01/07/26
NO CORRER DOS DIAS
Alcácer do Sal. Creio ter sido Sophia, a nossa poetisa inesquecível de quem nos privaram do usufruto dos seus Jardins onde convivia na serenidade do mundo poético com a galega Rosalia, que disse um dia que viajar é olhar. Muitas vezes viajei por outro dos seus jardins, os da infância, onde, tal como agora, pensava que as separações nos privam sempre de algo que faz parte de nós. Ficaste em Azóia e pensava que ainda me acompanharias para Sul e agora ao deixar Espichel encontrei outra Azóia e a memória abriu os braços à procura de onde pousar. Talvez tenha sido isso que me deixou por aqui longas horas, por estas arribas, a permitir que o olhar viajasse, e o usufruto do mar oceânico, é sempre um consolo para a alma. Apreciado de longe, parece uma planície de azul. Tive tempo de procurar ver como vai o estado da arte. Vivemos num planeta de plena beleza, sobretudo se olhado da solidão do cosmos, mas a cada momento que o olhar se aproxima a formosura vai-se diluindo nas imperfeições humanas. A sedentarização conduziu à divisão territorial e daí, aos poderes e ao seu exercício, foi um pulo na evolução humana. O resultado civilizacional de milénios é o que vemos hoje, invadem-se países para raptar presidentes, assaltam-se petroleiros em alto-mar para roubar petróleo, liquidam-se líderes e ameaça-se fazer desaparecer civilizações milenares com o único objectivo de se apossar de reservas petrolíferas, alimenta-se uma guerra com a única finalidade de destruir supostos concorrentes. Os assaltantes gabam-se publicamente dos seus actos de pirataria e roubo. Tudo isto em nome da liberdade, da democracia dos direitos humanos. Este novo normal, entrou num habitualismo que já nem notícia chega a ser. Mesmo ignorando o campo de concentração dos doentes mentais que se instalaram a ferro e fogo na Palestina, o nosso mundo, o nosso tempo, atravessa caminhos de selvas sombrias. No entanto, a contemplação desta serenidade marítima ao lado desta Arrábida que parece repousar em sossego, transmite-nos uma sensação de acalmia, de conforto. Por isso, soltei-me das memórias e vagueei, por esta Azóia, não a que nos viu seguir caminhos opostos, mas a que leva até ao castelo de Sesimbra, erguido bem no alto e do cimo da torre de menagem hei-de voltar a ver o mar. Olvido os apontamentos que trazia, sobre Templários, supostas reconquistas, assaltos medievais, e caminhei apenas pelas ameias do castelo. É sempre interessante quando analisamos os outros com os nossos juízos de valor, pelo que não é surpresa quando abrimos certos livros e na mesma frase, falam-nos do reino Visigodo, da invasão árabe ou, carregando no pejorativo, o domínio dos mouros. Os Visigodos foram apenas um reino, não nos invadiram nem nos dominaram! O jogo das palavras pode sempre distorcer a verdade e destruir a realidade. Mouros, aparecem-nos sempre como seres malévolos, os malditos, raramente como participantes da história que é a nossa, a palavra não é sinónimo do povo mauri, mas de gente malvada que invadiu este território cujo domínio visigodo não tinha mais de dois séculos. E entre mouros e árabes não vêem diferença. Quando nos aproximamos um pouco, na verdade, nem sabemos que árabes e mauris estiveram por cá, que na corte árabe, quer de Sevilha, Córdova ou Granada, vivia a cultura mais avançada da época. Claro, temos Alfama e a Mouraria, que giro!, e Mafamude foi árabe, o castelo de Gaia, até a lenda da Fonte da Moura, que coisas giras temos para falar aos que nos visitam! É isto que leio nas pedras deste castelo. É verdade que os árabes estiveram aqui, não é fácil ignorá-lo, mas logo acrescentam que foi por ordem de D. Afonso I que o castelo foi reerguido. Temos também os romanos, em Setúbal, em Troia e por esse Alentejo fora, mas da presença árabe quase nem uma sombra, mesmo que Alcácer do Sal, ficasse com esse nome. Escutamos, sal, e já não ouvimos alcácer. A historiografia actual tende a actualizar o tema e vai escrevendo que não devemos falar em invasão, mas em movimento de povos tão frequentes na época. Afinal, por aqui não passaram romanos, Suevos e Visigodos? Porque há-de a presença árabe ser diferente, se pensarmos que essa presença alentejana e algarvia durou cinco séculos, que podemos alargar por mais três séculos se pensarmos que entre nós, fazendo parte do todo que éramos, permaneceram até à infame expulsão do reino dos súbditos que professavam a religião muçulmana e judaica. Para a velha Sesimbra baixa-se por estrada que mais parece um rio descendo de montanha abrupta e no final entra mar adentro como um turbilhão. Mas a vila que fazia parte dos teus contos nos dias sem termo, inovou-se, sendo mais verdadeiro dizer, aceitou o poder do betão. Ainda vemos algumas dessas ruas de outrora, desse passado lento em que os pescadores desembarcavam o pescado na praia, mas tudo parece já tão distante. Vale a orla marítima nos momentos de sossego para contemplação do mar que aqui chega. Setúbal é já demasiado cidade e quando a atravessamos sem intenção de parar, algo nos trouxe à memória a lembrança do José Afonso e da canção O Pastor de Bensafrim, “Ó ventos do monte ó brisas do mar”. Fomos nas brisas do mar fazendo a travessia proibida até Troia, não a de Helena ou de Ulisses, mas a da família Azevedo que a vendeu aos ingleses, naturalmente tudo no interior do império romano. Não, Roma não é só ruínas, continua a ser um poder imperial, como o mostra a nossa Troia. Já não se salga peixe, agora o pescado é mais graúdo e já chega pronto. É só comprar. O fim do dia, leva-nos deste infinito azul pérola para chegarmos a Alcácer, nas margens do Sado, encostada ao morro e pela primeira vez, temos a notícia de que o nome da cidade foi de autoria árabe, mas com a recomendação de que já no tempo dos romanos “chamavam à povoação salacia”. Fugimos de séculos de história como a lebre do lobo. A noite vem do Oeste e vai tombar sobre este recanto alentejano. O postal segue amanhã, no primeiro comboio.
AS GUERRAS EM CURSO
Manuel Joaquim
Todos os dias temos notícias sobre as guerras no Irão e na Ucrânia e de longe a longe sobre outras guerras que estão a acontecer em África e noutros lugares.
Sobre o Irão, os comentadores disseram-nos que o Povo sofria e que esteve na iminência de provocar a queda do regime com as manifestações que estavam a acontecer. O que é estranho é que nunca falaram da verdadeira natureza do regime político, das lutas políticas e sindicais que sempre aconteceram no Irão.
A economia nacional do Irão, após décadas de políticas neoliberais, é dominada pela classe capitalista parasitária e vulnerável às sanções dos países imperialistas. O povo do Irão, antes da guerra, enfrentava condições sociais e económicas muito pesadas. A escassez de água e de electricidade e o aumento dos preços agravam as condições de vida de milhões de pessoas. As exigências por direitos democráticos, civis, sindicais e nacionais sempre estiveram na ordem do dia. O povo iraniano considera a paz e a estabilidade vitais para alcançar a liberdade e a justiça social.
O Partido Tudeh do Irão (PTI) é um partido internacionalista com uma estreita relação fraterna com partidos comunistas e operários de todo o mundo. É o partido da classe operária iraniana e sucessor do Partido Comunista do Irão, fundado em 1920. O PCI foi proibido no início da década de 1930 pelo monarca pró-britânico Reza Xá. Na década de 1940 e no início da década de 1950, durante o movimento pela nacionalização da indústria petrolífera, o PTI desempenhou um papel influente. O golpe de Estado organizado pelos serviços secretos da Inglaterra e dos EUA (MI6 e CIA) em Agosto de 1953 derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh e restabeleceu a ditadura do Xá. O PTI foi perseguido e milhares dos seus membros e apoiantes foram presos e muitos executados. O PTI participou activamente na Revolução de Fevereiro de 1979 para derrubar a ditadura do Xá. Mas as forças islâmicas assumiram o novo regime e reprimiram ferozmente a esquerda e o PTI em particular. Desde 1983 que a actuação do PTI dentro do Irão tem sido clandestina, mas conseguiu reorganizar-se eficazmente e construir fortes laços com os movimentos laborais e sindicais, da juventude e feministas e exercer profunda influência na luta popular dentro do Irão. O PTI está a trabalhar para construir uma Frente Unida capaz de enfrentar a ditadura e as ameaças imperialistas e encabeçar a luta pela paz, democracia, soberania e por uma República Democrática Nacional.
O imperialismo nunca abandonou os seus objectivos de colonizar e explorar os povos e as riquezas dos países. Serve-se do seu poder económico e do seu poder bélico e vai colocando os seus alcagotes, como dizia um Amigo meu, Jorge Cruz, nos lugares do poder político. Os EUA instalaram à volta do mundo cerca de 800 bases militares. No Médio Oriente quase todos os países têm bases militares. Nesta guerra todas elas foram destruídas pelo Irão, apesar de Trump, nos primeiros dias de guerra, ter anunciado que as bases de mísseis, aviação e a marinha tinham sido totalmente destruídas com os comentadores de serviço, sorridentes, a dizerem que sim. No entanto, é o Irão que pelos vistos está a determinar as regras da negociação. Parece que o que está a condicionar os EUA é o escoamento das suas reservas estratégicas de petróleo. Estão a ficar assustados com o que pode acontecer durante o segundo semestre deste ano. Mas a guerra está longe de ser resolvida. ”O acordo de paz está a adiar a batalha final que se avizinha e que vai determinar o vencedor” segundo um jornal iraniano. O Irão não precisa de bombas atómicas. Provavelmente, dispõe de bombas de outra natureza mais letais que a própria bomba atómica.
O senado dos EUA votou contra a guerra, retirando poderes a Trump.
Os EUA não são uma máquina de ganhar guerras mas uma máquina de gerar lucros através das guerras.
A guerra da Ucrânia está a aproximar-se do fim?
A Rússia já não espera a implementação dos acordos de Anchorage, na altura apresentados por Trump, segundo é dito. A Rússia começa a preparar-se para o fim da guerra não através de negociações. A União Europeia, agora braço armado da Nato ao serviço dos EUA, está a acelerar a sua militarização, apontando sem rebuços a futura guerra com a Rússia, e com afirmações de dirigentes e militares importantes nesse sentido que levaram o major general Agostinho Costa a dizer numa entrevista na CNN que não sabe o que esses senhores andam a fumar.
Na primeira semana de Julho vai reunir-se em Ancara a Nato. Preparam-se para sacar aos contribuintes mais 70 mil milhões anuais para financiar a guerra. A Nato não é nem nunca foi uma organização defensiva mas sim ofensiva como se pode verificar pelas suas intervenções ao longo do tempo. Prepara-se para atacar a Rússia. Como vai ser?
Para melhor esclarecimento de todo este processo que nos bate à porta é importante ler o livro recentemente publicado do Major-General Carlos Branco “Ucrânia – Variações de uma guerra inacabada” das Edições Colibri.
LAWRENCE REVISITADO
POESIA
Helena SerôdioO MEU AMORNa minha jarra de ouro e prata finaMurcharam as violetas que colheste,Imagem ideal e peregrina,Flores singelas, amor, que me ofereceste.De cada haste trémula e franzinaDessas flores com que tu me enterneceste,Tombou pura uma gota cristalinaE nela sem saber, mais me prendeste,Assim também, amor, hão-de murcharEm jarra de cristal os teus desejosEstuantes de vida e mocidade;Mas além de tudo o que passar,O meu amor, mais forte que os teus beijos,Há-de ficar por toda a eternidade!...
O TRAQUE
Mário Martins
Um autêntico massacre. O bombardeamento televisivo despeja Trump, de manhã à noite.
Sejam as ameaças de Trump com tarifas.
Seja a animosidade de Trump perante a Ucrânia.
Seja a ameaça de Trump de potencial anexação do Canadá.
Seja a contínua ameaça de Trump ao México.
Seja a reiterada pretensão de Trump de anexação da Gronelândia.
Seja a ameaça militar de Trump, seguida do derrube e sequestro do presidente da Venezuela.
Seja o bombardeamento do Irão, acompanhado por Israel, ou o contrário…
Seja a ameaça militar de Trump a Cuba.
Seja a ameaça de Trump de sair da Nato.
De ameaça em ameaça, Trump diz e desdiz…peço desculpa aos participantes no debate por interromper, porque acabamos de receber uma notícia de
ÚLTIMA HORA:
De acordo com fontes fidedignas, o Presidente dos EUA, Donald Trump, deu um traque! A sonoridade do evento pôs em alvoroço a Casa Branca, que entrou em modo de segurança máxima. Sabe-se que os Serviços Secretos estão já a investigar a origem do insólito evento, sem descartar a hipótese de eventual responsabilidade estrangeira. Já os analistas e comentadores que enxameiam o espaço televisivo, por uma vez, não sabem o que dizer…
01/06/26
NO CORRER DOS DIAS
Cabo Espichel. Olhamos este mar uma última vez, oceano de águas mansas, de cansaços que se estiram para a costa num derradeiro alento de esfalfamento. É um mar chão que quase nos incita a caminhar. Os olhos percorrem esta imensidão de azul e nos nossos pensamentos imaginamos as ondas da Nazaré a erguerem-se, tombarem num novelo lento sobre a praia e acreditamos escutar os sons de O Fortuna de Carmina Burana. Deve ser a teia do nosso encontro a quebrar-se. Separamo-nos em Azóia. Segues para Norte e prossigo esta viagem de descoberta, de conhecimento e de despedida. Por agora ainda rumo a Sul. Atravesso a mansidão desta floresta verde e procuro muralhas de pedra, um cubelo que se erga por sobre a folhagem. Chamam-lhe o Castelo dos Mouros e é meia verdade. Sendo um dos pontos altos deste espaço territorial teve ocupação humana bem antes da nossa era, mas seriam os árabes que chegaram do Norte de África que encastelaram as pedras. Observavam, o mar e o rio, o vai e vem humano. Por aqui se acolheram ao longo de quatro séculos. Deslizo silenciosa por um caminho muralhado e, talvez para esquecer a separação que nos leva, tento imaginar um painel onde observo o mundo. O «Ocidente colectivo» continua a alimentar o ogre de Kiev. Insaciável, ainda não engoliu os noventa mil milhões que lhe meteram na goela e já se passeia em Erevan reclamando mais. Enquanto isso, a figura ridícula do presidente de um parlamento que ilegalizou doze partidos políticos é recebido de pé e com aplausos por uma Assembleia que tem uma revolução libertadora na sua génese. Numa Europa esfrangalhada que insiste caminhar numa estrada sem saída, uma coisa que deu pelo nome de social-democracia, seja lá o que isso fôr, qual náufrago no meio do oceano, geme na tentativa servil de explicar que o seu ofício é gerir bem o capital dos nadadores. Já ninguém os ouve. São apenas o gargalo de uma garrafa onde uma rolha bloqueia as ideias. Desço em direcção ao mar, procuro o comboio que me fará atravessar este rio largo e deixar-me na margem esquerda. Cascais é uma cidade relativamente recente. Aparece-nos no século XIV já com um desenvolvimento interessante, mas o seu foral só surgirá no século XVI. A estação não cativa e os arredores ainda menos. Tudo parece certo, limpo, mas há uma mistura arquitectónica que nos faz sentir incómodos, desabituados do lugar. Após passar o Estoril o trajecto priva o nosso olhar da contemplação marítima. Deixamos o pensamento deslizar, penetrar nos nossos medos e nos monstros que perseguem a realidade dos povos. O homem laranja voltou a fugir do infantário e brinca no meio do salão de baile com os aviões e os navios que subtraiu da caixa do tesouro. Veste-se como supremo líder do reino orangetão e ameaça bombardear tudo o que mexe, mas os persas meteram-lhe a cabeça num bidão de onde não consegue sair. Na casa da loucura onde vivem os do chapéuzinho prossegue a insânia da maior malvadez humana. Se tudo isto não fosse suficiente, voltaram a retirar a pedra do sarcófago para dar de novo vida à múmia de Boliqueime. Concederam-lhe a medalha de mérito da destruição económica, da indústria, das pescas, da agricultura, da marinha nacional, da siderurgia e do atapetamento do país com betão. Resta-nos ter fé que quando voltarem a colocar a pedra no seu lugar a encimem com todo o lixo que nos deixou. Quando por momentos voltamos a ver a água estamos na foz do rio. Depois de Caxias, o rio não foge. O rosto ensombrece-me por momentos, com o olhar fixo nas pedras da fortaleza e traz-me à memória o programa radiofónico de Ana Aranha, “No limite da dor”. “Venho dizer-vos que não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas”, escreveu Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira a cantou com a voz profunda que rasgava a alma. Não vamos deixar o olhar viajar em Lisboa. Não merece, essa Lisboa que sabe tudo sobre Olissipo, mas ignora a história árabe com quatrocentos anos. Sim, a Alfama, a Mouraria, que tradicional que turístico, o castelo de S. Jorge, a reconquista e, quem construiu o castelo, a alcáçova que existiu? …, e os árabes que aqui viveram até à sua expulsão no século XVI, oito séculos após terem chegado? “É uma cidade à beira-mar, com ondas que se quebram de encontro às muralhas, admiráveis e de boa construção. A parte ocidental da cidade é encimada por arcos sobrepostos assentes em colunas de mármore apoiadas em envasamentos de mármore. Por natureza, a cidade é belíssima", disse dela o geógrafo e jurista, Muḥammad Ibn ʿAbd al-Munʿim al-Ḥimyarī. Sinto os rodados da composição sobre o ferro da ponte na longa travessia para Sul. Por uma vez, olho para trás, para o único espaço que me retém a atenção, a colina onde se implanta o Panteão. Ultrapasso Almada sem retirar a atenção do horizonte que persigo na vila de Palmela, a sede portuguesa da Ordem Militar de Santiago. O reino fundou-se num misto de guerra religiosa e ocupação estranha, através das Ordens Religiosas e das Ordens Militares. Uns empunhavam a palavra de Deus e os outros a espada em Seu nome. Era um tempo de violência, mas hoje quando subimos às ameias é uma sensação de tranquilidade que vislumbramos e sentimos. Resta a travessia da Arrábida, por entre a vegetação de um verde seco e quantas vezes rasteira, refúgio de silêncio e de solidão procurada. A serra estira-se ao longo do estuário e desagua sobre o mar sem ter conseguido alcançar o seu nível. Contemplam-se mutuamente com cerca de cem metros de separação. É tempo de observação e silêncio, de descanso, de procura do que perdemos e deixamos de ver, abrir o segredo dos sonhos e deixá-los navegar neste mar de um azul luminoso. Onde há um lugar cristão, há certamente lendas e mitos. A lenda deste lugar religioso é de uma candura e simplicidade que nos faz sorrir. Após a visita ao farol serpenteio pelo terreno do santuário e deixo-me impressionar pela Casa dos Círios. Os Círios sempre me levam em pensamento para a marcha funerária de D. João o de Boa Memória, cuja morte foi alterada para simbolicamente coincidir com o 14 de Agosto, o dia da batalha de Aljubarrota e dizem-nos que pelas ruas da Lisboa medieval passou o rei que fora por entre círios e mortalhas. O postal ainda o escrevo. Vai comigo por agora.
MARAT E O DISCÍPULO
DE QUEM É A CULPA?
Mário Martins
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Volta e meia vem-me à memória a frase do grande físico e pensador Einstein, de que “um assassino não tem culpa, mas não gostaria de tomar chá com ele”. Uma frase sábia, mas perturbadora.
Se um assassino não tem culpa, tal quererá dizer que o seu acto é fruto da sua índole, do seu instinto, à mistura com o meio envolvente.
Opor-se-á que o ser humano goza de livre-arbítrio, o qual lhe confere o poder de praticar tanto o bem como o mal. Mas essa não é uma propriedade autocriada, mas determinada pela Natureza ou por Deus(es), cujos desígnios, em ambos os casos, se revelam insondáveis. Donde, seja lá o que for o comportamento humano, ele tem uma origem natural ou divina. É essa condição que, em última análise, justifica a afirmação filosófica de que o assassino não tem culpa.
É duro tirar esta consequência da tese einsteiniana, mas se no âmbito individual inexiste culpa, como se todos fossemos inimputáveis, haverá razão para ela existir nos desmandos praticados na esfera política?
Na vida prática, no entanto, justifica-se um sistema de punição para proteger a sociedade e evitar a corrupção generalizada.
Toda a disciplina está limitada à horizontalidade da descrição do mundo, tal como o vemos, e de nós próprios. É isso que fazem a filosofia, delimitando o campo do conhecimento e tirando as devidas consequências dele; a ciência, identificando regularidades e buscando soluções concretas; a literatura e a poesia, ficcionando ou cantando o real e examinando a psicologia humana; a religião, inventando entidades transcendentes indemonstráveis, minorando, a um tempo, o sofrimento e a morte, ao preço de cavar as divisões humanas; a arte, plasmando o talento humano.
Raskólnikov, do romance “Crime e Castigo”, do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, está de volta.
PANORAMA
A revista “O Militante”, de Maio/Junho de 2026, publica um importante artigo, de Maria da Piedade Morgadinho, “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de V. I. Lénine – Algumas notas”, sobre o livro, concluído em 1916, referindo que “é impossível ignorar a extraordinária actualidade de questões essenciais aí abordadas”.
Revela que nos prefácios escritos por Lénine, é abordada a nova fase do desenvolvimento do capitalismo, é tratada a exploração e opressão capitalistas e é denunciado o “oportunismo em certas camadas do proletariado e respectivos líderes, particularmente aos problemas da guerra e da paz.”
A repressão czarista que antecedeu a revolução de 1917 obrigou Lenine e outros revolucionários a exilarem-se no estrangeiro. Há referências de que Lenine terá estado na cidade do Porto, na Rua das Flores, na altura em que se desenvolviam os movimentos políticos que levaram à instauração da República. Como também há referências de que um dos genros de Marx, Paul Lafargue, tenha estado na cidade do Porto naquela época. O que se passava em Portugal era importante.
O Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo (Suécia) publicou muito recentemente um estudo sobre as despesas militares no plano mundial. Atingiram em 2025 2887 biliões de dólares. Os gastos dos 32 países da Nato somaram 1.581 de dólares, 55% dos gastos militares mundiais, mais do que a soma das despesas militares de 161 países da ONU. Pelo que é público a União Europeia está a transformar-se num bloco político militar.
Instalações de laboratórios biológicos ao longo das fronteiras da Rússia, já há muito denunciadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, estão novamente na ordem do dia. A instalação de armas nucleares em alguns países do norte da Europa; propostas de ataques a territórios russos e expulsão da Rússia de Kaliningrado defendidas por militares da Nato, particularmente por generais americanos, estão a agravar a situação internacional de forma assustadora.
O imperialismo, estado supremo do capitalismo, em desespero de causa, para manter a sua opressão e exploração, com ameaças e guerra está a arrastar a humanidade para um grande desastre.
A Venezuela, neste momento, está numa situação neocolonial. A soberania não existe. A guerra no Irão é uma tentativa de ocupar o país para roubar petróleo e outros produtos como é dito pelo próprio Trump. AS ameaças a Cuba e a outros países da América Latina estão na ordem do dia. A guerra na Ucrânia pode vir a estender-se ao resto da Europa.
Vitor Serrão, de Santarém, no Público, de 24 de Maio, refere-se a “A idade dos monstros” e à “Parábola dos Cegos”, um quadro de Pieter Brueghel, o velho, de 1568, onde a ignorância e a cegueira colectiva levam ao abismo. Falando em “Novos Barrancos de Cegos” obriga-nos a pensar em Alves Redol e na sua obra “Barrancos de Cegos”, publicada em 1961, que trata da família dos Relvas. Não sabemos, neste momento, se Passos Coelho chamou prostituto da política a alguém desta família, se prostituto com carácter ou se prostituto sem carácter.
É uma passagem bíblica quando Jesus faz uma crítica dizendo: “Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala.”
As dificuldades cada vez maiores com o ensino público a todos os níveis, desde os infantários, às universidades e aos bolseiros, é resultante de uma política deliberada de impedir o acesso à educação e criar elites nas classes sociais privilegiadas que têm sempre acesso ao ensino privado nacional e internacional. Dessa forma expandem o número de cegos que não conseguem ver o que se passa. Só quando as pessoas estão bem informadas e formadas é que conseguem emancipar-se e tomar decisões em consciência e em Liberdade.
O desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde para ser entregue à exploração privada está bem à vista de toda a gente. Um antigo ministro da saúde dizia “que quem quer saúde que a pague”.
A venda do Novo Banco ao segundo maior grupo bancário francês, BPCE, com um prejuízo superior a sete milhões de euros, quando o banco já estava com lucros. A venda de património imobiliário do Estado a preços de saldo (a quem?).
Os projectos há muito em curso, liderados pela União Europeia e com a conivência das autoridades portuguesas para deitarem a mão às poupanças e reservas financeiras da Segurança Social.
São situações referidas na dita comunicação social acriticamente. Estão em causa interesses vitais de toda a população. Por isso, devemos evitar cair no abismo como na parábola escrita por Mateus.
Para o próximo dia 3 de Junho está convocada pela CGTP-IN uma greve geral, contra o pacote laboral e em defesa de direitos e travagem de retrocessos. A CGTP-IN nasceu antes do 25 de Abril e é de longe a maior organização social existente em Portugal que alguns querem desvalorizar.
“As greves são feitas para paralisar a produção. Se não prejudicassem os capitalistas não serviam para nada. No entanto uma greve não é realizada com a intenção de prejudicar o capitalismo mas sim beneficiar os trabalhadores”( Mglioli, 1962)
O oportunismo que Lénine denuncia no seu livro acima referido, como é dito, continua a ser muito actual. Muitos falam em linhas vermelhas, para isto, para aquilo e para aqueloutro. Uns dizem “Não é Não” outros dizem outra coisa mas a prática é o único critério da verdade. “Candidatos nossos que estabeleçam acordos com eleitos do Chega perderão a confiança política do PS”. Palavras de José Luís Carneiro em Setembro de 2025.
Na freguesia de Ferreira do Alentejo a CDU venceu as últimas eleições com maioria relativa. CDU e PS elegeram o mesmo número de membros para a Assembleia de Freguesia, quatro. O Chega elegeu um. O PS rejeitou a proposta apresentada pela CDU: Presidente da CDU, (de acordo com a Lei); tesoureiro do PS e Secretário da CDU. Para Mesa da AF o PS indicaria dois dos três membros da Mesa, incluindo o Presidente. O PS rejeitou a proposta e apresentou a seguinte: A Presidência CDU (por imposição da Lei), o PS indicaria o secretário e o Chega o tesoureiro. O Chega duplicaria o número de eleitos, passaria a ser responsável pelas finanças da freguesia. Perante toda esta situação a CDU renunciou provocando novas eleições. Até hoje ninguém do PS nem tugiu nem mugiu. Onde estão as linhas vermelhas do PS?
Apesar de um horizonte negro que avistamos, ter a perspectiva e confiança no futuro é já uma expressão de resistência, como diz Carina Castro da CGTP-IN.
POESIA
Helena SerôdioTem o Outono poentes cintilantes
De púrpura e horizontes matizados,Com laivos violeta, deslumbrantes,E tons que vão morrendo, alaranjados!Abre-se o céu, desfeito em diamantesTecendo fino manto de brocados,Ea luz que se derrama em cambiantesPõe no ar lírios roxos, macerados !A tarde morre, lenta, suavemente,Discreto, ocultou-se o sol a medoNas sombras hesitantes do poente.E o vento recolhendo sons dispersos,Num lamento, murmura-me em segredoA triste sinfonia dos meus versos...
01/05/26
ÁRTEMIS
Moeda datada de 253-241 AC, representando a deusa grega da caça Ártemishttps://gulbenkian.pt/museu/deuses-olimpo-na-colecao-gulbenkian/artemis/
Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
Os tempos alucinados que vivemos, a fazerem jus à célebre frase atribuída a Einstein, convidam a uma evasão. O programa espacial da Nasa, nomeadamente o lunar, é uma oportunidade virtual de o fazer.
Em meados do ano que vem, será lançada a Ártemis III, com o objectivo de testar um módulo de aterragem lunar HLS, em órbita terrestre.
A primeira alunagem do programa está prevista para a missão Ártemis IV, no início de 2028.
Oficialmente, o programa visa estabelecer uma base lunar permanente, cujo início de instalação, com o lançamento da Ártemis V, está previsto para o fim de 2028, - se os prazos não derraparem ou o programa não for adiado ou, simplesmente, cancelado - como passo inicial para “missões tripuladas ao espaço profundo”.
Mas uma “simples” ida e volta a Marte, com a tecnologia actual, afigura-se empresa para tripulantes românticos suicidas. Se a Lua fica “já ali”, a cerca de 400.000 kms., Marte está a uma distância mínima de 55 milhões de kms. e máxima de 401 milhões, dependendo das relativas posições orbitais. A aproximação máxima ocorre a cada 26 meses, permitindo janelas de lançamento para missões espaciais, espaçadas no tempo.
Há vários desafios decisivos que uma missão tripulada a Marte deverá superar (Wikipédia):
- efeitos físicos da exposição a raios cósmicos de alta energia e outros tipos de radiação ionizante;
- efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa gravidade;
- efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa luminosidade;
- efeitos psicológicos do isolamento da Terra;
- efeitos psicológicos da falta de comunidade devido à falta de conexões em tempo real com a Terra;
- efeitos sociais de vários humanos vivendo em um ambiente “tumultuado” por mais de um ano terrestre;
- inacessibilidade às instalações médicas terrestres;
- efeitos físicos da alta velocidade de escape marciana 5 km/s dificultando o retorno.
- Uma troca completa de mensagens (pergunta e resposta) demora entre 6 e 40 minutos, dependendo da posição dos planetas.
- A comunicação pode sofrer interrupções temporárias (aproximadamente 2 semanas a cada 26 meses) quando Marte está atrás do Sol, devido à interferência electromagnética
Em suma, uma ida e volta de humanos a Marte nos próximos tempos, é pura ficção. Sem que ocorra um salto tecnológico radical, a alternativa é o desenvolvimento da robótica, apesar de, por razões financeiras, não se enviarem para o inóspito ambiente marciano equipamentos recém-desenvolvidos, mas apenas os já longamente testados, a fim de se evitarem, o mais possível, as perdas (sempre da ordem de grandeza de 1.000 milhões de dólares). Para se ter uma ideia, os robôs já enviados ao planeta vermelho custaram, cada um, mais de 2.000 milhões de dólares, a Àrtemis II 4.000 milhões, e todo o programa está orçado em 100.000 milhões.
Neste momento, por trás do objectivo de “missões tripuladas ao espaço profundo” está o desenvolvimento de aplicações militares e a inovação tecnológica em geral, bem como a eventual exploração de minérios lunares e de Hélio-3 (considerado o "ouro da Lua", é um isótopo raro na Terra, ideal para energia de fusão limpa e sem emissão de carbono), mas cuja remessa para a Terra se afigura muito custosa.
Este é o programa oficial da Nasa. Qual será o das concorrentes China e Rússia?