Mário Martins
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Volta e meia vem-me à memória a frase do grande físico e pensador Einstein, de que “um assassino não tem culpa, mas não gostaria de tomar chá com ele”. Uma frase sábia, mas perturbadora.
Se um assassino não tem culpa, tal quererá dizer que o seu acto é fruto da sua índole, do seu instinto, à mistura com o meio envolvente.
Opor-se-á que o ser humano goza de livre-arbítrio, o qual lhe confere o poder de praticar tanto o bem como o mal. Mas essa não é uma propriedade autocriada, mas determinada pela Natureza ou por Deus(es), cujos desígnios, em ambos os casos, se revelam insondáveis. Donde, seja lá o que for o comportamento humano, ele tem uma origem natural ou divina. É essa condição que, em última análise, justifica a afirmação filosófica de que o assassino não tem culpa.
É duro tirar esta consequência da tese einsteiniana, mas se no âmbito individual inexiste culpa, como se todos fossemos inimputáveis, haverá razão para ela existir nos desmandos praticados na esfera política?
Na vida prática, no entanto, justifica-se um sistema de punição para proteger a sociedade e evitar a corrupção generalizada.
Toda a disciplina está limitada à horizontalidade da descrição do mundo, tal como o vemos, e de nós próprios. É isso que fazem a filosofia, delimitando o campo do conhecimento e tirando as devidas consequências dele; a ciência, identificando regularidades e buscando soluções concretas; a literatura e a poesia, ficcionando ou cantando o real e examinando a psicologia humana; a religião, inventando entidades transcendentes indemonstráveis, minorando, a um tempo, o sofrimento e a morte, ao preço de cavar as divisões humanas; a arte, plasmando o talento humano.
Raskólnikov, do romance “Crime e Castigo”, do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, está de volta.
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