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01/05/26

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ÁRTEMIS

Mário Martins

Moeda datada de 253-241 AC, representando a deusa grega da caça Ártemishttps://gulbenkian.pt/museu/deuses-olimpo-na-colecao-gulbenkian/artemis/

 

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.                                                                                                              

Albert Einstein


Os tempos alucinados que vivemos, a fazerem jus à célebre frase atribuída a Einstein, convidam a uma evasão. O programa espacial da Nasa, nomeadamente o lunar, é uma oportunidade virtual de o fazer.

Em meados do ano que vem, será lançada a Ártemis III, com o objectivo de testar um módulo de aterragem lunar HLS, em órbita terrestre.

A primeira alunagem do programa está prevista para a missão Ártemis IV, no início de 2028.

Oficialmente, o programa visa estabelecer uma base lunar permanente, cujo início de instalação, com o lançamento da Ártemis V, está previsto para o fim de 2028, - se os prazos não derraparem ou o programa não for adiado ou, simplesmente, cancelado - como passo inicial para “missões tripuladas ao espaço profundo”.

Mas uma “simples” ida e volta a Marte, com a tecnologia actual, afigura-se empresa para tripulantes românticos suicidas. Se a Lua fica “já ali”, a cerca de 400.000 kms., Marte está a uma distância mínima de 55 milhões de kms. e máxima de 401 milhões, dependendo das relativas posições orbitais. A aproximação máxima ocorre a cada 26 meses, permitindo janelas de lançamento para missões espaciais, espaçadas no tempo. 

Há vários desafios decisivos que uma missão tripulada a Marte deverá superar (Wikipédia):

  1. efeitos físicos da exposição a raios cósmicos de alta energia e outros tipos de radiação ionizante;
  2. efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa gravidade;
  3. efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa luminosidade;
  4. efeitos psicológicos do isolamento da Terra;
  5. efeitos psicológicos da falta de comunidade devido à falta de conexões em tempo real com a Terra;
  6. efeitos sociais de vários humanos vivendo em um ambiente “tumultuado” por mais de um ano terrestre;
  7. inacessibilidade às instalações médicas terrestres;
  8. efeitos físicos da alta velocidade de escape marciana 5 km/s dificultando o retorno.
  9.  Uma troca completa de mensagens (pergunta e  resposta) demora entre 6 e 40 minutos, dependendo   da posição dos planetas.
  10. A comunicação pode sofrer interrupções temporárias  (aproximadamente 2 semanas a cada 26 meses) quando Marte está atrás do Sol, devido à interferência electromagnética

Em suma, uma ida e volta de humanos a Marte nos próximos tempos, é pura ficção. Sem que ocorra um salto tecnológico radical, a alternativa é o desenvolvimento da robótica, apesar de, por razões financeiras, não se enviarem para o inóspito ambiente marciano equipamentos recém-desenvolvidos, mas apenas os já longamente testados, a fim de se evitarem, o mais possível, as perdas (sempre da ordem de grandeza de 1.000 milhões de dólares). Para se ter uma ideia, os robôs já enviados ao planeta vermelho custaram, cada um, mais de 2.000 milhões de dólares, a Àrtemis II 4.000 milhões, e todo o programa está orçado em 100.000 milhões.

Neste momento, por trás do objectivo de “missões tripuladas ao espaço profundo” está o desenvolvimento de aplicações militares e a inovação tecnológica em geral, bem como a eventual exploração de minérios lunares e de Hélio-3 (considerado o "ouro da Lua", é um isótopo raro na Terra, ideal para energia de fusão limpa e sem emissão de carbono), mas cuja remessa para a Terra se afigura muito custosa.

Este é o programa oficial da Nasa. Qual será o das concorrentes China e Rússia?

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Cabo da Roca. Onde a terra acaba e o mar começa. A natureza como a vida, um contínuo terminar e recomeçar. O comboio não se aproxima do mar. Esta Linha do Oeste tão desprezada e esquecida, deixou-me em Agualva-Cacém, mas a ligação a Sintra é curta. Quando poisamos os pés nestes territórios sente-se de imediato a pressão dos grandes aglomerados populacionais, a margem para onde são empurrados os que não gravitam na órbita interna do poder. Contorno o povoado, outros horizontes me levam, em direcção a Colares pela N247. Logo que atravessamos Azóia sentimos a presença do mar e a cada passo que damos adquirimos a sensação de que é o oceano que se dirige para nós e não o oposto. Quando o edifício do farol nos enche o olhar, aparece-nos essa mistura de infinitos de azul. A luz vigilante sobre o promontório abarca nos seus feixes luminosos o mar e a terra, e traz-me à memória, o cego que com uma lanterna ilumina na noite o caminho aos que vêem. O sentimento que nos acode é o de infinito e eternidade, esses longínquos que o pensamento tem dificuldade em assimilar, onde não há começo nem fim, apenas continuidade. Sim, essa continuidade que tanto desejávamos viver e, sabemos como tudo à nossa volta é tão efémero, tão frágil, tão breve. Deveríamos procurar o hoje e o aqui e sempre sonhamos com o amanhã e o longínquo, numa dessas contradições humanas que não conseguimos vencer. O sorriso que ansiei à chegada não estava onde sonhei, mas apareceu quando o meu olhar procurou a vertente do farol. Recordas o poema de Saramago sobre o nascimento da Afrodite? As ondas a chegar em infinitos de azul como aquelas que vemos no sopé das arribas, uma e outra vez desenrolando a sua espuma sobre as areias e a pedraria que se desintegra lentamente em pequenos grãos, transformando-se em novas formas de matéria. Há momentos em que a solidão necessita de companhia, mesmo que o silêncio substitua as palavras. Quando os nossos olhos galopam pela extensão desta planície de azul, sentimo-nos ao mesmo tempo poderosos e demasiado pequenos, ínfimos, como os corpos físicos que vão desde a pequenitude do protón à grandeza das galáxias. Terá sido esta forma de ver o que aconteceu aos aventureiros que zarparam séculos atrás pelo mar fora na procura do desconhecido? É bem possível, uma mistura de aventura, de curiosidade e de interesse por conhecer o que está para além da linha horizontal que se desloca com o mesmo movimento do nosso olhar. Não descobriram nada, pois não se descobre o que já existe, mas encontraram um mundo de sabores, de culturas, de cores e aromas que os enriqueceram. A uns em património feudal e a outros, muito poucos, em saber cultural. Ao pensar nas últimas paragens desta viagem que me leva, deparo-me com estes contrastes, a infância da nação em Leiria, a beleza com que presenteamos o divino em Alcobaça e na Batalha, as prisões com que os sátrapas pensavam sufocar a liberdade, em Peniche, a ostentação do poder quase sempre apoderado pelos medíocres em Mafra e aqui, neste fim de terra, a sensação plena de uma liberdade que o ser humano tanto anseia, tanto procura, tanto sonha e quantas vezes parece perseguir como uma utopia. “Erguem-se muros em volta do corpo quando nos damos”, recordas quando nas noites profundas dos anos de chumbo, soletrávamos nas madrugadas sem sono e derrotávamos o medo assaltando os portões das fortalezas onde procuravam guarida os arcontes de um poder bastardo? Calavam, prendiam, torturavam, assassinavam e no final, quando as paredes de barro dos alcáçares onde se escondiam derreteram, queriam ser tratados com dignidade. E na verdade, foram, muito mais do que aquela que mereciam, saíram incólumes, sem ser julgados pelos crimes que cometeram ou que mandaram fazer. Quando percorremos os milénios da História, desde os símios de África, passando pela grandeza das civilizações mesopotâmicas e os milénios da nossa era, o que encontramos sempre é o planeta ensopado no sangue daqueles que se erguem perante o despotismo dessa gente que se alça em faraós, que se crismam como representantes de deuses que inventam para gáudio da sua loucura. Agem todos como se fossem eternos, mas acabam em sarcófagos sem qualquer préstimo que não seja desaparecer para todo o sempre na glória de não valerem coisa nenhuma. As paisagens que a natureza desenha e nos deleita no prazer de olhar, sempre nos mostram a transitoriedade de todo e qualquer ser animal, com inteligência ou sem ela. Mesmo criando infernos e purgatórios, aqueles que crescem na podridão excrementosa de pântanos de águas estagnadas onde só vislumbram, dinheiro e poder, acreditando que as suas ambições ignominiosas podem prevalecer, usando para tal, os aparelhos repressivos que montam nos Estados onde se alavancaram como senhores absolutos, não desistem do exercício da maldade. Quedemo-nos com a alegria deste azul luminoso, este vaivém das ondas espumando em brancura contínua num deslizar preguiçoso pelos pequenos recantos de areia que se escondem entre estas atalaias da penedia e acreditemos que o mundo é perfeito e que só necessitamos de nos aconchegar no pequeno tempo em que decorre a nossa vida. O postal hoje segue contigo.

FIDEL

Manuel Joaquim

https://share.google/6DnYHte5EyOIcuR35



Intervenção efectuada na Conferência realizada no passado dia 19 de Abril, na Voz do Operário, em Lisboa, Centenário de Fidel Castro – Cuba, a Revolução e o Mundo”

 

Centenário de Fidel Castro


Nesta Conferência, integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Fidel Castro, nasceu em 13 de Agosto de 1926, deve registar-se a sua passagem pela cidade do Porto, durante a VIII Cimeira Ibero-Americana que se realizou nos dias 17 e 18 de Outubro de 1998, no edifício da Alfândega do Porto.

A Comissão Regional do Porto de Luta contra o Bloqueio e de Solidariedade com o Povo de Cuba iniciou a sua actividade nos primeiros anos da década de 90, no chamado “Período Especial” e teve o  ponto alto da sua actividade na visita de Fidel Castro ao Porto.

A Comissão coordenou núcleos de activistas solidários com o Povo de Cuba em todo o norte do País, colaborou com núcleos da Galiza e de outros locais de Espanha e com a Associação de Amizade Portugal-Cuba. Promoveu actividades para criar e reforçar relações directas com instituições culturais, artísticas, sindicais, com organizações congêneres cubanas entre outras, como contributo para a luta contra o bloqueio. Realizou muitas iniciativas de solidariedade, debates com jovens, enviou materiais escolares e diversos equipamentos que encheram um camião que foi despachar ao porto de Vigo. Realizou jantares de confraternização e encontros com personalidades de Cuba. Participou na Festa da Alegria, em Braga, com um espaço próprio, onde recolheu em papel cenário centenas de assinaturas em solidariedade com Cuba, editando depois uma colecção de postais com a reprodução dessas assinaturas.

Publicou um álbum com dois desenhos de Che Guevara, de autoria de Siza Vieira, e com um poema de José Saramago sobre Che Guevara. No seu lançamento esteve presente o filho de Che Guevara, Camilo Guevara, que teve a oportunidade de rubricar muitos álbuns.

No dia 18 de Outubro, último dia da Cimeira, a Comissão organizou durante a tarde uma grande manifestação com muitas bandeiras e balões, que desfilou pelas principais ruas do centro da cidade do Porto com muita gente vinda de todo o lado, em camionetas, em comboios em automóveis, notando-se a presença de muita gente vinda da Galiza, de Madrid, das Astúrias e da Catalunha, que teve como principais palavras de ordem “Fidel, Amigo, o Povo está contigo”; “Cuba sim, Bloqueio não”; “Cuba Vencerá”. A manifestação mereceu a simpatia e o apoio de muitas pessoas ao longo das ruas.

A manifestação terminou na Praça D. João I com a aprovação de uma moção onde se apelava a todos os chefes de Estado e de Governo presentes na cimeira todos os esforços e iniciativas para que o bloqueio a Cuba  fosse levantado a bem da Paz, da Justiça e do Desenvolvimento que, entretanto, foi entregue ao ministro dos negócios estrangeiros Jaime Gama.

 À noite, a Comissão organizou um “Concerto de Solidariedade com Cuba e contra o Bloqueio económico dos EUA” no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos, o maior espaço disponível na zona da cidade do Porto, com a participação solidária de muitos artistas, alguns vão participar hoje nesta iniciativa.

Milhares de pessoas encheram completamente o recinto. Muitas não conseguiram entrar.

A noite começou com o Coral de Letras da Universidade do Porto a cantar “Grândola, Vila Morena”. Uma ovação espontânea aconteceu quando se verificou a presença do General Vasco Gonçalves sentado nas bancadas com “O Povo Unido Jamais será Vencido”.

Os boatos que entretanto circulavam davam como certa a presença de Fidel Castro. E assim aconteceu. Num ambiente de euforia, Fidel entrou acompanhado de José Saramago, de Carlos Carvalhas, de Aleida Guevara, filha de Che Guevara, e de outros. 

O Prémio Nobel 1998 está com a Revolução Cubana” Foi com esta frase que Saramago iniciou a sua intervenção. “ A todos nós que admiramos Cuba, Fidel Castro dá todos os dias uma lição de coragem exemplar, num tempo como o nosso em que a abdicação da dignidade faz parte do quotidiano de todos os dias na maior parte do mundo”, declarou Saramago.

Em seguida falou Fidel. O seu discurso, improvisado, de mais de duas horas e meia, começou por dizer que quem estava no palco não era um “revolucionário velho” mas “ um velho revolucionário”. Foi seguido com toda a atenção, pelas pessoas sentadas e pelas centenas de pessoas em pé. Falou sobre a situação interna em Cuba, a crise económica mundial, o desaparecimento da União Soviética, afirmando que “Com Cuba o socialismo não morrerá ” mas que ”Os defensores da revolução não podem cruzar os braços, têm de lutar em todas as frentes e em todas as tribunas”

Rematou a sua intervenção com “E com Cuba venceremos todos! Hasta la vitória sempre!”

A Comissão, entretanto, criou uma página na internet “Porto com Cuba”´, sempre actualizada, com notícias sobre Cuba, com centenas de consultas.

É de registar que o Presidente da Comissão, Sérgio Vinagre, foi condecorado por Fidel Castro, pelo trabalho colectivo desenvolvido pela Comissão em defesa de Cuba, cuja condecoração foi-lhe entregue pelo Senhor Embaixador de Cuba, em Lisboa. 

CUBA VENCERÁ!


FRANÇOISE

António Mesquita
Oswald de Andrade
https://pin.it/50Jyx2y6Q


"Os progressos da civilização permitem a cada um manifestar qualidades insuspeitadas ou novos vícios que os tornam mais queridos  ou mais insuportáveis aos seus amigos. Foi assim que a descoberta de Edison tinha permitido a Françoise adquirir um defeito mais, que era o de recusar, qualquer que fosse a utilidade, ou a urgência que houvesse, servir-se do telefone. Ela encontrava maneira de fugir quando se queria ensiná-la, como outros na ocasião de serem vacinados."
 (Marcel Proust)


A criada de Marcel, Françoise, reage como um aborígene perante a invasão de estranhos. Os seus modos aldeãos e a sua pouca educação brande-os como outras tantas armas de defesa. O seu patrão, o jovem, futuro autor de "La Recherche", que não perde uma oportunidade de usar a recente técnica do telefone para falar com a mãe, os amigos e a namorada, ou ouvir as óperas de Wagner em casa através do teatrofone, observa essa relutância com uma curiosidade intrigada.

Não podemos imaginar, nós, contemporâneos da mais acelerada inovação tecnológica, o mundo que se abriu, com o telefone, aos humanos do século dezanove. É preciso reler as páginas dum memorialista de antes desse tempo, para perceber o que mudou, quando deixamos de depender do correio pedestre ou a cavalo ( é verdade e o dos pombos-correio) para comunicar com os outros. Vassili Grossman, a propósito dos campos siberianos, fala  das  cartas "que eram atiradas da escuridāo dos vagões para a escuridão da grande caixa do correio da estepe - e essas cartas chegavam ao destinatário!". E Chateaubriand fala-nos do tempo dos cavalos de muda: "A um quarto de légua aquém de Orgon, ele julgou indispensável a precaução de se disfarçar: vestiu uma sobrecasaca azul coçada, na cabeça um chapéu redondo com um lenço branco, e montou um cavalo de posta para galopar diante da sua viatura, querendo assim passar por um correio."

Aliás, este fenómeno de  aceleração faz-nos incorrer num erro, já reportado por Alan Sokal, de apreciar a própria ciência sob o ângulo da mudança radical de conceitos, a exemplo do marketing comercial, que, evidentemente, é  o modo mais certo de nos extraviarmos. Mas é uma espécie de preconceito anti-Françoise. Damos de barato que é agora normal a ciência revolucionar em cada novidade a filosofia da existência.

Por isso, a atitude cautelosa em relação à tecnologia seja quase sempre confundida com uma mentalidade retrógrada ou fora do seu tempo. Não é mesmo de excluir que no país que protagonizou os maiores e mais rápidos avanços técnicos, as pessoas, ou um significativo número delas, se sinta atraída por formas de religiosidade nas margens da superstição, como acontece com a seita dos evangélicos, com quem se identifica o paradigma da confusão que é o actual presidente dos USA.

O telemóvel que reúne em si os poderes da recente tecnologia numa superconcentração de espaço não deixaria a Françoise a liberdade de o recusar, se o conhecesse, como ela fez com o telefone. E isso porque a antiga convivialidade que reúne fala e imagem, numa alucinante simulação da presença física não lhe deixaria essa opção. A ingenuidade não nos protegeria da técnica, isso apenas está ao alcance da ideologia.

Esperam-nos tenpos mais do que interessantes.

POESIA

Helena Serôdio





PARÊNTESIS

 


Talvez eu te deseje assim,
Apenas inventado,
Sem algemas,
Livre,
Saído do meu pensamento
Como um círio aceso
Que logo se apaga.
Ou nascido de um sonho indefinido,
Que se dissipa com a madrugada..
Ah! Não,
Não te quero aprisionar,
Nem possuir,
Para a minha ânsia não desfalecer...
Só quero que a tua presença incorpórea
Repouse, imóvel, sobre a minha carne,
Que a tua sombra se alongue nas paredes da tua alma
E permaneça imutável,
Suspensa na noite,
Quando eu te procurar...
Tu encarnas o meu poema,
És música na chuva que canta,
Lágrima na gota de orvalho,
Sol num olhar de criança.
És o eterno ausente,
Sem nome.
Surges da nuvem que passa.



01/04/26

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CINEMA

António Mesquita





O ESTRANGEIRO
(Filme de François Ozon de 2025)






"Como se esta grande cólera me tivesse purgado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraterno, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, só me faltava desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que eles me acolhessem com gritos de ódio."
              (Albert Camus, "O Estrangeiro")



É assim que termina o célebre romance de Camus, no tom apaziguado e acima das querelas desse e de qualquer tempo, dum filósofo mais budista do que europeu, e como a tese é a do absurdo, nos antípodas duma explicação do homem pelo contexto.

É precisamente no final que o filme de François Ozon diverge do texto camusiano. No resto, é exemplarmente fiel. Rodado em preto e branco “frappant”, o filme aposta num classicismo retro‑modernista, com um tratamento fotográfico que captura o “calor”, a luz e a secura existencial do texto.

O filme começa com um jornal de actualidades num registo turístico e superficial, seguido de cenas de rua de que uma toada árabe mais grave revela o significado escondido. A ausência de cor funciona maravilhosamente  com a narração depurada. A música é de Fatima Al Qadiri.

A personagem principal, Meursault (Benjamin Voisin), um escriturário francês a trabalhar em Argel, nos anos da ocupação colonial, não pretende defender-se em tribunal por ter assassinado na praia, com alguns tiros, um indígena que não lhe dizia nada - era apenas  o irmão da argelina de quem o seu vizinho Sintès (Pierre Lotin) era o proxeneta.  

Ninguém, no julgamento, magistrados e júri, compreende a sua aparente indiferença, tal como ficaram chocados, antes, na ocasião da morte da mãe - no mesmo dia do funeral, foi capaz de ir à praia e de namoriscar Marie (Rebecca Marder), uma jovem da sua raça, e acabar com ela na cama, depois duma comédia de Fernandel, num cinema local.

Meursault alega, como única defesa, que o outro puxou duma navalha e o brilho do sol na lâmina o perturbou ao ponto de lhe provocar o reflexo assassino.

Apesar de ter recusado a assistência dum padre, na prisão, é visitado por um homem da igreja, apostado em "salvar a sua alma". É aí que o prisioneiro revela, no auge da discussão, os seus verdadeiros motivos, circunstância em que, embora ao arrepio da construção da personagem - mas evitando por outto lado, a suspeita de uma doença mental, expõe as ideias mais marcantes do romancista, nascido na Argélia, recorde-se.

Todos os franceses na sala, não fosse a sua atitude, lhe seriam favoráveis, dentro do espírito colonial, mas a sua  apatia, tal como no enterro da progenitora, deitara tudo a perder. Também era de indiferença a sua atitude quanto ao futuro e ao veredicto pendente - nem a própria ideia de uma absolvição, ou de uma curta pena para a seguir se casar com Marie o comoviam. 

A sanção do tribunal, contra todas as expectativas à partida, é a morte por decapitação, "à la française". Quer o sonho da giilhotina, em vez da actualidade da execução, como outras sequências oníricas são magistrais.

O livro não termina com a visita da prostituta argelina à campa do irmão  num promontório, imagina-se, perto da praia em que ocorreu o crime. Só as "más-línguas" atribuem isso a uma concessão do realizador  a interesses da produção ou outros, alheios à história camusiana.

É claro que na situação da colónia, nenhuma justiça era esperada pelos "indígenas'. Se há um vislumbre dela é só porque o  criminoso se excluiu, talvez numa espécie de identificação subliminar com a atmosfera envenenada da cultura ocupante, ao ponto do seu gesto,  aos seus olhos, não ser consciente, mas maquinal, determinado pela situação. Chamar-lhe reflexo do sol não altera nada. Esta interpretação, porém, não é camusiana, como ficamos a saber com a discussão com o prelado.

O sistema judicial neste filme espelha a crítica de Camus à moralidade. Enquanto Meursault é julgado não apenas por seus actos, mas pela sua indiferença e falta de conformidade com as expectativas sociais, a obra de Camus questiona os critérios pelos quais a sociedade define o "crime" e o "pecado". O filme de Ozon mantém esse diálogo crítico, colocando em evidência a hipocrisia das normas sociais.

Vem a propósito uma citação final de Marco Aurélio, na versão de Ernest Renan, se quisermos compreender o texto camusiano.

"A mais perfeita bondade é a que se baseia no tédio perfeito, na certeza  de que tudo neste mundo é frívolo e carece de base real. Nunca existiu culto mais legítimo e hoje em dia continua a ser o nosso."




PILLION




O filme de Harry Lighton, "Pillion", não é a vida — mas o que a arte sempre foi: uma tentativa de lhe apreender um sentido.

Pensei em Pelion, terra dos centauros e nos costumes gregos. Mas é só o lugar atrás do condutor da mota (pellion). Porque é um filme de motoqueiros gay com a particularidade de se organizarem sexualmente como sado-madoquistas.

A paisagem 'motard', com a sua poeira, o ronco metálico e a promessa de liberdade, esconde afinal uma estrutura de dependência e dominação que o realizador não mitiga nem glorifica. A menor tragédia não é a de Ray (Alexander Skarsgård), incapaz de viver fora do seu papel de 'dominus'; é a do mundo que torna esse papel inevitável.

O  inconformismo do 'servus', Colin (Harry Melling) embora genuíno, é absorvido pela estrutura: obtém compensações, perde-as, e repete o ciclo como se a dependência fosse um ritual de iniciação. A comunidade em torno de Ray, unida por um culto pagão de força e dor, vive o erotismo como exorcismo; a ferida é também a marca da pertença. 

As cenas íntimas, filmadas com contenção, não cedem ao escândalo nem ao voyeurisme. No entanto, o olhar do espectador é conduzido a um desconforto mais profundo: o de reconhecer na relação entre Ray e Colin a sombra dos papéis conjugais tradicionais. O sadismo de Ray não é apenas sexual — é uma pedagogia da virilidade, eco de uma cultura em que o poder masculino define a gramática do afecto.

Como coisa pensada, o sexo, não importando a modalidade nem o desvio em relação à 'norma' é problemático. A relação de forças adoptada no sado-masoquismo é vista como uma solução degradante.

O ambiente familiar de Colin é o mais favorável possível à sua homossexualidade e os encontros com Ray são até encorajados. Até à cena em que a mãe de Colin, quando formalmente se conhecem, denuncia o sadismo de Ray.

O argumento é inspirado em "Box Hill" de Adam Mars-Jones e o filme não pretenderá ser, por isso, um retrato da sexualidade gay.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Mafra. Olho para o postal que te escrevo e sinto falta de palavras, espaços em branco que não consigo preencher. As emoções retiram ao pensamento a capacidade de raciocínio, de tentar compreender a diferença entre a realidade desejada e aquela que observo e sinto no pulsar do planeta. A pena não corre, tolhida pelo estupor das notícias que lemos e ouvimos e, assim crescem os espaços onde deviam estar letras formando palavras e frases. É possível que já viesse embebido dessa turbulência nas ideias quando a composição ferroviária demorou a chegar à estação. O seu movimento transmitia-nos a sensação de ter tempo demasiado como se os horários não existissem. Saí com os olhos embargados de luminosidade como se alguém tivesse ligado uma luz na escuridão universal e me cegasse momentaneamente. Demorei a acordar e criei em mim a ideia que já conhecia a Malveira, mas tudo quanto os meus olhos viam, era novidade. Ainda subi e desci, fui de Oeste para Leste, mas foi inútil, nunca tinha pisado aquela terra. Foi só ao atravessar S. Miguel de Alcainça que um clarão de luz vitralino me estimulou a memória. É verdade que tinha atravessado a Malveira mais do que uma vez, mas era a Malveira da Serra e estas Malveiras não são o mesmo espaço urbano. Pelo menos, espevitou um pouco de alegria na marcha triste que me levava para o Palácio Nacional. Sento-me voltado para a imponente fachada enquanto te escrevo. É mais um símbolo de poder e riqueza. Sim, naturalmente que sim, a biblioteca, os jardins, o claustro, a igreja basilical, merecem ser visitados, nesse tempo em que deixamos o olhar à vontade percorrendo cada recanto, apreciando e glosando cada bocado de arte, mas continua a ser um símbolo de poder imperial que se ergueu como afirmação disso mesmo. O ouro do Brasil transformado nessa arte barroca a que o meu olhar não consegue habituar-se. D. João V, fez erguer tudo isso para evidenciar o seu poder absoluto e tentar integrar-se nesse despotismo que grassava pelos impérios coloniais europeus. Punha-se em bicos de pés para que o vissem. Fomos sempre assim, quando o dinheiro jorrou desses tesouros coloniais, comportamo-nos como se o mundo acabasse amanhã e esbanjamos a riqueza numa roleta. Só por acaso, deixamos estas pedras que falam desses dias de loucura endinheirada. Aqui tudo são números grandiosos, nas paredes, nas janelas, nos torreões, nos carrilhões nas obras bibliotecadas. É tudo ouro que reluz. No século seguinte, a elite real em cruzador fugidio abandona o reino, deixando o terreno livre para a ocupação estrangeira. Nada de novo na história pátria. Afastei os passos para o silêncio e sossego da Tapada, mas se escapei aos tremores da nossa nobreza, caíram-me de frente os furacões do mundo. Acreditamos sempre na evolução da espécie humana, mas esquecemos que até as cordilheiras têm obscuros e profundos vales, gargantas estreitas, onde se podem juntar todos os perigos que nascem na perfídia mental da escumalha que engoliu o poder dos Estados. Já não é apenas a avareza, a ganância, a luxúria desvairada de um colectivo epsteiniano, é uma quadrilha monstruosa que se masturba bombardeando os povos no declinar imperial. Os judeus do chamado Estado de Israel alcançam orgasmos bíblicos em cada bombardeamento que dizima bairros residenciais, perseguindo o aniquilamento de civilizações milenares, e o homem laranja, com a extraordinária capacidade de dizer uma coisa e o seu contrário numa frase de quatro palavras, incapaz de conhecer a realidade que o envolve coloca o poder militar do império que desvanece numa espiral sangrenta e irremediável. Os Persas resistem com dignidade e só essa resistência é uma vitória sobre a barbárie. A investigadora Moudhy Al-Rashid fala-nos da Mesopotâmia em termos de aviso: “Um poema sumério, conhecido como ‘Lamento pela Suméria e por Ur’, escrito muito antes do abandono final da cidade na sequência de uma derrota militar durante os últimos dias da Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2000 antes da nossa era (…). O poema descreve um cataclismo tão terrível que até os mortos varreu para longe, com cadáveres a flutuar no Eufrates. «Os tempos escuros arderam em granizo e chamas», lê-se numa secção, «os tempos brilhantes foram apagados por uma sombra». Verso atrás de verso descrevem a mais completa devastação e mortandade com todas as metáforas possíveis.” O império está a deslizar para a morte, pode ainda arrasar cidades como em Ur, mas este escorregar contínuo na pedra nua, terminará no pântano enlameado da tumescência humana. Observo de novo a imponência do edifício, conto o número de janelas como se contasse os séculos percorridos pela Humanidade. Adquirimos muito conhecimento, sabemos imenso do nosso passado, mas cada geração insiste em parir o gérmen da maldade que se prolonga nas cadeiras sujas do poder e da luxúria e mata sem pudor quando lhe retiram o lugar onde vomita o manjar que sofregamente rouba. O postal segue hoje, enquanto embarco em novo comboio.                                 

LONGO INVERNO

Mário Martins
                           
https://www.google.com/search?client=firefoxbd&q=cat%C3%A1strofe+kristin+imagens


Saudemos a chegada da Primavera O General Inverno parece ter subido de posto

Cheias e ventos catastróficos inabituais neste “Jardim da Europa à beira-mar plantado”  Desconfiemos da promessa política de que nada ficará como dantes Oito anos depois do trágico incêndio de Pedrógão registou-se a segunda maior área ardida dos últimos dez anos Na Ladainha dos Póstumos Natais de David Mourão Ferreira “Há-de vir um Natal e será o primeiro em que veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo” E Marguerite Yourcenar, no seu livro "O Tempo Esse Grande Escultor", escreve que “No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado." E acrescenta “Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.» 

A Arte coisa de minorias não pode almejar mudar o mundo O povo vai atrás da última novidade tecnológica ou do primeiro demagogo que acenda o rastilho As feridas das tragédias são lavadas melhor ou pior pelo curso do tempo Como na metáfora de Yourcenar a dor transforma-se e a vida prossegue.

POESIA

 
           Helena Serôdio
 

 
Espera mais um pouco
 


Espera mais um pouco   
Não fales ainda,  
Não manches o silêncio com a tua voz.  
Pensa na vida que corre lá fora,  
Sugestões pesadas de ideias mortas. 
Ouve os soluços do vento norte 
Que despe a terra e sem pudor 
Deixa alçapões de medo abertos na noite.
Aperta-me os dedos, para me sentires viva,
Beija-me os olhos, para não chorar 
Meu amor calado no escuro,   
Com olhos de vitral a escorrer ternura.

RAPINAGEM

Manuel Joaquim

A Invencível Armada


Diz-se que uma desgraça nunca vem só. 

Um camião carregado com 12 toneladas de chocolates KIT KAT, da Nestlé, que saiu da Itália com destino à Polónia, foi roubado no centro da Europa e ainda não foi apanhado, o que vai provocar a falta de chocolates no período da Páscoa. Esta notícia está em todo o mundo e em Portugal em quase todos os jornais nacionais e regionais, naqueles que ainda existem.

Segundo agências de notícias internacionais, o secretário do interior dos EUA esteve na Venezuela e levou 100 milhões de dólares em barras de ouro para a sua terra. 

Não se sabe se estas notícias são verdadeiras ou falsas. Mas que estamos numa época de rapinagem estamos, por isso, podem ser verdadeiras.

O rei da rapinagem afirma que Cuba será o seu próximo alvo, depois da guerra com o Irão, esquecendo-se que já é alvo dos seus capangas há mais de 60 anos. Mas a guerra com o Irão só vai acabar quando o Irão decidir e ainda ignoramos em que condições.

Bhadrakumar, analista político indiano, num artigo agora publicado, escreve: As guerras são sempre imprevisíveis. O exemplo mais famoso é o de outra armada semelhante à dos EUA no Golfo Pérsico neste momento — a Armada Espanhola, uma frota naval de 130 navios enviada pela Espanha em 1588, comandada por Alonso de Guzmán, Duque de Medina Sidonia, um aristocrata nomeado por Filipe II de Espanha para invadir a Inglaterra, destronar a Rainha Isabel I e restaurar o catolicismo.

Apesar do seu poderio, a Armada Espanhola foi derrotada no Canal da Mancha por uma força inglesa mais pequena que utilizou navios incendiários e artilharia superior, sendo posteriormente em grande parte destruída por tempestades enquanto recuava ao longo da Escócia e da Irlanda.

A tão alardeada armada do presidente dos EUA, Donald Trump, tem mais ou menos a mesma missão que a Armada Espanhola — variando desde a mudança de regime até à derrubada do sistema islâmico de governação, passando pelo leitmotiv tácito de uma Cruzada. Curiosamente, também parece destinada a um final miserável semelhante, apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA.”

Quanto a Cuba, já tentaram várias vezes, tiveram o desastre da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis soviéticos e outros posteriores, tentativas de assassinato de dirigentes, particularmente de Fidel de Castro, e não conseguiram. Será em Cuba que o rei da rapinagem vai cair abaixo do cavalo e partir os dentes? Será desta vez que os EUA sentirão na sua própria casa o que é a guerra?

Os serviços secretos sabem muitas coisas mas ignoram muitas outras. O 25 de Abril apanhou de surpresa os serviços secretos do imperialismo. As capacidades bélicas do Irão apanhou de surpresa os mesmos serviços secretos.  Que outras situações ignoram?

São situações que estão a causar desespero em muitas cabeças de fanfarrões. Há um comentador da CNN, general com muitas condecorações, que fala em lançamentos de bombas atómicas por Israel ou pelos EUA para resolverem o problema da guerra. Já não é a primeira vez que esse sujeito fala em bombas atómicas. O problema da Rússia seria resolvido também com bombas atómicas. Fala de cima da burra como se os outros estivessem a dormir. O homem de Alcácer do Sal ensandeceu e a família e apaniguados não sabem.

Mas a rapinagem já vem de longe, de muito longe. A ONU finalmente reconheceu nesta última quinta-feira que a escravatura é um crime contra a humanidade. O comércio de escravos contribuiu para o empobrecimento dos povos africanos e outros e para o enriquecimento das economias dos países colonizadores. A resolução da ONU exigiu reparações pela escravatura que teve a seguinte votação: 123 membros votaram a favor, 52 abstiveram-se e 3 votaram contra, que foram EUA, Israel e Argentina. O Reino Unido e os 27 membros da União Europeia abstiveram-se. Portugal foi um deles. Foram os países colonizadores que levaram à força 12 milhões de africanos entre os séculos XVI e XIX.

Há cerca de uma vintena de anos, as companhias de seguros e os bancos estabelecidos em Portugal, por imposição de autoridades europeias, tiveram que declarar que não tinham bens, designadamente obras de arte, obtidos durante ou após a 2ª guerra mundial, rapinados às vítimas do nazismo para serem devolvidos aos seus legítimos proprietários. Alguns museus na Europa já devolveram a alguns países bens que lhes foram rapinados durante o colonialismo. Se vier a acontecer ….



01/03/26

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COLONIALISMOS

Manuel Joaquim

(Gungunhana)

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A Illustração Portuguesa, edição semanal do Jornal O Século, nº 124, de 6 de Julho de 1908, Director Carlos Malheiro Dias, noticia que o Capitão João de Almeida tinha regressado há dias a Lisboa, “que além de tantos outros serviços brilhantes prestados em África, comandou, em setembro do anno passado, a campanha contra os Dembos, que constituiu, como não pode estar esquecido, um dos mais gloriosos feitos modernos das armas portuguezas no ultramar, que elle conseguiu cumprir, de um modo notável, apezar dos combates que teve de sustentar e de ferido durante a marcha”

Os povos da região dos Dembos, nordeste de Luanda, Angola, lutavam contra a escravatura e a colonização. A guerra durou entre 1872 e 1919, 47 anos, o que levou à mobilização de milhares de militares portugueses para a guerra. O capitão João de Almeida regressou a Portugal, vítima de guerra. Quantos mais regressaram?

Em Moçambique a luta contra a colonização também durou vários anos, sendo mais conhecidas as campanhas durante finais do século XIX e princípios do século XX. Ainda está na memória de muita gente a figura de Gungunhana, capturado em 28 de Dezembro de 1895 por Mouzinho de Albuquerque com a respectiva família e transferido para Angra do Heroísmo, onde veio a falecer em 23 de Dezembro de 1906. Os seus apetrechos foram objecto de exposições na cidade do Porto e noutros lugares para os alunos das escolas apreciarem o que usava e restava do “inimigo”. Os nacionalistas moçambicanos consideravam-no um Herói Nacional. Os pretensos restos mortais, depois do 25 de Abril, em resultado de negociações entre Portugal e Moçambique foram transferidos para Moçambique.

Estas guerras acentuaram-se em consequência da Conferência de Berlim, de 1884. Os países imperialistas europeus pretendiam dividir entre si todo o continente africano, para obterem matérias-primas e mercados o que, de certo modo, aconteceu.

Contrariamente ao que muita gente pensa, a guerra colonial portuguesa, não se iniciou em 1960/1961. Os povos nunca se conformaram com o colonialismo.

As guerras que aconteceram ao longo dos tempos foram sempre para explorar e roubar. Aquelas a que estamos a assistir têm sempre o mesmo objectivo com os mais diversos pretextos: defesa dos valores democráticos, alcançar espaços vitais, luta contra armas nucleares ou outras, contra o terrorismo, contra o tráfico de drogas, etc., explorar e roubar.

Os portugueses andaram a exibir o Gungunhana. O Trump, de certo modo, andou a exibir o Maduro.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva


Peniche. A Linha do Oeste e a do Norte quase nascem paralelas, nas bandas do Mondego, mas a primeira começa a afastar-se em direcção ao litoral e a segunda ruma ao Vale do Tejo. A infra-estrutura ferroviária pensada e executada há quase cento e cinquenta anos, não contemplou a ligação da costa à lezíria. Compreende-se, era um tempo em que o importante e necessário era a ligação à capital. Do interior ainda não se procuravam as praias. O prazer do areal ainda era propriedade de uma minoria. Mas no presente a ligação existe, mas em alcatrão como os novos donos do território gostam. Evitei as Caldas, não por serem da rainha, mas porque não me cativou a imagem que se desenhou no pensamento. Já Óbidos me deixou na profunda dúvida, pelo seu ar medieval e pela graciosidade do seu casario. Mas já levava Peniche como destino. Entre a estação e a cidade medeia essa distância que não convida a caminhar, mas acabei por alcançar essa espécie de punho rochoso que se enfia na cabeça do mar. Já foi uma ilha e, na verdade continua a sê-lo pela existência de um canal que apenas cento e cinquenta metros de areia da praia da Gamboa permitem a ligação do território. É longa no tempo a presença humana nesta terra de pescadores, mas é o passado próximo que os meus olhos procuram e a memória demanda. É a fortaleza do século XVII, com as suas muralhas de pedra dura que nalgum ponto se aprumam sobre o mar que os meus passos indagam. Ainda trago o silêncio contemplativo das abóbodas de Santa Maria dos cistercienses, mas aqui, neste espaço agora com luz e brancura, o silêncio parece de chumbo. Se paramos na tentativa de interrogar essa ausência de sons, acreditamos ouvir vozes clamando, gritos profundos de sonhos amordaçados, contidos entre gradeamentos de ferro, salas inquisitoriais, predadores armados vociferando, animais humanos procurando rasgar ideias e, lá no fundo, onde a muralha toca o mar, escuta-se o verso de quem viria a escrever História, “sou barco abandonado/na praia ao pé do mar/e os pensamentos/são meninos a brincar”. Mas os barcos nunca estavam abandonados, nem na esperança nem no acreditar na palavra liberdade, “noiva dos rebeldes”, como escreveu o poeta Thiago de Melo. Nestes corredores por onde agora o sol penetra, quantas sombras obscureceram centenas ou milhares de vidas, sonhos interrompidos, vidas suspensas que quando aqui chegavam já tinham passado pelas masmorras da tortura, do asselvajamento daqueles que nunca viriam a ser julgados e menos ainda condenados. Devia este ser um lugar de visita obrigatória para que não se esqueça e para que o nunca mais seja isso mesmo. Os que por aqui deixaram tanto da sua vida, poucos são os que têm o seu nome gravado na toponímia dos lugares, como homenagem ao seu esforço de justiça, mas aquele que aqui chegou na noite da libertação, enviado pelo zarolho para decidir quem era libertado, tem o nome espalhado por qualquer pedra que se encontre desde a remota aldeia até ao aeroporto da nobre e sempre invicta cidade. A liberdade e a democracia nem sempre é grata aos que a defenderam como interesse de vida colectiva. Resta este Museu como memória recordatória e símbolo de dignidade. O postal deixo-o na cidade e regresso a pé para arejar o pensamento e a desolação que levo pela continuidade da maldade humana.    

FRESTAS

António Mesquita



A primeira coisa que se destaca neste filme duma tunisina (Ben Hania) sobre a guerra em Gaza é a centralidade dum episódio que não tem peso nenhum na guerra,  nos seus motivos, ou interesses: uma criança palestiniana sobrevive no carro bombardeado em que seguia com a família. Ao longo de horas, pretende-se socorrê-la mas para isso é preciso acordar com os israelitas o livre trânsito duma ambulância na zona ocupada. A autorização acaba por chegar ao fim do dia, mas a luz verde não é respeitada pelas forças no terreno e a viatura é alvejada, matando todos os ocupantes. A menina é entregue à sua sorte.

Casos como este são o mais comum nas várias frentes de guerra. E o que é que se tira daqui senão a confirmação de que o "pior dos males" não depende de que lado estamos, mas nos atinge a todos duma maneira ou doutra? 
A luz verde de Telavive não foi obedecida pela própria tropa israelita, levando assim a aparência de perversidade a um novo patamar. Mas as comunicações falham e a informação falha, mesmo quando é do interesse vital dos mandatários, como foi a "surpresa" do 7 de Outubro que deu início a esta ofensiva contra o Hamas. Pelo estreito entrosamento familiar do grupo armado com a população, esta acção surge como uma guerra contra o povo da Palestina. Os judeus, pelo seu lado, têm aqui a sua anti-Shoah.

O cinema, neste caso, não escapa a uma leitura instrumentalizada que pretende fazer da tragédia dum ser indefeso o símbolo de todo um povo.
O espectador europeu, reage, no seu teatro longe da guerra,  com a sensibilidade esperada a uma injustiça deste tamanho. E nisso, participa duma audiência, pode-se dizer mundial, numa tragédia-espectáculo que o deixa frustrado, mas o poupa à consciência mais "realista" do que se passa no mundo, às vezes  bem perto de casa. O povo americano que vive em tendas no perímetro das grandes cidades não se sente em contradição quando vota num milionário que faz tudo para lhes tornar a vida mais negra. Mas não podemos descartar o problema chamando-lhe masoquismo ou falta de informação. 

A doutrina, agora como na Idade Média, explica este voluntariado da desgraça.
A verdade é que não poderíamos viver as nossas vidas, sofrendo ou simplesmente simpatizando com todas as vìtimas das guerras, da violência  social, económica ou familiar que existem a todo o momento neste singular planeta. É, pois, uma espécie de privilégio, a somar aos outros mais ou menos certos, este do não-conhecimento.

Há nomes de figuras sinistras para todos os gostos, desde Putin a Netanyahu, para não falar das que fizeram a história do martírio de sempre, que nos permitem, por assim dizer,  sintetizar  o problema, vencer ilusoriamente,  por um tempo, o "Mal" (vai com aspas porque estamos a escamotear a questão do que o que chamamos mal é apenas o que já os Gregos chamavam de Necessidade), seja lá o que isso for.
A julgar pelo passado e, sem dúvida, pelo presente de tantas situações, do que precisamos com toda a urgência, é duma doutrina. 

As mulheres muçulmanas, em certas sociedades, são vistas por detrás duma fresta para os olhos. Até a dor tem que passar pela fresta. Esse é bem o exemplo do papel duma doutrina.

E o dogma da Imaculada Conceição, definido por Pio IX há cento e setenta e dois anos, a 8 de Dezembro de 1854. Outra fresta...

PENSAMENTOS SORTIDOS

Mário Martins



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Uma frase política muito em moda, que o presidente da república eleito não deixou de dizer no seu voluntarioso discurso de vitória, é “que ninguém fique para trás”. Trata-se de um floreado do jargão político, no melhor dos casos bem-intencionado, mas que a história humana não autoriza.

A pobreza, que o senador americano Robert Kennedy, antes de sucumbir à lei da bala, considerava ser uma falha moral, aparenta estar para durar; as eufemísticas “assimetrias” grassam por esse mundo fora, numa escala talvez sem precedentes, mas, no essencial, em linha com o passado.

Não falta justificação para a revolução social. Contudo, as conexões intrincadas e dependentes do mundo actual impossibilitam, praticamente, a sua realização num só país, e o conceito de “revolução mundial” pertence ao passado.

A revolução social produz(iu) a chamada “legitimidade revolucionária”, e esta o poder indefinidamente prolongado, sem liberdade e audição regular dos cidadãos, porque os seus dirigentes “sabem” o que o povo quer.

Sempre houve e haverá revoltas populares, mais ou menos inorgânicas. A dos “coletes amarelos” acossou o governo francês, terá conseguido a satisfação de algumas reivindicações, mas o “sistema” não foi posto em causa nem para tal havia ou há alternativa.

Paradoxalmente, o inebriante progresso tecnológico é uma linha paralela que, como tal, não intersecta a paralela da pobreza e injustiça, apesar de moldar o modo de vida.

O humano é demasiadamente complexo para caber numa “lei”. Em carta ao poeta Eugénio de Andrade, Agustina escreveu que “A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses”. Eis um modo de dizer que o mistério da existência (que povoámos com deuses) nos é inacessível, apesar do esforço filosófico, científico, poético, literário, ou da “revelação” mítico-religiosa.

O mundo está (novamente) louco, e a precisar de se deitar no divã da             psicanálise. Mas a cura não está à vista. Caberá aos jovens, de hoje e de amanhã, encontrá-la.

POESIA

Helena Serôdio





 


OLHA MAIS ACIMA


Não te queixes da sorte, meu amor
Na verdade, ela às vezes é cruel...
Ainda assim, seja mesmo como for,
Suporta do destino todo o fel.
O desespero aumenta nossa dor...
Dirige com coragem teu batel,
Nem sempre tem o céu a mesma cor
E nem tudo na vida é sempre mel.
Crê mais em Deus! Tem fé! Tem esperança...
Pois tudo é passageiro neste mundo
E após o temporal vem a bonança.
E não esqueças nunca essa verdade.
O nosso amor é por demais profundo,
Só cabe mesmo numa eternidade!..



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