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01/08/10

A SITUAÇÃO AMERICANA

Manuel Joaquim



No próximo dia 2 de Novembro vão realizar-se eleições nos EUA para 37 dos 100 lugares do Senado. Nas eleições realizadas em 2006, o Partido Democrata conseguiu a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, terminando com doze anos de maioria do Partido Republicano. A situação económica, o agravamento das condições sociais e as dificuldades crescentes com a guerra no Iraque determinaram os resultados eleitorais.

Entretanto, em Novembro de 2008, realizaram-se eleições para a Presidência, para alguns lugares do Senado e para a Câmara dos Representantes.

A eleição para a Presidência de um candidato do Partido Democrata e negro, Barack Obama, criou expectativas de alteração de política interna e internacional. O seu programa, os seus discursos, as suas afirmações alimentavam essas expectativas. A institucionalização do sistema de saúde para todos os cidadãos americanos, a luta contra o desemprego, os problemas da educação e a regularização dos imigrantes, levaram à criação de núcleos de apoio em todos os estados, constituídos por muitos jovens, trabalhadores e organizações de base. O Planeamento da saída das tropas do Iraque, a calendarização para o fim da guerra no Afeganistão, o encerramento calendarizado da prisão de Guantânamo, com pessoas raptadas nos seus próprios países, torturadas e presas sem julgamento e sem culpa formulada, a manifestação de vontade de falar com Chavez e com Fidel Castro para acabar com o bloqueio a Cuba, a regularização dos conflitos internacionais através do diálogo, pontificavam na sua campanha.

Todas essas palavras respondiam ao anseio de mudança visível no seio da população americana. Mas cerziam um pano que cobria o apoio das corporações industriais, financeiras e militares. Barack Obama foi o candidato que mais donativos recebeu do sector financeiro para a sua campanha eleitoral. Percebe-se porque razão a área financeira do seu governo esteja completamente entregue aos homens de Wall Street.

Hoje, todas essas palavras são simplesmente palavras que nunca deixaram de ser. Nunca passaram do papel a actos. O sistema de saúde foi aprovado depois das grandes concessões efectuadas ao sector segurador e às grandes corporações da saúde e dos medicamentos. O desemprego e a miséria crescem, cidades industriais estão abandonadas, a contestação aumenta organizadamente. Os jornais e as TVs nada dizem sobre o que se passa actualmente na sociedade americana. Internacionalmente a situação agrava-se perigosamente. Todas as promessas para a Paz e para a resolução dos conflitos foram completamente esquecidas. Cresce o número de soldados americanos nos actuais cenários de guerra e cresce o número de potenciais cenários de guerra. América Central, América do Sul, África, Médio Oriente, Ásia, e Europa. Há quem diga que o actual Presidente dos EUA, Barack Obama, é o pior Presidente dos últimos anos.

Apesar de ambos os partidos, democrata e republicano, não abordarem a questão cada vez mais evidente, que é o confronto entre classes sociais, será que desse confronto e das promessas não cumpridas vai sair derrotado o Partido Democrata nas próximas eleições ?


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VÉNUS E ADÓNIS

António Mesquita


No quadro de Veronese "Vénus e Adónis", que se encontra no Museu do Prado, há uma geometria secreta que reforça o sentido explícito da cena, para lá da sensualidade dos corpos e da sua luz maravilhosa.

As pernas de Adónis adormecido abrem-se num ângulo recto coberto pelo obtuso formado pelos corpos de Vénus e Cupido, inclinados em direcções opostas. As cores complementares da veste de Adónis e do manto da deusa criam a tensão necessária entre um interior e um exterior simbólicos. A cabeça do jovem, poisada no regaço de Vénus, é a ponta da própria seta do deus do Amor que, desempenhado da sua tarefa, se agarra, ociosamente, a um dos cães.

O pintor quis dar à deusa o olhar ligeiramente estrábico que os Antigos consideravam entre todos o mais erótico (porque parece focar-se a si mesmo?) e que na circunstância transforma a sua conquista (ela empunha uma bandeira) numa experiência quase digestiva.

O maciço de cores sombrias opondo-se ao céu claro reforça a ideia da gravidade. Adónis está ausente, transformado, num mero projéctil.


01/07/10

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A COESÃO SOCIAL E A SOCIEDADE

Mário Faria

Cavaco Silva


Fala-se sempre muito do sector público, e normalmente para minimizar o profissionalismo e a competência de quem nele trabalha, sem cuidar que há muita injustiça nesses juízos definitivos, generalizados e sem direito a recurso. É a obsessão pela contenção da despesa pública, cega e sejam quais forem os custos sociais a suportar.

Todos clamam por reformas. Reformas, talvez ? Mas reformas de quê ? No sector da saúde, da justiça ou do ensino, talvez ? Qualquer organização pública é passível de ser melhorada. É desejável que o seja e que o laxismo e os excessos corporativos não o impeçam.

E sobre a dívida da banca, os maus investimentos no estrangeiro, a desvalorização das empresas na bolsa, a falta de notoriedade das marcas e de qualidade dos serviços nacionais, mais as bolhas e os produtos tóxicos que infectaram as finanças e a economia, que fazer ? Reformar ? O capitalismo ? Como e com quem ? Bem os técnicos do costume, não têm dúvidas : basta uma maior intervenção e controlo do Banco Central e, depois, é só rever o código laboral, aumentar a precariedade, liberalizar os despedimentos e baixar os salários até onde for necessário para se poder concorrer com o dumping social que domina nalguns mercados emergentes ?

O défice que em 2008 o governo conseguiu baixar (meritoriamente?) para 2,4% - parecendo que tinha resolvido o principal problema das nossas contas públicas - subiu vertiginosamente em 2009, atingido os 9,4%, demonstrando a fragilidade das soluções anteriores e da vulnerabilidade das instituições nacionais (públicas e privadas) para gerir uma crise que teve o seu epicentro na bolha imobiliária americana, dada a extrema dependência da economia portuguesa ao exterior.

O efeito borboleta que se lhe seguiu, criou um tsunami nos países do sul da Europa. A dívida externa é superior a 100% do PIB, como o quadro abaixo reproduz.


Cavaco Silva considera a situação presente insustentável, baseado no monopólio da verdade e da honestidade que detém. Como duvidar de um homem que nunca erra e raramente se engana ?

Como se constata da Dívida Externa 59% é da responsabilidade dos Bancos e Empresas (47%+12%) e 49,6% do Estado (52,0% – 2,4 %).

Alguns economistas consideram que a situação, sendo complicada, não deve evitar que haja vida para além da dívida, porque :

1) a dívida pública, afinal, é inferior à dívida privada;

2) o país, as empresas e as famílias dispõem de activos que "suportam" uma parte significativa da dívida.

Entendendo esta argumentação e a sua motivação, considero que a actual situação é deveras preocupante, pelo montante da dívida e pelos constrangimentos económicos e sociais que vai provocar, e que são impostos de forma dura e sem concessões pelos parceiros europeus.

Nada mais será como dantes. Será ? Manterá a UE a coesão ou tenderá a funcionar como um conjunto de países orientados segundo interesses meramente económicos e, sendo assim, segundo as regras e a lei dos mais fortes.

Para terminar este longo artigo, subscrevo a pergunta com que José Vítor Malheiros remata o seu artigo no Público : " Este estado de espírito não nasceu por acaso : ele foi meticulosamente esculpido por uma ideologia que aproveitou a descolectivização da economia pós-industrial para vender a competição individual e o fim da solidariedade como as receitas do progresso. A pergunta é : quando não há coesão social ainda teremos uma sociedade ?


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A DOUTRINA DO VÁCUO

António Mesquita

Joseph McCarthy (1908/1957)


No âmbito da cruzada McCarthista dos anos cinquenta, foi criado um comité de investigação especificamente dirigido às "histórias aos quadradinhos" ("comic books"), para supostamente prevenir o comportamento violento ou criminoso entre a juventude.

Este período negro da história dos EUA oferece-nos, com a censura dos "comic books", um exemplo quase irreal de supressão da liberdade em nome dos bons costumes ou da segurança. Na altura foi chamado a testemunhar um psiquiatra nascido na Alemanha, chamado Frederic Wertham que, além de ganhar publicidade para o seu livro "Seduction of the Innocent", culpou as "histórias aos quadradinhos" de "encorajar o crime, a licenciosidade e o comportamento violento" nas crianças americanas (William Earnest), chegando ao ponto de ver nelas uma instigação à homossexualidade através da aparência e do comportamento dos seus heróis.

O perigo comunista, como se vê, abriu a porta a outros fantasmas, mas não nos podemos admirar que a formação das crianças e o seu doutrinamento sejam considerados cruciais em qualquer utopia política ou demência do poder.

Contrasta esta preocupação pelo futuro, mesmo se justifica tantas vezes os meios mais condenáveis, com o estado da educação nalguns países desenvolvidos e, sobretudo, naqueles onde grassa o famigerado "eduquês". Porque as crianças, na ausência de qualquer ideia positiva sobre a tarefa de educá-las, são simplesmente entretidas e convidadas a exprimir o que ainda não podem ser.

Não é, talvez, por maquiavelismo que esses pedagogos preparam, de facto, um futuro de consumidores sem outros problemas que não os de escolher entre marcas e modelos, como num teste americano.

Comparados com esta indústria de jogos em que se converteu o ensino, qualquer doutrina parece um progresso. Sobretudo, como disse Guilherme Martins no outro dia na televisão, quando com a doutrina (que sempre se pode deitar fora) se oferece a ferramenta para pensar.

JUNHO

Mário Martins


Em Junho as casas crescem como os dias, temperatura e luz esbatem a antinomia entre dentro e fora, tem início o esplendor dos pátios, a porta de casa é uma fronteira menos nítida, a Afurada parece uma ilha quando desembarcamos do Flor do Gás após uma travessia rápida e certeira, guiada a 1 euro por mão experiente e rosto tisnado, a unir as duas margens ali onde o rio acaba e o mar começa e o Porto de vista não parece o mesmo, o eventual fado dos gloriosos discos pedidos pelos senhores ouvintes para a minha querida esposa ou marido que faz anos hoje filhos e netinhos às vezes noras e genros e até sogros dá um toque nostálgico ao voo das gaivotas, os fogareiros a carvão nos passeios das ruas e os sapatos ou chinelos nas soleiras das portas confundem público e privado e o penetrante odor da sardinha assada invade o olfacto e torna incontornável o banco da taberna, de regresso ao velho burgo às tardinhas os cheiros do estio marcam muros antigos e anunciam os santos populares que recobrem primordiais ritos pagãos fazendo lembrar os tempos menineiros das cascatas e da noite de S. João onde todos os caminhos iam dar à baixa e às Fontainhas e imperava o alho-porro na corte de aromas da alfazema da cidreira do manjerico, ainda agora nessa noite única se podem ver moradores da Vitória ali à beira da soberba vista sobre o bairro da Sé a jantarem ou petiscarem na rua às portas das suas casas sob um céu sãojoanino, parafraseando Jorge de Sena o sentimento de Junho não consome não custa dinheiro, é o Princípio de Verão cantado por Sofia Largos longos doces horizontes/A desdobrada luz ao fim da tarde/Um ar de praia nas ruas da cidade/Secreto sabor a rosa e nardo arde.



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