Cabo da Roca. Onde a terra acaba e o mar começa. A natureza como a vida, um contínuo terminar e recomeçar. O comboio não se aproxima do mar. Esta Linha do Oeste tão desprezada e esquecida, deixou-me em Agualva-Cacém, mas a ligação a Sintra é curta. Quando poisamos os pés nestes territórios sente-se de imediato a pressão dos grandes aglomerados populacionais, a margem para onde são empurrados os que não gravitam na órbita interna do poder. Contorno o povoado, outros horizontes me levam, em direcção a Colares pela N247. Logo que atravessamos Azóia sentimos a presença do mar e a cada passo que damos adquirimos a sensação de que é o oceano que se dirige para nós e não o oposto. Quando o edifício do farol nos enche o olhar, aparece-nos essa mistura de infinitos de azul. A luz vigilante sobre o promontório abarca nos seus feixes luminosos o mar e a terra, e traz-me à memória, o cego que com uma lanterna ilumina na noite o caminho aos que vêem. O sentimento que nos acode é o de infinito e eternidade, esses longínquos que o pensamento tem dificuldade em assimilar, onde não há começo nem fim, apenas continuidade. Sim, essa continuidade que tanto desejávamos viver e, sabemos como tudo à nossa volta é tão efémero, tão frágil, tão breve. Deveríamos procurar o hoje e o aqui e sempre sonhamos com o amanhã e o longínquo, numa dessas contradições humanas que não conseguimos vencer. O sorriso que ansiei à chegada não estava onde sonhei, mas apareceu quando o meu olhar procurou a vertente do farol. Recordas o poema de Saramago sobre o nascimento da Afrodite? As ondas a chegar em infinitos de azul como aquelas que vemos no sopé das arribas, uma e outra vez desenrolando a sua espuma sobre as areias e a pedraria que se desintegra lentamente em pequenos grãos, transformando-se em novas formas de matéria. Há momentos em que a solidão necessita de companhia, mesmo que o silêncio substitua as palavras. Quando os nossos olhos galopam pela extensão desta planície de azul, sentimo-nos ao mesmo tempo poderosos e demasiado pequenos, ínfimos, como os corpos físicos que vão desde a pequenitude do protón à grandeza das galáxias. Terá sido esta forma de ver o que aconteceu aos aventureiros que zarparam séculos atrás pelo mar fora na procura do desconhecido? É bem possível, uma mistura de aventura, de curiosidade e de interesse por conhecer o que está para além da linha horizontal que se desloca com o mesmo movimento do nosso olhar. Não descobriram nada, pois não se descobre o que já existe, mas encontraram um mundo de sabores, de culturas, de cores e aromas que os enriqueceram. A uns em património feudal e a outros, muito poucos, em saber cultural. Ao pensar nas últimas paragens desta viagem que me leva, deparo-me com estes contrastes, a infância da nação em Leiria, a beleza com que presenteamos o divino em Alcobaça e na Batalha, as prisões com que os sátrapas pensavam sufocar a liberdade, a ostentação do poder quase sempre apoderado pelos medíocres em Mafra e aqui, neste fim de terra, a sensação plena de uma liberdade que o ser humano tanto anseia, tanto procura, tanto sonha e quantas vezes parece perseguir como uma utopia. “Erguem-se muros em volta do corpo quando nos damos”, recordas quando nas noites profundas dos anos de chumbo, soletrávamos nas madrugadas sem sono e derrotávamos o medo assaltando os portões das fortalezas onde procuravam guarida os arcontes de um poder bastardo? Calavam, prendiam, torturavam, assassinavam e no final, quando as paredes de barro dos alcáçares onde se escondiam derreteram, queriam ser tratados com dignidade. E na verdade, foram, muito mais do que aquela que mereciam, saíram incólumes, sem ser julgados pelos crimes que cometeram ou que mandaram fazer. Quando percorremos os milénios da História, desde os símios de África, passando pela grandeza das civilizações mesopotâmicas e os milénios da nossa era, o que encontramos sempre é o planeta ensopado no sangue daqueles que se erguem perante o despotismo dessa gente que se alça em faraós, que se crismam como representantes de deuses que inventam para gáudio da sua loucura. Agem todos como se fossem eternos, mas acabam em sarcófagos sem qualquer préstimo que não seja desaparecer para todo o sempre na glória de não valerem coisa nenhuma. As paisagens que a natureza desenha e nos deleita no prazer de olhar, sempre nos mostram a transitoriedade de todo e qualquer ser animal, com inteligência ou sem ela. Mesmo criando infernos e purgatórios, aqueles que crescem na podridão excrementosa de pântanos de águas estagnadas onde só vislumbram, dinheiro e poder, acreditando que as suas ambições ignominiosas podem prevalecer, usando para tal, os aparelhos repressivos que montam nos Estados onde se alavancaram como senhores absolutos, não desistem do exercício da maldade. Quedemo-nos com a alegria deste azul luminoso, este vaivém das ondas espumando em brancura contínua num deslizar preguiçoso pelos pequenos recantos de areia que se escondem entre estas atalaias da penedia e acreditemos que o mundo é perfeito e que só necessitamos de nos aconchegar no pequeno tempo em que decorre a nossa vida. O postal hoje segue contigo.
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