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01/12/10

O SISTEMA E OS MONSTROS QUE GERA

Mário Faria
Goya:Capricho 43: "El sueño de la razon produce monstruos"




A joint venture entre o FMI e o BCE favoreceu o  “terrorismo financeiro”  que caiu sobre alguns  países (da periferia) da Europa. O ADN do capital  não contempla  a regulação e o estado social. Nesses (breves) momentos em que os aceitou como parceiros, adaptou-se com facilidade. O capitalismo opera como os camaleões. Mestre na camuflagem, espera pacientemente pelas presas que  aniquila sem piedade. 

Essa “fragilidade” que  criou a  “necessidade”  do capitalismo apresentar-se de forma light  e menos indigesta.  Foi sol de pouca dura. Deu alguns passos  atrás, esperou, criou as bolhas e os produtos tóxicos que infectaram mortalmente muitas economias,  e hoje, apresenta-se como vítima do monstro que criou e algoz dos que não resistiram  a tanta malvadez. 

O Sócrates dá jeito (e pôs-se a jeito) e serve para escamotear essa evidência. O que se trata,  neste momento,  é que os trabalhadores  estão absolutamente indefesos,  face à globalização e à explosão do modelo capitalista  na China  que veio mudar o equilíbrio de forças e “subverter” as regras da concorrência, numa Europa demasiado dividida e  dominada pelo capital financeiro.  O capitalismo sofre de doença crónica, a UE vai a caminho da implosão e o Euro é uma moeda a caminho da extinção.

O Estado Social vai ser posto em causa e os trabalhadores vão pagar a factura. Conformismo ou luta ? O capitalismo só cede perante a concorrência de uma alternativa credível ou pela luta. O futuro é  incerto e pode degenerar em violência.  A violência gera violência, e os detentores do capital não têm feito outra coisa senão apelar a esse instinto de guerrilha (e de vingança)  que quase apenas sobra para combater os que ofendem, humilham e nos reduzem a meros servidores e nos suportam (apenas)  na qualidade de consumidores. 

“ O verdadeiro protagonista do actual palco da grande política é hoje, como se sabe, esse (cada vez mais) antagonista do político que dá pelo nome de grande agente económico financeiro. Contrariamente aos príncipes de hoje, que só têm vontade, mas não saber do mundo, o intriguista é o “senhor das significações” e o verdadeiro contra-regra no palco do mundo. O intriguista de hoje trabalha com números, taxas, índices, operações de bolsa o que não deixa de ter as suas vantagens, já que o “saber do mundo” passa hoje essencialmente por aí. Por isso, enquanto o intriguista de outrora levava  três actos, ou investia anos de vida para alcançar os seus objectivos, os de hoje passam a perna ao parceiro em dois tempos. E esse parceiro é muitas vezes o “homo politicus”.

O sistema constrói as ruínas do futuro : tudo o que toca se transforma, não em ouro, mas em sucata. É isso o progresso que só conhece uma direcção. Tal como as vanguardas preparam inexoravelmente a sua condição de retaguardas,  também o progresso, com as suas novas vestes, deixa atrás de si um campo de ruínas e avança em direcção à sua própria implosão. Nós, apesar de tudo ainda animais de memória, só tarde de mais lhe conheceremos os efeitos. Alguns, em vão, tentarão fugir, mas o sistema continuará a gerar os seus monstros. ”. (João Barrento)


01/11/10

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O CULTO DE PESSOA

António Mesquita
"O Filme do Desassossego" (2010, João Botelho)



A estreia de um filme inspirado na obra de Pessoa ( “O Filme do Desassossego” de João Botelho) é o pretexto para uma reflexão intempestiva.

Prescindo, deliberadamente, da crítica de cinema porque o que está em causa é a recepção, junto do público, das ideias de um poeta, considerado, por muitos, talvez o maior depois de Camões. O filme, apresentando essas ideias fora do seu contexto poético, ilustra aliás o seu anacronismo e até  como o grão de loucura que nos salvaria de ser o “animal saudável que procria” se pode tornar em Bernardo Soares na praia em que o grão que salva é desta vez a razão.

Parece estranha esta benevolência do público perante um génio que tanto parece desprezar os seus valores, sejam eles morais ou políticos. É pouco dizer que Pessoa é "reaccionário", se a palavra tem ainda algum sentido, niilista e associal, pois é, para além de tudo, abúlico, como o seria um doente mental que tivesse perdido todo o contacto com o mundo.

Pessoa é negativo e grande apesar disso? Nenhum poeta talvez tenha pensado tanto em verso branco e a sua inteligência e domínio da língua apanham-nos desprevenidos. Será isto mais do que boa prosa? Não interessa. O ponto é que estas ideias negativas se transformam noutra coisa que seria a “essência do poético”, independente das palavras e do que para todos nós querem dizer.

Parece, pois, existir um pacto entre o leitor “informado” (pela “cultura” ou pelo ministério desta?) e o dono do célebre baú.

Pergunto-me se o que nos arrebata na obra deste poeta não serão os seus brilhantes paradoxos do género do “poeta fingidor” ou a sua rebeldia doutrinária contra o mundo. Tal é a força das instituições que o lugar de Pessoa não pode ser já disputado nem por poeta maior do que ele. Some-se a isto a invenção dos heterónimos e temos a "prova" maior do génio: a da originalidade, ainda que as máscaras não sejam um atributo poético. 

O melhor teste, porém, é perguntarmo-nos o que perderia este poeta se a maior parte da sua obra fosse reescrita em prosa. 


MAD MEN E AS PESSOAS DE BEM

Mário Faria
"Mad Men"


Vi  a TV e ouvi as últimas sobre o acordo entre o Governo e o PSD sobre o OGE para 2011. Fiquei a saber que Catroga é uma pessoa de bem e Teixeira dos Santos virou político e perdeu o bom senso inato a um técnico competente, ainda por cima professor catedrático.

Na Quadratura do Círculo que apareceu depois,  ouvi outras três pessoas de bem a falar da mesma coisa : Lobo Xavier acusava energicamente Sócrates, Pacheco Pereira confessava que os dois partidos de governo se tinham afastado dos cidadãos e se esgotaram na luta pelo poder e António Costa,  perante o cenário de calamidade do país que os colegas denunciavam, enfatizava a obra feita pelo governo e lembrava que Portugal não é a Albânia , e muito menos Lisboa é Tirana. O programa acabou com as três pessoas de bem com um ar muito solene e preocupado, que a câmara mostrou com generosidade, e que só as grandes figuras de estado  são capazes de compor, fundamentalmente em situações de profunda crise, de que felizmente estão a salvo.

Foi assim pela noite fora. Tudo gente de bem que sabe do que fala. Aplicam os termos de forma coerente, estão fartos de fazer e ler orçamentos e reclamam pela presença do FMI, porque somos ignorantes, improdutivos e ingovernáveis. Falam com ar sinistro, próprio de quem vai passar mal nos próximos tempos. Silva Lopes estava mais calmo, talvez porque é um dos justamente contemplados com a multi-reforma que só os cérebros puros e reciclados têm direito.

Fartei-me de ouvir o mesmo e os mesmos : vestem igual e repetem até exaustão as mesmas teorias. Falam do tema como os que relatam o futebol e o comentam. Um rapaz moço, veterano na pesquisa financeira,  proclamava que o rompimento das negociações tinha sido um caso absurdo de pequena política. Explicava indignado :  0,1%  do PIB que não vale mais do que 230 milhões de Euros. Como é possível que o Governo tenha furado esta oportunidade ?

Acordei do pesadelo a tempo de ver o último filme da série 3 (?) de Mad Men.  Don Draper o director criativo da agência Sterling Cooper, sócio minoritário com 12,5% de participação no capital,      regressou da Califórnia duma visita de prospecção a novos clientes, mais demorada que o previsto,  porque aproveitou para uma breve incursão ao passado.  Encontrou a agência em vésperas de fusão com uma congénere inglesa, ansiosa de expandir os negócios daquele lado do Atlântico . O mediador é o director de contas da Sterling, que influenciou o acordo, para disso tirar proveito e passar a director geral da nova unidade em formação. A lógica financeira, o lucro e a ambição prevaleceram. Como é normal, nos negócios.

É uma excelente série. O ambiente dos anos 60 é exemplarmente recriado e as personagens são  misteriosas e de personalidade complexa. Don Draper parece mais Dick Tracy que um director criativo. Uma personagem enigmática : duro, sereno, confiante, distante, certeiro e  com bom coração para alguns dos mais frágeis. Um pouco à imagem dos heróis da cinematografia desses anos. O vilão, o director de contas, foi batido no primeiro round. Afogou-se na azia que destilou. Os novos patrões concluíram que não servia para o lugar, porque não sabia beber. Serviram-se dele, amachucaram e deitaram fora. É assim no mundo dos negócios. Não há que levar a mal,  como não se cansava de repetir Don Corleone.

 Acabado o filme, tornei a passar pelas notícias. Soube que o encontro entre Catroga e Teixeira dos Santos ocorreu em casa do primeiro.  Chegaram a um acordo. A bem da nação. O ambiente familiar foi decisivo. É assim que agem as pessoas de bem, ainda que um dia antes tenham trocado azedas acusações. Portugal no seu melhor.

OITO NOTAS SOLTAS

Mário Martins
An artist's impression of the planet going around the star Vega, which the Scuba 2 instrument discovered


1.   No meio do ruído provocado pela relação entre um governo esgotado e uma oposição, de direita, sem rumo, e outra, de esquerda, sem projecto, os portugueses descobrem que, em média, não produzem o suficiente para levarem a vida que levam, que o dinheiro a crédito não cai do céu e que a função social do estado está seriamente ameaçada.

2.   A consequência imediata do fantasma de uma intervenção “iminente” do FMI, é que se até agora a crise “apenas” tinha afectado as pessoas lançadas no desemprego ou as que não conseguem emprego, agora vai também afectar as que estão no activo e as reformadas.

3.   Se os actores políticos portugueses da actualidade são, em geral, fracos e a política tem sucessivamente falhado, esta crise mostra, no entanto, a força e as leis independentes do complexo sistema             económico-financeiro em que Portugal está mergulhado.

4.   Esperemos que o enquadramento sindical dos protestos, por um lado, e a economia paralela e a vida informal, por outro, se revelem válvulas de escape suficientes.

5.   Depois da expulsão francesa de ciganos o ataque ideológico alemão ao multiculturalismo. Acesso de pura xenofobia do eixo franco-alemão? É preciso reconhecer, antes disso, o direito razoável à segurança dos países de acolhimento de emigrantes e, do outro lado, o dever de estes, incluindo os naturalizados, respeitarem as leis desses países. Sem prejuízo da importância da tensão do discurso anti-xenófobo para evitar ou limitar os excessos…

6.   Mas o meu espírito, este mês de Outubro, esteve longe, a acompanhar os 33 mineiros soterrados no deserto chileno de Atacama. Foi uma odisseia com um final feliz que mostrou o melhor do género humano (do pior tratam os noticiários todos os dias). E foi também uma espécie de homenagem a esses sacrificados colectores de matérias primas, em risco de vida permanente. Oxalá este acontecimento, que emocionou o mundo, induza a melhoria das condições de segurança nas minas e dos sistemas de salvamento.

7.   No princípio do mês, havia estado ainda mais longe, a 20 anos-luz, na constelação  da  Libra,  com  a  notícia  da  descoberta  do primeiro         exo-planeta  (planeta  a  orbitar   uma     estrela  fora  do   sistema solar) com características semelhantes às da Terra, situado mesmo no meio da zona habitável da estrela. Expliquemos que este - com três ou quatro vezes a massa da Terra, baptizado com o nome Gliese 581 - não é o primeiro exo-planeta “terrestre” a ser descoberto, mas sim o primeiro a orbitar numa zona habitável, quer dizer, a uma distância da estrela que possibilita a existência de água líquida e de atmosfera, condições tidas como basicamente necessárias para a existência de vida, simples ou complexa.

8.   A notícia trata a descoberta no presente, mas estas coisas do espaço muitas vezes não são o que parecem. O que, de facto, os astrónomos agora descobriram é o que existia há 20 anos, o tempo de viagem da luz emitida pela respectiva estrela, condição que abre a possibilidade desconcertante, embora remota, de o exo-planeta já não existir…


 Início

PRIVATIZAR OS LUCROS E NACIONALIZAR OS PREJUÍZOS

Manuel Joaquim

Porta-chaves (AM)


Os partidos políticos que executam as políticas determinadas pelo grande capital, nacional e internacional, sempre tiveram um projecto, um projecto político orientado para arrebanhar todas as áreas donde seja possível  obter os máximos lucros. Muitos sectores da economia foram simplesmente destruídos para não serem competitivos internacionalmente e para alargar mercados às multinacionais; muitas empresas foram desmembradas para permitir a privatização das áreas lucrativas, deixando as partes consideradas  não rentáveis; serviços públicos foram espartilhados para libertar áreas para exploração lucrativa -  transportes, saúde, educação, estradas, água, electricidade, etc. . Isto no seguimento das privatizações  da banca e dos seguros e de outras empresas altamente lucrativas.

As pessoas foram formatadas para aceitarem esta política rapace, através de violentas campanhas ideológicas em defesa de “menos estado, melhor estado”, “do estado despesista” da “economia do sucesso”, acompanhadas  de aumentos de salários, de regalias sociais, da  ilusão do “capitalismo popular”, e com a  criação e consolidação  de “classes tampão” em quase todos os sectores económicos e sociais, através de remunerações, gratificações e mordomias principescas, onde aparecem os “boys”, os que “casaram com as empresas”, os do “sucesso”.

Outras “classes tampão”,  criadas, estimuladas e alimentadas pelo próprio sistema,  servem de apoio social e político a toda esta política. São muitos dos que vivem de esquemas, de subsídios para tudo mas não do trabalho.

Tudo isto faz parte do projecto político da direita, com manuais de instruções para a sua execução.

Naturalmente que esta política de espoliação tem consequências para as pessoas que vivem do trabalho, das pensões de reforma depois de uma vida de trabalho, das poupanças de vidas.

E a factura da execução desse projecto começa a ser apresentado pelos próprios espoliadores.

Para as pessoas meditarem sobre as privatizações, atrevo-me a reproduzir um texto de Henrique Custódio, publicado no Jornal Avante!, no passado dia 16 de Setembro, sobre a GALP.

“ O ridículo


A Amorim Energia e a ENI – dois accionistas de relevo da GALP – arrecadaram 1246 milhões de euros em dividendos, desde a privatização em 2006, enquanto a valorização bolsista da participação da Amorim Energia duplicou o seu valor para 3468 milhões de euros – o que permitiu ao antigo negociante de cortiça ascender à posição do «mais rico de Portugal».

Acresce que a Amorim Energia BV é actualmente detentora de 33,34% da GALP e tem sede na Holanda, onde beneficia de um regime fiscal mais favorável. Ora um dos argumentos invocados para se apadrinhar a entrada deste grupo na GALP foi, precisamente, a importância de a empresa petrolífera continuar em «mãos nacionais» o que, manifestamente, não passou de uma encenação e um logro: mal deitou as unhas à GALP, o grupo Amorim mudou-se para o estrangeiro para ganhar mais «uns cobres».

Quem faz estas denúncias é a Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da Petrogal/GALP ENERGIA, citando números saídos no Diário Económico. E acrescenta outros: o Estado, ao vender a sua participação na GALP, perdeu 646 milhões de euros em dividendos e impostos, enquanto a empresa , ao ser privatizada em 2006, perdeu de imediato 870 milhões de euros entregues de mão beijada «aos accionistas», ou seja sobretudo aos Amorins e quejandos. Mas o escândalo não ficou por aqui: logo de seguida, a GALP pediu ao Banco Europeu de Investimentos um empréstimo de 500 milhões de euros para autofinanciamento, ficando a pagar uma batelada em juros e a encarar a hipótese de alienar activos do gás natural, tudo para fazer face às necessidades de investimento. Perdas e gastos que poderiam ser evitados se os 870 milhões, entregues sofregamente «aos accionistas» mal se privatizou a empresa, tivessem sido aplicados nos tais autofinanciamentos.

Para premiar tão incandescente talento directivo, a GALP pagou ao administrador Ferreira de Oliveira um milhão e meio de euros/ano.
Actualmente, o Estado ainda detém 7% do capital da GALP (pelo que recebeu uns modestos 127 milhões de euros, no mesmo período em que Amorim e ENI empocharam 1246 milhões), mas o Governo de Sócrates já «montou o cenário» admitindo a privatização desta parcela restante da participação do Estado na GALP o que, nas palavras directas da CCT, «é um atentado contra a economia portuguesa e representa mais um passo no agravamento das contas públicas a médio prazo»

Enquanto patrocina este autêntico regabofe, que produz fortunas obscenas e vertiginosas, o Governo de José Sócrates brande o PEC e continua a esmifrar não apenas quem trabalha, mas também os que vivem de prestações sociais. A estes últimos inventou-lhes agora a obrigatoriedade de apresentação «pela Internet» das declarações dos rendimentos que justificam as prestações, na falta das quais «as prestações serão suspensas», o que já levou a CGTP-IN a queixar-se ao Provedor de Justiça, denunciando a ilegalidade de todo o processo.

São actos de governação que retratam Sócrates a corpo inteiro. E expõem o ridículo imenso da sua actual cruzada pelo «Estado social».”

O OE prevê mais privatizações para arrecadar receitas. As empresas de seguros que actualmente fazem parte do Grupo Caixa Geral de Depósitos – Mundial-Confiança, Império e Bonança estão arroladas para serem vendidas. Entretanto, o governo nacionalizou o BPN. Privatizam-se os lucros, nacionalizam-se os prejuízos.

Naturalmente que há cada vez mais  pessoas descontentes, desconfiadas e alarmadas.  Sentem-se aldrabadas e a verificar que à mesa do Orçamento sentam-se grupos de ladrões. E reagem. E vão continuar a reagir, cada vez com mais vigor, até descobrirem que a esquerda, a autêntica, tem  realmente um projecto alternativo ao projecto da direita, que está aceleradamente a esgotar-se. Um projecto alternativo que tem como primado o Ser Humano.

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