidros quadrados. Sempre me encantou o terreiro que permite o acesso à casa. Deixei-me ficar largas horas sobre o varandim que se debruça sobre a paisagem. Aregos do outro lado e o curso tranquilo do rio. Aguardei pelo entardecer e afastei a recordação nostálgica de outras visitas anteriores. Permiti que os olhos vadiassem, sem tempo, sem pressa e que guardassem o que lhes apetecesse. A paisagem que nos visita até à Régua, chega a ser esmagadora. O que a história nos diz é que Peso era o lugar que ficava na parte mais elevada e que a Régua, era o espaço ribeirinho. Com a chegada do comboio, cresceu a Régua, o suficiente para se encontrar com o Peso. Atravessei o rio e segui pela N222, nesse troço até ao Pinhão que dizem ser a melhor estrada do mundo. É difícil deixar descansar o olhar face ao deslumbramento da natureza com as montanhas descendo em socalcos. Em Folgosa, voltei a exceder-me e alojei-me no Folgosa do Douro. O preço seria compensado por esse momento extraordinário de ver o amanhecer romper a noite e erguer-se num eflúvio de luminosidade sobre um caudal de rio imobilizado. Na margem contrária, o comboio deslizava, quase perdido no tempo, silencioso como um fantasma. A partir do Pinhão quase abandonei a estrada e segui ao longo da linha férrea. É uma caminhada solitária e encantatória. A mistura de uma via centenária, as montanhas rasgadas pelos canteiros das vinhas, um rio quase irreal na sua sumptuosidade e um silêncio povoado de sons imperceptíveis e longínquos, quase nos arranca do estado real e nos mergulha numa fantasia soberba. Assim cheguei há três dias. No segundo dia desta estadia, subi a Castelo Rodrigo à aldeia erguida como atalaia sobre as terras que se estendem a perder de vista. Sempre me surpreenderam as ruínas do palácio do traidor Cristóvão de Moura. Surpreender não é bem o termo, há um certo fascínio que me atrai. A destruição que sobrou do incêndio, perpetuada no tempo como lembrança da miséria e cupidez humanas. Ao longe, ou sob a iluminação nocturna, parece enfeitiçar-nos, deixa-nos o olhar em pensamento de reflexão. Esmaga pela grandeza e pela decadência. Dizem-me os prospectos turísticos que esta Barca d’Alva se localiza num bonito vale na margem esquerda do Douro, integrada no espaço do Parque Natural do Douro Internacional. Nos passos que por aqui dei em deambulações de olhares e lembranças, veio-me à memória palavras que creio de António Cabral e que a voz de Adriano, pujante e viva nos cantava, “Foi em Barca d’Alva/ quando o sol nascia/ uma ceifeira cantava/cantando vertia/trovas na fronteira/quando o sol nascia (…) Moça tão formosa/ não vi na fronteira/ como uma ceifeira/ que cantava rosa”. Amanhã, aos primeiros alvores do dia, deixo este lugar. Vou atravessar o Águeda pela antiga ponte ferroviária em direcção a Boadilla.

Fernão Vasques*


* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

01/03/16

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CARTA À POESIA






Minha amada poesia, escrevo-te com a intenção de que esta minha carta chegue até ti no dia do teu aniversário. É uma carta de celebração, pois disseram-me que, Celebrar a poesia é sempre cuidar de algo muito especial para a vida humana (1). Mas é também uma carta de saudação e de agradecimento pela tua companhia, pela tua capacidade de saberes escutar, de sempre me ouvires e de, em todas as ocasiões que te procuro, teres uma palavra amiga que ameniza a solidão e alivia a fadiga da tristeza. Tu poesia que pela vida fora me tens acompanhado, lembro ainda a tua chegada nessa infância em que te ouvia dizer, Dorme meu menino a Estrela d’Alva/ já a procurei e não a vi/ se ela não vier de madrugada/ outra que eu souber será para ti (2) e os meus olhos seguiam em viagem pela noite, mas nessa idade ínfima de descoberta do mundo ainda voltaste com as estrelas para me encantar, Quando no silêncio das noites de luar/ via uma estrela pelo céu a correr/ dizia minha mãe de mãos erguidas/que te guie Deus por bem (3). Mas os anos foram passando, poesia, e houve um momento em que nos sentimos nesse crescimento que parecendo moroso e só dele demos conta quando olhamos para trás e compreendemos que a adolescência nos antecipou a chegada a adultos e de nós exigiu uma atenção para a pátria que nos viu nascer e nos reclamou na defesa de valores morais e de uma ética que colidiam com a vontade e a força de um poder bastardo que fazia da escuridão da noite, a amargura dos dias. Foi o tempo de o Meu pensamento/partiu no vento/podem prendê-lo/matá-lo não (4). Que dias esses poesia! Que teríamos feito sem ti nas noites silenciosas em que soltávamos mensagens de coragem pelas ruas. Parecíamos muitos e tão poucos éramos e a cada passo, a cada tentativa de chegar mais longe, víamos, que, Erguem-se muros em volta/ do corpo quando nos damos/ amor semeia a revolta/ que neste instante calamos (5), mas perante as adversidades, lá voltavas tu de novo poesia e trazías-nos as palavras tão limpas de Sophia, que nos projectavam para um novo assalto à fortaleza que lentamente ia apodrecendo, Porque os outros se mascaram mas tu não/ porque os outros usam a virtude/ para comprar o que não tem perdão/ porque os outros têm medo mas tu não (6). Tudo vibrava então em nosso redor, como se mil carros de combate nos acompanhassem e regressávamos ao assalto do alcáçar, troando à nossa volta a artilharia poética de Urbano, Já estreme a tirania/ já o sol amanheceu/ mil olhos tem o dragão/ há chamas de oiro no céu (7) e no fragor da batalha, surgia-nos Torga incentivando para que resistíssemos dizendo que, A honra era lutar sem esperança de vencer (8). E lutamos querida poesia, um dia atrás do outro, mesmo que somassem meses, e a cada um que soçobrava, outro logo se erguia como os Imortais de Dario e quando de forma melíflua e insidiosa, nos tentavam vencer procurando fazer-nos desistir, logo nos surgia do chão a poesia de Vinícius com o seu operário em construção, Portanto, tudo o que vês [dizia sussurrante o patrão ao operário]/ será teu se me adorares/ e, ainda mais, se abandonares/ o que te faz dizer não.(…) e o operário disse: Não! (9). Nesses dias em que os olhares se escondiam e os sonhos eram perseguidos, sem ti, estimada poesia, não teríamos conseguido alcançar essa galáxia distante onde mora a utopia. Até que por fim, Sophia pôde escrever as palavras que há tanto tempo ansiava quando aquele dia se levantou mais cedo e se podia ver que, Esta é a madrugada que eu esperava/ o dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio/ e livres habitamos a substância do tempo (6). Tu sabes poesia o quanto amamos o sabor da liberdade e como sempre nos acompanhaste no cantar da nova festa. Mas esse foi também o tempo das paixões que foram chegando, e a cada uma que nascia, um sorriso se acrescentava ao vento e nesses dias de fulgor, foi Neruda que me acompanhou com a sua paixão por Albertina que se assemelhava às minhas, Em ti os rios cantam e a alma foge-me neles, Nos teus olhos lutavam as folhas do crepúsculo, Na minha terra deserta és a última rosa, Brincas todos os dias com a luz do universo (10). E assim foram caminhando os meus anos, mas apesar da tua ajuda constante, do conforto do teu auxílio, da tua presença sem abandono, tudo foi acabando nesse triste lamento de, Tanta paixão de pranto agarrada ao meu corpo (10) e terminei Abandonado como os cais na madrugada (10) nessa Canção Desesperada do poeta. Prosseguiu, entretanto, a vida nesse acumular do tempo e sem dar conta de mim tinha crescido e nesse crescimento que amadurece, surgiram os amigos. Sim esses que são, Maior que o pensamento (2). Chegaram um a um ao longo da vida, e ficaram, pois são amigos que não se podem perder, são dessas pessoas que marcam a nossa vida para sempre e sem elas nada mais seria igual. Como nos deixou escrito Eugénio, Somos amigos, somos vivos (11), dependemos da sua existência para viver. Não posso detalhar os pormenores da nossa amizade, poesia, ou pelo menos, todos esses instantes em que amparaste, me indicaste caminhos, me mostraste a outra face da lua, mas lembro como se fosse hoje, quando me disseste para saber esperar, para aguardar com paciência, a pessoa que há tanto desejava, que fosse observando na berma da estrada que um dia, mesmo que longínquo, haveria de a ver aproximar-se. Como, se não sei quem é?, perguntei-te, lembras-te? e respondeste que quando chegasse, logo saberia reconhecê-la. E assim foi, esperei na tua companhia, os anos foram passando e um dia quando parecia que já nada poderia ocorrer, chegou. Serenamente, sem pressa, como se toda a vida tivesse estado presente. Reconheci-a pelo olhar porque quando me mirava esquecia tudo (12), mas também pelo sorriso, pelo extraordinário sorriso. O sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz/lá dentro (11). Tudo parou nesse dia, o calendário recomeçou a contagem dos dias, o sol passou a nascer a norte, o mar pintou-se todo de azul e as montanhas escorregaram sossegadas para os vales, os vulcões recolheram ao centro da terra. Quanta diferença senti a partir de então à minha volta e tive de reformular todas as perguntas, renasci noutra terra, voguei pelo espaço como um satélite de Saturno. Quando consegui falar, soletrei apenas as palavras da canção da Marisa, Ainda bem que você chegou/ você que me faz feliz/ você que me faz cantar (13). Quantas árvores floriram naquela Primavera não cheguei a saber, lembro apenas que na esteira do tempo, Durou muitos anos aquele Verão e que brotou água onde tudo era secura (11). Só tu, poesia, sabes como sonhei nesses tempos desvairados, perante essa rainha que surgiu do nada e estendeu para mim os seus braços como ramos de uma árvore e encheu a minha alma de folhas verdejantes. À noite saía pelo universo e lembrava o poema dos Aqua Viva, de quien es ese caballo que va en el aire, galopando? (14) e quando o cansaço me vencia, adormecia suspenso numa praia à beira-mar mas, O rumor da sua voz entra-me pelo sono (11). Acordava nos braços do [seu] olhar (11) e lançava apelos incompreensíveis às gaivotas, perguntando, A quem falas quando iluminas de uma luz tão quente cada palavra (11). Sem bússola, sem rota, percorrendo os mares em semi-círculo, fui escrevendo nas areias de todas as ilhas de mares nunca antes navegados, Para ti, meu amor, é cada sonho/ de todas as palavras que escrever,/ cada imagem de luz e de futuro,/ cada dia dos dias que viver (15) e em cada farol de todas as falésias, o seu olhar lançava nuvens de luz coroadas de estrelas e nele se naufragou a minha invencível armada filipina, e nele ficaram meus carros de combate destroçados (16). Quando os meus rios corriam soltos para o mar e em largo delta se abriam, num abraço de infinito ardor, e o oceano flutuava com um papagaio solto ao vento, os caminhos pareceram abrir-se em largo deserto de areia solta, sem horizonte e os pontos cardeais desfocados. Soltaram-se os meus galeões e o cabo Adamastor adquiriu vida, atirando-lhes a rota para o alto mar, sem terra à vista, sem vento, apenas o silêncio, um intenso e profundo silêncio. A Helena Vasconcelos passa por mim apressada e solta a voz no ar dizendo que, A vida acontece sempre de maneira diferente e os sinais que julgamos que nos são destinados afinal dirigem-se a outra pessoa (17). Quando procurava na paisagem os restos do meu sonho, a espantosa doçura dessa rainha que chegou da longínqua terra egípcia para me acolher, encontro o Júlio Machado Vaz que me diz que, Ela já tinha ido embora antes de partir (18). Desembarquei, percorri os caminhos solitários da ilha e instalei-me na única casa habitável. Aí me visitou num dia longínquo, Mónica Baldaque que com a melancolia da sua voz me explicou que, Quando uma história entre duas pessoas se esgota, sabe bem a companhia da solidão, a poesia de cada dia que passa (19). Tell-el-Amarna já não existe. No silêncio das suas avenidas sumidas na poeira do tempo, escuto ainda como um rumor melodioso, o intenso aroma dessa rainha que nos deixou para viver noutro oásis, certamente mais luxuriante e perfeito do que havia nestes palácios agora em ruínas. Todas as manhãs, quando a madrugada anuncia o dia e a nascente se percebe o crescer da estrela brilhante que foi o seu deus, com todo o fulgor do seu vermelho rio de amarelo, limpo pacientemente as partes visíveis dos pilares que erguiam o esplendor das construções que sentiam a leveza dos seus passos e escrevo em letra desenhada para ficar gravado para todo o sempre, Transpondo os versos vieste à minha vida/ e um rio abriu-se onde era areia e dor./ Porque chegaste à hora prometida/ aqui te deixo tudo, meu amor (15). A vida é agora uma estrada em linha recta que atravessa um deserto e se dirige para um ponto no horizonte que os meus olhos cansados já não distinguem se perto ou longe. Voltou o silêncio, o qual me ensinou o poeta angolano Manuel Rui, é uma forma de falar comigo, e O silêncio está em flor/ como uma macieira branca sob a lua (20). É verdade que Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho [ainda] em mim todos os sonhos do mundo (21) e por isso A espantosa realidade das cousas [continua a ser] a minha descoberta de todos os dias (21). O mar continua ao longe na sua incansável viagem de ir e voltar e quando deixo que os meus olhos se percam no azul infinito das suas águas escuto a memória dizer, Se viesses ver-me hoje à tardinha, /a essa hora dos mágicos cansaços (16). Caminho e procuro na natureza o roteiro para uma nova utopia. Ao meu lado, tu minha estimada amiga poesia, tu que pudeste responder à pergunta de Neruda, sobre para onde vão as lágrimas que não choramos? (10), vais conversando, abrindo o livro das tuas palavras e escutando as minhas interrogações. Sigo os teus conselhos e concluo que pode haver algo mais em mim para além do nome que me identifica, Hebraico-mourisco, meu nome,/ não sei o que quer dizer./ Sei que não matas a fome/ a quem me quer conhecer./ Quem me quiser conhecer/ tem que descer mais ao fundo/ do que o nome lhe disser;/ por trás do nome, há um mundo. /Quem quiser é só descer (22). Minha amada poesia, tenho de encerrar esta carta e na despedida por hoje, deixo-te apenas o pedido que o Manuel António Pina te fez para mim, Protege-me com ele, com o teu olhar,/ dos demónios da noite e das aflições do dia,/ fala em voz alta, não deixes que adormeça,/ afasta de mim o pecado da infelicidade (23). Com um abraço eterno,

Afonso Vaz
(1) – Guilherme D’Oliveira Martins
(2) – José Afonso
(3) – Adriano Correia de Oliveira
(4) – Manuel Alegre
(5) – António Ferreira Guedes
(6) – Sophia de Mello Breyner Andersen
(7) – Urbano Tavares Rodrigues
(8) – Miguel Torga
(9) – Vinícius de Morais
(10) – Pablo Neruda
(11) – Eugénio de Andrade
(12) – Francisco Duarte Mangas em Jacarandá
(13) – Marisa Monte
(14) – Aqua Viva (?)
(15) – Carlos de Oliveira
(16) – Florbela Espanca
(17) – Helena Vasconcelos
(18) – Júlio Machado Vaz em À Beira-Rio
(19) – Mónica Baldaque em A Raiz vermelha do amor
(20) – Pierre Emmanuel
(21) – Álvaro de Campos
(22) – David Mourão Ferreira
(23) – Manuel António Pina






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