António Mesquita
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"Os progressos da civilização permitem a cada um manifestar qualidades insuspeitadas ou novos vícios que os tornam mais queridos ou mais insuportáveis aos seus amigos. Foi assim que a descoberta de Edison tinha permitido a Françoise adquirir um defeito mais, que era o de recusar, qualquer que fosse a utilidade, ou a urgência que houvesse, servir-se do telefone. Ela encontrava maneira de fugir quando se queria ensiná-la, como outros na ocasião de serem vacinados."
(Marcel Proust)
A criada de Marcel, Françoise, reage como um aborígene perante a invasão de estranhos. Os seus modos aldeãos e a sua pouca educação brande-os como outras tantas armas de defesa. O seu patrão, o jovem, futuro autor de "La Recherche", que não perde uma oportunidade de usar a recente técnica do telefone para falar com a mãe, os amigos e a namorada, ou ouvir as óperas de Wagner em casa através do teatrofone, observa essa relutância com uma curiosidade intrigada.
Não podemos imaginar, nós, contemporâneos da mais acelerada inovação tecnológica, o mundo que se abriu, com o telefone, aos humanos do século dezanove. É preciso reler as páginas dum memorialista de antes desse tempo, para perceber o que mudou, quando deixamos de depender do correio pedestre ou a cavalo ( é verdade e o dos pombos-correio) para comunicar com os outros. Vassili Grossman, a propósito dos campos siberianos, fala das cartas "que eram atiradas da escuridāo dos vagões para a escuridão da grande caixa do correio da estepe - e essas cartas chegavam ao destinatário!". E Chateaubriand fala-nos do tempo dos cavalos de muda: "A um quarto de légua aquém de Orgon, ele julgou indispensável a precaução de se disfarçar: vestiu uma sobrecasaca azul coçada, na cabeça um chapéu redondo com um lenço branco, e montou um cavalo de posta para galopar diante da sua viatura, querendo assim passar por um correio."
Aliás, este fenómeno de aceleração faz-nos incorrer num erro, já reportado por Alan Sokal, de apreciar a própria ciência sob o ângulo da mudança radical de conceitos, a exemplo do marketing comercial, que, evidentemente, é o modo mais certo de nos extraviarmos. Mas é uma espécie de preconceito anti-Françoise. Damos de barato que é agora normal a ciência revolucionar em cada novidade a filosofia da existência.
Por isso, a atitude cautelosa em relação à tecnologia seja quase sempre confundida com uma mentalidade retrógrada ou fora do seu tempo. Não é mesmo de excluir que no país que protagonizou os maiores e mais rápidos avanços técnicos, as pessoas, ou um significativo número delas, se sinta atraída por formas de religiosidade nas margens da superstição, como acontece com a seita dos evangélicos, com quem se identifica o paradigma da confusão que é o actual presidente dos USA.
O telemóvel que reúne em si os poderes da recente tecnologia numa superconcentração de espaço não deixaria a Françoise a liberdade de o recusar, se o conhecesse, como ela fez com o telefone. E isso porque a antiga convivialidade que reúne fala e imagem, numa alucinante simulação da presença física não lhe deixaria essa opção. A ingenuidade não nos protegeria da técnica, isso apenas está ao alcance da ideologia.
Esperam-nos tenpos mais do que interessantes.
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