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01/07/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Alcácer do Sal. Creio ter sido Sophia, a nossa poetisa inesquecível de quem nos privaram do usufruto dos seus Jardins onde convivia na serenidade do mundo poético com a galega Rosalia, que disse um dia que viajar é olhar. Muitas vezes viajei por outro dos seus jardins, os da infância, onde, tal como agora, pensava que as separações nos privam sempre de algo que faz parte de nós. Ficaste em Azóia e pensava que ainda me acompanharias para Sul e agora ao deixar Espichel encontrei outra Azóia e a memória abriu os braços à procura de onde pousar. Talvez tenha sido isso que me deixou por aqui longas horas, por estas arribas, a permitir que o olhar viajasse, e o usufruto do mar oceânico, é sempre um consolo para a alma. Apreciado de longe, parece uma planície de azul. Tive tempo de procurar ver como vai o estado da arte. Vivemos num planeta de plena beleza, sobretudo se olhado da solidão do cosmos, mas a cada momento que o olhar se aproxima a formosura vai-se diluindo nas imperfeições humanas. A sedentarização conduziu à divisão territorial e daí, aos poderes e ao seu exercício, foi um pulo na evolução humana. O resultado civilizacional de milénios é o que vemos hoje, invadem-se países para raptar presidentes, assaltam-se petroleiros em alto-mar para roubar petróleo, liquidam-se líderes e ameaça-se fazer desaparecer civilizações milenares com o único objectivo de se apossar de reservas petrolíferas, alimenta-se uma guerra com a única finalidade de destruir supostos concorrentes. Os assaltantes gabam-se publicamente dos seus actos de pirataria e roubo. Tudo isto em nome da liberdade, da democracia dos direitos humanos. Este novo normal, entrou num habitualismo que já nem notícia chega a ser. Mesmo ignorando o campo de concentração dos doentes mentais que se instalaram a ferro e fogo na Palestina, o nosso mundo, o nosso tempo, atravessa caminhos de selvas sombrias. No entanto, a contemplação desta serenidade marítima ao lado desta Arrábida que parece repousar em sossego, transmite-nos uma sensação de acalmia, de conforto. Por isso, soltei-me das memórias e vagueei, por esta Azóia, não a que nos viu seguir caminhos opostos, mas a que leva até ao castelo de Sesimbra, erguido bem no alto e do cimo da torre de menagem hei-de voltar a ver o mar. Olvido os apontamentos que trazia, sobre Templários, supostas reconquistas, assaltos medievais, e caminhei apenas pelas ameias do castelo. É sempre interessante quando analisamos os outros com os nossos juízos de valor, pelo que não é surpresa quando abrimos certos livros e na mesma frase, falam-nos do reino Visigodo, da invasão árabe ou, carregando no pejorativo, o domínio dos mouros. Os Visigodos foram apenas um reino, não nos invadiram nem nos dominaram! O jogo das palavras pode sempre distorcer a verdade e destruir a realidade. Mouros, aparecem-nos sempre como seres malévolos, os malditos, raramente como participantes da história que é a nossa, a palavra não é sinónimo do povo mauri, mas de gente malvada que invadiu este território cujo domínio visigodo não tinha mais de dois séculos. E entre mouros e árabes não vêem diferença. Quando nos aproximamos um pouco, na verdade, nem sabemos que árabes e mauris estiveram por cá, que na corte árabe, quer de Sevilha, Córdova ou Granada, vivia a cultura mais avançada da época. Claro, temos Alfama e a Mouraria, que giro!, e Mafamude foi árabe, o castelo de Gaia, até a lenda da Fonte da Moura, que coisas giras temos para falar aos que nos visitam! É isto que leio nas pedras deste castelo. É verdade que os árabes estiveram aqui, não é fácil ignorá-lo, mas logo acrescentam que foi por ordem de D. Afonso I que o castelo foi reerguido. Temos também os romanos, em Setúbal, em Troia e por esse Alentejo fora, mas da presença árabe quase nem uma sombra, mesmo que Alcácer do Sal, ficasse com esse nome. Escutamos, sal, e já não ouvimos alcácer. A historiografia actual tende a actualizar o tema e vai escrevendo que não devemos falar em invasão, mas em movimento de povos tão frequentes na época. Afinal, por aqui não passaram romanos, Suevos e Visigodos? Porque há-de a presença árabe ser diferente, se pensarmos que essa presença alentejana e algarvia durou cinco séculos, que podemos alargar por mais três séculos se pensarmos que entre nós, fazendo parte do todo que éramos, permaneceram até à infame expulsão do reino dos súbditos que professavam a religião muçulmana e judaica. Para a velha Sesimbra baixa-se por estrada que mais parece um rio descendo de montanha abrupta e no final entra mar adentro como um turbilhão. Mas a vila que fazia parte dos teus contos nos dias sem termo, inovou-se, sendo mais verdadeiro dizer, aceitou o poder do betão. Ainda vemos algumas dessas ruas de outrora, desse passado lento em que os pescadores desembarcavam o pescado na praia, mas tudo parece já tão distante. Vale a orla marítima nos momentos de sossego para contemplação do mar que aqui chega. Setúbal é já demasiado cidade e quando a atravessamos sem intenção de parar, algo nos trouxe à memória a lembrança do José Afonso e da canção O Pastor de Bensafrim, “Ó ventos do monte ó brisas do mar”. Fomos nas brisas do mar fazendo a travessia proibida até Troia, não a de Helena ou de Ulisses, mas a da família Azevedo que a vendeu aos ingleses, naturalmente tudo no interior do império romano. Não, Roma não é só ruínas, continua a ser um poder imperial, como o mostra a nossa Troia. Já não se salga peixe, agora o pescado é mais graúdo e já chega pronto. É só comprar. O fim do dia, leva-nos deste infinito azul pérola para chegarmos a Alcácer, nas margens do Sado, encostada ao morro e pela primeira vez, temos a notícia de que o nome da cidade foi de autoria árabe, mas com a recomendação de que já no tempo dos romanos “chamavam à povoação salacia”. Fugimos de séculos de história como a lebre do lobo. A noite vem do Oeste e vai tombar sobre este recanto alentejano. O postal segue amanhã, no primeiro comboio.


AS GUERRAS EM CURSO


Manuel Joaquim

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Todos os dias temos notícias sobre as guerras no Irão e na Ucrânia e de longe a longe sobre outras guerras que estão a acontecer em África e noutros lugares.

Sobre o Irão, os comentadores disseram-nos que o Povo sofria e que esteve na iminência de provocar a queda do regime com as manifestações que estavam a acontecer. O que é estranho é que nunca falaram da verdadeira natureza do regime político, das lutas políticas e sindicais que sempre aconteceram no Irão.

A economia nacional do Irão, após décadas de políticas neoliberais, é dominada pela classe capitalista parasitária e vulnerável às sanções dos países imperialistas. O povo do Irão, antes da guerra, enfrentava condições sociais e económicas muito pesadas. A escassez de água e de electricidade e o aumento dos preços agravam as condições de vida de milhões de pessoas. As exigências por direitos democráticos, civis, sindicais e nacionais sempre estiveram na ordem do dia. O povo iraniano considera a paz e a estabilidade vitais para alcançar a liberdade e a justiça social.

O Partido Tudeh do Irão (PTI) é um partido internacionalista com uma estreita relação fraterna com partidos comunistas e operários de todo o mundo. É o partido da classe operária iraniana e sucessor do Partido Comunista do Irão, fundado em 1920. O PCI foi proibido no início da década de 1930 pelo monarca pró-britânico Reza Xá. Na década de 1940 e no início da década de 1950, durante o movimento pela nacionalização da indústria petrolífera, o PTI desempenhou um papel influente. O golpe de Estado organizado pelos serviços secretos da Inglaterra e dos EUA (MI6 e CIA) em Agosto de 1953 derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh e restabeleceu a ditadura do Xá. O PTI foi perseguido e milhares dos seus membros e apoiantes foram presos e muitos executados. O PTI participou activamente na Revolução de Fevereiro de 1979 para derrubar a ditadura do Xá. Mas as forças islâmicas assumiram o novo regime e reprimiram ferozmente a esquerda e o PTI em particular. Desde 1983 que a actuação do PTI dentro do Irão tem sido clandestina, mas conseguiu reorganizar-se eficazmente e construir fortes laços com os movimentos laborais e sindicais, da juventude e feministas e exercer profunda influência na luta popular dentro do Irão. O PTI está a trabalhar para construir uma Frente Unida capaz de enfrentar a ditadura e as ameaças imperialistas e encabeçar a luta pela paz, democracia, soberania e por uma República Democrática Nacional.

O imperialismo nunca abandonou os seus objectivos de colonizar e explorar os povos e as riquezas dos países. Serve-se do seu poder económico e do seu poder bélico e vai colocando os seus alcagotes, como dizia um Amigo meu, Jorge Cruz, nos lugares do poder político. Os EUA instalaram à volta do mundo cerca de 800 bases militares. No Médio Oriente quase todos os países têm bases militares. Nesta guerra todas elas foram destruídas pelo Irão, apesar de Trump,  nos primeiros dias de guerra, ter anunciado que as bases de mísseis, aviação e a marinha tinham sido totalmente destruídas com os comentadores de serviço, sorridentes, a dizerem que sim. No entanto, é o Irão que pelos vistos está a determinar as regras da negociação. Parece que o que está a condicionar os EUA é o escoamento das suas reservas estratégicas de petróleo. Estão a ficar assustados com o que pode acontecer durante o segundo semestre deste ano. Mas a guerra está longe de ser resolvida. ”O acordo de paz está a adiar a batalha final que se avizinha e que vai determinar o vencedor” segundo um jornal iraniano. O Irão não precisa de bombas atómicas. Provavelmente, dispõe de bombas de outra natureza mais letais que a própria bomba atómica.

O senado dos EUA votou contra a guerra, retirando poderes a Trump.

Os EUA não são uma máquina de ganhar guerras mas uma máquina de gerar lucros através das guerras.

A guerra da Ucrânia está a aproximar-se do fim?

A Rússia já não espera a implementação dos acordos de Anchorage, na altura apresentados por Trump, segundo é dito. A Rússia começa a preparar-se para o fim da guerra não através de negociações. A União Europeia, agora braço armado da Nato ao serviço dos EUA, está a acelerar a sua militarização, apontando sem rebuços a futura guerra com a Rússia, e com afirmações de dirigentes e militares importantes nesse sentido que levaram o major general Agostinho Costa a dizer numa entrevista na CNN que não sabe o que esses senhores andam a fumar.

Na primeira semana de Julho vai reunir-se em Ancara a Nato. Preparam-se para sacar aos contribuintes mais 70 mil milhões anuais para financiar a guerra. A Nato não é nem nunca foi uma organização defensiva mas sim ofensiva como se pode verificar pelas suas intervenções ao longo do tempo. Prepara-se para atacar a Rússia. Como vai ser?

Para melhor esclarecimento de todo este processo que nos bate à porta é importante ler o livro recentemente publicado do Major-General Carlos Branco “Ucrânia – Variações de uma guerra inacabada” das Edições Colibri.

LAWRENCE REVISITADO

António Mesquita


(T.E. Lawrence)


"A maior parte das pessoas, naquele tempo, não prestava atenção ao curso geral dos acontecimentos, sendo guiada apenas pelos seus interesses privados — e eram precisamente essas pessoas cujas atividades, nesse período, eram mais úteis. Aqueles que procuravam compreender o curso geral dos acontecimentos e nele participar através do sacrifício pessoal e do heroísmo eram os membros mais inúteis da sociedade; viam tudo ao contrário, e tudo o que faziam pelo bem comum acabava por se revelar inútil e absurdo — como os regimentos de Pierre e de Mamonov, que pilharam aldeias russas, e a gaze que as jovens preparavam e que nunca chegava aos feridos, e assim por diante."

("Guerra e Paz", Leão Tolstoi)


Tolstoi ajuda-me a compreender Lawrence.

David Lean, que nos deu dos maiores épicos do cinema e dos mais populares, realizou em 1962, provavelmente, o seu maior êxito: "Lawrence da Arábia". 

O herói do filme não podia ser mais controverso. Um inglês de Oxford, imbuído da grande cultura clássica, capaz de troçar das instituições e dos protocolos,  com um belo sentido de humor, constrói frente a uma cultura fatalista, nos seus antípodas, um mito em que, a princípio, só ele acredita, mas que, muito antes dos media modernos, se impõe a homens práticos e divididos pelo ódio tribal, através do  exemplo prático e do credo pessoal de que "nada está escrito".

De encontrar o rei Faisal (Alec Guiness),  como fautor da unidade possível entre Hararis, Howeitat e outros   corpúsculos  em que sempre se dividiram os povos do deserto (a sua definição de deserto dada ao jornalista americano - Arthur Kennedy - não deixa dúvidas sobre o seu cariz ético: Lawrence gosta do deserto porque é limpo), ao ataque a Aqaba por terra, através do deserto de Nefud que ninguém tinha tentado antes, a ponto da fortaleza turca ter todos os canhões  virados para o mar, foram empresas que inspiradas pela política colonial inglesa não deixavam de servir, por um tempo, a proto-nação árabe oprimida. 

Mesmo no final da aventura de T.E. (Thomas Eduard), quando as tribos que chefia ocuparam Damasco, impedindo os Ingleses de se vangloriarem de libertadores, com o seu domínio associado, é ainda a ambiguidade do cometimento que ressalta. O conselho árabe proclamado à chegada à velha cidade síria fica, em poucos dias, reduzido a um punhado de seguidores mais fiéis, porque o grosso do contingente tribal abandona a cidade para regressar ao deserto com o saque.

O 'herói' não deixa de ser visto na sua verdade humana pelo jornalista e pelo mais fiel dos seus companheiros, Sherif Ali (Omar Sharif), depois do ataque selvático, "sem prisioneiros", a uma  coluna turca antes de Damasco. O seu "gosto do sangue" é sobretudo uma revelação para si próprio e está na origem do mal-viver a que põe termo com o seu "suicídio" na moto com que começa a narrativa.

No funeral, na catedral de St. Paul, também, os  comentários não poupam o estilo histriónico da personagem  que, porém, não põem em causa a coragem e o génio.

Quando se revê a obra-prima de Lean, a primeira constatação é o carácter histórico, ligado a uma época que não pode ser ressuscitada, deste filme e do seu tratamento da personagem. Não é só o tom épico e a construção quase didáctica da personagem, com os exemplos de bravura sempre pagos com o próprio corpo.  

Numa cena depois de Aqaba, quando Lawrence é acareado e torturado pela polícia turca, há uma nuance de erótica homossexual que o "herói" rejeita violentamente, com as piores consequências para si próprio. A anedota só tem interesse por assinalar, uma vez mais, a ambígua complexidade da sua psicologia. Numa versão moderna, aliás, seria a pormenores como este que a história recorreria para despertar o interesse do espectador.

Interpretar o filme de Lean à luz do pensamento de Tolstoi, em "Guerra e Paz", é o caminho mais directo para sair da psicologia de Lawrence, mesmo se o filme não é um panegírico, evidentemente, a complexidade da personagem é por de mais patente.

É a proibição de provar da "árvore do conhecimento", de origem bíblica, que explica a filosofia do escritor russo.

As tribos árabes que abandonaram o seu ídolo inglês depois do saque de Damasco é o melhor exemplo. Tal como a tropa russa que abandonou Moscovo às chamas, à chegada de Napoleão,  não foi o ódio aos franceses nem a promessa de se vingarem que ocupou os seus espíritos, "mas o próximo soldo, o próximo aquartelamento, Matreshka, a vivandeira e coisas do género."

Os ingleses, em Damasco, tiveram que, relutantemente, contemporizar com Faisal e este de se ver, uma vez mais, como a cabeça dum reino inexistente.

Auda Abu Tayi (Anthony Quinn) e os seus Howeitat foram por um momento a força de emancipação da unidade árabe, mas só na cabeça de Lawrence. Os interesses tribais prevaleceram sempre e, como diria Leão Tolstoi, foi sendo isso que eles puderam ser úteis para o "progresso geral"...

A "paixão" do "scholar" inglês e a sua transformação interior numa criatura sedenta de sangue só podiam acabar (e começar) no desastre.

POESIA

Helena Serôdio




                O MEU AMOR


Na minha jarra de ouro e prata fina
Murcharam as violetas que colheste,
Imagem ideal e peregrina,
Flores singelas, amor, que me ofereceste.

De cada haste trémula e franzina
Dessas flores com que tu me enterneceste,
Tombou pura uma gota cristalina
E nela sem saber, mais me prendeste,

Assim também, amor, hão-de murchar
Em jarra de cristal os teus desejos
Estuantes de vida e mocidade;

Mas além de tudo o que passar,
O meu amor, mais forte que os teus beijos,
Há-de ficar por toda a eternidade!...

O TRAQUE

Mário Martins


https://www.gettyimages.pt/fotos/donald-trump



Um autêntico massacre. O bombardeamento televisivo despeja Trump, de manhã à noite.

Sejam as ameaças de Trump com tarifas.

Seja a animosidade de Trump perante a Ucrânia.

Seja a ameaça de Trump de potencial anexação do Canadá.

Seja a contínua ameaça de Trump ao México.

Seja a reiterada pretensão de Trump de anexação da Gronelândia.

Seja a ameaça militar de Trump, seguida do derrube e sequestro do presidente da Venezuela.

Seja o bombardeamento do Irão, acompanhado por Israel, ou o contrário…

Seja a ameaça militar de Trump a Cuba.

Seja a ameaça de Trump de sair da Nato.

De ameaça em ameaça, Trump diz e desdiz…peço desculpa aos participantes no debate por interromper, porque acabamos de receber uma notícia de


ÚLTIMA HORA:


De acordo com fontes fidedignas, o Presidente dos EUA, Donald Trump, deu um traque! A sonoridade do evento pôs em alvoroço a Casa Branca, que entrou em modo de segurança máxima. Sabe-se que os Serviços Secretos estão já a investigar a origem do insólito evento, sem descartar a hipótese de eventual responsabilidade estrangeira. Já os analistas e comentadores que enxameiam o espaço televisivo, por uma vez, não sabem o que dizer…

 

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