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01/03/12

A LUZ DE DEUS

Alcino Silva

http://stitchintimesaves9.wordpress.com/


“quem entra em Santa Sofia tem a vista imediatamente atraída pela cúpula, imagem da esfera celeste. A sensação mistura o esmagamento que decorre da finitude humana e a elevação progressiva do olhar e da alma para o Reino de Deus. Além disso, a iluminação vem do alto (…). Vinda do cimo, a claridade é ao mesmo tempo um símbolo da luz celeste e um convite a olhar o Céu.”1

Ao longo da vida alimentamos fascínios e percorremos caminhos viajantes ao seu encontro ou na sua procura. Nunca os encontramos de todo, é certo, mas vamos erguendo construções em torno da sua demanda. Debruçamo-nos sobre a ética, ou sobre os valores, ou ainda na defesa dos princípios que delimitam as avenidas da nossa vivência social, ou mesmo dos sentimentos através dos quais se manifestam os nossos gestos. Quantas vezes, estremecemos face ao fascínio da beleza, mesmo quando esta se revela nas expressões monumentais que a humanidade erige. Nalgumas destas, espreitam, a mitologia, o sentido da vida, noutras, o sagrado e noutras ainda o profano. Por mim, procuro o Deus que os crentes ainda não encontraram. Dizem escutá-lo, crêem até ler as suas palavras, em desenhos concebem o seu rosto, veneram-no como se o vissem, mas na verdade, não o topam. A mim, Georges Duby ensinou que “Deus é luz”2 e desde então habituei-me a procurar o silêncio no interior das grandes catedrais. Entro, deixo o olhar aventurar-se em longos passeios pelas paredes, pela abside, pela cúpula, pelos vitrais e vivo essa solidão no meio dos crentes e deparo com essa luz que descreveu o eminente historiador francês. Entra a jorros pelas cores harmoniosas que vivem no interior desses vitrais esplendorosos e visita-me nessa ternura do pensamento, da razão, da verdade reflectida. Serve de correio entre o que eu penso e o que a humanidade acumulou em sabedoria e a troca que gera mais saber, provém dessa luz que chega ao interior dessas catedrais, onde repouso em reflexão, enquanto os crentes se mortificam, rezando. Sim, é assim mesmo, os crentes rezam e eu penso. Rezam pelos pecados que cometeram perante o Deus que acreditam e não encontram, castigam-se a si próprios, esbanjam-se em promessas que não cumprem e ajoelham-se prosternados. Por mim, dialogo com o Deus que eles não encontram e que acredito não existir mas que sempre me acha. Que estranha incompatibilidade esta de encontrar o que sei não existir e de eles não conseguirem alcançar em quem tanto acreditam. Interrogo-me nesse diálogo com a luz, essa luz de Deus e regresso às palavras do historiador, «Deus é luz (…). Luz absoluta. Deus está mais ou menos velado em cada criatura, consoante ela é mais ou menos refractária à sua iluminação; mas cada criatura o desvenda à sua medida, pois liberta diante, de quem a observar com amor, a parte da luz que tem em si.”2 Compreendo melhor agora, cada um desvenda à sua medida e liberta a parte da luz que tem em si. Sentado, na imponência interior daquela casa dedicada ao Deus dos crentes, observo-os de novo e percebo que não podem libertar o que não trazem, o seu pensamento escurece perante o Deus que imaginam, os olha, mas na verdade não os vê pelo simples facto de não existir, mas existe na luz que entra em roldões de claridade e penetra naqueles que o aguardam no interior da nave, os que vêem mas não rezam. Não os compreendo, oram afanosa e seriamente, concentrados, rostos martirizados dirigidos a um altar, ao seu Deus crendo que se guarda no interior de um sacrário e a luz penetra em luminosidade de intensas cores pelos amplos e límpidos vitrais e procura-me sem cansaço, sem sacrifício e conversamos na serenidade intemporal do prazer de estar e pensar. A mim, não autorizam a proximidade do altar, o qual reservam para si, para as empenhadas súplicas que lhe dedicam em cerimónia colectiva ou em sacrifício pessoal. Mas concedem-me o espaço da abóbada ou das modelares janelas vitralinas, nas quais o arco-íris se representa de figuras entre a mitologia e a santificação. “Deus é um estremecimento das águas, um corpo que irrompe”3, mas os crentes não sabem, nem reparam. Fixos num lugar escurecido não vêem a luz nem as palavras que lhes dizem que “Deus borbulha, primitivo, incandescente, um nome desconhecido, mais semelhante a um sopro pela imprecisão das gramáticas, um fulgor ilimitado”3. Mas os crentes insistem em não ver o que encontro eu sem martírios, a luz de Deus, daí que tantas vezes não consigam distinguir o céu da terra, o mar da praia, o finito do infinito, nem conseguem mergulhar no sonho da humanidade. Os seus olhos permanecem presos no altar e o pensamento ocupa-se da oração memorizada, soletrada, cantada até, mas não conseguem erguer os olhos à procura da luz, razão pela qual, não sabem como distinguir o dia da noite, esquecendo até a história rabínica que dizia, “Quando, a meio de uma estrada, olhares um rosto, um rosto qualquer, e o amares tanto como o rosto do pai, da amada, do amigo mais querido, a noite acabou e o dia começou”3. É por esta e outras razões que me sento nas catedrais e deixo que o olhar e o pensamento me escapem à procura da luz que vem do Deus, que os crentes não encontram, fixos que estão, na sua procura no fundo de um lugar escuro e denso onde nunca o acharão.


1 – “A Idade Média no Oriente”, Alain Ducellier, Michel Kaplan, Bernardette Martin, Publicações D. Quixote, Lisboa, Março de 1994.
2 – “O Tempo das Catedrais”, Georges Duby, Editorial Estampa, Lisboa, 1979
3 – José Tolentino de Mendonça, Jornal de Letras, nº 1076, de 28 de Dezembro de 2011 a 10 de Janeiro de 2012.

MUROS RELIGIOSOS (9) O TAUISMO

Mário Martins

Yin - Yang (Wikipédia)


“O tauismo não é conhecido”

Marcel Granet (1921)



“(…) O tauismo é uma religião de mistérios. Estamos diante de uma religião popular (…). Difundido universalmente na China, o tauismo continua a ser difícil de conhecer. Para os não-chineses, esta dificuldade é multiplicada pela inacessibilidade, tanto hoje como em tempos passados, da China profunda, e talvez ainda mais pela dificuldade que nós, homens e mulheres da ‘religião do Livro’ (…), temos em apreender o que tão pouco se adequa às nossas ideias sobre o que é uma religião”.

“Ninguém se torna tauista - é tauista, às vezes sem dar por isso. A religião (…) não se tornou na China uma função diferenciada da actividade social (…)”.

Kristofer Shipper (1993)



Se, como vimos, o Hinduísmo contrasta fortemente com as religiões do Livro e o Budismo nos desarma com a sua indiferença metafísica, o Tauismo aprofunda a estranheza de quem está habituado a certezas teológicas positivas.

O tauismo, que sempre viveu à margem do Estado, quer no seio da legalidade, quer fora dela, mergulha as suas raízes na Antiguidade (séculos V e VI antes da nossa era) (…) O facto de o tauismo sobreviver hoje, apesar de tantas perseguições que sobre ele se abateram, é talvez um dos seus aspectos mais notáveis.

O seu culto dos santos, a sua liturgia e as suas peregrinações são inteiramente comparáveis às do Ocidente; o Tau e os seus aspectos, pelo contrário, são conceitos sem contrapartidas nas nossas teologias (…).

Em lugar das verdades reveladas que constituem o fundamento de tantos sistemas religiosos, o tauismo nada propõe, a não ser um paradoxo: toda a gente conhece o Tau (a Via) e contudo ninguém o conhece. Aquilo pelo qual tudo é, tal e qual, espontaneamente, sempre ultrapassará o entendimento humano. “Tau” é apenas um nome: “Pode pensar-se nele como sendo a Mãe de tudo o que está debaixo do céu. O seu verdadeiro nome, não o sei; dá-se-lhe o nome poético de “a Via”…A Via é regida pelo ‘assim por si mesmo’” (Daode jing, 25).

(…) A Via - o processo - que se manifesta através das transformações perpétuas do universo é por definição indefinível. Não pode ser apreendida a não ser nos seus aspectos, sendo estes evidentemente múltiplos até ao infinito (…).

(…) O que se revela aos nossos sentidos (…) é o universo diferenciado em perpétuo devir, mas este mundo fenoménico não passa da superfície (…) de uma outra realidade permanente, a da grande matriz do caos (…) Este caos que anula a ordem celeste, subverte o curso das coisas, constitui o verdadeiro “além”, impensável absoluto, obscuro, misturado, indiferenciado e mistério (…).

“Uma vez yin, uma vez yang, eis o Tau”, diz o grande tratado de adivinhação e cosmologia, o Yijing. “Uma vez vida, uma vez morte, eis a transformação dos seres”, diz por seu lado Zhuang Zi (Tchuang-tsé), o grande místico do tauismo antigo. Esta alternância, segundo a qual cada coisa ou ser, uma vez atingido o seu apogeu, se transforma no seu contrário, constitui o Grande Princípio, o Taiji (…).

A cosmologia tauista entranhou-se em todos os domínios do pensamento chinês (…) Nem mesmo na época moderna o universo será jamais concebido como obra de um deus criador ou como o resultado de uma intervenção especial; ele é um devir espontâneo, em perpétua mudança “por si mesmo”.

Os primeiros tauistas (…) teriam sido adivinhos. Eram letrados, ao mesmo tempo astrólogos, analistas, arquivistas e escribas da corte dos senhores feudais (…). O seu papel era observar os fenómenos naturais; estudavam os ciclos do céu e da terra, criavam calendários, anotavam os eclipses e outros fenómenos especiais. O seu conhecimento da história ensinava-lhes que, apesar da sua arte, nada era verdadeiramente previsível: as dinastias mudavam, o usurpador de ontem tornava-se o herói fundador de hoje, a legitimidade “por mandato do Céu” nada tinha de inquebrantável, os antepassados reais não eram os antepassados do mundo. Compreenderam assim que o homem ocupa apenas um lugar insignificante num universo em perpétua mutação onde alto e baixo, grande e pequeno, anterior e posterior, não passam de noções relativas. Do mesmo modo, também os deuses não podem deixar de ser muito relativos. A elaboração desta cosmogonia não teológica não é de surpreender uma vez que, para os tauistas, as únicas forças permanentes no universo provêm do poder (de, que significa acção) do Tau, o qual se manifesta nas leis da natureza.

Segundo a lenda, o primeiro tauista foi Lao Zi (Lao-tsé), literalmente “o Velho Mestre”. Teria sido arquivista e astrónomo na corte dos reis da dinastia dos Zhu, no século VI antes da nossa era. Diz-se que teve discípulos, mas que não lhes transmitiu o seu verdadeiro ensino. Só no fim da vida (…) é que Lao Zi foi reconhecido como um verdadeiro sábio pelo guarda do Desfiladeiro, encarregado da passagem que separa o mundo do além. Este obrigou Lao Zi a deixar-lhe o seu testamento espiritual: foi o Daode jing.

Para Lao Zi a verdade não se encontra nos preceitos ou nas construções do espírito, mas na vida física. No pensamento tauista, o corpo é dado como o único momento de unidade, o único lugar onde é possível a harmonia dos elementos múltiplos e às vezes opostos que formam o mundo. A sabedoria não pode pois encontrar-se nos discursos, mas na maneira como se trata da saúde própria. Esta preocupação permaneceu mesmo no centro da mentalidade chinesa. O sábio preocupa-se em primeiro lugar com o interior: assumir-se enquanto ser humano consiste em primeiro lugar em pôr em ordem a sua existência, em nada dever aos outros - homens ou deuses. Uma vez realizada esta condição, o resto far-se-á espontaneamente, sem agir nem intervir no mundo.

O tauismo forma um todo, quer do ponto de vista da sua doutrina, quer do das suas instituições. A sua preocupação essencial é a procura da “imortalidade”. Os caminhos para esse domínio do tempo são múltiplos. Para o místico, a união com o Tau encontra-se no termo de exercícios espirituais e fisiológicos: meditação ataráxica que leva ao êxtase, práticas da respiração, ginástica e dietética, alquimia operatória e espiritual, artes da caligrafia e da pintura.

No povo, os “Imortais” são objecto de cultos fervorosos. São as grandes figuras lendárias ou históricas do tauismo, o Velho Mestre, o Mestre Celeste, os espíritos das montanhas sagradas, e toda uma multidão de santos populares, homens e mulheres, cujas lendas maravilhosas alimentam desde sempre o teatro e os romances.

A história oficial ignora, ou quase, o facto tauista (…). Depois de ter conservado uma certa influência na Corte durante o primeiro século da época imperial, o tauismo torna-se vítima do absolutismo do imperador Wu (de 141 a 87 a. C.), que estabelece o confucionismo como ideologia do Estado. Opera-se então uma clivagem profunda que, com variações, irá permanecer constante na história da China: de um lado, o Estado com a sua administração, o país oficial que invoca a tradição “confucionista” (bem afastada do ensino do próprio Confúcio); e, do outro, o país real, as comunidades locais que se exprimem nas estruturas litúrgicas de uma religião não-oficial (…).

O tauismo tornou-se assim a grande religião popular da China. Foi ele que forneceu as suas estruturas litúrgicas (as comunidades, os seus templos e as suas associações, guildas e corporações, o clero, as alianças e peregrinações, a arte religiosa sob todas as suas formas, as lendas e os preceitos morais) às massas da China, tanto nos campos como nas cidades. Sob muitos aspectos, ele encarnou a continuidade da cultura chinesa graças às suas notáveis capacidades de adaptação.

Que se passa actualmente com o tauismo? O tauismo continua omnipresente, mesmo onde os templos e os mosteiros - como acontece hoje em dia no continente chinês - estão em grande parte destruídos. Reimprimiu-se recentemente o Cânone Tauista de 1442, que conta mil e quinhentas obras. Sobretudo, o tauismo continua a ser o guardião de uma moral que tanto estimula a liberdade como a responsabilidade individual.

É (…) por força de um paradoxo que o tauismo é ao mesmo tempo uma das maiores religiões do mundo e a menos bem conhecida. É vítima de uma das taras do mundo moderno: as estatísticas. Por razões que têm que ver com a própria história e com a própria natureza da sociedade chinesa, não é possível, sobretudo relativamente à China moderna, falar de uma Igreja tauista. Os fiéis estão ligados aos cultos dos templos locais, que são fundações laicas, federadas entre si mas independentes (…).
Tudo depende evidentemente da definição que se queira dar do tauismo. Não deveremos contar como tauistas os devotos dos cultos dos santos que, obrigatoriamente, recorrem de tempos a tempos aos serviços de um mestre - tanto comos os praticantes confirmados dos exercícios místicos individuais (…), que, com muita frequência, se organizam em grupos informais em torno de um mestre? Haverá então que admitir que a quase totalidade da população rural e uma boa parte da das cidades são tauistas; isto é, perto de um quarto da humanidade (…).


Todas as citações (em itálico) são da obra “As grandes religiões do mundo”, Kristofer Schipper, Direcção de Jean Delumeau, 1993, Editorial Presença, 2002.

TEMPOS DE GUERRA, TEMPOS DE LUTA PELA PAZ

Manuel Joaquim
(Pablo Picasso)


Maio de 1945, tempo já de vida de muitos de nós, de nossos pais e de tanta gente com quem ainda nos cruzamos no nosso dia a dia, foi  tempo de esperança, com o fim da 2ª Guerra Mundial e a derrota do nazismo, e de luta contra o fascismo ainda instalado e em defesa da PAZ. 

Porém, a situação política internacional permitiu a manutenção de regimes fascistas e o desenvolvimento de novas ameaças à Paz. Novas guerras eram iminentes e com armas nucleares que foram utilizadas pela primeira vez sobre o Japão.

Os povos de todo o mundo, de uma forma ou de outra, conheceram os dramas da destruição, da fome, da miséria, da doença, que são sempre as consequências das guerras para as pessoas simples e inocentes. Por isso, em 1949, organizações de todo o mundo, que defendiam e lutavam pela Paz, pela coexistência pacífica e pelo desarmamento nuclear, constituíram uma organização apartidária, a que se chamou Conselho Mundial da Paz, que chegou a ter organizações representativas de 104 países, com sede na Finlândia.

Em Portugal, nesse tempo, também foram criadas, em muitos locais, Comissões de Paz, com uma estrutura nacional a que se chamou Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Estas Comissões de Paz participaram em muitas acções, designadamente na recolha de assinaturas para o Apelo de Estocolmo, que defendia o fim das armas nucleares, promovido pelo Conselho Mundial da Paz, que foi o maior abaixo-assinado realizado à escala mundial. 

Em 24 de Abril de 1976, foi finalmente legalizado, como associação, o Conselho Português para a Paz e Cooperação. Até ao 25 de Abril de 1974, defender a Paz, o desarmamento, o fim dos blocos político-militares, o fim do colonialismo, a solidariedade e cooperação entre os povos, tinha consequências, a mais certa era a prisão.
 
Se, quase sempre, temos vivido, mais perto ou mais longe, com guerras de agressão e de ocupação, como na Palestina, em Angola, em Timor-Leste, no Sahara Ocidental, no Líbano, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Irão e Iraque, na Líbia, com o regime de apartheid na África do Sul, com o bloqueio a Cuba, hoje, estamos perante uma nova escalada de guerra que, a acontecer, terá consequências desastrosas para o mundo inteiro. A crise económica e financeira que está a apoquentar cada vez mais pessoas, comparada com o que poderá acontecer, será simplesmente insignificante.

 As movimentações militares que estão em curso no Médio Oriente com o objectivo claro de agredir a Síria e o Irão são terrivelmente assustadoras para a Humanidade.
Por isso, o Conselho Português para a Paz e Cooperação está a desenvolver a nível nacional uma campanha de sensibilização e de esclarecimento,  alertando  e mobilizando  o Povo Português contra a guerra. É uma iniciativa meritória que deve merecer a nossa atenção.

Aproveito a oportunidade para prestar uma simples homenagem, lembrando Igrejas Caeiro, membro da Presidência do Conselho Português para a Paz e Cooperação.

  

01/02/12

ESTAMOS NUM TEMPO DE VIRAGEM?



Manuel Joaquim

"The New Deal", Painting/Mural by Conrad A. 





As notícias que nos chegam, sobre a crise que vivemos, são cada vez mais diluídas por outras que captam mais a nossa atenção. As grandes notícias são sobre maçonaria, serviços secretos, clubes de futebol, jogadores e treinadores, vestidos e traições de princesas, julgamentos que decorrem com a publicação de grandes fotografias, algumas das quais sobre cenas com o conde.

 Mas com a crise a acentuar-se cada vez mais e a infernizar o dia a dia das pessoas, que vivem do seu trabalho ou de rendimentos escassos ou que já estão numa situação de penúria por terem sofrido cortes em subsídios e por causa do desemprego, os órgãos de manipulação da opinião pública já não podem ignorar a realidade por mais base e pó-de-arroz que utilizem. Começam a aparecer notícias sobre o crescente afastamento das pessoas dos serviços médicos e das farmácias, do abandono e morte de velhos sem apoios de serviços sociais e das famílias, de manifestações de insatisfação e protesto pelas situações de desemprego, pelo aumento do preço dos transportes, dos combustíveis, das portagens, dos bens essenciais, por causa da carestia da vida.
 
Sobre a situação económica, é um fartar de notícias sobre as compras de empresas por chineses, brasileiros, ou angolanos, os esgotamentos e as danças das cadeiras dos banqueiros, a entrada nos eixos do governo da Madeira, os inquéritos aos hospitais e as dividas das câmaras municipais e são as declarações categóricas e firmes de ministros e apaniguados de que vamos cumprir rigorosamente os “nossos” compromissos e prazos. Segundo dizem, somos gente de bem! 

Uns, que ainda há pouco defendiam as privatizações de todos os sectores, menos estado para melhor estado, que acusavam governos estrangeiros de serem ditatoriais ou corruptos, andam agora caladinhos para conseguirem desses mesmos governos algumas migalhas nas mesas dos banquetes com as riquezas nacionais. Um já chegou a banqueiro e tem trabalhado afincadamente para emagrecer o património nacional e engordar o património de quem serve. Outros, continuam a defender as privatizações, a venda do património nacional, “mas não todo”, se for a empresas públicas de outros países (China e Angola).  

Se há um ou outro jornalista (?) que pretende dar alguma notícia que ponha em causa os interesses instalados, despedem-no, via telefone, com o argumento de que vai terminar a sua colaboração por ter chegado ao fim o respectivo programa. O governo anterior tratava de comprar os órgãos de manipulação da opinião pública, através de empresas públicas e de bancos ao seu serviço, condicionando financiamentos. O actual utiliza os mesmos princípios mas é mais eficaz e rápido no seu domínio e domesticação. No fascismo, era o lápis azul, e a PIDE, hoje é através do lápis azul, da tesoura e do desemprego.

Medidas para dinamizar a economia e combater o desemprego, recuperar a dignidade de vida das pessoas, nada. É gente que já vive acima das suas possibilidades e que gastam mais do que ganham. São palavras dos que vivem dos impostos pagos pela maioria das pessoas. 

Quando a crise internacional estava ainda em desenvolvimento, 2008/2010, alguns fazedores de opinião, vendo semelhanças entre os dois acontecimentos, afloravam a crise de 1929, (terça-feira negra, de 29 de Outubro de 1929) falavam sobre a febre especulativa, o enriquecimento rápido e fácil e o colapso de Wall Street. No entanto, nunca aprofundavam as suas causas, os seus efeitos, utilizavam, na sua linguagem, a expressão  New Deal, mas não a explicavam e não falavam nas medidas que foram tomadas para combater a Grande Depressão que os EUA viveram entre 1929 e 1936.

Havendo semelhanças, em alguns aspectos, entre os dois acontecimentos, e até semelhanças no tipo de receitas defendidas por “sábios” daquela época e por “sábios” de agora, - “acima de tudo, devemos equilibrar o orçamento” - as respostas têm sido muito diferentes. A começar pelos discursos de posse dos presidentes eleitos, Cavaco Silva, e Franklin Roosevelt. Enquanto Cavaco subordinou o seu discurso aos compromissos assumidos pela troika interna - PS, PSD, CDS – perante a troika externa – Alta Finança - Roosevelt, no seu discurso de tomada de posse, em  4 de Março de 1933, defendeu que “Esta nação clama por acção, e acção agora…. Devemos agir rapidamente.” 

Em 1929, o número de desempregados era de 1,5 milhão, em 1933, o número tinha subido oito vezes, uma pessoa em cada quatro da força total de trabalho estava sem emprego. A construção de habitações caiu 90%. Nove milhões de cadernetas de poupança foram para o lixo, quando os bancos fecharam as portas. Faliram 85 mil empresas. Como pôde acontecer essa tragédia?

"Nos três meses seguintes à posse de Roosevelt, escreve Schlesinger,”O Congresso e o país foram submetidos a uma avalanche de ideias e programas presidenciais diferente de tudo o que se conhecia na história dos Estados Unidos.” Foram os famosos Cem Dias do New Deal, nome dado ao programa de recuperação económica e reforma social do Presidente Roosevelt. Esta designação provém da suposta semelhança com a situação de novidade e igualdade de oportunidades propiciada por uma nova “mão” (deal) num jogo de cartas. Foram lançados os alicerces de um novo padrão de relacionamento entre o Governo e a economia privada, um padrão que iria significar uma radical mudança na organização do capitalismo norte-americano.”

Foram aprovados 15 projectos-leis importantes: A Lei Bancária de Emergência; a criação do Corpo Civil de Conservação para absorver jovens desempregados; a Lei de Ajuda Federal de Emergência para suplementar os exauridos recursos assistenciais dos Estados e cidades; a Lei da Hipoteca Agrícola de Emergência, que emprestou aos agricultores quatro vezes mais em sete meses do que todos os empréstimos federais nos quatro anos anteriores; a Lei da Tennessee Valley Authority, criando a TVA, empreendimento inteiramente novo no âmbito da iniciativa governamental; a Lei Bancária de Glass-Seagall, divorciando os bancos comerciais das suas actividades de colocação de acções e obrigações no mercado e garantindo os depósitos bancários, entretanto revogada por Bush, o que contribuiu decisivamente para a falência de muitos bancos na presente crise e que, de certo modo, contribuiu para ela mesma, com os enormes valores “lixo” contabilizados; a primeira das Leis dos Valores Mobiliários, com a finalidade de reprimir a especulação mobiliária e a imprudente pirâmide empresarial.
Os Cem Dias somente inauguraram o New Deal; de modo algum o completaram. Ainda estariam por aprovar a Lei da Previdência Social, a legislação habitacional, a Lei da Recuperação Nacional, a dissolução das companhias holding em serviços de utilidade pública…De facto, só em 1938 é que o New Deal seria “completado” com a aprovação da Lei dos Padrões Justos de Trabalho, estabelecendo salários mínimos e o número máximo de horas de trabalho, e banindo o trabalho infantil no comércio interestadual.
Todos os programas expressaram uma mudança fundamental do papel do Governo, procurando encontrar “resultados socialmente aceitáveis”

Enquanto nos EUA houve a preocupação de intervir decididamente em praticamente todos os sectores económicos e sociais com o objectivo de superar as tremendas dificuldades e perigos para o próprio sistema, por cá, a política que é aplicada tem como único objectivo intervir na distribuição do rendimento, fragilizando as relações de trabalho e diminuindo os salários, retirando rendimentos à grande massa da população, através de aumentos de preços, de aumentos de impostos, confisco puro e simples de remunerações, para beneficiar o grande capital financeiro. Ao mesmo tempo as riquezas nacionais são desbaratadas.

O que foi dito, aplica-se, obviamente, a Portugal. Mas, com algumas adaptações, é possível generalizar  porque a política de rapace está em curso em quase todos os países europeus.

Sem dúvida que existem semelhanças entre as duas crises, sobretudo no empobrecimento das populações. Mas as realidades, tanto nacionais como internacionais são qualitativamente muito diferentes. Se na Grande Depressão, 1929 – 1936,  esteve em risco o próprio sistema capitalista, a crise actual que saída vai ter?


Fontes
- “A Formação da Sociedade Económica”, de Heilbroner, R.L. (1987), Rio de Janeiro, Editora Guanabara (Fonte das transcrições acima)
- Polanyi, K, (1968), The Great Transformation, Boston; Beacon Press – Trad. Ed. Afrontamento, Porto
- A Grande Crise de 1929 . J. K Galbraith
- As Vinhas da Ira, de John SteinBeck
- O Negro e Mr. Harding, de José Rodrigues Miguéis                                                                                                                                                                                                                                                                 

AS MÃOS


Alcino Silva


fire.rettorato.unito.it


Com as mãos tudo se faz e se desfaz
Com as mãos se rasga o mar
De mãos é cada flor cada cidade
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre



A conversa acontecia à sua volta. Uma vez ou outra entrava na roda das palavras, mas sabia que os olhares não pousavam em si. Aceitara o convite para usufruir da companhia e esta confortava-o daquela solidão que nos isola sem nos afastar dos outros, permitindo-lhe a proximidade daquele olhar que viajava no seu pensamento, de visitar aquele espaço onde habitava um sorriso que transformava os rios em lagos de fantasia. A conversa prosseguia, ia e vinha, ora agitada e expansiva, ora mais discreta e vaga. Contemplava e procurava a direcção dos olhares, um pouco alheado, e foi num desses instantes que reparou no movimento das mãos e até si chegou a recordação da memória onde vive o passado, os tempos vividos, mas porque voltou atrás não sabia, nem por ali quis permanecer, reteve-se no presente, naquele instante, nos traços que o movimento desenhava como num quadro imaginário e transparente. As longas linhas das mãos estendiam-se como finos fios de uma beleza frágil e delicada, a pele escondendo rios de sangue subterrâneos num esboço de correntes, impulsos, vontades, quiçá sonhos deambulando pelo olhar que parecia procurar alguém, nesse encontro do que desejamos, mas ao qual as mãos não podem alcançar. A sua atenção retinha-se agora apenas naquela perfeita extensão final dos braços e supôs abraços estendidos, o movimento dos dedos entrelaçando carícias e percorrendo territórios numa viagem de ternura. As mãos insistiam em cativar-lhe o olhar, em arcos serenos e pausados de melhor explicar as palavras, como o prolongamento de um sorriso que dançava como um cisne nuns olhos carregados de sentimento. Estava preso no encanto das mãos e quando estas de novo se ergueram, saindo do repouso que encontravam uma junto da outra, sentiu esvoaçar os sons de Haendel soprados por violinos inventados que aquelas mãos, onde residia uma beleza perturbadora, activavam numa cadência que imobilizava. Foi como se aquelas mãos lhe tocassem, agarrassem as suas, as aprisionassem entre os longos e serenos dedos e o conduzissem ao de leve pelos caminhos das madrugadas onde a ardência de luzes coloridas fazia abrir um céu enfeitiçado. Os sons desfaziam-se em cores, em tintas donde brotava a luminosidade da Veneza de Canaletto ou seria antes a irreverência das pinturas de Caravaggio, já não o sabia. Encerrado numa campânula, não escutava a melodia das vozes, antes e apenas o que as mãos faziam sair das cordas dos violinos suavemente tocados numa tangente pelo arco que seguravam num exercício de ir e voltar, exaltando o Messias numa cadência de louvor, voando nessas cores renascentistas e proféticas. Uma das mãos tocava-lhe o rosto, pousava-lhe a palma sobre os lábios. Segurou pelo pulso, beijou-a com a pureza cristalina da água de nascente, com delicadeza insistiu em retê-la na sua, arrastou-a ao de leve pelo olhar, o seu, nessa carência de consolo que vive nos homens e prolongou o gesto por minutos que se escoaram num tempo que não viu. Porque lhe acenavam, porque se movimentavam vozes no exterior daquele vidro onde permanecia? Pareciam chamá-lo, a música, extinguindo-se, levou a luz das cores e Veneza terminou os seus dias. Acordavam-no do sonho, no torpor dos seus olhos, as mãos, aquelas mãos já não acenavam, mas estas, as que continuava a ver do outro lado da mesa, continuavam a esboçar desenhos que prolongavam as palavras que voavam para outros olhares em direcção a outros mares. Haendel partira, Caravaggio e Canaletto jà não estão connosco, ficaram apenas as mãos, a delicadeza daqueles traços, a leveza da pele, a perfeição dos dedos abrindo-se como flores primaveris. Que importa se é tudo imaginação?, se todas as noites adormece com o afago daquelas mãos sobre o seu rosto.”





MUROS RELIGIOSOS (8) O Budismo


Mário Martins

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Uma estátua de Buda feita por Sarnath no século IV (Wikipédia)
 
 
“(O budismo) afirma igualmente que existem diversas divindades, mas estas não são elementos essenciais da doutrina: o budismo não é pois um politeísmo. Além disso, ao contrário das religiões monoteístas, Deus ou o Criador supremo não tem nele qualquer lugar.”
 
Môhan Wijayaratna
 
 
(…) O budismo é a mais inapreensível das religiões universais. É quase impossível pronunciar a seu respeito uma generalidade conforme a todos os seus aspectos, e mais ainda definir o que é um budista (…).
 
(…) Não há escrituras universalmente reconhecidas a que o crente se deva reportar (…) Não há uma língua sagrada comum, uma autoridade religiosa geral, dogmas com definições claramente formuladas e obrigatórias, e as modalidades de implantação diferem consideravelmente de um país para outro. Só se começa a apreender uma certa unidade tomando consciência das divisões, para depois reencontrar a ligação subjacente.
 
Ao contrário do hinduísmo e do judaísmo, o budismo tem origem num fundador, Buda (…) Ao contrário do cristianismo e do islão, esse fundador não foi uma encarnação divina ou um mensageiro de Deus, mas um ser humano que expôs uma disciplina mental que já pusera em prática com êxito e uma verdade que compreendera ao desenvolver as suas capacidades interiores (…) Os budistas, portanto, não dirigem qualquer oração ao seu mestre desaparecido; apenas devem seguir-lhe os conselhos.
 
(…) Poucos budistas recusariam reconhecer na pessoa do Buda (expressão que significa Iluminado) Sâkyamuni o fundador da sua fé, o qual terá vivido nos séculos VI-V a. C. Nascido no sul do Nepal actual, sob uma auréola mitológica não muito diferente da natividade cristã: é miraculosamente que penetra no seio de sua mãe adormecida (…) e é do mesmo modo miraculoso que dela sai aquando do nascimento, não pelas vias naturais, mas pelo flanco (…), logo o seu destino é “traçado” pelas profecias que os adivinhos fazem a seu pai (um pequeno rei da segunda casta, a dos guerreiros) depois de terem examinado as marcas singulares que o corpo da criança apresenta e que revelam o grande homem: ou virá a ser imperador universal, soberano de todo o orbe do mundo, ou será buda. O rei deseja naturalmente que o filho perfaça o comportamento próprio da sua casta e insiste em conservá-lo à margem de uma carreira religiosa inconveniente para o seu meio; isola-o por conseguinte numa vida de prazer ao abrigo do sinistro espectáculo do mundo. O jovem cresce sem cuidados, apesar da morte precoce da mãe, casa-se e terá até um filho. Mas os deuses velam por que o seu destino religioso se cumpra: ao sair de um dos seus palácios acompanhado do cocheiro, tem sucessivamente os “quatro encontros” decisivos, primeiro com um velho abandonado pelos seus, depois com um doente, a seguir com um cortejo funerário e finalmente com um renunciante, um asceta que abandonou as prerrogativas da sua casta, o seu lugar no mundo, para partir à busca da libertação. O jovem compreende então onde está a sua vida e decide pôr-se a caminho (…) Depois de uma longa cavalgada, devolve o cavalo, corta a abundante cabeleira, enverga roupas grosseiras e vira-se para a busca da Iluminação (…) Durante esses anos encontra vários mestres, pratica e ultrapassa os seus diversos ensinamentos (…), rejeita-os sucessivamente e ele mesmo se torna uma espécie de mestre com prestígio suficiente para atrair a si cinco discípulos ou companheiros fieis (…), e decide entregar-se a uma ascese total, abstendo-se de qualquer alimento e suspendendo pelo ioga as suas funções vitais até aos confins da morte (…) Compreende então (…) que a ascese extrema não leva a coisa alguma, emerge da sua concentração e toma um pouco de alimento (…), atira ao rio a tigela onde tomou a sua primeira refeição e ela sobe a corrente para chegar até uma caverna onde toma o seu lugar ao lado das tigelas lançadas fora do mesmo modo pelos budas das idades precedentes. Assim o Iluminado (…) não é um indivíduo único, mas o actor de uma história que se repetirá indefinidamente enquanto subsistir um mundo para salvar; estamos muito longe do carácter de hápax (o que é dito uma única vez) das personalidades messiânicas e proféticas deste lado da Eurásia. O futuro Buda sabe agora o que tem a fazer; recuperadas as forças (…) centra a sua meditação na própria natureza da existência (…), atinge a realização da Iluminação perfeita e completa, adquirindo a recordação de todas as suas existências precedentes (…), adquire, sobretudo, a compreensão total do mecanismo das causas e condições que provocam a existência, com os meios que permitem pôr-lhe fim e atingir a libertação perfeita (…); ele sabe agora que já não renascerá. Poderia consagrar o resto dos seus dias a fruir dessa certeza solitariamente (…) mas um buda é não apenas um iluminado, mas também um iluminado que, pela sua pregação, ensina os outros a atingirem por sua vez a Iluminação. Por isso, o Buda irá consagrar-se à propagação do ensino que inicialmente hesitara em entregar aos homens (…).
 
No domínio do conhecimento, o Buda insistiu na importância das experiências pessoais e na compreensão assente nos factos empíricos. Na sua época (…) existiam efectivamente três espécies de mestres religiosos: os primeiros, como os brâmanes, eram os “revelacionistas” (…); pretendiam ter um conhecimento dos Veda (textos sagrados exalados pelo Absoluto). Os segundos eram metafísicos racionalistas; o seu ensino assentava em especulações. Por fim, outros mestres diziam que haviam atingido o seu conhecimento desenvolvendo as suas próprias capacidades interiores: era com essa categoria de mestres que o Buda se identificava.
 
Várias religiões contemporâneas do Buda assentavam em revelações acerca do mundo, sua origem, sua existência e seu fim. O Buda nunca se preocupou com essas questões e recusava-se a responder-lhes, acentuando a inutilidade de tais discussões em comparação com o objectivo da vida religiosa (…) Segundo ele, o indivíduo que insistia em pretender obter respostas a seu respeito estava a perder o seu tempo, tal como alguém que, ferido por uma seta envenenada, procurasse informações sobre a seta e sobre a pessoa que a atirou, sem deixar ninguém retirar a seta ou cuidar do ferimento.
 
Numa atitude surpreendentemente agnóstica e de “ver para crer”, o Buda perguntava aos mestres brâmanes que ensinavam várias vias para a união com Brahmã (Deus criador) se alguma vez viram esse Brahmã com que se queriam unir. Como a resposta era negativa, o Buda comparava a atitude dos mestres com a de um jovem que dissesse: “Estou apaixonado pela mais bela das jovens deste país, desejo-a, sem contudo saber quem é essa jovem, onde está ela, sem nunca a ter visto e sem saber a que família pertence”. E quando os mestres definiam Brahmã como Esplendor supremo “visto que não há outro esplendor superior a esse, nem esplendor mais excelente que esse”, o Buda dizia-lhes: “Ó amigos, podeis continuar assim longo tempo respondendo: visto que não outro esplendor superior a esse…, desde que me indiqueis qual é esse Esplendor supremo de que falais”.
 
(…) O ensino do Buda não é, pois, uma simples revelação da natureza das coisas, mas, antes de mais, um método (…) Essa prática, para ser verdadeiramente levada a bom termo, não se pode exercer no seio da vida mundana: tem necessidade de um enquadramento adequado que é o oferecido pela vida monástica (…).
 
Embora a doutrina búdica não se baseie numa explicação ou numa revelação acerca da criação ou do fim do mundo, nem por isso guarda silêncio total sobre o mundo fenoménico. Segundo as escrituras canónicas, o mundo não se limita ao planeta habitado pelos seres humanos e pelos astros concebidos como um sistema organizado. Pelo contrário, o mundo é composto de inúmeras unidades, cada uma das quais corresponde a um sistema solar. Estes sistemas solares são “qualidades” e de tamanhos diversos (…) Existem assim milhares de sistemas planetários (…) Contudo, as escrituras canónicas não apresentam estes pormenores como revelações sobre o universo. Trata-se de simples declarações dos “nobres seres”, os que compreenderam as coisas pelo desenvolvimento das suas próprias faculdades extra-sensoriais (…).
 
A doutrina búdica (…) interessa-se prioritariamente pela condição presente de cada indivíduo a quem diz respeito e prescreve-lhe que comece por compreender as coisas interiores e não as coisas exteriores: “não é pela viagem que se pode atingir o fim do mundo; no entanto, não há libertação possível sem se ter atingido o fim do mundo. Eu (Buda) ensino que estas quatro coisas: o mundo, o aparecimento do mundo, a cessação do mundo e o atalho que conduz à cessação do mundo - estão contidas neste corpo com uma vara de comprimento”.
 
Estas palavras mostram a natureza da mensagem de salvação que o budismo procura transmitir. Por um lado, essa mensagem diz respeito pessoalmente a cada indivíduo interessado e, por outro, o seu conteúdo diz sempre respeito ao momento presente. “Partir do tempo presente em que se vive” é um princípio muito importante no budismo.
 
Na maioria das religiões históricas a salvação é uma recompensa pelos actos meritórios. Não é o que se passa no budismo (…) A salvação budista apenas se oferece àquele que quer sair completamente da série das existências (renascimentos). Embora não deva cometer kamma (actos) demeritórios, também não é obrigado a afectuar kamma meritórios; deve sobretudo preocupar-se com o progresso interior que lhe permitirá deter a série de existências (…).
 
Pôr em prática cada vez mais profundamente os conselhos do ensino búdico permite chegar ao desinteresse, à renúncia total, à equanimidade. Segundo a palavra do Buda, neste estádio o indivíduo renuncia às coisas más, mas igualmente às coisas boas. Assim, quanto mais nos tornamos budistas, menos nos interessamos pelas querelas do mundo e até pelas querelas religiosas (…).
 
Nota final: As considerações precedentes dizem essencialmente respeito ao ramo do budismo chamado Theravâda (doutrina dos Antigos) ou hînayãna (Pequeno Veículo), presente no Sri Lanka (Ceilão), Birmânia, Tailândia, Laos, Camboja, regiões chinesas de população tai e alguns distritos do Bangladesh. O outro grande ramo do budismo, chamado Mahâyâna (Grande Veículo), que remonta a há cerca de dois mil anos, e “está dividido principalmente entre a área de cultura tibeto-mongol, de um lado, e, por outro, a área de cultura chinesa, que abrange, além da China, o Japão, a Coreia e o Vietname, considerando-se um caso à parte o do budismo nepalês de tradição sânscrita”, fundamentalmente endeusa, por assim dizer, a figura e o significado do Buda. Com efeito, “o budismo antigo sustentara que restava aos fiéis (…) o corpus de lei, isto é a colectânea das palavras do Buda; a sua mensagem constituía assim de certo modo uma presença permanente, uma vez que a Extinção o situara para todo o sempre para além do mundo (…). Com o surgimento do Grande Veículo e da sua “doutrina dos três corpos de Buda” “o corpo de Lei deixou de ser entendido como designando apenas a mensagem deixada pelo Buda, para significar antes de mais nada a sua modalidade de existência transcendente (…) Deste corpo de Lei emana um corpo, que permanece ainda para além das capacidades de percepção dos seres humanos (…) Vem seguidamente o terceiro e último nível de existência, o da dimensão humana (…) foi neste corpo que o Buda histórico âkiamuni mostrou aos seres a possibilidade da Iluminação e da Extinção (…). Para o Grande Veículo “o Buda está desperto desde uma Antiguidade que ultrapassa o entendimento humano; desde há incalculáveis idades cósmicas que ele exerce a sua incansável actividade de salvação dos seres num número infinito de universos (…).
 
Todas as citações (em itálico) são da obra “As grandes religiões do mundo”, Jean-Nöel Robert e Môhan Wijayaratna, Direcção de Jean Delumeau, 1993, Editorial Presença, 2002.
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