António Mesquita
Christopher Nolan dá-nos nesta novíssima versão da "Odisseia" o prazer mais puro do cinema. Homero não está em questão. O nosso conceituado tradutor, Frederico Lourenço (disse-o num podcast por outras palavras) não quer arriscar com a visão deste 'blockbuster' perder a sua própria intuição da obra-prima de Homero. E concordo que o seu conhecimento é superior e mais genuíno para estar à altura de traduzir o texto grego.
Mas Nolan tem uma paixão pelo cinema - a prova está na sua carreira, com filmes como "Oppenheimer" ou "Tenet" - que o leva a experimentar novos caminhos que passam tanto pela técnica ( o IMAX que obriga a carregar uma câmara de 100 kgs e a fazer kms de 'takes' de 3 minutos para alcançar uma definição dupla dos filmes de 35mm) mas também pelo método narrativo.
A tomada de Tróia é um puro êxtase cinematográfico, em que a poesia dos grandes clássicos da literatura grega é convertida em imagens inesquecíveis. A iluminação, a filmagem do fogo, com recurso a processos inovadores nem sempre digitais permitem, nesses momentos privilegiados, viver a acção com a intimação do sonho.
O filme é, evidentemente, desigual. A queda de Tróia, o episódio de Polífemo ou o dos ciclopes que utilizam toda a sabedoria do cinema com a elipse, o fragmento que nos obrigam a imaginar, isto é, a participar na criação da obra, vão a par de cenas menos conseguidas como a do célebre cavalo na praia (embora da narrativa constem jóias de realismo, como o pormenor dos embuscados dentro da estátua, sofrerem, nesse confinamento, durante horas, o fedor da urina e das fezes que não podiam lançar para o exterior) ou a ilha em que um leão, um tigre e outras feras surgem aos olhos do espectador como uma filmagem do jardim zoológico.
A recorrência das imagens mais marcantes da conquista da cidade espartana podia ser dispensada, se o espectador soubesse ler a primeira apresentação. Por exemplo, a estátua decapitada no tumulto da refrega representa Atena e com essa cabeça decepada, o Ulisses de Nolan reflecte sobre a grande desgraça da guerra, o que quer que Agamemnon, o chefe dos exércitos pensasse.
Este Ulisses não é o herói das versões anteriores - estou a pensar em Kirk Douglas - que se descobre no final para atingir os pretendentes com as flechas certeiras do seu arco - que mais ninguém consegue dobrar. É um homem sem ilusões, tirando a dos deuses a que não poderia escapar, modesto e humano ao ponto de ouvir os outros.
Não, isso não podia estar em Homero. E depois? Quem podia esperar que um mortal que fez um filme em que os soldados gregos da famosa epopeia dizem O.K. e falam americano pudesse realizar o milagre de superar os quase três milénios que nos separam da história do vate dos vates?
Uma palavra sobre a música do sueco Ludwig Göransson. Não fica no ouvido porque não é melodiosa. Podia ter sido escrita por um dodecafonista, um cultor de Hip-Hop ou R&B e soul. Mas tem o grande mérito de servir as imagens sem nos distrair delas. Nessa função, responde à figura do herói de Nolan que Matt Damon cumpre sem génio mas com toda a eficácia.
A minha resposta aos escrúpulos de Frederico Lourenço é a de que é necessário, depois do entretenimento, voltar a ler Homero.
A "resposta" turística é visitar o Peloponeso.
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