Noite de S. João, 1960 – Teófilo Rego
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A noite apelidada de S. João, mas que, na verdade, celebra o advento do solstício astrofísico do Verão, é, genericamente, uma noite sem classes, em que se misturam, na rua, pobres e ricos, exceptuados os que, por razões várias, preferem ficar em casa.
O que mais surpreende é o contacto físico, embora fugaz, entre desconhecidas gentes “tripeiras”, refiro-me à “Antiga, Mui nobre, Sempre leal e Invicta cidade do Porto”, onde nasci e resido, como se fosse a minha casa. Nesse contacto momentâneo, em que se deixa cair a máscara, é a igualdade humana que se manifesta.
Quando eu era pequeno, os meus pais sempre me levaram à noite de S. João, ao tempo concentrada na baixa e nas Fontaínhas. Usava-se o alho-porro, cuja cabeça pousava, brevemente, na cabeça dos passantes, e o ramo de cidreira para dar a cheirar às meninas e senhoras. Mais tarde, o cumprimento sanjoanino passou a ser feito pelo martelo de plástico, com o seu característico ressoar na noite.
Na minha rua, um meio pobre ou remediado, com o santo de barro na mão, instávamos os passantes a dar-nos um tostãozinho para o S. João, enquanto na quinta ao lado se fazia a degola dos inocentes, para, no dia, as “donas de casa” prepararem a assadeira com o anho e as batatas, e a levarem, coberta com um pano, ao forno da padaria. À hora de almoço, voltavam â padaria para levantarem a sua assadeira. Em casa, trinchava-se, sem remorso, o produto do sacrifício sanjoanino.
“Meu senhor, dê um tostãozinho para o S. João. Oh! dê…”
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