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01/03/17

O NÍVEL DOS SOFISTAS

António Mesquita
         



"'O homem é a medida de todas as coisas'. Entenda-se, a necessidade humana, a ordem humana. Porque há verdades vantajosas; e o sage, instruído pela experiência, deve persuadir a multidão humana de que o que é vantajoso é verdadeiro. Assim, ele põe-se de acordo com Górgias e tantos outros para dar leis úteis aos homens e para refutar os descontentes, o que é a melhor política; porque assim eles adoram o cacete. Vê-se que o Pragmatismo não é jovem."
("Abrégés pour les aveugles", Alain)

O capítulo é dedicado aos Sofistas, dos quais Górgias é o mais famoso. Como a história e a experiência individual o demonstram, a verdade nem sempre traz vantagens; pelo contrário. Mas aqui estamos a falar de necessidades e de ordem, quer dizer, do nível mais básico de qualquer sociedade. Das condições sem as quais não há ideias nem espírito, nem talvez 'super-estrutura', quando muito, os sons guturais da selva que hoje os 'tweets' vêm ressuscitar. É por isso que o entendimento com o sofista, que tanto pretende provar uma coisa como o seu contrário, pode ser útil para 'fazer caminho' (lembremo-nos dos célebres 'compagnons de route'; Sarte foi um deles).

É sabido que o 'dinheiro',  que assume formas que parecem novas como os especuladores da finança, os fundos-abutres ou até os bilionários da tecnologia, não tem pátria, nem moral. Pois também ele pode ser 'sofista' à sua maneira, procurando 'salvar' a imagem que passa para 'eternidade'. A utilidade social dessa 'salvação' não pode ser negada. Os romanos tinham uma instituição chamada evergetismo que obrigava os ricos, em vida, a contribuir para a 'paz social', com grandes despesas públicas  e benefícios para a comunidade. Modernamente, o jovem poder tecnológico pratica o seu próprio evergetismo. Vejam os fundos e a filantropia, às vezes retorcida.

O pragmatismo 'tem barbas', portanto. Pode ser útil, como reconhece o filósofo. Mas existe nessa apreciação uma condescendência que nos alerta para os limites dessa maneira de pensar. É porque ao mundo pragmático, falta  o homem, ou o melhor do homem.

A pergunta que ocorre no 'tempo electrónico' que é cada vez mais o nosso, e que parece ter desactualizado e reduzido a 'bytes' as mais nobres aspirações e as mais reconfortantes utopias, é se vamos ou não perder, com a globalização e o terrorismo, o chamado 'comboio da história', porque em breve o melhor do homem terá sido uma oportunidade perdida, a não ser para as elites que vão saindo do palco, 'pela esquerda baixa'.

Passaremos do nível mais básico, o das forças desencadeadas, naturais e sociais; por um lado, a reacção do planeta ao aquecimento global e à poluição do ambiente e, por outro,  o capitalismo das oligarquias financeiras e tecnológicas ou o capitalismo de Estado travestido, ao estilo chinês,   para outro, 'admiravelmente' organizado, como na profecia de Aldous Huxley, mas onde o sentimento de justiça será uma coisa impensável.

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