01/05/26
ÁRTEMIS
Moeda datada de 253-241 AC, representando a deusa grega da caça Ártemishttps://gulbenkian.pt/museu/deuses-olimpo-na-colecao-gulbenkian/artemis/
Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
Os tempos alucinados que vivemos, a fazerem jus à célebre frase atribuída a Einstein, convidam a uma evasão. O programa espacial da Nasa, nomeadamente o lunar, é uma oportunidade virtual de o fazer.
Em meados do ano que vem, será lançada a Ártemis III, com o objectivo de testar um módulo de aterragem lunar HLS, em órbita terrestre.
A primeira alunagem do programa está prevista para a missão Ártemis IV, no início de 2028.
Oficialmente, o programa visa estabelecer uma base lunar permanente, cujo início de instalação, com o lançamento da Ártemis V, está previsto para o fim de 2028, - se os prazos não derraparem ou o programa não for adiado ou, simplesmente, cancelado - como passo inicial para “missões tripuladas ao espaço profundo”.
Mas uma “simples” ida e volta a Marte, com a tecnologia actual, afigura-se empresa para tripulantes românticos suicidas. Se a Lua fica “já ali”, a cerca de 400.000 kms., Marte está a uma distância mínima de 55 milhões de kms. e máxima de 401 milhões, dependendo das relativas posições orbitais. A aproximação máxima ocorre a cada 26 meses, permitindo janelas de lançamento para missões espaciais, espaçadas no tempo.
Há vários desafios decisivos que uma missão tripulada a Marte deverá superar (Wikipédia):
- efeitos físicos da exposição a raios cósmicos de alta energia e outros tipos de radiação ionizante;
- efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa gravidade;
- efeitos físicos da permanência prolongada num ambiente de baixa luminosidade;
- efeitos psicológicos do isolamento da Terra;
- efeitos psicológicos da falta de comunidade devido à falta de conexões em tempo real com a Terra;
- efeitos sociais de vários humanos vivendo em um ambiente “tumultuado” por mais de um ano terrestre;
- inacessibilidade às instalações médicas terrestres;
- efeitos físicos da alta velocidade de escape marciana 5 km/s dificultando o retorno.
- Uma troca completa de mensagens (pergunta e resposta) demora entre 6 e 40 minutos, dependendo da posição dos planetas.
- A comunicação pode sofrer interrupções temporárias (aproximadamente 2 semanas a cada 26 meses) quando Marte está atrás do Sol, devido à interferência electromagnética
Em suma, uma ida e volta de humanos a Marte nos próximos tempos, é pura ficção. Sem que ocorra um salto tecnológico radical, a alternativa é o desenvolvimento da robótica, apesar de, por razões financeiras, não se enviarem para o inóspito ambiente marciano equipamentos recém-desenvolvidos, mas apenas os já longamente testados, a fim de se evitarem, o mais possível, as perdas (sempre da ordem de grandeza de 1.000 milhões de dólares). Para se ter uma ideia, os robôs já enviados ao planeta vermelho custaram, cada um, mais de 2.000 milhões de dólares, a Àrtemis II 4.000 milhões, e todo o programa está orçado em 100.000 milhões.
Neste momento, por trás do objectivo de “missões tripuladas ao espaço profundo” está o desenvolvimento de aplicações militares e a inovação tecnológica em geral, bem como a eventual exploração de minérios lunares e de Hélio-3 (considerado o "ouro da Lua", é um isótopo raro na Terra, ideal para energia de fusão limpa e sem emissão de carbono), mas cuja remessa para a Terra se afigura muito custosa.
Este é o programa oficial da Nasa. Qual será o das concorrentes China e Rússia?
NO CORRER DOS DIAS
Cabo da Roca. Onde a terra acaba e o mar começa. A natureza como a vida, um contínuo terminar e recomeçar. O comboio não se aproxima do mar. Esta Linha do Oeste tão desprezada e esquecida, deixou-me em Agualva-Cacém, mas a ligação a Sintra é curta. Quando poisamos os pés nestes territórios sente-se de imediato a pressão dos grandes aglomerados populacionais, a margem para onde são empurrados os que não gravitam na órbita interna do poder. Contorno o povoado, outros horizontes me levam, em direcção a Colares pela N247. Logo que atravessamos Azóia sentimos a presença do mar e a cada passo que damos adquirimos a sensação de que é o oceano que se dirige para nós e não o oposto. Quando o edifício do farol nos enche o olhar, aparece-nos essa mistura de infinitos de azul. A luz vigilante sobre o promontório abarca nos seus feixes luminosos o mar e a terra, e traz-me à memória, o cego que com uma lanterna ilumina na noite o caminho aos que vêem. O sentimento que nos acode é o de infinito e eternidade, esses longínquos que o pensamento tem dificuldade em assimilar, onde não há começo nem fim, apenas continuidade. Sim, essa continuidade que tanto desejávamos viver e, sabemos como tudo à nossa volta é tão efémero, tão frágil, tão breve. Deveríamos procurar o hoje e o aqui e sempre sonhamos com o amanhã e o longínquo, numa dessas contradições humanas que não conseguimos vencer. O sorriso que ansiei à chegada não estava onde sonhei, mas apareceu quando o meu olhar procurou a vertente do farol. Recordas o poema de Saramago sobre o nascimento da Afrodite? As ondas a chegar em infinitos de azul como aquelas que vemos no sopé das arribas, uma e outra vez desenrolando a sua espuma sobre as areias e a pedraria que se desintegra lentamente em pequenos grãos, transformando-se em novas formas de matéria. Há momentos em que a solidão necessita de companhia, mesmo que o silêncio substitua as palavras. Quando os nossos olhos galopam pela extensão desta planície de azul, sentimo-nos ao mesmo tempo poderosos e demasiado pequenos, ínfimos, como os corpos físicos que vão desde a pequenitude do protón à grandeza das galáxias. Terá sido esta forma de ver o que aconteceu aos aventureiros que zarparam séculos atrás pelo mar fora na procura do desconhecido? É bem possível, uma mistura de aventura, de curiosidade e de interesse por conhecer o que está para além da linha horizontal que se desloca com o mesmo movimento do nosso olhar. Não descobriram nada, pois não se descobre o que já existe, mas encontraram um mundo de sabores, de culturas, de cores e aromas que os enriqueceram. A uns em património feudal e a outros, muito poucos, em saber cultural. Ao pensar nas últimas paragens desta viagem que me leva, deparo-me com estes contrastes, a infância da nação em Leiria, a beleza com que presenteamos o divino em Alcobaça e na Batalha, as prisões com que os sátrapas pensavam sufocar a liberdade, a ostentação do poder quase sempre apoderado pelos medíocres em Mafra e aqui, neste fim de terra, a sensação plena de uma liberdade que o ser humano tanto anseia, tanto procura, tanto sonha e quantas vezes parece perseguir como uma utopia. “Erguem-se muros em volta do corpo quando nos damos”, recordas quando nas noites profundas dos anos de chumbo, soletrávamos nas madrugadas sem sono e derrotávamos o medo assaltando os portões das fortalezas onde procuravam guarida os arcontes de um poder bastardo? Calavam, prendiam, torturavam, assassinavam e no final, quando as paredes de barro dos alcáçares onde se escondiam derreteram, queriam ser tratados com dignidade. E na verdade, foram, muito mais do que aquela que mereciam, saíram incólumes, sem ser julgados pelos crimes que cometeram ou que mandaram fazer. Quando percorremos os milénios da História, desde os símios de África, passando pela grandeza das civilizações mesopotâmicas e os milénios da nossa era, o que encontramos sempre é o planeta ensopado no sangue daqueles que se erguem perante o despotismo dessa gente que se alça em faraós, que se crismam como representantes de deuses que inventam para gáudio da sua loucura. Agem todos como se fossem eternos, mas acabam em sarcófagos sem qualquer préstimo que não seja desaparecer para todo o sempre na glória de não valerem coisa nenhuma. As paisagens que a natureza desenha e nos deleita no prazer de olhar, sempre nos mostram a transitoriedade de todo e qualquer ser animal, com inteligência ou sem ela. Mesmo criando infernos e purgatórios, aqueles que crescem na podridão excrementosa de pântanos de águas estagnadas onde só vislumbram, dinheiro e poder, acreditando que as suas ambições ignominiosas podem prevalecer, usando para tal, os aparelhos repressivos que montam nos Estados onde se alavancaram como senhores absolutos, não desistem do exercício da maldade. Quedemo-nos com a alegria deste azul luminoso, este vaivém das ondas espumando em brancura contínua num deslizar preguiçoso pelos pequenos recantos de areia que se escondem entre estas atalaias da penedia e acreditemos que o mundo é perfeito e que só necessitamos de nos aconchegar no pequeno tempo em que decorre a nossa vida. O postal hoje segue contigo.
FIDEL
Intervenção efectuada na Conferência realizada no passado dia 19 de Abril, na Voz do Operário, em Lisboa, “Centenário de Fidel Castro – Cuba, a Revolução e o Mundo”
Centenário de Fidel Castro
Nesta Conferência, integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Fidel Castro, nasceu em 13 de Agosto de 1926, deve registar-se a sua passagem pela cidade do Porto, durante a VIII Cimeira Ibero-Americana que se realizou nos dias 17 e 18 de Outubro de 1998, no edifício da Alfândega do Porto.
A Comissão Regional do Porto de Luta contra o Bloqueio e de Solidariedade com o Povo de Cuba iniciou a sua actividade nos primeiros anos da década de 90, no chamado “Período Especial” e teve o ponto alto da sua actividade na visita de Fidel Castro ao Porto.
A Comissão coordenou núcleos de activistas solidários com o Povo de Cuba em todo o norte do País, colaborou com núcleos da Galiza e de outros locais de Espanha e com a Associação de Amizade Portugal-Cuba. Promoveu actividades para criar e reforçar relações directas com instituições culturais, artísticas, sindicais, com organizações congêneres cubanas entre outras, como contributo para a luta contra o bloqueio. Realizou muitas iniciativas de solidariedade, debates com jovens, enviou materiais escolares e diversos equipamentos que encheram um camião que foi despachar ao porto de Vigo. Realizou jantares de confraternização e encontros com personalidades de Cuba. Participou na Festa da Alegria, em Braga, com um espaço próprio, onde recolheu em papel cenário centenas de assinaturas em solidariedade com Cuba, editando depois uma colecção de postais com a reprodução dessas assinaturas.
Publicou um álbum com dois desenhos de Che Guevara, de autoria de Siza Vieira, e com um poema de José Saramago sobre Che Guevara. No seu lançamento esteve presente o filho de Che Guevara, Camilo Guevara, que teve a oportunidade de rubricar muitos álbuns.
No dia 18 de Outubro, último dia da Cimeira, a Comissão organizou durante a tarde uma grande manifestação com muitas bandeiras e balões, que desfilou pelas principais ruas do centro da cidade do Porto com muita gente vinda de todo o lado, em camionetas, em comboios em automóveis, notando-se a presença de muita gente vinda da Galiza, de Madrid, das Astúrias e da Catalunha, que teve como principais palavras de ordem “Fidel, Amigo, o Povo está contigo”; “Cuba sim, Bloqueio não”; “Cuba Vencerá”. A manifestação mereceu a simpatia e o apoio de muitas pessoas ao longo das ruas.
A manifestação terminou na Praça D. João I com a aprovação de uma moção onde se apelava a todos os chefes de Estado e de Governo presentes na cimeira todos os esforços e iniciativas para que o bloqueio a Cuba fosse levantado a bem da Paz, da Justiça e do Desenvolvimento que, entretanto, foi entregue ao ministro dos negócios estrangeiros Jaime Gama.
À noite, a Comissão organizou um “Concerto de Solidariedade com Cuba e contra o Bloqueio económico dos EUA” no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos, o maior espaço disponível na zona da cidade do Porto, com a participação solidária de muitos artistas, alguns vão participar hoje nesta iniciativa.
Milhares de pessoas encheram completamente o recinto. Muitas não conseguiram entrar.
A noite começou com o Coral de Letras da Universidade do Porto a cantar “Grândola, Vila Morena”. Uma ovação espontânea aconteceu quando se verificou a presença do General Vasco Gonçalves sentado nas bancadas com “O Povo Unido Jamais será Vencido”.
Os boatos que entretanto circulavam davam como certa a presença de Fidel Castro. E assim aconteceu. Num ambiente de euforia, Fidel entrou acompanhado de José Saramago, de Carlos Carvalhas, de Aleida Guevara, filha de Che Guevara, e de outros.
“ O Prémio Nobel 1998 está com a Revolução Cubana” Foi com esta frase que Saramago iniciou a sua intervenção. “ A todos nós que admiramos Cuba, Fidel Castro dá todos os dias uma lição de coragem exemplar, num tempo como o nosso em que a abdicação da dignidade faz parte do quotidiano de todos os dias na maior parte do mundo”, declarou Saramago.
Em seguida falou Fidel. O seu discurso, improvisado, de mais de duas horas e meia, começou por dizer que quem estava no palco não era um “revolucionário velho” mas “ um velho revolucionário”. Foi seguido com toda a atenção, pelas pessoas sentadas e pelas centenas de pessoas em pé. Falou sobre a situação interna em Cuba, a crise económica mundial, o desaparecimento da União Soviética, afirmando que “Com Cuba o socialismo não morrerá ” mas que ”Os defensores da revolução não podem cruzar os braços, têm de lutar em todas as frentes e em todas as tribunas”
Rematou a sua intervenção com “E com Cuba venceremos todos! Hasta la vitória sempre!”
A Comissão, entretanto, criou uma página na internet “Porto com Cuba”´, sempre actualizada, com notícias sobre Cuba, com centenas de consultas.
É de registar que o Presidente da Comissão, Sérgio Vinagre, foi condecorado por Fidel Castro, pelo trabalho colectivo desenvolvido pela Comissão em defesa de Cuba, cuja condecoração foi-lhe entregue pelo Senhor Embaixador de Cuba, em Lisboa.
CUBA VENCERÁ!
FRANÇOISE
POESIA
Helena SerôdioPARÊNTESIS
Talvez eu te deseje assim,Apenas inventado,Sem algemas,Livre,Saído do meu pensamentoComo um círio acesoQue logo se apaga.Ou nascido de um sonho indefinido,Que se dissipa com a madrugada..Ah! Não,Não te quero aprisionar,Nem possuir,Para a minha ânsia não desfalecer...Só quero que a tua presença incorpóreaRepouse, imóvel, sobre a minha carne,Que a tua sombra se alongue nas paredes da tua almaE permaneça imutável,Suspensa na noite,Quando eu te procurar...Tu encarnas o meu poema,És música na chuva que canta,Lágrima na gota de orvalho,Sol num olhar de criança.És o eterno ausente,Sem nome.Surges da nuvem que passa.