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01/06/26

MARAT E O DISCÍPULO

António Mesquita


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Em 1889, Paul Bourget escreveu um romance de tese, de nome "O discípulo". A ideia é que mesmo um intelectual fora do mundo e dos temas da actualidade é responsável pelos efeitos do que escreve. 

No caso, Adrien Sixte, uma espécie de eremita iluminado que se inspira na doutrina então em voga de Auguste Comte. O desprendimento e a superioridade moral em relação aos sentimentos e valores "burgueses" é o seu fio condutor. O conforto do filósofo acaba em desespero e angústia, quando, depois duma correspondência que o vai pondo ao corrente dos sucessos, um seu admirador chamado Robert Grislou lhe dá conta do desfecho da sua triste história. 

Tendo entrado para preceptor dum adolescente duma família rica, empreendeu a conquista fria e metódica da sua irmã. Esta   nunca pareceu dar-lhe troco, mas ficou  impressionada, a ponto de se afastar do ambiente familiar sob um pretexto.

Robert nem por isso desistiu do seu projecto e fez-lhe um ultimatum que lhe deixava, a ela, a responsabilidade do seu suicídio. Chega uma altura em que a jovem  cede, mas com a condição de se suicidarem ambos depois se entregarem de corpo e alma. No dia seguinte, porém, ele já não tem motivos para levar a sua promessa por diante e ela cumpre a sua parte, votando-o a um completo desprezo. É com este trágico epílogo que o filósofo é confrontado, o que o leva a um desespero nada filosófico.

O século que termina à data do romance e o país em que vive o autor são férteis  em convulsões sociais, e a própria Revolução Francesa está, como de sabe, na origem das maiores mudanças de hábitos, ideias e cultura.

Marat, o jornalista panfletário, assassinado na banheira, conforme o quadro de David, é a imagem mais influente quando pensamos num doutrinário que exacerba os ânimos dos seus correlegionários, a um ponto para lá da sua capacidade de assumir as consequências. Robespierre que, como diz Edward Wilson, teria sido considerado em 1791, um arauto do liberalismo, dois anos depois é um ditador in extremis, é um melhor exemplo ainda de  como se pode ser o joguete das circunstâncias. Aqui, vem a propósito citar Roger Scruton, sobre o cerne do problema de Maximilien:
"Mesmo quando Robespierre promovia fanaticamente o 'despotismo da liberdade' não ocorreu aos jacobinos que estivessem comprometidos com uma grave contradição. Somente com a chegada dos tribunais revolucionários – nos quais o juiz, o jurado e o promotor eram idênticos, e o acusado, privado do direito de defesa – é que os mais razoáveis dentre eles viram que o objetivo da igualdade exige a destruição da liberdade."

Mas, evidentemente, o principal interesse  do texto de Bourget que, enquanto tese, foge às regras de excelência da arte do romance, está, neste nosso tempo de 'niilismo não doutrinário', se assim se pode dizer,  em levantar a questão da responsabilidade moral e intelectual dos criadores ou promotores de ideias.

Um dos homens mais influentes da actualidade não é um intelectual, muito menos um filósofo, as suas ideias são um aparente desconchavo que mantêm, apesar disso, a coerência subreptícia dum instinto, às vezes assassino, navegando com o à-vontade dum gondoleiro nas águas paradas da laguna das redes sociais e no mundo do espectáculo político, e o mínimo que se pode dizer é que se tornou impensável pedir-lhe responsabilidades. Mesmo os seus mais fiéis eleitores reconhecem no seu arbitrário a complexidade dum ídolo, acima da lei e da moral comum.

É difícil encontrar um exemplo de coerência, acima das contradições inevitáveis do relacionamento humano, num mundo incoerente. A ingenuidade, chamemos-lhe assim, dum Paul Bourget releva do mesmo simplismo daqueles que ele implicitamente condena por propagarem ideias "maiores do que a vida" 




C I N E M A


LA GRAZIA



Curioso exercício de sátira e humor dum Paolo Sorrentino que já nos deu tantas provas de excelência em "Il Divo" e "La grande bellezza".

O presidente da república transalpina é um jurista de formação, com tratados publicados. Sempre juiz, mesmo nas suas novas funções, não é capaz de se decidir em algumas questões que  lhe são apresentadas. A sua filha, que lhe dá assesssoria, pressiona-o uma e outra vez, com um projecto sobre a eutanásia e ele sempre encontra motivos para  exigir correcções e protelar. Casos de clemência como a duma mulher que matou o companheiro, alegadamente, por amor, que, na doença terminal, a torturava,  o o dum professor de história que, com a mesma alegação, estrangulou a mulher com Alzheimer, encontram a mesma indecisão. 
A sua integridade é tal, aos olhos do público, que é conhecido pela alcunha de "cimento armado".

O que o mina por dentro é, no entanto, o luto de Aurora, a mulher da sua vida e das suspeitas, pelo tarde, da sua traição com um colega. A ponto de todo este seu rigorismo e falta de coragem em tomar uma posição sobre   questões mais complexas parecerem a vingança possível contra a má sorte.

O cavalo Elvis da  coudelaria do Quirinal é deixado agonizar, para desconforto de todo o pessoal, só porque o princípio de que a vida é sagrada é levado ao extremo dum prnsamento maquínico.

Acusado um dos seus próximos de ser o amante de Laura, o que provoca estupefacção e o fim duma amizade, Mariano, o nosso presidente, interpretado magistralmente por Toni Servillo, é confrontado com a verdade, quando já tudo tinha corrido mal como podia correr. A sua amiga Coco (Milvia Marigliano), sempre pronta para o chiste e a brincadeira culta, é o traidor que ele procurava. Era ela o amante da sua idolatrada consorte.

Sorrentino, que já nos tinha mostrado um Santo Padre africano e um presidente português recebido com chuva e uma passadeira esvoaçante, deixa-nos com esta última alfinetada no nosso sistema de crenças. O facto do amante ser outra mulher muda tudo. 

O presidente, antes de se demitir, em cima do fim do mandato, concede um indulto à mulher assassina, confirma a pena do professor, com o argumento que é um impostor e aprova, finalmente, o decreto da eutanásia. Justifica-se com este dito: "Há um tempo para os filhos seguirem os pais e há um outro para os pais seguirem os filhos."

Leveza podia ser o título do filme. Nele, há um astronauta num estado sem gravidade que chora e uma lágrima dança no écrã, e depois da demissão é o próprio Mariano que sonha (ele que nunca sonhava) estar numa cápsula nesse estado de leveza.

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