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01/06/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Cabo Espichel. Olhamos este mar uma última vez, oceano de águas mansas, de cansaços que se estiram para a costa num derradeiro alento de esfalfamento. É um mar chão que quase nos incita a caminhar. Os olhos percorrem esta imensidão de azul e nos nossos pensamentos imaginamos as ondas da Nazaré a erguerem-se, tombarem num novelo lento sobre a praia e acreditamos escutar os sons de O Fortuna de Carmina Burana. Deve ser a teia do nosso encontro a quebrar-se. Separamo-nos em Azóia. Segues para Norte e prossigo esta viagem de descoberta, de conhecimento e de despedida. Por agora ainda rumo a Sul. Atravesso a mansidão desta floresta verde e procuro muralhas de pedra, um cubelo que se erga por sobre a folhagem. Chamam-lhe o Castelo dos Mouros e é meia verdade. Sendo um dos pontos altos deste espaço territorial teve ocupação humana bem antes da nossa era, mas seriam os árabes que chegaram do Norte de África que encastelaram as pedras. Observavam, o mar e o rio, o vai e vem humano. Por aqui se acolheram ao longo de quatro séculos. Deslizo silenciosa por um caminho muralhado e, talvez para esquecer a separação que nos leva, tento imaginar um painel onde observo o mundo. O «Ocidente colectivo» continua a alimentar o ogre de Kiev. Insaciável, ainda não engoliu os noventa mil milhões que lhe meteram na goela e já se passeia em Erevan reclamando mais. Enquanto isso, a figura ridícula do presidente de um parlamento que ilegalizou doze partidos políticos é recebido de pé e com aplausos por uma Assembleia que tem uma revolução libertadora na sua génese. Numa Europa esfrangalhada que insiste caminhar numa estrada sem saída, uma coisa que deu pelo nome de social-democracia, seja lá o que isso fôr, qual náufrago no meio do oceano, geme na tentativa servil de explicar que o seu ofício é gerir bem o capital dos nadadores. Já ninguém os ouve. São apenas o gargalo de uma garrafa onde uma rolha bloqueia as ideias. Desço em direcção ao mar, procuro o comboio que me fará atravessar este rio largo e deixar-me na margem esquerda. Cascais é uma cidade relativamente recente. Aparece-nos no século XIV já com um desenvolvimento interessante, mas o seu foral só surgirá no século XVI. A estação não cativa e os arredores ainda menos. Tudo parece certo, limpo, mas há uma mistura arquitectónica que nos faz sentir incómodos, desabituados do lugar. Após passar o Estoril o trajecto priva o nosso olhar da contemplação marítima. Deixamos o pensamento deslizar, penetrar nos nossos medos e nos monstros que perseguem a realidade dos povos. O homem laranja voltou a fugir do infantário e brinca no meio do salão de baile com os aviões e os navios que subtraiu da caixa do tesouro. Veste-se como supremo líder do reino orangetão e ameaça bombardear tudo o que mexe, mas os persas meteram-lhe a cabeça num bidão de onde não consegue sair. Na casa da loucura onde vivem os do chapéuzinho prossegue a insânia da maior malvadez humana. Se tudo isto não fosse suficiente, voltaram a retirar a pedra do sarcófago para dar de novo vida à múmia de Boliqueime. Concederam-lhe a medalha de mérito da destruição económica, da indústria, das pescas, da agricultura, da marinha nacional, da siderurgia e do atapetamento do país com betão. Resta-nos ter fé que quando voltarem a colocar a pedra no seu lugar a encimem com todo o lixo que nos deixou. Quando por momentos voltamos a ver a água estamos na foz do rio. Depois de Caxias, o rio não foge. O rosto ensombrece-me por momentos, com o olhar fixo nas pedras da fortaleza e traz-me à memória o programa radiofónico de Ana Aranha, “No limite da dor”. “Venho dizer-vos que não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas”, escreveu Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira a cantou com a voz profunda que rasgava a alma. Não vamos deixar o olhar viajar em Lisboa. Não merece, essa Lisboa que sabe tudo sobre Olissipo, mas ignora a história árabe com quatrocentos anos. Sim, a Alfama, a Mouraria, que tradicional que turístico, o castelo de S. Jorge, a reconquista e, quem construiu o castelo, a alcáçova que existiu? …, e os árabes que aqui viveram até à sua expulsão no século XVI, oito séculos após terem chegado? É uma cidade à beira-mar, com ondas que se quebram de encontro às muralhas, admiráveis e de boa construção. A parte ocidental da cidade é encimada por arcos sobrepostos assentes em colunas de mármore apoiadas em envasamentos de mármore. Por natureza, a cidade é belíssima", disse dela o geógrafo e jurista, Muḥammad Ibn ʿAbd al-Munʿim al-Ḥimyarī. Sinto os rodados da composição sobre o ferro da ponte na longa travessia para Sul. Por uma vez, olho para trás, para o único espaço que me retém a atenção, a colina onde se implanta o Panteão. Ultrapasso Almada sem retirar a atenção do horizonte que persigo na vila de Palmela, a sede portuguesa da Ordem Militar de Santiago. O reino fundou-se num misto de guerra religiosa e ocupação estranha, através das Ordens Religiosas e das Ordens Militares. Uns empunhavam a palavra de Deus e os outros a espada em Seu nome. Era um tempo de violência, mas hoje quando subimos às ameias é uma sensação de tranquilidade que vislumbramos e sentimos. Resta a travessia da Arrábida, por entre a vegetação de um verde seco e quantas vezes rasteira, refúgio de silêncio e de solidão procurada. A serra estira-se ao longo do estuário e desagua sobre o mar sem ter conseguido alcançar o seu nível. Contemplam-se mutuamente com cerca de cem metros de separação. É tempo de observação e silêncio, de descanso, de procura do que perdemos e deixamos de ver, abrir o segredo dos sonhos e deixá-los navegar neste mar de um azul luminoso. Onde há um lugar cristão, há certamente lendas e mitos. A lenda deste lugar religioso é de uma candura e simplicidade que nos faz sorrir. Após a visita ao farol serpenteio pelo terreno do santuário e deixo-me impressionar pela Casa dos Círios. Os Círios sempre me levam em pensamento para a marcha funerária de D. João o de Boa Memória, cuja morte foi alterada para simbolicamente coincidir com o 14 de Agosto, o dia da batalha de Aljubarrota e dizem-nos que pelas ruas da Lisboa medieval passou o rei que fora por entre círios e mortalhas. O postal ainda o escrevo. Vai comigo por agora.

MARAT E O DISCÍPULO

António Mesquita


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Em 1889, Paul Bourget escreveu um romance de tese, de nome "O discípulo". A ideia é que mesmo um intelectual fora do mundo e dos temas da actualidade é responsável pelos efeitos do que escreve. 

No caso, Adrien Sixte, uma espécie de eremita iluminado que se inspira na doutrina então em voga de Auguste Comte. O desprendimento e a superioridade moral em relação aos sentimentos e valores "burgueses" é o seu fio condutor. O conforto do filósofo acaba em desespero e angústia, quando, depois duma correspondência que o vai pondo ao corrente dos sucessos, um seu admirador chamado Robert Grislou lhe dá conta do desfecho da sua triste história. 

Tendo entrado para preceptor dum adolescente duma família rica, empreendeu a conquista fria e metódica da sua irmã. Esta   nunca pareceu dar-lhe troco, mas ficou  impressionada, a ponto de se afastar do ambiente familiar sob um pretexto.

Robert nem por isso desistiu do seu projecto e fez-lhe um ultimatum que lhe deixava, a ela, a responsabilidade do seu suicídio. Chega uma altura em que a jovem  cede, mas com a condição de se suicidarem ambos depois se entregarem de corpo e alma. No dia seguinte, porém, ele já não tem motivos para levar a sua promessa por diante e ela cumpre a sua parte, votando-o a um completo desprezo. É com este trágico epílogo que o filósofo é confrontado, o que o leva a um desespero nada filosófico.

O século que termina à data do romance e o país em que vive o autor são férteis  em convulsões sociais, e a própria Revolução Francesa está, como de sabe, na origem das maiores mudanças de hábitos, ideias e cultura.

Marat, o jornalista panfletário, assassinado na banheira, conforme o quadro de David, é a imagem mais influente quando pensamos num doutrinário que exacerba os ânimos dos seus correlegionários, a um ponto para lá da sua capacidade de assumir as consequências. Robespierre que, como diz Edward Wilson, teria sido considerado em 1791, um arauto do liberalismo, dois anos depois é um ditador in extremis, é um melhor exemplo ainda de  como se pode ser o joguete das circunstâncias. Aqui, vem a propósito citar Roger Scruton, sobre o cerne do problema de Maximilien:
"Mesmo quando Robespierre promovia fanaticamente o 'despotismo da liberdade' não ocorreu aos jacobinos que estivessem comprometidos com uma grave contradição. Somente com a chegada dos tribunais revolucionários – nos quais o juiz, o jurado e o promotor eram idênticos, e o acusado, privado do direito de defesa – é que os mais razoáveis dentre eles viram que o objetivo da igualdade exige a destruição da liberdade."

Mas, evidentemente, o principal interesse  do texto de Bourget que, enquanto tese, foge às regras de excelência da arte do romance, está, neste nosso tempo de 'niilismo não doutrinário', se assim se pode dizer,  em levantar a questão da responsabilidade moral e intelectual dos criadores ou promotores de ideias.

Um dos homens mais influentes da actualidade não é um intelectual, muito menos um filósofo, as suas ideias são um aparente desconchavo que mantêm, apesar disso, a coerência subreptícia dum instinto, às vezes assassino, navegando com o à-vontade dum gondoleiro nas águas paradas da laguna das redes sociais e no mundo do espectáculo político, e o mínimo que se pode dizer é que se tornou impensável pedir-lhe responsabilidades. Mesmo os seus mais fiéis eleitores reconhecem no seu arbitrário a complexidade dum ídolo, acima da lei e da moral comum.

É difícil encontrar um exemplo de coerência, acima das contradições inevitáveis do relacionamento humano, num mundo incoerente. A ingenuidade, chamemos-lhe assim, dum Paul Bourget releva do mesmo simplismo daqueles que ele implicitamente condena por propagarem ideias "maiores do que a vida" 




C I N E M A


LA GRAZIA



Curioso exercício de sátira e humor dum Paolo Sorrentino que já nos deu tantas provas de excelência em "Il Divo" e "La grande bellezza".

O presidente da república transalpina é um jurista de formação, com tratados publicados. Sempre juiz, mesmo nas suas novas funções, não é capaz de se decidir em algumas questões que  lhe são apresentadas. A sua filha, que lhe dá assesssoria, pressiona-o uma e outra vez, com um projecto sobre a eutanásia e ele sempre encontra motivos para  exigir correcções e protelar. Casos de clemência como a duma mulher que matou o companheiro, alegadamente, por amor, que, na doença terminal, a torturava,  o o dum professor de história que, com a mesma alegação, estrangulou a mulher com Alzheimer, encontram a mesma indecisão. 
A sua integridade é tal, aos olhos do público, que é conhecido pela alcunha de "cimento armado".

O que o mina por dentro é, no entanto, o luto de Aurora, a mulher da sua vida e das suspeitas, pelo tarde, da sua traição com um colega. A ponto de todo este seu rigorismo e falta de coragem em tomar uma posição sobre   questões mais complexas parecerem a vingança possível contra a má sorte.

O cavalo Elvis da  coudelaria do Quirinal é deixado agonizar, para desconforto de todo o pessoal, só porque o princípio de que a vida é sagrada é levado ao extremo dum prnsamento maquínico.

Acusado um dos seus próximos de ser o amante de Laura, o que provoca estupefacção e o fim duma amizade, Mariano, o nosso presidente, interpretado magistralmente por Toni Servillo, é confrontado com a verdade, quando já tudo tinha corrido mal como podia correr. A sua amiga Coco (Milvia Marigliano), sempre pronta para o chiste e a brincadeira culta, é o traidor que ele procurava. Era ela o amante da sua idolatrada consorte.

Sorrentino, que já nos tinha mostrado um Santo Padre africano e um presidente português recebido com chuva e uma passadeira esvoaçante, deixa-nos com esta última alfinetada no nosso sistema de crenças. O facto do amante ser outra mulher muda tudo. 

O presidente, antes de se demitir, em cima do fim do mandato, concede um indulto à mulher assassina, confirma a pena do professor, com o argumento que é um impostor e aprova, finalmente, o decreto da eutanásia. Justifica-se com este dito: "Há um tempo para os filhos seguirem os pais e há um outro para os pais seguirem os filhos."

Leveza podia ser o título do filme. Nele, há um astronauta num estado sem gravidade que chora e uma lágrima dança no écrã, e depois da demissão é o próprio Mariano que sonha (ele que nunca sonhava) estar numa cápsula nesse estado de leveza.

DE QUEM É A CULPA?

Mário Martins

 

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Volta e meia vem-me à memória a frase do grande físico e pensador Einstein, de que “um assassino não tem culpa, mas não gostaria de tomar chá com ele”. Uma frase sábia, mas perturbadora. 

Se um assassino não tem culpa, tal quererá dizer que o seu acto é fruto da sua índole, do seu instinto, à mistura com o meio envolvente.

Opor-se-á que o ser humano goza de livre-arbítrio, o qual lhe confere o poder de praticar tanto o bem como o mal. Mas essa não é uma propriedade autocriada, mas determinada pela Natureza ou por Deus(es), cujos desígnios, em ambos os casos, se revelam insondáveis. Donde, seja lá o que for o comportamento humano, ele tem uma origem natural ou divina. É essa condição   que, em última análise, justifica a afirmação filosófica de que o assassino não tem culpa.

É duro tirar esta consequência da tese einsteiniana, mas se no âmbito individual inexiste culpa, como se todos fossemos inimputáveis, haverá razão para ela existir nos desmandos praticados na esfera política?

Na vida prática, no entanto, justifica-se um sistema de punição para proteger a sociedade e evitar a corrupção generalizada.

Toda a disciplina está limitada à horizontalidade da descrição do mundo, tal como o vemos, e de nós próprios. É isso que fazem a filosofia, delimitando o campo do conhecimento e tirando as devidas consequências dele; a ciência, identificando regularidades e buscando soluções concretas; a literatura e a poesia, ficcionando ou cantando o real e examinando a psicologia humana; a religião, inventando entidades transcendentes indemonstráveis, minorando, a um tempo, o sofrimento e a morte, ao preço de cavar as divisões humanas; a arte, plasmando o talento humano.

Raskólnikov, do romance “Crime e Castigo”, do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, está de volta. 

PANORAMA

Manuel Joaquim

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A revista “O Militante”, de Maio/Junho de 2026, publica um importante artigo, de Maria da Piedade Morgadinho, “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de V. I. Lénine – Algumas notas”, sobre o livro, concluído em 1916, referindo que “é impossível ignorar a extraordinária actualidade de questões essenciais aí abordadas”.

Revela que nos prefácios escritos por Lénine, é abordada a nova fase do desenvolvimento do capitalismo, é tratada a exploração e opressão capitalistas e é denunciado o “oportunismo em certas camadas do proletariado e respectivos líderes, particularmente aos problemas da guerra e da paz.”

A repressão czarista que antecedeu a revolução de 1917 obrigou Lenine e outros revolucionários a exilarem-se no estrangeiro. Há referências de que Lenine terá estado na cidade do Porto, na Rua das Flores, na altura em que se desenvolviam os movimentos políticos que levaram à instauração da República. Como também há referências de que um dos genros de Marx, Paul Lafargue, tenha estado na cidade do Porto naquela época. O que se passava em Portugal era importante.

O Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo (Suécia) publicou muito recentemente um estudo sobre as despesas militares no plano mundial. Atingiram em 2025 2887 biliões de dólares. Os gastos dos 32 países da Nato somaram 1.581 de dólares, 55% dos gastos militares mundiais, mais do que a soma das despesas militares de 161 países da ONU. Pelo que é público a União Europeia está a transformar-se num bloco político militar.

Instalações de laboratórios biológicos ao longo das fronteiras da Rússia, já há muito denunciadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, estão novamente na ordem do dia. A instalação de armas nucleares em alguns países do norte da Europa; propostas de ataques a territórios russos e expulsão da Rússia de Kaliningrado defendidas por militares da Nato, particularmente por generais americanos, estão a agravar a situação internacional de forma assustadora.

O imperialismo, estado supremo do capitalismo, em desespero de causa, para manter a sua opressão e exploração, com ameaças e guerra está a arrastar a humanidade para um grande desastre.

A Venezuela, neste momento, está numa situação neocolonial. A soberania não existe. A guerra no Irão é uma tentativa de ocupar o país para roubar petróleo e outros produtos como é dito pelo próprio Trump. AS ameaças a Cuba e a outros países da América Latina estão na ordem do dia. A guerra na Ucrânia pode vir a estender-se ao resto da Europa.

Vitor Serrão, de Santarém, no Público, de 24 de Maio, refere-se a “A idade dos monstros” e à “Parábola dos Cegos”, um quadro de Pieter Brueghel, o velho, de 1568, onde a ignorância e a cegueira colectiva levam ao abismo. Falando em “Novos Barrancos de Cegos” obriga-nos a pensar em Alves Redol e na sua obra “Barrancos de Cegos”, publicada em 1961, que trata da família dos Relvas. Não sabemos, neste momento, se Passos Coelho chamou prostituto da política a alguém desta família, se prostituto com carácter ou se prostituto sem carácter.

É uma passagem bíblica quando Jesus faz uma crítica dizendo: “Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala.”

As dificuldades cada vez maiores com o ensino público a todos os níveis, desde os infantários, às universidades e aos bolseiros, é resultante de uma política deliberada de impedir o acesso à educação e criar elites nas classes sociais privilegiadas que têm sempre acesso ao ensino privado nacional e internacional. Dessa forma expandem o número de cegos que não conseguem ver o que se passa. Só quando as pessoas estão bem informadas e formadas é que conseguem emancipar-se e tomar decisões em consciência e em Liberdade.

O desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde para ser entregue à exploração privada está bem à vista de toda a gente. Um antigo ministro da saúde dizia “que quem quer saúde que a pague”.

A venda do Novo Banco ao segundo maior grupo bancário francês, BPCE, com um prejuízo superior a sete milhões de euros, quando o banco já estava com lucros. A venda de património imobiliário do Estado a preços de saldo (a quem?).

Os projectos há muito em curso, liderados pela União Europeia e com a conivência das autoridades portuguesas para deitarem a mão às poupanças e reservas financeiras da Segurança Social.

São situações referidas na dita comunicação social acriticamente. Estão em causa interesses vitais de toda a população. Por isso, devemos evitar cair no abismo como na parábola escrita por Mateus.

Para o próximo dia 3 de Junho está convocada pela CGTP-IN uma greve geral, contra o pacote laboral e em defesa de direitos e travagem de retrocessos. A  CGTP-IN nasceu antes do 25 de Abril e é de longe  a maior organização social existente em Portugal que alguns querem desvalorizar.

As greves são feitas para paralisar a produção. Se não prejudicassem os capitalistas não serviam para nada. No entanto uma greve não é realizada com a intenção de prejudicar o capitalismo mas sim beneficiar os trabalhadores”( Mglioli, 1962)

O oportunismo que Lénine denuncia no seu livro acima referido, como é dito, continua a ser muito actual. Muitos falam em linhas vermelhas, para isto, para aquilo e para aqueloutro. Uns dizem “Não é Não” outros dizem outra coisa mas a prática é o único critério da verdade. “Candidatos nossos que estabeleçam acordos com eleitos do Chega perderão a confiança política do PS”. Palavras de José Luís Carneiro em Setembro de 2025.

Na freguesia de Ferreira do Alentejo a CDU venceu as últimas eleições com maioria relativa. CDU e PS elegeram o mesmo número de membros para a Assembleia de Freguesia, quatro. O Chega elegeu um. O PS rejeitou a proposta apresentada pela CDU: Presidente da CDU, (de acordo com a Lei); tesoureiro do PS e Secretário da CDU. Para Mesa da AF o PS indicaria dois dos três membros da Mesa, incluindo o Presidente. O PS rejeitou a proposta e apresentou a seguinte: A Presidência CDU (por imposição da Lei), o PS indicaria o secretário e o Chega o tesoureiro. O Chega duplicaria o número de eleitos, passaria a ser responsável pelas finanças da freguesia. Perante toda esta situação a CDU renunciou provocando novas eleições. Até hoje ninguém do PS nem tugiu nem mugiu. Onde estão as linhas vermelhas do PS?

Apesar de um horizonte negro que avistamos, ter a perspectiva e confiança no futuro é já uma expressão de resistência, como diz Carina Castro da CGTP-IN.

POESIA



 

Helena Serôdio




Tem o Outono poentes cintilantes 
De púrpura e horizontes matizados,
Com laivos violeta, deslumbrantes,
E tons que vão morrendo, alaranjados!

Abre-se o céu, desfeito em diamantes
Tecendo fino manto de brocados,
Ea luz que se derrama em cambiantes
Põe no ar lírios roxos, macerados !

A tarde morre, lenta, suavemente,
Discreto, ocultou-se o sol a medo
Nas sombras hesitantes do poente.


E o vento recolhendo sons dispersos,
Num lamento, murmura-me em segredo
A triste sinfonia dos meus versos...

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