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01/08/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Miróbriga. Ao deixar Alcácer não consigo apagar a lembrança da tua presença, como se se colasse à pele, fizesse parte de mim. Fiquei cativa da tua recordação e em cada lugar reencontro o farol do Cabo da Roca, emergindo com a sua luz pela noite que se abre no silêncio da tua ausência e os meus olhos tornam-se num lago onde viaja o navio da tua alegria. Regressei ao comboio e o deslizar sereno das rodas nos trilhos, apazigua o ânimo que esmorece. Entro em Grândola com interrogações sobre a vida colectiva. Será ainda a “terra da fraternidade” onde podemos encontrar “em cada esquina um amigo”? Deambulo pelas ruas mais antigas e a resposta parece não chegar. Encontro a Sociedade Musical Fraternidade Operária, mas nem aqui sinto as palavras que procuro. Talvez o mundo já não esteja receptivo aos sons de instrumentos que a humanidade criou para o bem-estar da alma e devaneio do pensamento. O ruído é muito, mas quando nos detemos para escutar, a musicalidade advém só da vontade aterradora de bombas a tombar, sobre os povos, os lugares, o património, o passado de civilizações milenares. Os fanáticos do partido do chapeuzinho, estrangulam o futuro de um povo, dilacerando as suas crianças. Sem elas, o amanhã será um vazio e as mentes enfezadas dos seus algozes querem-nos fazer acreditar que é matando que alcançarão o reino de Deus, do seu, naturalmente. Um deus concebido ao nível da mais impiedosa maldade humana. E dizem-se felizes no interior desse charco de sangue que todos os dias alimentam. E os poderes do mundo, mergulhados num silêncio aterrador face a gigantescos crimes, prestam vassalagem a esse deus maldito que é o dinheiro dos degenerados que transformam matanças em actos divinos prometidos, alimentando assim, as suas vaidades, a sua incultura, o seu desprezo pelos povos que dizem governar. Chamam a este antro miserável onde vive a sua ética e a sua moral, democracia. É um tempo de destempero que quase apaga a serenidade das cores vivas e claras das paredes do casario que reina nestas ruas que vou percorrendo desta “Morena” urbe que já viu dias melhores na sua longa vivência centenária. Da exploração mineira ao cultivo de cereais foi terra de paragem mais do que de partida das gentes. Por agora, vai caminhando na serenidade do estio alentejano. Quando procuramos no passado, aparece-nos uma vez mais a presença do império, tão comum de Norte a Sul do país, mas da presença árabe parece não se encontrar rasto. Para onde terão ido os cinco séculos da vida que aqui tiveram os povos vindos do Norte de África! Será que nada deixaram ou somos nós que não procurando apagamos séculos de história?  É ainda o comboio que de novo me leva para Ocidente para a proximidade do mar. A estação que deixo aparece-nos com um prédio limpo de luz clara pela brancura das paredes, mas de portas e janelas encerradas. Edifícios com tanta beleza surgem ao nosso olhar com a inércia do abandono e da inutilidade enquanto vão definhando pelo desgaste do tempo. O mesmo acontece na cidade de Sines até onde o comboio não me leva. Sines é hoje um grande polígono industrial que tudo apaga em seu redor, inclusive a vida da terra onde se implantou. Foram estas terras, das Ordens Militares, mais precisamente de Santiago da Espada. Eram monges guerreiros. A palavra falava pelo fio da espada, sempre e necessariamente pela vontade divina, da qual se assumiam como seus executores. E assim, matando e catequizando tornaram-se donos de poderosos senhorios feudais. Também povoavam o território, não por falta de gente, mas para substituir os que enviavam para a eternidade e para controlar os moçárabes de cuja fé duvidavam. Nada que não conheçamos no nosso tempo presente. Neste território urbano, em diversos locais nos é lembrado o navegador que foi Vasco da Gama que por aqui terá nascido. Além de figurante da nobreza viria a ser um senhor feudal e só um temperamento aventureiro, audaz e de desprestígio para com os povos que viria a encontrar no Oriente, se permitiu agir como senhor absoluto submetendo-os a bem ou a mal, o que quer dizer, por boas palavras ou a canhonaço. Assim se erguiam os impérios. Quando o dia se apruma para o final, descanso nas ruínas do primeiro grande império europeu. No declínio da luz, o pensamento aborda-nos com maior lucidez sobre o tempo em que vivemos, sobre a amargura com que a humanidade vê como os impérios de hoje, tal como os do passado, vão desaparecendo e só ruínas como as que me rodeiam, restarão para falar dos seus feitos e das suas misérias. No reino do orangetão a violência das armas continua a carimbar as atrocidades dos que acreditam ser os senhores da vida e da morte. Nas margens do Dnieper continua a romaria daqueles que desenfreadamente batem nos tambores da guerra, fazendo-nos recuar a memória até Munique em 1938 quando a coisa chamada social-democracia abriu-se em sorrisos e apertos de mão para com o sátrapa de Berlim que levou o mundo até ao abismo. À sombra da monumentalidade do Príncipe Vladimir, vão distribuindo agora abraços, beijos, sorrisos abertos e todos os que por ali passam têm algo em comum, ou acabam demitidos ou se demitem, daí a nossa admiração quando num dos últimos retratos não resistimos a dizer, também tu, Marta? Há momentos na vivência humana em que a roda da história acelera, rodopia a um ritmo que a qualquer momento se pode descontrolar e os aprendizes de feiticeiro que governam a Europa, embarcados na nave do homem laranja, mergulharam num pântano de lama do qual já não é possível sair. Para que a geração seguinte possa viver, talvez o círculo da loucura em que estamos, possa deter o seu movimento; pese embora, a manipulação dos povos e as escolhas destes pareçam indiciar que a bússola gira no sentido oposto. O postal deixo-o em Santiago.

ATENA DECAPITADA

António Mesquita


Christopher Nolan dá-nos nesta novíssima versão da "Odisseia" o prazer mais puro do cinema. Homero não está em questão. O nosso conceituado tradutor, Frederico Lourenço (disse-o num  podcast por outras palavras) não quer arriscar com a visão deste 'blockbuster' perder a sua própria intuição da obra-prima de Homero. E concordo que o seu conhecimento é superior e mais genuíno para estar à altura de traduzir o texto grego.

Mas Nolan tem uma paixão pelo cinema - a prova está na sua carreira, com filmes como "Oppenheimer" ou "Tenet" - que o leva a experimentar novos caminhos que passam tanto pela técnica ( o IMAX que obriga a carregar uma câmara de 100 kgs e a fazer kms de 'takes' de 3 minutos para alcançar uma definição dupla dos filmes de 35mm) mas também pelo método narrativo.

A tomada de Tróia é um puro êxtase cinematográfico, em que a poesia dos grandes clássicos da literatura grega é convertida em imagens inesquecíveis. A iluminação, a filmagem do fogo, com recurso a processos inovadores nem sempre digitais permitem, nesses momentos privilegiados, viver a acção  com a intimação do sonho.

O filme é, evidentemente, desigual. A queda de Tróia, o episódio de Polífemo  ou o dos ciclopes que utilizam toda a sabedoria do cinema com a elipse, o fragmento que nos obrigam a imaginar, isto é, a participar na criação da obra, vão a par de cenas menos conseguidas como a do célebre cavalo  na praia (embora da narrativa constem  jóias de realismo, como o pormenor dos embuscados dentro da estátua, sofrerem, nesse confinamento, durante horas, o fedor da urina e das fezes que não podiam lançar para o exterior) ou a ilha em que um leão, um tigre e outras feras surgem aos olhos do espectador como uma filmagem do jardim zoológico. 

A recorrência das imagens mais marcantes da conquista da cidade espartana podia ser dispensada, se o espectador soubesse ler a primeira apresentação. Por exemplo, a estátua decapitada no tumulto da refrega representa Atena e com essa cabeça decepada, o Ulisses de Nolan reflecte sobre a grande desgraça da guerra, o que quer que Agamemnon, o chefe dos exércitos pensasse. 

Este Ulisses não é o herói das versões anteriores - estou a pensar em Kirk Douglas - que se descobre no final para atingir os pretendentes com as flechas certeiras do seu arco - que mais ninguém consegue dobrar. É um homem sem ilusões, tirando a dos deuses a que não poderia escapar, modesto e humano ao ponto de ouvir os outros.

Não, isso não podia estar em Homero. E depois? Quem podia esperar que um mortal que fez um filme em que os soldados gregos da famosa epopeia dizem O.K. e falam americano pudesse   realizar o milagre de superar os quase três milénios que nos separam da história do vate dos vates?

Uma palavra sobre a música do sueco Ludwig Göransson. Não fica no ouvido  porque não é melodiosa. Podia ter sido escrita por um dodecafonista, um cultor de Hip-Hop ou R&B e soul. Mas tem o grande mérito de servir as imagens sem nos distrair delas. Nessa função, responde à figura do herói de Nolan que Matt Damon cumpre sem génio mas com toda a eficácia.

A minha resposta aos escrúpulos de Frederico Lourenço é a de que é necessário, depois do entretenimento, voltar a ler Homero.

A "resposta" turística é visitar o Peloponeso.

NOITE SEM CLASSES

Mário Martins

 

Noite de S. João, 1960 – Teófilo Rego

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A noite apelidada de S. João, mas que, na verdade, celebra o advento do solstício astrofísico do Verão, é, genericamente, uma noite sem classes, em que se misturam, na rua, pobres e ricos, exceptuados os que, por razões várias, preferem ficar em casa.

 

O que mais surpreende é o contacto físico, embora fugaz, entre desconhecidas gentes “tripeiras”, refiro-me à “Antiga, Mui nobre, Sempre leal e Invicta cidade do Porto”, onde nasci e resido, como se fosse a minha casa. Nesse contacto momentâneo, em que se deixa cair a máscara, é a igualdade humana que se manifesta.

 

Quando eu era pequeno, os meus pais sempre me levaram à noite de S. João, ao tempo concentrada na baixa e nas Fontaínhas. Usava-se o alho-porro, cuja cabeça pousava, brevemente, na cabeça dos passantes, e o ramo de cidreira para dar a cheirar às meninas e senhoras. Mais tarde, o cumprimento sanjoanino passou a ser feito pelo martelo de plástico, com o seu característico ressoar na noite.

 

Na minha rua, um meio pobre ou remediado, com o santo de barro na mão, instávamos os passantes a dar-nos um tostãozinho para o S. João, enquanto na quinta ao lado se fazia a degola dos inocentes, para, no dia, as “donas de casa” prepararem a assadeira com o anho e as batatas, e a levarem, coberta com um pano, ao forno da padaria. À hora de almoço, voltavam â padaria para levantarem a sua assadeira. Em casa, trinchava-se, sem remorso, o produto do sacrifício sanjoanino.

 

Meu senhor, dê um tostãozinho para o S. João. Oh! dê…”

PIRATARIAS

Manuel Joaquim




Ao longo da História deparámos sempre com a actividade de piratas que assaltavam embarcações nos mares para roubar mercadorias e afundarem ou apoderarem-se das próprias embarcações. Muitas vezes faziam-no com o apoio dos próprios governos (reis) com quem dividiam os respectivos espólios. Eram os corsários dos mares. A Inglaterra, a França e a Holanda tiveram uma grande experiência nessa actividade.

Durante o século XX, a pirataria esteve sempre presente nos mares, apesar de pouco falada, comandada por organizações de traficantes. As companhias de seguros que faziam e fazem seguros marítimos de danos de cascos e de mercadorias sempre tiveram registo de sinistros nestes ramos de seguros. É muito difícil, se não impossível, fazer peritagens a sinistros acontecidos em alto mar. Barcos “afundados” sem o serem, pintados de novo e com nova identificação, mercadorias “roubadas” no alto mar transferidas para outras embarcações para serem vendidas em contrabando por baixo preço, com as indemnizações pagas pelas seguradoras e resseguradoras.

Há uns tempos falou-se muito de assaltos a cargueiros nos mares do oriente, obrigando vários países a patrulharem esses mares. Pequenas embarcações com pessoas armadas assaltavam os barcos e roubavam mercadorias e outros bens. Parece que com a guerra no médio oriente essas actividades decresceram ou simplesmente desapareceram.

Hoje temos pirataria no Atlântico, no Báltico e no Mediterrâneo por países da União Europeia, particularmente pela Inglaterra, França e Países Baixos (Holanda), (os mesmos de séculos anteriores) sobre embarcações ditas fantasmas por não estarem registadas nesses países e os seguros não estarem em Londres e por transportarem petróleo da Rússia. Os assaltantes roubam o petróleo e vendem-no. Nesse seguimento, património é confiscado na EU e Inglaterra de cidadãos e de empresas russas e bielorrussas. Os autores estão identificados e naturalmente que as vítimas vão ter que ser indemnizadas. Quando e como não se sabe.

A União Europeia acabou de aprovar o 21º pacote de sanções à Rússia. A proposta inicial sofreu desta vez mais alterações do que aquelas que eram de prever. Além de outras situações, foi retirada por imposição da Grécia a proibição de transbordo de GNL russo para outros países e impedida por Portugal a proibição de importação de peixes russos, designadamente de bacalhau. O fiel amigo vai continuar a frequentar a mesa dos portugueses, apesar de estar a atingir preços cada vez mais altos. Entretanto já está a ser preparado o 22º pacote de sanções para ser aplicado lá para o mês de Outubro a mais 1600 empresas. A Rússia, neste momento, sofre mais de 30.000 sanções, situação inédita na História. Tudo aponta que quem sofre mais com estas sanções são os próprios países da União Europeia que deixaram de ter disponíveis grandes mercados para exportações e fontes de energia mais baratas.

Portugal não consegue exportar o vinho nas quantidades desejáveis. As uvas no Douro, este ano, vão ficar nas videiras. Não há quem as compre. A indústria de cerâmica portuguesa não é a primeira vez que pede socorro ao governo por causa dos preços incomportáveis da energia e tendo à perna a concorrência da indústria indiana. Emprega largas centenas de trabalhadores cujo desemprego pode estar à porta.

Alemanha vai encerrar fábricas, designadamente VW e BMW, com milhares de trabalhadores a caminho do desemprego. Compra gás mais caro 500% do que comprava anteriormente à Rússia. Os incêndios em Portugal, na Espanha e na França também sofrem consequências. Portugal e Espanha não podem usar helicópteros russos KAMOV por impedimento da EU. São mais eficazes e mais baratos dos que estão a ser usados que carregam menos 30% de água.

As pessoas devem estar atentas às alterações legislativas que o actual governo pretende publicar, sobre a Prestação Social Única e quais as forças políticas que apoiam ou são coniventes com essas alterações. Será menos protecção social e mais pobreza.

Como devem estar atentas ao que pretendem fazer, por indicação da União Europeia, com os fundos da Segurança Social, com pensões sociais, com depósitos a prazo e outros depósitos bancários. A indústria da guerra está sôfrega de  dinheiro.


POESIA

Helena Serôdio




QUANDO...


Quando te vi surgir, qual sol ardente,
Envolvido num halo deslumbrante,
Quando tive na alma a luz fremente
Da chama dos teus beijos, triunfante;

Quando te pressenti todo tremente
De ternura e carinho suplicante,
E teus lábios, num beijo que não mente,
Tocaram minha boca insinuante;

E quando, enfim, trouxeres a eternidade
E tornares imortal a natureza
Das minhas ilusões sem realidade,

Viverei este amor que me domina
Vencerei as barreiras da incerteza,
Terei, então, cumprido a minha sina!

01/07/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Alcácer do Sal. Creio ter sido Sophia, a nossa poetisa inesquecível de quem nos privaram do usufruto dos seus Jardins onde convivia na serenidade do mundo poético com a galega Rosalia, que disse um dia que viajar é olhar. Muitas vezes viajei por outro dos seus jardins, os da infância, onde, tal como agora, pensava que as separações nos privam sempre de algo que faz parte de nós. Ficaste em Azóia e pensava que ainda me acompanharias para Sul e agora ao deixar Espichel encontrei outra Azóia e a memória abriu os braços à procura de onde pousar. Talvez tenha sido isso que me deixou por aqui longas horas, por estas arribas, a permitir que o olhar viajasse, e o usufruto do mar oceânico, é sempre um consolo para a alma. Apreciado de longe, parece uma planície de azul. Tive tempo de procurar ver como vai o estado da arte. Vivemos num planeta de plena beleza, sobretudo se olhado da solidão do cosmos, mas a cada momento que o olhar se aproxima a formosura vai-se diluindo nas imperfeições humanas. A sedentarização conduziu à divisão territorial e daí, aos poderes e ao seu exercício, foi um pulo na evolução humana. O resultado civilizacional de milénios é o que vemos hoje, invadem-se países para raptar presidentes, assaltam-se petroleiros em alto-mar para roubar petróleo, liquidam-se líderes e ameaça-se fazer desaparecer civilizações milenares com o único objectivo de se apossar de reservas petrolíferas, alimenta-se uma guerra com a única finalidade de destruir supostos concorrentes. Os assaltantes gabam-se publicamente dos seus actos de pirataria e roubo. Tudo isto em nome da liberdade, da democracia dos direitos humanos. Este novo normal, entrou num habitualismo que já nem notícia chega a ser. Mesmo ignorando o campo de concentração dos doentes mentais que se instalaram a ferro e fogo na Palestina, o nosso mundo, o nosso tempo, atravessa caminhos de selvas sombrias. No entanto, a contemplação desta serenidade marítima ao lado desta Arrábida que parece repousar em sossego, transmite-nos uma sensação de acalmia, de conforto. Por isso, soltei-me das memórias e vagueei, por esta Azóia, não a que nos viu seguir caminhos opostos, mas a que leva até ao castelo de Sesimbra, erguido bem no alto e do cimo da torre de menagem hei-de voltar a ver o mar. Olvido os apontamentos que trazia, sobre Templários, supostas reconquistas, assaltos medievais, e caminhei apenas pelas ameias do castelo. É sempre interessante quando analisamos os outros com os nossos juízos de valor, pelo que não é surpresa quando abrimos certos livros e na mesma frase, falam-nos do reino Visigodo, da invasão árabe ou, carregando no pejorativo, o domínio dos mouros. Os Visigodos foram apenas um reino, não nos invadiram nem nos dominaram! O jogo das palavras pode sempre distorcer a verdade e destruir a realidade. Mouros, aparecem-nos sempre como seres malévolos, os malditos, raramente como participantes da história que é a nossa, a palavra não é sinónimo do povo mauri, mas de gente malvada que invadiu este território cujo domínio visigodo não tinha mais de dois séculos. E entre mouros e árabes não vêem diferença. Quando nos aproximamos um pouco, na verdade, nem sabemos que árabes e mauris estiveram por cá, que na corte árabe, quer de Sevilha, Córdova ou Granada, vivia a cultura mais avançada da época. Claro, temos Alfama e a Mouraria, que giro!, e Mafamude foi árabe, o castelo de Gaia, até a lenda da Fonte da Moura, que coisas giras temos para falar aos que nos visitam! É isto que leio nas pedras deste castelo. É verdade que os árabes estiveram aqui, não é fácil ignorá-lo, mas logo acrescentam que foi por ordem de D. Afonso I que o castelo foi reerguido. Temos também os romanos, em Setúbal, em Troia e por esse Alentejo fora, mas da presença árabe quase nem uma sombra, mesmo que Alcácer do Sal, ficasse com esse nome. Escutamos, sal, e já não ouvimos alcácer. A historiografia actual tende a actualizar o tema e vai escrevendo que não devemos falar em invasão, mas em movimento de povos tão frequentes na época. Afinal, por aqui não passaram romanos, Suevos e Visigodos? Porque há-de a presença árabe ser diferente, se pensarmos que essa presença alentejana e algarvia durou cinco séculos, que podemos alargar por mais três séculos se pensarmos que entre nós, fazendo parte do todo que éramos, permaneceram até à infame expulsão do reino dos súbditos que professavam a religião muçulmana e judaica. Para a velha Sesimbra baixa-se por estrada que mais parece um rio descendo de montanha abrupta e no final entra mar adentro como um turbilhão. Mas a vila que fazia parte dos teus contos nos dias sem termo, inovou-se, sendo mais verdadeiro dizer, aceitou o poder do betão. Ainda vemos algumas dessas ruas de outrora, desse passado lento em que os pescadores desembarcavam o pescado na praia, mas tudo parece já tão distante. Vale a orla marítima nos momentos de sossego para contemplação do mar que aqui chega. Setúbal é já demasiado cidade e quando a atravessamos sem intenção de parar, algo nos trouxe à memória a lembrança do José Afonso e da canção O Pastor de Bensafrim, “Ó ventos do monte ó brisas do mar”. Fomos nas brisas do mar fazendo a travessia proibida até Troia, não a de Helena ou de Ulisses, mas a da família Azevedo que a vendeu aos ingleses, naturalmente tudo no interior do império romano. Não, Roma não é só ruínas, continua a ser um poder imperial, como o mostra a nossa Troia. Já não se salga peixe, agora o pescado é mais graúdo e já chega pronto. É só comprar. O fim do dia, leva-nos deste infinito azul pérola para chegarmos a Alcácer, nas margens do Sado, encostada ao morro e pela primeira vez, temos a notícia de que o nome da cidade foi de autoria árabe, mas com a recomendação de que já no tempo dos romanos “chamavam à povoação salacia”. Fugimos de séculos de história como a lebre do lobo. A noite vem do Oeste e vai tombar sobre este recanto alentejano. O postal segue amanhã, no primeiro comboio.


AS GUERRAS EM CURSO


Manuel Joaquim

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Todos os dias temos notícias sobre as guerras no Irão e na Ucrânia e de longe a longe sobre outras guerras que estão a acontecer em África e noutros lugares.

Sobre o Irão, os comentadores disseram-nos que o Povo sofria e que esteve na iminência de provocar a queda do regime com as manifestações que estavam a acontecer. O que é estranho é que nunca falaram da verdadeira natureza do regime político, das lutas políticas e sindicais que sempre aconteceram no Irão.

A economia nacional do Irão, após décadas de políticas neoliberais, é dominada pela classe capitalista parasitária e vulnerável às sanções dos países imperialistas. O povo do Irão, antes da guerra, enfrentava condições sociais e económicas muito pesadas. A escassez de água e de electricidade e o aumento dos preços agravam as condições de vida de milhões de pessoas. As exigências por direitos democráticos, civis, sindicais e nacionais sempre estiveram na ordem do dia. O povo iraniano considera a paz e a estabilidade vitais para alcançar a liberdade e a justiça social.

O Partido Tudeh do Irão (PTI) é um partido internacionalista com uma estreita relação fraterna com partidos comunistas e operários de todo o mundo. É o partido da classe operária iraniana e sucessor do Partido Comunista do Irão, fundado em 1920. O PCI foi proibido no início da década de 1930 pelo monarca pró-britânico Reza Xá. Na década de 1940 e no início da década de 1950, durante o movimento pela nacionalização da indústria petrolífera, o PTI desempenhou um papel influente. O golpe de Estado organizado pelos serviços secretos da Inglaterra e dos EUA (MI6 e CIA) em Agosto de 1953 derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh e restabeleceu a ditadura do Xá. O PTI foi perseguido e milhares dos seus membros e apoiantes foram presos e muitos executados. O PTI participou activamente na Revolução de Fevereiro de 1979 para derrubar a ditadura do Xá. Mas as forças islâmicas assumiram o novo regime e reprimiram ferozmente a esquerda e o PTI em particular. Desde 1983 que a actuação do PTI dentro do Irão tem sido clandestina, mas conseguiu reorganizar-se eficazmente e construir fortes laços com os movimentos laborais e sindicais, da juventude e feministas e exercer profunda influência na luta popular dentro do Irão. O PTI está a trabalhar para construir uma Frente Unida capaz de enfrentar a ditadura e as ameaças imperialistas e encabeçar a luta pela paz, democracia, soberania e por uma República Democrática Nacional.

O imperialismo nunca abandonou os seus objectivos de colonizar e explorar os povos e as riquezas dos países. Serve-se do seu poder económico e do seu poder bélico e vai colocando os seus alcagotes, como dizia um Amigo meu, Jorge Cruz, nos lugares do poder político. Os EUA instalaram à volta do mundo cerca de 800 bases militares. No Médio Oriente quase todos os países têm bases militares. Nesta guerra todas elas foram destruídas pelo Irão, apesar de Trump,  nos primeiros dias de guerra, ter anunciado que as bases de mísseis, aviação e a marinha tinham sido totalmente destruídas com os comentadores de serviço, sorridentes, a dizerem que sim. No entanto, é o Irão que pelos vistos está a determinar as regras da negociação. Parece que o que está a condicionar os EUA é o escoamento das suas reservas estratégicas de petróleo. Estão a ficar assustados com o que pode acontecer durante o segundo semestre deste ano. Mas a guerra está longe de ser resolvida. ”O acordo de paz está a adiar a batalha final que se avizinha e que vai determinar o vencedor” segundo um jornal iraniano. O Irão não precisa de bombas atómicas. Provavelmente, dispõe de bombas de outra natureza mais letais que a própria bomba atómica.

O senado dos EUA votou contra a guerra, retirando poderes a Trump.

Os EUA não são uma máquina de ganhar guerras mas uma máquina de gerar lucros através das guerras.

A guerra da Ucrânia está a aproximar-se do fim?

A Rússia já não espera a implementação dos acordos de Anchorage, na altura apresentados por Trump, segundo é dito. A Rússia começa a preparar-se para o fim da guerra não através de negociações. A União Europeia, agora braço armado da Nato ao serviço dos EUA, está a acelerar a sua militarização, apontando sem rebuços a futura guerra com a Rússia, e com afirmações de dirigentes e militares importantes nesse sentido que levaram o major general Agostinho Costa a dizer numa entrevista na CNN que não sabe o que esses senhores andam a fumar.

Na primeira semana de Julho vai reunir-se em Ancara a Nato. Preparam-se para sacar aos contribuintes mais 70 mil milhões anuais para financiar a guerra. A Nato não é nem nunca foi uma organização defensiva mas sim ofensiva como se pode verificar pelas suas intervenções ao longo do tempo. Prepara-se para atacar a Rússia. Como vai ser?

Para melhor esclarecimento de todo este processo que nos bate à porta é importante ler o livro recentemente publicado do Major-General Carlos Branco “Ucrânia – Variações de uma guerra inacabada” das Edições Colibri.

LAWRENCE REVISITADO

António Mesquita


(T.E. Lawrence)


"A maior parte das pessoas, naquele tempo, não prestava atenção ao curso geral dos acontecimentos, sendo guiada apenas pelos seus interesses privados — e eram precisamente essas pessoas cujas atividades, nesse período, eram mais úteis. Aqueles que procuravam compreender o curso geral dos acontecimentos e nele participar através do sacrifício pessoal e do heroísmo eram os membros mais inúteis da sociedade; viam tudo ao contrário, e tudo o que faziam pelo bem comum acabava por se revelar inútil e absurdo — como os regimentos de Pierre e de Mamonov, que pilharam aldeias russas, e a gaze que as jovens preparavam e que nunca chegava aos feridos, e assim por diante."

("Guerra e Paz", Leão Tolstoi)


Tolstoi ajuda-me a compreender Lawrence.

David Lean, que nos deu dos maiores épicos do cinema e dos mais populares, realizou em 1962, provavelmente, o seu maior êxito: "Lawrence da Arábia". 

O herói do filme não podia ser mais controverso. Um inglês de Oxford, imbuído da grande cultura clássica, capaz de troçar das instituições e dos protocolos,  com um belo sentido de humor, constrói frente a uma cultura fatalista, nos seus antípodas, um mito em que, a princípio, só ele acredita, mas que, muito antes dos media modernos, se impõe a homens práticos e divididos pelo ódio tribal, através do  exemplo prático e do credo pessoal de que "nada está escrito".

De encontrar o rei Faisal (Alec Guiness),  como fautor da unidade possível entre Hararis, Howeitat e outros   corpúsculos  em que sempre se dividiram os povos do deserto (a sua definição de deserto dada ao jornalista americano - Arthur Kennedy - não deixa dúvidas sobre o seu cariz ético: Lawrence gosta do deserto porque é limpo), ao ataque a Aqaba por terra, através do deserto de Nefud que ninguém tinha tentado antes, a ponto da fortaleza turca ter todos os canhões  virados para o mar, foram empresas que inspiradas pela política colonial inglesa não deixavam de servir, por um tempo, a proto-nação árabe oprimida. 

Mesmo no final da aventura de T.E. (Thomas Eduard), quando as tribos que chefia ocuparam Damasco, impedindo os Ingleses de se vangloriarem de libertadores, com o seu domínio associado, é ainda a ambiguidade do cometimento que ressalta. O conselho árabe proclamado à chegada à velha cidade síria fica, em poucos dias, reduzido a um punhado de seguidores mais fiéis, porque o grosso do contingente tribal abandona a cidade para regressar ao deserto com o saque.

O 'herói' não deixa de ser visto na sua verdade humana pelo jornalista e pelo mais fiel dos seus companheiros, Sherif Ali (Omar Sharif), depois do ataque selvático, "sem prisioneiros", a uma  coluna turca antes de Damasco. O seu "gosto do sangue" é sobretudo uma revelação para si próprio e está na origem do mal-viver a que põe termo com o seu "suicídio" na moto com que começa a narrativa.

No funeral, na catedral de St. Paul, também, os  comentários não poupam o estilo histriónico da personagem  que, porém, não põem em causa a coragem e o génio.

Quando se revê a obra-prima de Lean, a primeira constatação é o carácter histórico, ligado a uma época que não pode ser ressuscitada, deste filme e do seu tratamento da personagem. Não é só o tom épico e a construção quase didáctica da personagem, com os exemplos de bravura sempre pagos com o próprio corpo.  

Numa cena depois de Aqaba, quando Lawrence é acareado e torturado pela polícia turca, há uma nuance de erótica homossexual que o "herói" rejeita violentamente, com as piores consequências para si próprio. A anedota só tem interesse por assinalar, uma vez mais, a ambígua complexidade da sua psicologia. Numa versão moderna, aliás, seria a pormenores como este que a história recorreria para despertar o interesse do espectador.

Interpretar o filme de Lean à luz do pensamento de Tolstoi, em "Guerra e Paz", é o caminho mais directo para sair da psicologia de Lawrence, mesmo se o filme não é um panegírico, evidentemente, a complexidade da personagem é por de mais patente.

É a proibição de provar da "árvore do conhecimento", de origem bíblica, que explica a filosofia do escritor russo.

As tribos árabes que abandonaram o seu ídolo inglês depois do saque de Damasco é o melhor exemplo. Tal como a tropa russa que abandonou Moscovo às chamas, à chegada de Napoleão,  não foi o ódio aos franceses nem a promessa de se vingarem que ocupou os seus espíritos, "mas o próximo soldo, o próximo aquartelamento, Matreshka, a vivandeira e coisas do género."

Os ingleses, em Damasco, tiveram que, relutantemente, contemporizar com Faisal e este de se ver, uma vez mais, como a cabeça dum reino inexistente.

Auda Abu Tayi (Anthony Quinn) e os seus Howeitat foram por um momento a força de emancipação da unidade árabe, mas só na cabeça de Lawrence. Os interesses tribais prevaleceram sempre e, como diria Leão Tolstoi, foi sendo isso que eles puderam ser úteis para o "progresso geral"...

A "paixão" do "scholar" inglês e a sua transformação interior numa criatura sedenta de sangue só podiam acabar (e começar) no desastre.

POESIA

Helena Serôdio




                O MEU AMOR


Na minha jarra de ouro e prata fina
Murcharam as violetas que colheste,
Imagem ideal e peregrina,
Flores singelas, amor, que me ofereceste.

De cada haste trémula e franzina
Dessas flores com que tu me enterneceste,
Tombou pura uma gota cristalina
E nela sem saber, mais me prendeste,

Assim também, amor, hão-de murchar
Em jarra de cristal os teus desejos
Estuantes de vida e mocidade;

Mas além de tudo o que passar,
O meu amor, mais forte que os teus beijos,
Há-de ficar por toda a eternidade!...

O TRAQUE

Mário Martins


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Um autêntico massacre. O bombardeamento televisivo despeja Trump, de manhã à noite.

Sejam as ameaças de Trump com tarifas.

Seja a animosidade de Trump perante a Ucrânia.

Seja a ameaça de Trump de potencial anexação do Canadá.

Seja a contínua ameaça de Trump ao México.

Seja a reiterada pretensão de Trump de anexação da Gronelândia.

Seja a ameaça militar de Trump, seguida do derrube e sequestro do presidente da Venezuela.

Seja o bombardeamento do Irão, acompanhado por Israel, ou o contrário…

Seja a ameaça militar de Trump a Cuba.

Seja a ameaça de Trump de sair da Nato.

De ameaça em ameaça, Trump diz e desdiz…peço desculpa aos participantes no debate por interromper, porque acabamos de receber uma notícia de


ÚLTIMA HORA:


De acordo com fontes fidedignas, o Presidente dos EUA, Donald Trump, deu um traque! A sonoridade do evento pôs em alvoroço a Casa Branca, que entrou em modo de segurança máxima. Sabe-se que os Serviços Secretos estão já a investigar a origem do insólito evento, sem descartar a hipótese de eventual responsabilidade estrangeira. Já os analistas e comentadores que enxameiam o espaço televisivo, por uma vez, não sabem o que dizer…

 

01/06/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Cabo Espichel. Olhamos este mar uma última vez, oceano de águas mansas, de cansaços que se estiram para a costa num derradeiro alento de esfalfamento. É um mar chão que quase nos incita a caminhar. Os olhos percorrem esta imensidão de azul e nos nossos pensamentos imaginamos as ondas da Nazaré a erguerem-se, tombarem num novelo lento sobre a praia e acreditamos escutar os sons de O Fortuna de Carmina Burana. Deve ser a teia do nosso encontro a quebrar-se. Separamo-nos em Azóia. Segues para Norte e prossigo esta viagem de descoberta, de conhecimento e de despedida. Por agora ainda rumo a Sul. Atravesso a mansidão desta floresta verde e procuro muralhas de pedra, um cubelo que se erga por sobre a folhagem. Chamam-lhe o Castelo dos Mouros e é meia verdade. Sendo um dos pontos altos deste espaço territorial teve ocupação humana bem antes da nossa era, mas seriam os árabes que chegaram do Norte de África que encastelaram as pedras. Observavam, o mar e o rio, o vai e vem humano. Por aqui se acolheram ao longo de quatro séculos. Deslizo silenciosa por um caminho muralhado e, talvez para esquecer a separação que nos leva, tento imaginar um painel onde observo o mundo. O «Ocidente colectivo» continua a alimentar o ogre de Kiev. Insaciável, ainda não engoliu os noventa mil milhões que lhe meteram na goela e já se passeia em Erevan reclamando mais. Enquanto isso, a figura ridícula do presidente de um parlamento que ilegalizou doze partidos políticos é recebido de pé e com aplausos por uma Assembleia que tem uma revolução libertadora na sua génese. Numa Europa esfrangalhada que insiste caminhar numa estrada sem saída, uma coisa que deu pelo nome de social-democracia, seja lá o que isso fôr, qual náufrago no meio do oceano, geme na tentativa servil de explicar que o seu ofício é gerir bem o capital dos nadadores. Já ninguém os ouve. São apenas o gargalo de uma garrafa onde uma rolha bloqueia as ideias. Desço em direcção ao mar, procuro o comboio que me fará atravessar este rio largo e deixar-me na margem esquerda. Cascais é uma cidade relativamente recente. Aparece-nos no século XIV já com um desenvolvimento interessante, mas o seu foral só surgirá no século XVI. A estação não cativa e os arredores ainda menos. Tudo parece certo, limpo, mas há uma mistura arquitectónica que nos faz sentir incómodos, desabituados do lugar. Após passar o Estoril o trajecto priva o nosso olhar da contemplação marítima. Deixamos o pensamento deslizar, penetrar nos nossos medos e nos monstros que perseguem a realidade dos povos. O homem laranja voltou a fugir do infantário e brinca no meio do salão de baile com os aviões e os navios que subtraiu da caixa do tesouro. Veste-se como supremo líder do reino orangetão e ameaça bombardear tudo o que mexe, mas os persas meteram-lhe a cabeça num bidão de onde não consegue sair. Na casa da loucura onde vivem os do chapéuzinho prossegue a insânia da maior malvadez humana. Se tudo isto não fosse suficiente, voltaram a retirar a pedra do sarcófago para dar de novo vida à múmia de Boliqueime. Concederam-lhe a medalha de mérito da destruição económica, da indústria, das pescas, da agricultura, da marinha nacional, da siderurgia e do atapetamento do país com betão. Resta-nos ter fé que quando voltarem a colocar a pedra no seu lugar a encimem com todo o lixo que nos deixou. Quando por momentos voltamos a ver a água estamos na foz do rio. Depois de Caxias, o rio não foge. O rosto ensombrece-me por momentos, com o olhar fixo nas pedras da fortaleza e traz-me à memória o programa radiofónico de Ana Aranha, “No limite da dor”. “Venho dizer-vos que não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas”, escreveu Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira a cantou com a voz profunda que rasgava a alma. Não vamos deixar o olhar viajar em Lisboa. Não merece, essa Lisboa que sabe tudo sobre Olissipo, mas ignora a história árabe com quatrocentos anos. Sim, a Alfama, a Mouraria, que tradicional que turístico, o castelo de S. Jorge, a reconquista e, quem construiu o castelo, a alcáçova que existiu? …, e os árabes que aqui viveram até à sua expulsão no século XVI, oito séculos após terem chegado? É uma cidade à beira-mar, com ondas que se quebram de encontro às muralhas, admiráveis e de boa construção. A parte ocidental da cidade é encimada por arcos sobrepostos assentes em colunas de mármore apoiadas em envasamentos de mármore. Por natureza, a cidade é belíssima", disse dela o geógrafo e jurista, Muḥammad Ibn ʿAbd al-Munʿim al-Ḥimyarī. Sinto os rodados da composição sobre o ferro da ponte na longa travessia para Sul. Por uma vez, olho para trás, para o único espaço que me retém a atenção, a colina onde se implanta o Panteão. Ultrapasso Almada sem retirar a atenção do horizonte que persigo na vila de Palmela, a sede portuguesa da Ordem Militar de Santiago. O reino fundou-se num misto de guerra religiosa e ocupação estranha, através das Ordens Religiosas e das Ordens Militares. Uns empunhavam a palavra de Deus e os outros a espada em Seu nome. Era um tempo de violência, mas hoje quando subimos às ameias é uma sensação de tranquilidade que vislumbramos e sentimos. Resta a travessia da Arrábida, por entre a vegetação de um verde seco e quantas vezes rasteira, refúgio de silêncio e de solidão procurada. A serra estira-se ao longo do estuário e desagua sobre o mar sem ter conseguido alcançar o seu nível. Contemplam-se mutuamente com cerca de cem metros de separação. É tempo de observação e silêncio, de descanso, de procura do que perdemos e deixamos de ver, abrir o segredo dos sonhos e deixá-los navegar neste mar de um azul luminoso. Onde há um lugar cristão, há certamente lendas e mitos. A lenda deste lugar religioso é de uma candura e simplicidade que nos faz sorrir. Após a visita ao farol serpenteio pelo terreno do santuário e deixo-me impressionar pela Casa dos Círios. Os Círios sempre me levam em pensamento para a marcha funerária de D. João o de Boa Memória, cuja morte foi alterada para simbolicamente coincidir com o 14 de Agosto, o dia da batalha de Aljubarrota e dizem-nos que pelas ruas da Lisboa medieval passou o rei que fora por entre círios e mortalhas. O postal ainda o escrevo. Vai comigo por agora.

MARAT E O DISCÍPULO

António Mesquita


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Em 1889, Paul Bourget escreveu um romance de tese, de nome "O discípulo". A ideia é que mesmo um intelectual fora do mundo e dos temas da actualidade é responsável pelos efeitos do que escreve. 

No caso, Adrien Sixte, uma espécie de eremita iluminado que se inspira na doutrina então em voga de Auguste Comte. O desprendimento e a superioridade moral em relação aos sentimentos e valores "burgueses" é o seu fio condutor. O conforto do filósofo acaba em desespero e angústia, quando, depois duma correspondência que o vai pondo ao corrente dos sucessos, um seu admirador chamado Robert Grislou lhe dá conta do desfecho da sua triste história. 

Tendo entrado para preceptor dum adolescente duma família rica, empreendeu a conquista fria e metódica da sua irmã. Esta   nunca pareceu dar-lhe troco, mas ficou  impressionada, a ponto de se afastar do ambiente familiar sob um pretexto.

Robert nem por isso desistiu do seu projecto e fez-lhe um ultimatum que lhe deixava, a ela, a responsabilidade do seu suicídio. Chega uma altura em que a jovem  cede, mas com a condição de se suicidarem ambos depois se entregarem de corpo e alma. No dia seguinte, porém, ele já não tem motivos para levar a sua promessa por diante e ela cumpre a sua parte, votando-o a um completo desprezo. É com este trágico epílogo que o filósofo é confrontado, o que o leva a um desespero nada filosófico.

O século que termina à data do romance e o país em que vive o autor são férteis  em convulsões sociais, e a própria Revolução Francesa está, como de sabe, na origem das maiores mudanças de hábitos, ideias e cultura.

Marat, o jornalista panfletário, assassinado na banheira, conforme o quadro de David, é a imagem mais influente quando pensamos num doutrinário que exacerba os ânimos dos seus correlegionários, a um ponto para lá da sua capacidade de assumir as consequências. Robespierre que, como diz Edward Wilson, teria sido considerado em 1791, um arauto do liberalismo, dois anos depois é um ditador in extremis, é um melhor exemplo ainda de  como se pode ser o joguete das circunstâncias. Aqui, vem a propósito citar Roger Scruton, sobre o cerne do problema de Maximilien:
"Mesmo quando Robespierre promovia fanaticamente o 'despotismo da liberdade' não ocorreu aos jacobinos que estivessem comprometidos com uma grave contradição. Somente com a chegada dos tribunais revolucionários – nos quais o juiz, o jurado e o promotor eram idênticos, e o acusado, privado do direito de defesa – é que os mais razoáveis dentre eles viram que o objetivo da igualdade exige a destruição da liberdade."

Mas, evidentemente, o principal interesse  do texto de Bourget que, enquanto tese, foge às regras de excelência da arte do romance, está, neste nosso tempo de 'niilismo não doutrinário', se assim se pode dizer,  em levantar a questão da responsabilidade moral e intelectual dos criadores ou promotores de ideias.

Um dos homens mais influentes da actualidade não é um intelectual, muito menos um filósofo, as suas ideias são um aparente desconchavo que mantêm, apesar disso, a coerência subreptícia dum instinto, às vezes assassino, navegando com o à-vontade dum gondoleiro nas águas paradas da laguna das redes sociais e no mundo do espectáculo político, e o mínimo que se pode dizer é que se tornou impensável pedir-lhe responsabilidades. Mesmo os seus mais fiéis eleitores reconhecem no seu arbitrário a complexidade dum ídolo, acima da lei e da moral comum.

É difícil encontrar um exemplo de coerência, acima das contradições inevitáveis do relacionamento humano, num mundo incoerente. A ingenuidade, chamemos-lhe assim, dum Paul Bourget releva do mesmo simplismo daqueles que ele implicitamente condena por propagarem ideias "maiores do que a vida" 




C I N E M A


LA GRAZIA



Curioso exercício de sátira e humor dum Paolo Sorrentino que já nos deu tantas provas de excelência em "Il Divo" e "La grande bellezza".

O presidente da república transalpina é um jurista de formação, com tratados publicados. Sempre juiz, mesmo nas suas novas funções, não é capaz de se decidir em algumas questões que  lhe são apresentadas. A sua filha, que lhe dá assesssoria, pressiona-o uma e outra vez, com um projecto sobre a eutanásia e ele sempre encontra motivos para  exigir correcções e protelar. Casos de clemência como a duma mulher que matou o companheiro, alegadamente, por amor, que, na doença terminal, a torturava,  o o dum professor de história que, com a mesma alegação, estrangulou a mulher com Alzheimer, encontram a mesma indecisão. 
A sua integridade é tal, aos olhos do público, que é conhecido pela alcunha de "cimento armado".

O que o mina por dentro é, no entanto, o luto de Aurora, a mulher da sua vida e das suspeitas, pelo tarde, da sua traição com um colega. A ponto de todo este seu rigorismo e falta de coragem em tomar uma posição sobre   questões mais complexas parecerem a vingança possível contra a má sorte.

O cavalo Elvis da  coudelaria do Quirinal é deixado agonizar, para desconforto de todo o pessoal, só porque o princípio de que a vida é sagrada é levado ao extremo dum prnsamento maquínico.

Acusado um dos seus próximos de ser o amante de Laura, o que provoca estupefacção e o fim duma amizade, Mariano, o nosso presidente, interpretado magistralmente por Toni Servillo, é confrontado com a verdade, quando já tudo tinha corrido mal como podia correr. A sua amiga Coco (Milvia Marigliano), sempre pronta para o chiste e a brincadeira culta, é o traidor que ele procurava. Era ela o amante da sua idolatrada consorte.

Sorrentino, que já nos tinha mostrado um Santo Padre africano e um presidente português recebido com chuva e uma passadeira esvoaçante, deixa-nos com esta última alfinetada no nosso sistema de crenças. O facto do amante ser outra mulher muda tudo. 

O presidente, antes de se demitir, em cima do fim do mandato, concede um indulto à mulher assassina, confirma a pena do professor, com o argumento que é um impostor e aprova, finalmente, o decreto da eutanásia. Justifica-se com este dito: "Há um tempo para os filhos seguirem os pais e há um outro para os pais seguirem os filhos."

Leveza podia ser o título do filme. Nele, há um astronauta num estado sem gravidade que chora e uma lágrima dança no écrã, e depois da demissão é o próprio Mariano que sonha (ele que nunca sonhava) estar numa cápsula nesse estado de leveza.

DE QUEM É A CULPA?

Mário Martins

 

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Volta e meia vem-me à memória a frase do grande físico e pensador Einstein, de que “um assassino não tem culpa, mas não gostaria de tomar chá com ele”. Uma frase sábia, mas perturbadora. 

Se um assassino não tem culpa, tal quererá dizer que o seu acto é fruto da sua índole, do seu instinto, à mistura com o meio envolvente.

Opor-se-á que o ser humano goza de livre-arbítrio, o qual lhe confere o poder de praticar tanto o bem como o mal. Mas essa não é uma propriedade autocriada, mas determinada pela Natureza ou por Deus(es), cujos desígnios, em ambos os casos, se revelam insondáveis. Donde, seja lá o que for o comportamento humano, ele tem uma origem natural ou divina. É essa condição   que, em última análise, justifica a afirmação filosófica de que o assassino não tem culpa.

É duro tirar esta consequência da tese einsteiniana, mas se no âmbito individual inexiste culpa, como se todos fossemos inimputáveis, haverá razão para ela existir nos desmandos praticados na esfera política?

Na vida prática, no entanto, justifica-se um sistema de punição para proteger a sociedade e evitar a corrupção generalizada.

Toda a disciplina está limitada à horizontalidade da descrição do mundo, tal como o vemos, e de nós próprios. É isso que fazem a filosofia, delimitando o campo do conhecimento e tirando as devidas consequências dele; a ciência, identificando regularidades e buscando soluções concretas; a literatura e a poesia, ficcionando ou cantando o real e examinando a psicologia humana; a religião, inventando entidades transcendentes indemonstráveis, minorando, a um tempo, o sofrimento e a morte, ao preço de cavar as divisões humanas; a arte, plasmando o talento humano.

Raskólnikov, do romance “Crime e Castigo”, do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, está de volta. 

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