01/08/26
NO CORRER DOS DIAS
Miróbriga. Ao deixar Alcácer não consigo apagar a lembrança da tua presença, como se se colasse à pele, fizesse parte de mim. Fiquei cativa da tua recordação e em cada lugar reencontro o farol do Cabo da Roca, emergindo com a sua luz pela noite que se abre no silêncio da tua ausência e os meus olhos tornam-se num lago onde viaja o navio da tua alegria. Regressei ao comboio e o deslizar sereno das rodas nos trilhos, apazigua o ânimo que esmorece. Entro em Grândola com interrogações sobre a vida colectiva. Será ainda a “terra da fraternidade” onde podemos encontrar “em cada esquina um amigo”? Deambulo pelas ruas mais antigas e a resposta parece não chegar. Encontro a Sociedade Musical Fraternidade Operária, mas nem aqui sinto as palavras que procuro. Talvez o mundo já não esteja receptivo aos sons de instrumentos que a humanidade criou para o bem-estar da alma e devaneio do pensamento. O ruído é muito, mas quando nos detemos para escutar, a musicalidade advém só da vontade aterradora de bombas a tombar, sobre os povos, os lugares, o património, o passado de civilizações milenares. Os fanáticos do partido do chapeuzinho, estrangulam o futuro de um povo, dilacerando as suas crianças. Sem elas, o amanhã será um vazio e as mentes enfezadas dos seus algozes querem-nos fazer acreditar que é matando que alcançarão o reino de Deus, do seu, naturalmente. Um deus concebido ao nível da mais impiedosa maldade humana. E dizem-se felizes no interior desse charco de sangue que todos os dias alimentam. E os poderes do mundo, mergulhados num silêncio aterrador face a gigantescos crimes, prestam vassalagem a esse deus maldito que é o dinheiro dos degenerados que transformam matanças em actos divinos prometidos, alimentando assim, as suas vaidades, a sua incultura, o seu desprezo pelos povos que dizem governar. Chamam a este antro miserável onde vive a sua ética e a sua moral, democracia. É um tempo de destempero que quase apaga a serenidade das cores vivas e claras das paredes do casario que reina nestas ruas que vou percorrendo desta “Morena” urbe que já viu dias melhores na sua longa vivência centenária. Da exploração mineira ao cultivo de cereais foi terra de paragem mais do que de partida das gentes. Por agora, vai caminhando na serenidade do estio alentejano. Quando procuramos no passado, aparece-nos uma vez mais a presença do império, tão comum de Norte a Sul do país, mas da presença árabe parece não se encontrar rasto. Para onde terão ido os cinco séculos da vida que aqui tiveram os povos vindos do Norte de África! Será que nada deixaram ou somos nós que não procurando apagamos séculos de história? É ainda o comboio que de novo me leva para Ocidente para a proximidade do mar. A estação que deixo aparece-nos com um prédio limpo de luz clara pela brancura das paredes, mas de portas e janelas encerradas. Edifícios com tanta beleza surgem ao nosso olhar com a inércia do abandono e da inutilidade enquanto vão definhando pelo desgaste do tempo. O mesmo acontece na cidade de Sines até onde o comboio não me leva. Sines é hoje um grande polígono industrial que tudo apaga em seu redor, inclusive a vida da terra onde se implantou. Foram estas terras, das Ordens Militares, mais precisamente de Santiago da Espada. Eram monges guerreiros. A palavra falava pelo fio da espada, sempre e necessariamente pela vontade divina, da qual se assumiam como seus executores. E assim, matando e catequizando tornaram-se donos de poderosos senhorios feudais. Também povoavam o território, não por falta de gente, mas para substituir os que enviavam para a eternidade e para controlar os moçárabes de cuja fé duvidavam. Nada que não conheçamos no nosso tempo presente. Neste território urbano, em diversos locais nos é lembrado o navegador que foi Vasco da Gama que por aqui terá nascido. Além de figurante da nobreza viria a ser um senhor feudal e só um temperamento aventureiro, audaz e de desprestígio para com os povos que viria a encontrar no Oriente, se permitiu agir como senhor absoluto submetendo-os a bem ou a mal, o que quer dizer, por boas palavras ou a canhonaço. Assim se erguiam os impérios. Quando o dia se apruma para o final, descanso nas ruínas do primeiro grande império europeu. No declínio da luz, o pensamento aborda-nos com maior lucidez sobre o tempo em que vivemos, sobre a amargura com que a humanidade vê como os impérios de hoje, tal como os do passado, vão desaparecendo e só ruínas como as que me rodeiam, restarão para falar dos seus feitos e das suas misérias. No reino do orangetão a violência das armas continua a carimbar as atrocidades dos que acreditam ser os senhores da vida e da morte. Nas margens do Dnieper continua a romaria daqueles que desenfreadamente batem nos tambores da guerra, fazendo-nos recuar a memória até Munique em 1938 quando a coisa chamada social-democracia abriu-se em sorrisos e apertos de mão para com o sátrapa de Berlim que levou o mundo até ao abismo. À sombra da monumentalidade do Príncipe Vladimir, vão distribuindo agora abraços, beijos, sorrisos abertos e todos os que por ali passam têm algo em comum, ou acabam demitidos ou se demitem, daí a nossa admiração quando num dos últimos retratos não resistimos a dizer, também tu, Marta? Há momentos na vivência humana em que a roda da história acelera, rodopia a um ritmo que a qualquer momento se pode descontrolar e os aprendizes de feiticeiro que governam a Europa, embarcados na nave do homem laranja, mergulharam num pântano de lama do qual já não é possível sair. Para que a geração seguinte possa viver, talvez o círculo da loucura em que estamos, possa deter o seu movimento; pese embora, a manipulação dos povos e as escolhas destes pareçam indiciar que a bússola gira no sentido oposto. O postal deixo-o em Santiago.
ATENA DECAPITADA
NOITE SEM CLASSES
Noite de S. João, 1960 – Teófilo Rego
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A noite apelidada de S. João, mas que, na verdade, celebra o advento do solstício astrofísico do Verão, é, genericamente, uma noite sem classes, em que se misturam, na rua, pobres e ricos, exceptuados os que, por razões várias, preferem ficar em casa.
O que mais surpreende é o contacto físico, embora fugaz, entre desconhecidas gentes “tripeiras”, refiro-me à “Antiga, Mui nobre, Sempre leal e Invicta cidade do Porto”, onde nasci e resido, como se fosse a minha casa. Nesse contacto momentâneo, em que se deixa cair a máscara, é a igualdade humana que se manifesta.
Quando eu era pequeno, os meus pais sempre me levaram à noite de S. João, ao tempo concentrada na baixa e nas Fontaínhas. Usava-se o alho-porro, cuja cabeça pousava, brevemente, na cabeça dos passantes, e o ramo de cidreira para dar a cheirar às meninas e senhoras. Mais tarde, o cumprimento sanjoanino passou a ser feito pelo martelo de plástico, com o seu característico ressoar na noite.
Na minha rua, um meio pobre ou remediado, com o santo de barro na mão, instávamos os passantes a dar-nos um tostãozinho para o S. João, enquanto na quinta ao lado se fazia a degola dos inocentes, para, no dia, as “donas de casa” prepararem a assadeira com o anho e as batatas, e a levarem, coberta com um pano, ao forno da padaria. À hora de almoço, voltavam â padaria para levantarem a sua assadeira. Em casa, trinchava-se, sem remorso, o produto do sacrifício sanjoanino.
“Meu senhor, dê um tostãozinho para o S. João. Oh! dê…”
PIRATARIAS
Ao longo da História deparámos sempre com a actividade de piratas que assaltavam embarcações nos mares para roubar mercadorias e afundarem ou apoderarem-se das próprias embarcações. Muitas vezes faziam-no com o apoio dos próprios governos (reis) com quem dividiam os respectivos espólios. Eram os corsários dos mares. A Inglaterra, a França e a Holanda tiveram uma grande experiência nessa actividade.
Durante o século XX, a pirataria esteve sempre presente nos mares, apesar de pouco falada, comandada por organizações de traficantes. As companhias de seguros que faziam e fazem seguros marítimos de danos de cascos e de mercadorias sempre tiveram registo de sinistros nestes ramos de seguros. É muito difícil, se não impossível, fazer peritagens a sinistros acontecidos em alto mar. Barcos “afundados” sem o serem, pintados de novo e com nova identificação, mercadorias “roubadas” no alto mar transferidas para outras embarcações para serem vendidas em contrabando por baixo preço, com as indemnizações pagas pelas seguradoras e resseguradoras.
Há uns tempos falou-se muito de assaltos a cargueiros nos mares do oriente, obrigando vários países a patrulharem esses mares. Pequenas embarcações com pessoas armadas assaltavam os barcos e roubavam mercadorias e outros bens. Parece que com a guerra no médio oriente essas actividades decresceram ou simplesmente desapareceram.
Hoje temos pirataria no Atlântico, no Báltico e no Mediterrâneo por países da União Europeia, particularmente pela Inglaterra, França e Países Baixos (Holanda), (os mesmos de séculos anteriores) sobre embarcações ditas fantasmas por não estarem registadas nesses países e os seguros não estarem em Londres e por transportarem petróleo da Rússia. Os assaltantes roubam o petróleo e vendem-no. Nesse seguimento, património é confiscado na EU e Inglaterra de cidadãos e de empresas russas e bielorrussas. Os autores estão identificados e naturalmente que as vítimas vão ter que ser indemnizadas. Quando e como não se sabe.
A União Europeia acabou de aprovar o 21º pacote de sanções à Rússia. A proposta inicial sofreu desta vez mais alterações do que aquelas que eram de prever. Além de outras situações, foi retirada por imposição da Grécia a proibição de transbordo de GNL russo para outros países e impedida por Portugal a proibição de importação de peixes russos, designadamente de bacalhau. O fiel amigo vai continuar a frequentar a mesa dos portugueses, apesar de estar a atingir preços cada vez mais altos. Entretanto já está a ser preparado o 22º pacote de sanções para ser aplicado lá para o mês de Outubro a mais 1600 empresas. A Rússia, neste momento, sofre mais de 30.000 sanções, situação inédita na História. Tudo aponta que quem sofre mais com estas sanções são os próprios países da União Europeia que deixaram de ter disponíveis grandes mercados para exportações e fontes de energia mais baratas.
Portugal não consegue exportar o vinho nas quantidades desejáveis. As uvas no Douro, este ano, vão ficar nas videiras. Não há quem as compre. A indústria de cerâmica portuguesa não é a primeira vez que pede socorro ao governo por causa dos preços incomportáveis da energia e tendo à perna a concorrência da indústria indiana. Emprega largas centenas de trabalhadores cujo desemprego pode estar à porta.
Alemanha vai encerrar fábricas, designadamente VW e BMW, com milhares de trabalhadores a caminho do desemprego. Compra gás mais caro 500% do que comprava anteriormente à Rússia. Os incêndios em Portugal, na Espanha e na França também sofrem consequências. Portugal e Espanha não podem usar helicópteros russos KAMOV por impedimento da EU. São mais eficazes e mais baratos dos que estão a ser usados que carregam menos 30% de água.
As pessoas devem estar atentas às alterações legislativas que o actual governo pretende publicar, sobre a Prestação Social Única e quais as forças políticas que apoiam ou são coniventes com essas alterações. Será menos protecção social e mais pobreza.
Como devem estar atentas ao que pretendem fazer, por indicação da União Europeia, com os fundos da Segurança Social, com pensões sociais, com depósitos a prazo e outros depósitos bancários. A indústria da guerra está sôfrega de dinheiro.
POESIA
Helena SerôdioQUANDO...Quando te vi surgir, qual sol ardente,Envolvido num halo deslumbrante,Quando tive na alma a luz frementeDa chama dos teus beijos, triunfante;Quando te pressenti todo trementeDe ternura e carinho suplicante,E teus lábios, num beijo que não mente,Tocaram minha boca insinuante;E quando, enfim, trouxeres a eternidadeE tornares imortal a naturezaDas minhas ilusões sem realidade,Viverei este amor que me dominaVencerei as barreiras da incerteza,Terei, então, cumprido a minha sina!