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01/09/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Vila do Bispo. Prossigo o caminho, mas afastada da via férrea, o que me entristece o olhar, mas a Costa Vicentina reclamava a minha necessidade de infinito. No comboio descansamos o corpo e a alma e a natureza corre em sentido oposto ao nosso criando-nos a ilusão que vamos ao encontro do seu passado. Os seres humanos são os únicos que no planeta podem, na sua vida, olhar para a viagem da história, conhecer, analisar e reconstruir a vida humana até ao momento em que se encontram, mas nunca saberão o que ocorrerá após o final da sua viagem, a qual parece mais uma visita do que um tempo de vida. Por estas terras litorais e atlânticas também do tempo pretérito sabemos, podemos recuar a Idades como a Calcolítica ou do Ferro, como a vivência humana por aqui se instalou na recolha de metais entre a pré-história e o nascimento da escrita e da sedentarização. Em Cercal do Alentejo, falaram-me de barita, manganésio e manganite, por vezes quartzo, minerais ferrosos, mas aqui explorados já num tempo menos tardio. A vila não me cativou, não encontrei aquela chama escondida que nos impele para o desconhecido e preferi a aventura marítima de Vila Nova na foz do Mira. Com rio e mar é como atrair por sucção povos do passado que à aventura do comércio e da rapina andavam. Dos Fenícios e Cartagineses aos Gregos e Romanos, o território da hoje Vila Nova, foi sustentando a permanência de povos e gentes, somando conhecimento, vivências e culturas que enriquecem a comunidade do presente. Naturalmente que se seguiram Alanos e Visigodos a quem o Califado Omíada havia de afastar. Cinco séculos depois chegaram os monges-soldados da Ordem de Santiago com quem vimos tropeçando a cada passo da nossa caminhada. Não falta história a esta povoação que hoje em dia agrega mais de cinco mil pessoas. Os meus olhos estão presos na cor da água, a alma vai-se perdendo em lembranças de quem não vemos e entre hoje e o amanhã, apesar dos nossos passos já nos orientarem para Sul ainda procuramos uma pequena casa que há muito nos atraiu e encantou. Havia qualquer coisa de sublime naquele pequeno recanto de uma parede branca com duas janelas e uma porta. Lá estava, sem mudar de lugar, a buganvília continuava viçosa, mas sem flor e uns ramos débeis erguiam-se ornamentando a entrada. Com o sorriso que nasceu, e as lembranças que chegaram, quase não senti o tempo que me levou até à falésia do Farol do Cabo Sardão. Estes edifícios que residem solitários sobre o mar numa vigília mútua atraem-me como uma vertigem. A beleza da paisagem marítima, a solidão que nasce de ermos lugares, com os silêncios ventosos que chegam, inserem em nós um sentimento aconchegante de ternura. É como uma espécie de eternidade que nos rodeia, nos enleia em abraços e nos deixa num misto de querer e não poder, seja o que for. Acode-me à memória o pensamento de Unamuno quando perante mares de beleza, sente a necessidade de um amigo com quem pudesse comungar daqueles instantes emocionais e, ao mesmo tempo, receia que a sua presença possa abalar tudo o que sente. Unamuno decidiu-se pela solidão. Aspirar o aroma em momentos em que a paisagem nos coloca num limbo entre o ser e o não ser, carece de solidão da alma e outro, que não nós próprios, sempre pode diminuir a sensibilidade que nos arrasta e não sabemos definir. Só alguém que pudesse ser a parte que nos falta ou que nos completaria, poderia acrescentar mais beleza àquela que estamos a viver. Estes espaços terrenos em que a terra alcança o mar e lhe veda a passagem, são perfeitos para que no sossego ambiental que nos cerca, a memória vá abrindo arquivos, fechando e abrindo gavetas, fazendo leituras serenas de outros tempos e das pessoas que foram surgindo ou passando na nossa vida. Mal ouço o bulício das ondas tentando vencer a rudeza da muralha que se ergue na sua passagem e acreditei ver o dia em que chegamos à estação à beira-rio, e os nossos passos foram até ao final do cais onde passamos para o carreiro de terra. Quis acreditar que só nós estávamos presentes, enquanto deixávamos o olhar pousar nas pequenas rosas que ladeavam o caminho, e assim fomos subindo ladeira acima. No regresso, enquanto obtinhas uma fotografia, ainda ouço o teu grito de admiração por veres surgir o comboio, como um fantasma misterioso, naqueles segundos em que atravessava a ponte quase submersa pelas águas do lago, num viajar de silêncio. De silêncio era todo o ambiente que vivíamos, como se nos isolasse do mundo. Que te posso dizer de Odemira neste postal de tão curto tamanho onde só cabe um grão de sumo de tudo o que vem ao encontro do meu olhar. Ao rodearmos a retenção de águas de Santa Clara deparamos com uma espécie de cenário como um silêncio parado, uma quase natureza morta subtraída de uma obra de arte. A hora do dia, as sombras de um sol afadigado em recolher-se e a cor das águas em contraste com a que, indefinida, pousava nas pequenas colinas que as abrigam. De longe vem a ocupação humana das terras de Odemira e a sua designação derivará das línguas, árabe e pré-céltica, de cuja junção das palavras terá irradiado o nome que hoje conhecemos. Foi ao longo do tempo terra de lutas e combates e em 1920 já o poder escrevia sobre que, por aqui, «se desenvolvem extraordinariamente as ideias mais avançadas, nocivas e perigosas ao sossego, à tranquilidade pública e ao próprio regime». Cativa-me a Capela de Nossa Senhora do Mar, pela brancura, aquele branco brilhante que reluz de forma intensa e uma espécie de arco romano duplo desenhado nos contornos da porta e que entre as duas linhas paralelas abriga pequenos orifícios que expandem a luminosidade para o interior. Perturba, pelo deslumbramento, o contraste entre o branco e o azul. Que dizer da pequena Aljezur se o meu olhar já descia apressado rumo a outros horizontes! Aqui já não é possível esconder no subterrâneo do esquecimento a presença árabe. Chegamos ao Algarve que fica entre a serra e o mar entre o Atlântico e o Mediterrâneo e à Vila do Bispo que afinal não chegou a ser. Os meus passos já não me levam mais longe do que este lugar, mas sinto o cheiro da linha ferroviária que em breve vou reencontrar. O postal segue amanhã, pois não tenho luz para as palavras que escrevo.

PEQUENOS GRANDES

Mário Martins


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Tal como os homens, os países não se medem aos palmos.

É, de facto, deveras surpreendente e inesperada a resistência arrogante da ditadura religiosa iraniana ao colosso americano, que já havia claudicado no Vietname e no Afeganistão.

Como é o desafio do partido religioso armado, no Líbano, à potência militar e pária nuclear sionista.

E o mesmo poderíamos dizer do partido religioso, outrora financiado, entre outros, por Israel, numa Gaza reduzida a cinzas.

E o que dizer do líder ucraniano, que preferiu, ao “táxi”, apelar à resistência nacional contra a invasão da superpotência militar russa, que já havia sido derrotada no Afeganistão?

É verdade que a guerra é uma constante da história humana (como são, aliás, os tempos de paz nos seus intervalos), mas nem por isso deixa de ser dolorosa para os que, de uma maneira ou doutra lhes sofrem as consequências.

O palco político mundial é dominado por três governos rivais: um errático “Tio Sam”, que considera o hemisfério ocidental a sua “quinta”; um “Urso” imperial; e um “Império do Meio” voltado para fora. A União Europeia, cuja fraqueza é tantas vezes salientada, com a sua diversidade cultural e linguística bem funda, e objectivos contraditórios, é incomparável a governos de unidade nacional.

A Natureza autoriza a guerra, o assassínio, a predação e a violência em geral, contra a nossa melhor moral. Contradição grave, mas sobretudo incompreensível.

                         

POESIA

Helena Serôdio



 

ROTA INCERTA

Não sei quem sou,
Nem donde vim,
Não sei se fico,
Não sei se vou...
Um barco trouxe-me um dia
Dos extremos confins do mar..
O mesmo barco, decerto,
Um dia me há-de levar.
O meu barco anda perdido,
Sem saber onde aportar,
Não tem rumo definido,
Nem leme para o guiar...
Não sei, por isso, em que mar
O meu destino navega,
Nem qual o porto de abrigo
Que poderá escalar...
O meu barco é vagabundo,
Não sei aonde me leva
Nem sei se irá naufragar!..

O QUE SE PASSA NO MUNDO

Manuel Joaquim


O orçamento da U.E
(https://share.google/3eTCoGqLJiv1ceYRF)


O derrotado nas últimas eleições presidenciais ao participar na chamada universidade de verão do PSD realizada em Castelo de Vide criticou o clima de crispação que se vive no país, dizendo que “parece que vamos ter eleições nos próximos meses” e pediu ao governo e à oposição humildade democrática.

O líder da bancada do PS, duas semanas atrás, disse que o primeiro- ministro estava esgotado e sem projecto para o país. O secretário-geral do PS, entre outros assuntos, diz que aguarda o orçamento de estado para 2027.

Devemos ter presente que este governo existe por o PS ter deixado passar o orçamento para 2026. Os dois últimos orçamentos passaram com a posição assumida pelo PS. E como não há duas sem três, vamos aguardar para ver se assim é. Fomento de ilusões e falsas alternativas para enganar as pessoas estamos habituados ao longo dos anos.

O governo sabe o que faz e é eficiente na garantia de canalização directa de grandes recursos para o grande capital.

O pacote laboral foi derrotado mas os que mandam no governo não desistiram. Em lugar de aumentarem os salários querem continuar a apostar em baixos salários como factor de competitividade. Todos sabemos que o salário actual  é insuficiente para garantir níveis de vida mais decentes. Os reformados e pensionistas debatem-se com a erosão das suas condições de vida. A inflação que é sentida por toda a população através dos preços que pagam é uma transferência de rendimentos para o capital e é um imposto sobre o consumo. A inflação castiga mais quem tem menos.

O que se passa com o ensino, com a saúde, com a justiça, com investimentos públicos, com o INEM, com submarinos e fragatas, com os processos de privatização que pouco se fala, é um lote cheio de problemas que cheiram bem mal pelo que este governo é um verdadeiro desastre para o país e para os portugueses. Para já o governo vai aumentar em 0,5% a taxa do INEM que incide sobre seguros. O governo a mando da EU pretende abocanhar as receitas e reservas da segurança social e fundos de pensões. A EU está aflita com falta de capital para responder às suas responsabilidades financeiras já assumidas e as que vai ter que assumir. A proposta de orçamento da EU 2028-2034 vai sofrer profundos cortes por imposição dos 6 chamados países frugais.

Se olharmos para o que se passa no mundo vemos coisas que nos obrigam a pensar.

O governo argentino, liderado pelo tal da motosserra e beijocado por alguns dirigentes políticos portugueses por ser ultra liberal, defendendo que o estado não deve interferir no sacrossanto “mercado”, assumiu um programa económico financiado com os fundos de pensão. O governo está a intervir no mercado para recuperar a economia.

Os países baixos (Holanda) por falta de dinheiro volta a tentar utilizar os fundos congelados da Rússia só que se o fizer assumirá consequências como já foram avisados.

A situação nos EUA não é brilhante em todos os aspectos. Manifestações, protestos, desencanto com a situação económica e social, professores terem como habitação as suas viaturas, vivendo como sem abrigo, o desemprego a crescer.

O processo eleitoral a ser discutido nos tribunais, particularmente o problema dos votos por correspondência, com o argumento da possibilidade de fraudes nas eleições.

A dívida pública dos EUA, para não falar nas dívidas privadas, atingiu níveis impagáveis. Como vai ser?

Trump vai anular o processo eleitoral?

Trump vai anular a dívida externa americana?

UMA VISITA AO MUSEU

António Mesquita


(Gare de AusterlitzNadir Afonso)


"Em qualquer assunto, cingir-se à "verdade", fundar-se na pura observação, tem por efeito paradoxal conduzir à inconsistência total."
(Paul Valéry)


Há dias estive em Chaves, terra natal de Nadir Afonso - a casa onde nasceu está em ruínas, junto à ponte romana - e pude revisitar o Museu que lhe é dedicado. Foi inaugurado em 2016 e é obra de Siza Vieira, cujas aguarelas, de excelente qualidade, estão patentes no primeiro espaço. O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso está situado na margem direita do Tãmega e ao fundo dum grande espaço relvado.

Nadir, nome que vem a calhar para o tipo de pintura que ali encontramos, no sentido de que sendo arte abstracta podia dizer-se que é o ponto mais baixo do realismo. O pintor teve outras fases, em que o figurativo ou o bilhete postal revisto ou transfigurado da cidade do Porto é o tema de dezenas dos seus quadros.

Mas, ali, em Chaves, o abstracto, à Kandinsky  domina em absoluto, dando a falsa ideia de que o pintor não teve outro passado. Pode-se imaginar que o realismo ou o expressionismo  do primeiro período  o levaram a uma espécie de castidade em que o mundo que nos rodeia e que é objecto do nosso desejo, da nossa experiência, já só podia ser aludido de muito longe. Porque o seu tema predilecto é a cidade, que é nomeada, nunca podendo ser confundida com a fotografia ou com o lugar-comum, o hábito que sempre nos escamoteia a realidade. 

A alusão, a conotação quase, é um pedaço, uma pequena parte da geometria da obra. Mas é o suficiente para nos envolver num jogo de identificação que nos leva, se calhar, para longe da arte e do seu sagrado (a história obriga-nos a empregar este termo).
Nisso, a arte moderna trabalha no mesmo sentido do turismo de massas  que "banaliza a experiência humana, reduzindo a natureza, a arte e a arquitectura a espectáculos instagramáveis" (Stuart Jeffries). Aqui não é para o álbum de viagem, mas para a curiosidade identificadora, o "quiz". Muitos quadros sem título pedem uma interpretação.

Ninguém melhor do que Paul Valéry diagnosticou os impasses da arte:

(...) Em suma, todo o pensamento, a partir de agora, poupado ao artista, com toda a cultura, de ora em diante, mais prejudicial do que inútil, toda a exigência reduzida à das reacções da retina, o "mais ou menos" das formas, e todas as dificuldades de detalhe escamoteadas, - uma engenhosidade incrível nas explicações, e mesmo uma apologia destes falhanços, - e todos estes males se estendendo da paisagem à figura humana, por uma espécie de contágio da facilidade; enfim, a negligência técnica à qual o hábito do trabalho imediato no campo é por de mais favorável, a ausência de preparações, o emprego de rudes procedimentos, - tais são, parece-me, os efeitos demasiado lamentáveis de muito bons exemplos e de admiráveis produções."

Valéry escreve a propósito de Corot ("Autour de Corot"), o admirável paisagista que, trabalhando com paisagens imaginárias, não sofre as facilidades do improviso no campo. Mas, sobrerudo, é a comparação com o cânone florentino e os pintores do Renascimento, com a sua arte laboriosa, o seu gosto da composição, mesmo um maneirista como Paolo Veronese surge nos antípodas da técnica facilitista dos impressionistas e das escolas que se lhes seguiram.

O desafio dum medium como a fotografia (Nicéphore Niépce registou a primeira imagem em 1826, muito antes de nascer Claude Monet) estará por detrás da necessidade de encontrar novas formas de representação na pintura. Quem pode competir na perfeição do detalhe com uma fotografia?

Hoje, o computador e a IA  levam esse desafio a extremos inimagináveis uns anos atrás. Podem-se simular todos os estilos de pintura e criar novos estilos, como se nada fosse.

O Nadir do último período não pode ser acusado de pintar o que vê numa reacção simples da retina, como diz Valéry, e a fotografia não se pode confundir com o seu trabalho. Mas o domínio do algoritmo faz dele um arcaísmo...muito aprazível.

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