Vila do Bispo. Prossigo o caminho, mas afastada da via férrea, o que me entristece o olhar, mas a Costa Vicentina reclamava a minha necessidade de infinito. No comboio descansamos o corpo e a alma e a natureza corre em sentido oposto ao nosso criando-nos a ilusão que vamos ao encontro do seu passado. Os seres humanos são os únicos que no planeta podem, na sua vida, olhar para a viagem da história, conhecer, analisar e reconstruir a vida humana até ao momento em que se encontram, mas nunca saberão o que ocorrerá após o final da sua viagem, a qual parece mais uma visita do que um tempo de vida. Por estas terras litorais e atlânticas também do tempo pretérito sabemos, podemos recuar a Idades como a Calcolítica ou do Ferro, como a vivência humana por aqui se instalou na recolha de metais entre a pré-história e o nascimento da escrita e da sedentarização. Em Cercal do Alentejo, falaram-me de barita, manganésio e manganite, por vezes quartzo, minerais ferrosos, mas aqui explorados já num tempo menos tardio. A vila não me cativou, não encontrei aquela chama escondida que nos impele para o desconhecido e preferi a aventura marítima de Vila Nova na foz do Mira. Com rio e mar é como atrair por sucção povos do passado que à aventura do comércio e da rapina andavam. Dos Fenícios e Cartagineses aos Gregos e Romanos, o território da hoje Vila Nova, foi sustentando a permanência de povos e gentes, somando conhecimento, vivências e culturas que enriquecem a comunidade do presente. Naturalmente que se seguiram Alanos e Visigodos a quem o Califado Omíada havia de afastar. Cinco séculos depois chegaram os monges-soldados da Ordem de Santiago com quem vimos tropeçando a cada passo da nossa caminhada. Não falta história a esta povoação que hoje em dia agrega mais de cinco mil pessoas. Os meus olhos estão presos na cor da água, a alma vai-se perdendo em lembranças de quem não vemos e entre hoje e o amanhã, apesar dos nossos passos já nos orientarem para Sul ainda procuramos uma pequena casa que há muito nos atraiu e encantou. Havia qualquer coisa de sublime naquele pequeno recanto de uma parede branca com duas janelas e uma porta. Lá estava, sem mudar de lugar, a buganvília continuava viçosa, mas sem flor e uns ramos débeis erguiam-se ornamentando a entrada. Com o sorriso que nasceu, e as lembranças que chegaram, quase não senti o tempo que me levou até à falésia do Farol do Cabo Sardão. Estes edifícios que residem solitários sobre o mar numa vigília mútua atraem-me como uma vertigem. A beleza da paisagem marítima, a solidão que nasce de ermos lugares, com os silêncios ventosos que chegam, inserem em nós um sentimento aconchegante de ternura. É como uma espécie de eternidade que nos rodeia, nos enleia em abraços e nos deixa num misto de querer e não poder, seja o que for. Acode-me à memória o pensamento de Unamuno quando perante mares de beleza, sente a necessidade de um amigo com quem pudesse comungar daqueles instantes emocionais e, ao mesmo tempo, receia que a sua presença possa abalar tudo o que sente. Unamuno decidiu-se pela solidão. Aspirar o aroma em momentos em que a paisagem nos coloca num limbo entre o ser e o não ser, carece de solidão da alma e outro, que não nós próprios, sempre pode diminuir a sensibilidade que nos arrasta e não sabemos definir. Só alguém que pudesse ser a parte que nos falta ou que nos completaria, poderia acrescentar mais beleza àquela que estamos a viver. Estes espaços terrenos em que a terra alcança o mar e lhe veda a passagem, são perfeitos para que no sossego ambiental que nos cerca, a memória vá abrindo arquivos, fechando e abrindo gavetas, fazendo leituras serenas de outros tempos e das pessoas que foram surgindo ou passando na nossa vida. Mal ouço o bulício das ondas tentando vencer a rudeza da muralha que se ergue na sua passagem e acreditei ver o dia em que chegamos à estação à beira-rio, e os nossos passos foram até ao final do cais onde passamos para o carreiro de terra. Quis acreditar que só nós estávamos presentes, enquanto deixávamos o olhar pousar nas pequenas rosas que ladeavam o caminho, e assim fomos subindo ladeira acima. No regresso, enquanto obtinhas uma fotografia, ainda ouço o teu grito de admiração por veres surgir o comboio, como um fantasma misterioso, naqueles segundos em que atravessava a ponte quase submersa pelas águas do lago, num viajar de silêncio. De silêncio era todo o ambiente que vivíamos, como se nos isolasse do mundo. Que te posso dizer de Odemira neste postal de tão curto tamanho onde só cabe um grão de sumo de tudo o que vem ao encontro do meu olhar. Ao rodearmos a retenção de águas de Santa Clara deparamos com uma espécie de cenário como um silêncio parado, uma quase natureza morta subtraída de uma obra de arte. A hora do dia, as sombras de um sol afadigado em recolher-se e a cor das águas em contraste com a que, indefinida, pousava nas pequenas colinas que as abrigam. De longe vem a ocupação humana das terras de Odemira e a sua designação derivará das línguas, árabe e pré-céltica, de cuja junção das palavras terá irradiado o nome que hoje conhecemos. Foi ao longo do tempo terra de lutas e combates e em 1920 já o poder escrevia sobre que, por aqui, «se desenvolvem extraordinariamente as ideias mais avançadas, nocivas e perigosas ao sossego, à tranquilidade pública e ao próprio regime». Cativa-me a Capela de Nossa Senhora do Mar, pela brancura, aquele branco brilhante que reluz de forma intensa e uma espécie de arco romano duplo desenhado nos contornos da porta e que entre as duas linhas paralelas abriga pequenos orifícios que expandem a luminosidade para o interior. Perturba, pelo deslumbramento, o contraste entre o branco e o azul. Que dizer da pequena Aljezur se o meu olhar já descia apressado rumo a outros horizontes! Aqui já não é possível esconder no subterrâneo do esquecimento a presença árabe. Chegamos ao Algarve que fica entre a serra e o mar entre o Atlântico e o Mediterrâneo e à Vila do Bispo que afinal não chegou a ser. Os meus passos já não me levam mais longe do que este lugar, mas sinto o cheiro da linha ferroviária que em breve vou reencontrar. O postal segue amanhã, pois não tenho luz para as palavras que escrevo.
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