António Mesquita
"Em qualquer assunto, cingir-se à "verdade", fundar-se na pura observação, tem por efeito paradoxal conduzir à inconsistência total."
(Paul Valéry)
Há dias estive em Chaves, terra natal de Nadir Afonso - a casa onde nasceu está em ruínas, junto à ponte romana - e pude revisitar o Museu que lhe é dedicado. Foi inaugurado em 2016 e é obra de Siza Vieira, cujas aguarelas, de excelente qualidade, estão patentes no primeiro espaço. O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso está situado na margem direita do Tãmega e ao fundo dum grande espaço relvado.
Nadir, nome que vem a calhar para o tipo de pintura que ali encontramos, no sentido de que sendo arte abstracta podia dizer-se que é o ponto mais baixo do realismo. O pintor teve outras fases, em que o figurativo ou o bilhete postal revisto ou transfigurado da cidade do Porto é o tema de dezenas dos seus quadros.
Mas, ali, em Chaves, o abstracto, à Kandinsky domina em absoluto, dando a falsa ideia de que o pintor não teve outro passado. Pode-se imaginar que o realismo ou o expressionismo do primeiro período o levaram a uma espécie de castidade em que o mundo que nos rodeia e que é objecto do nosso desejo, da nossa experiência, já só podia ser aludido de muito longe. Porque o seu tema predilecto é a cidade, que é nomeada, nunca podendo ser confundida com a fotografia ou com o lugar-comum, o hábito que sempre nos escamoteia a realidade.
A alusão, a conotação quase, é um pedaço, uma pequena parte da geometria da obra. Mas é o suficiente para nos envolver num jogo de identificação que nos leva, se calhar, para longe da arte e do seu sagrado (a história obriga-nos a empregar este termo).
Nisso, a arte moderna trabalha no mesmo sentido do turismo de massas que "banaliza a experiência humana, reduzindo a natureza, a arte e a arquitectura a espectáculos instagramáveis" (Stuart Jeffries). Aqui não é para o álbum de viagem, mas para a curiosidade identificadora, o "quiz". Muitos quadros sem título pedem uma interpretação.
Ninguém melhor do que Paul Valéry diagnosticou os impasses da arte:
(...) Em suma, todo o pensamento, a partir de agora, poupado ao artista, com toda a cultura, de ora em diante, mais prejudicial do que inútil, toda a exigência reduzida à das reacções da retina, o "mais ou menos" das formas, e todas as dificuldades de detalhe escamoteadas, - uma engenhosidade incrível nas explicações, e mesmo uma apologia destes falhanços, - e todos estes males se estendendo da paisagem à figura humana, por uma espécie de contágio da facilidade; enfim, a negligência técnica à qual o hábito do trabalho imediato no campo é por de mais favorável, a ausência de preparações, o emprego de rudes procedimentos, - tais são, parece-me, os efeitos demasiado lamentáveis de muito bons exemplos e de admiráveis produções."
Valéry escreve a propósito de Corot ("Autour de Corot"), o admirável paisagista que, trabalhando com paisagens imaginárias, não sofre as facilidades do improviso no campo. Mas, sobrerudo, é a comparação com o cânone florentino e os pintores do Renascimento, com a sua arte laboriosa, o seu gosto da composição, mesmo um maneirista como Paolo Veronese surge nos antípodas da técnica facilitista dos impressionistas e das escolas que se lhes seguiram.
O desafio dum medium como a fotografia (Nicéphore Niépce registou a primeira imagem em 1826, muito antes de nascer Claude Monet) estará por detrás da necessidade de encontrar novas formas de representação na pintura. Quem pode competir na perfeição do detalhe com uma fotografia?
Hoje, o computador e a IA levam esse desafio a extremos inimagináveis uns anos atrás. Podem-se simular todos os estilos de pintura e criar novos estilos, como se nada fosse.
O Nadir do último período não pode ser acusado de pintar o que vê numa reacção simples da retina, como diz Valéry, e a fotografia não se pode confundir com o seu trabalho. Mas o domínio do algoritmo faz dele um arcaísmo...muito aprazível.
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