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01/03/13

MARIAMAR

Alcino Silva



Aproximam-se de mim quase em silêncio e falam-me com delicadeza. É já a terceira vez que se chegam até junto da mesa onde me encontro no canto mais longínquo da sala. De certa forma segredam-me que o Café vai fechar e tenho de fazer o favor de sair. É um daqueles Cafés de bairro, barulhento e com pouca luz e neste momento já não tem clientes, restando apenas eu com os meus papéis e este lápis com que desenho letras, vagarosas e pensadas. Sentei-me aqui há várias horas e não fui capaz de sair. Está frio, sinto um frio intenso que me abraça, me envolve, me prende, viaja pelo interior dos meus braços e imobiliza-me os músculos e a noite fica ainda mais negra com este frio que me desgasta. Desde que soube que não voltavas, todos os dias me perco nessa incapacidade de regressar. Não, não me disseste que não vinhas mais, pressagio-o com esse instinto que possuímos de pressentir quando perdemos algo que nos é muito estimado. É verdade que só aparecias de tempos a tempos e, em certas ocasiões, estavas até muito tempo sem vir, mas sabia que haveria um dia que aquele telefonema ou mensagem que me chamava havia de surgir. Mas desta vez passou já tempo demasiado e sinto pelas gaivotas que esvoaçam em voos tranquilos que não voltarás. A cada tarde, quando o tempo em que o sol viaja por nós se aproxima do fim, vagueio, por aqui e por ali, olhando as pessoas mas não as vendo, tentando adivinhar-lhes os sonhos, os pensamentos, reconstruo-lhes vidas e caminhos. Não consigo regressar ao local onde sempre te esperava Mariamar, logo após receber a tua mensagem. Há uma incapacidade diária em sobreviver ao desaparecimento do sol. Caminho, normalmente sem destino pelas pequenas cidades dos arredores. Não procuro nada, talvez apenas o consolo para essa mágoa da ausência, dessa que magoa que nos comprime e nos fecha as estradas. Vagueio por ruas desconhecidas, sem destino e sem rumo, perco-me entre gentes, entre casas e lugares que não conheço e vou recordando os tempos que chegavas com esse teu silêncio escondido num sorriso que me desarmava. Escutava-te mesmo quando não falavas e gostava de ver os teus olhos procurar o sol a descer sobre o mar e a contares as estrelas que viajam no céu. Olhava apenas, nessa delícia que é admirarmos as pessoas belas e cuja presença nos traz esse conforto que nos aquece a alma. Na minha imaginação acolhia a tua cabeça entre os meus braços e afagava-te os cabelos num gesto de ternura. Eram tardes bonitas essas que se prolongavam pela noite que nos encontrou tantas vezes junto ao mar naquele sossego que resultava da tua presença calada. Por mim, ficava nessa companhia que procuravas onde dizias encontrar repouso para alguns momentos em que desejavas sair dessa corrente quotidiana onde vivias. Hoje, este Café donde vou sair após estas insistências, é apenas um refúgio como outros que encontro nos restantes dias que me levam por aí, apenas em lembranças de gestos que recordo com muito carinho, essa ternura que sentia sempre com a tua chegada. Vinhas até à praia sem hora certa e sem uma cadência que se conhecesse, mas quase decifrava quando podias chegar e a cada uma das tuas visitas, gravei-te o rosto, as expressões, os olhos, esse teu olhar que me aliciava de forma tão especial, o teu andar e os teus gestos. Quando partias de regresso à tua vida, ficava com todas essas imagens e com a voz. Já não estavas e ainda te ouvia, naquelas palavras pausadas que saíam em sons soltos e alegres. Por vezes, entro num transporte e vou olhando, para um, para outro, para este ou para aquele. Em certos momentos, surge uma mulher e um aspecto ou outro, chamam-me a atenção, mas quase logo percebo que não és tu. Ainda deixo os olhos presos no rosto da jovem mulher como se essa atitude a pudesse transformar em quem procuro, mas é inútil. Há uma luz intensa na composição, mas para mim só chega o negro da noite que se sente no exterior e que me abraça logo que deixo aquelas portas e recomeço o meu caminhar. Então, o frio que me agasalha, sim, pois é tão intenso que já não sei se vem do exterior ou do interior de mim, creio mesmo que habita no mais profundo do meu corpo, faz-se de novo notar, manifesta a sua presença como dono e senhor dos meus passos. Não chego a perceber o cansaço, só mais tarde o pressinto, mas sem tomar verdadeira consciência da sua presença. Em certos momentos e quando o escuro nocturno é mais premente, acendo uma espécie de luz e coloco-te no centro desse brilho e chego a sorrir como se me tivesses aparecido, mas quase logo, algo apaga essa luminosidade e tu regressas ao abrigo da minha memória. Tu és muito bonita, Mariamar. Nunca te cheguei a dizer verdadeiramente, mas tu sabia-lo, certamente que sim, pois os meus olhos não te podiam enganar e ver-te era como se alimentasse a alma, essa parte de nós que nos faz ter alento para os momentos mais agrestes. Por isso, as tuas vindas àqueles encontros de silêncio eram a parte mais importante da vida que levava. Para mim, o tempo media-se entre esses espaços em que ias e vinhas, entre a tua mensagem de chegada e a tua partida no momento em que te despedias com aquelas palavras tão simples mas para mim tão ternas. Em certos momentos da noite, ainda olho para o céu na procura das estrelas, aquelas que contavas e juntavas em grupos formando constelações, só que agora parecem apagadas. Certamente o brilho que via no céu não vinha das estrelas, mas antes eram os teus olhos que as acendiam e como não estás, para mim, aparecem apagadas. O espaço celeste não voltará a ser o mesmo depois da tua ausência. Nestes Cafés, sento-me em escritas de cartas imaginárias para um endereço que criei na memória para ti. Digo-te tudo aquilo que nunca fui capaz de to dizer nesses encontros em que apenas te escutava. Escrevo, páginas sobre páginas num diálogo em que escolho as palavras para te contar os caminhos do meu pensamento e como os pássaros da manhã pousavam para te levar mensagens que escrevia em noites em que o sono não chegava. Agora que o Café encerrou as suas portas e estou de novo nestas ruas sem nome e já sem gente, procuro descobrir onde me encontro para esse último caminhar até ao lugar onde me escondo do pensamento. Resisto um pouco nestes instantes. É como se a noite me trouxesse algum repouso. Será, porventura, o cansaço a pesar nos meus passos. O frio que não deixou de me acompanhar, retorna com mais intensidade, açoita-me o rosto, como se sentisse este isolamento mais pesado e mais só. O amanhecer alivia-me, funcionando como um alento de vida, mas quando a tarde anunciar a partida, esta angústia que resulta da perda da tua presença há-de vir de novo em visita e arrastar-me para esta viagem pelo mundo do silêncio.

NOTAS POLÍTICAS


Mário Martins




Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras, mas o que importa é transformá-lo”


Karl Marx



1. Cento e quarenta e cinco anos depois desta frase revoluconária de Marx, era altura, com a queda do muro de Berlim, de voltar a interpretar o mundo, mas é penoso reconhecer que mais de vinte anos passados sobre as ruínas do socialismo real não produziram uma única ideia.


2. O maior banco de investimento do mundo, o norte-americano Goldman Sachs, foi galardoado com o “prémio da vergonha”, “por alimentar os lucros de uma minoria rica através de enormes desigualdades e do empobrecimento de grandes segmentos da população” e “por os seus dirigentes ocuparem, alternadamente, cargos no banco e cargos públicos ou políticos, garantindo os negócios de amanhã”. "Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus", diz o seu presidente.

3. Sabe-se, maioritariamente, o que não se quer, seja a ditadura socialista seja este capitalismo financeiro que capturou os estados e caricatura a democracia. Mas isto não é uma teoria política e, muito menos, um programa de governo.

4. A chamada crise mundial que estamos aviver é, antes, uma grave crise dos Estados Unidos e da União Europeia, com origem imediata no desregramento financeiro do(s) mercado(s) e razões mais fundas na transferência maciça de investimentos para a Ásia e na liberalização do comércio mundial. Como “Deus escreve direito por linhas tortas”, o resultado é um certo reequilíbrio económico e social do mundo - lembremo-nos que só na China e na Índia vive cerca de um terço da humanidade -, embora à custa da descida do nível de vida da maioria da população ocidental.


5. Em Portugal, o diagnóstico de Medina Carreira parece-me, em geral, certo, nomeadamente quando afirma que não existe uma verdadeira democracia porque os deputados estão por conta dos chefes partidários e que foram opções de investimento incorrectas e uma política irresponsável de despesismo que conduziram o país à actual situação. Mas acho que Medina Carreira erra quando desvaloriza a Constituição e critica as decisões do Tribunal Constitucional, alegando a falta de dinheiro nos cofres do estado. A meu ver, do que trata a Constituição é da distribuição da riqueza e dos sacrifícios, sejam eles quais forem; como bem escreveu Jorge Sampaio, a Constituição, por mais revista que seja, não pode deixar de consagrar os princípios da igualdade e da proporção; direi mesmo que, por absurdo, se a Constituição não os consagrasse, estes são princípios que devem sempre nortear quem governa. E como é difícil traduzir esses princípios em fórmulas matemáticas objectivas que possam aplicar-se casuisticamente, então é necessário e razoável recorrer à ponderação de um Tribunal para julgar a constitucionalidade dos actos legislativos e governativos.

6. A novidade política está bloqueada em Portugal, mas não só pelo facto de, neste momento, estarmos sob tutela estrangeira. É o que se infere da afirmação do Bloco de Esquerda (decerto acompanhado pelo Partido Comunista) de que é preciso um governo de esquerda mas que não fará acordos com o Partido Socialista, por este estar com um pé nomemorando da troika. O resultado óbvio deste posicionamento “de esquerda” será mais um governo saído do “bloco central dos interesses” que o eleitorado conhece há muitos anos, tanto mais que a actual maioria continua, espantosamente, a liderar as últimas sondagens (já que continuam a não ser somáveis as intenções de voto no Partido Socialista e nos partidos à sua esquerda).

7. Não está à vista o momento em que os partidos à esquerda do Partido Socialista tirarão as devidas consequências do facto de em todas as eleições legislativas realizadas desde 1976, não arrecadarem, em conjunto, mais de 18% dos votos e de, mesmo na crise sem precedentes que atravessamos, não irem além de 20% nas sondagens. Não vêem, ou fingem que não vêem, que há um problema de falta de confiança por parte da grande maioria do povo, de cujos interesses se afirmam os grandes paladinos.


8. Está adquirido que não existe democracia sem a liberdade de existência de partidos políticos, porém é claro hoje que os partidos são parte do problema; chamemos-lhe o problema da falsa representação: o ponto é que raramente existe uma correspondência entre a vontade da maioria do povo e a acção política dos representantes que elege. São vários os factores que distorcem essa correspondência: o monopólio dos partidos, a eleição de partidos em vez de candidatos (salvo os chefes), a dependência dos representantes das direcções partidárias, o financiamento dos partidos e a sedução de políticos do “arco governativo” pelos interesses económicos. Por tudo isto eu prefiro chamar à democracia portuguesa uma partidocracia.

9. Se a apropriação da democracia pelos partidos a desvirtua, a intervenção mais ou menos espontânea e inorgânica dos cidadãos, - embora salutar e capaz de provocar um recuo do poder quanto a uma questão política concreta qualquer, como foi o caso da grande manifestação de 15 de Setembro passado -, não é, por si só, uma alternativa.

10. No seu conciso mas estimulante artigo ,publicado no último número, o António Mesquita, depois de afirmar que “a democracia directa está fora de questão porque redunda sempre em tirania” (afirmação algo obscura uma vez que não descortino exemplos históricos de exercício pleno desse tipo de democracia), reduz, não sem razão, a democracia (representativa) a quase nada ao considerar que um poder inteligente (seria talvez mais apropriado apelidá-lo de manhoso…) escapará sempre “às veleidades de controlo”. Se o que subjaz ao regime político concreto da democracia é a liberdade e igualdade política, não de cidadãos ideais, mas de todos os cidadãos concretos, sejam eles ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, bem ou mal informados, não deixa de ser uma amarga ironia que a grande maioria prefira o quotidiano e o lazer à política.


11. Os partidos têm um “calcanhar deAquiles” que é o de terem de ganhar a opinião pública e os votos para chegarem ao poder e lá se manterem. Por sua vez, os cidadãos eleitores têm novos meios e espaços de liberdade de acesso à informação e de comunicação e intervenção. Talvez haja aqui uma possibilidade de animar a vida política informal e de elevar a opinião pública a um patamar mais exigente, a fim de influenciar a linha editorial dos meios tradicionais de comunicação de massa e a acção dos partidos.

12. A Chanceler alemã declarou que é tempo de acabarem os paraísos fiscais. Se a afirmação não for apenas eleitoralista talvez marque o desejável regresso da política e da soberania dos estados.

13. Depois de o Primeiro Ministro inglês ameaçar a União Europeia com um referendo, o Presidente Obama convidou a União Europeia a constituir, com os Estados Unidos, um mercado único. Isso será bom ou mau, mas será, com certeza, a anglo-americanização do projecto político da União Europeia.


14. Vivemos, em conclusão, dentro de uma mão-cheia de paradoxos:


· Não há democracia sem partidos, mas os partidos são um problema na democracia;

· A acção política dos partidos organizados é insatisfatória, mas a intervenção inorgânica dos cidadãos é insuficiente;

· A economia estatizada, sem concorrência, não funciona, mas a economia de mercado, sem a regulação do estado, gera desigualdade e conduz à depressão;

· O que deu origem à crise infecto-contagiosa dos Estados Unidos foi a não intervenção do estado, mas o discurso dominante, nomeadamente em Portugal, continua a identificar o estado como a origem de todos os males;

· Não sabemos o que fazer, mas é preciso passar à acção.

Ficaria satisfeito se estas notas abrissem um profícuo debate, aberto aos leitores, nestas páginas algo mornas da Periscópio.

PARA JÁ, VOU PARA A RUA!

Mário Faria

 

 

1) Ser e ter : ambos se conjugam para que, relativamente à actual situação política, social e económica, me situe num plano de oposição total ao governo e ao modelo que o sustenta. Tenho cultura de esquerda, sou amigo da liberdade, defendo a iniciativa privada, a regulação e sofro todos os dias os mais vis ataques, através dos impostos que aplicam às minhas pertenças. Não escamoteio que, hoje, a minha posição não é apenas de solidariedade para com os que (mais) sofrem, mas também é (e muito) de repúdio pelo esbulho a que me sujeita diariamente o fisco deste país, sem qualquer sinal de retorno. Nem uma luzinha ao fundo do túnel. Essa revolta que sinto não é cega: obriga-me a estar mais atento, a querer perceber as causas e compreender os efeitos para que a emoção não contenha a necessidade do saber que alimenta a razão. Tento conhecer as narrativas dominantes, não responsabilizo os partidos como únicos responsáveis pela actual crise, pesquiso e ajo como um cidadão preocupado, mas continuo sem certezas e com a convicção que o pior ainda está para vir. A crise sistémica do modelo capitalista vai produzir efeitos globais nocivos e devastadores no chamado mundo ocidental.

2) “O sistema capitalista, actual, cumpriu a sua função e já se encontra praticamente esgotado. A crise das hipotecas de alto risco, ou subprime, os níveis descontrolados a que se deixou chegar a economia financeira, os montantes de dívida privada já incomportável a todos os níveis, a crescente produtividade que já está a tornar excedentários amplos sectores da sociedade, os progressos de uma tecnologia cada vez mais eficiente não são mais do que manifestações do esgotamento do sistema. A (crise) de 2010 não será uma crise conjuntural à semelhança da de 1962, 1987, 1991 ou 2000, mas sim uma crise sistémica, porque pressuporá mudanças na forma como as coisas são feitas, ou seja, no modo de produção, tal como pressupôs o crash de 1929.”

3) Seguramente que investimos demasiado no cimento e no asfalto, que nos endividámos demasiado com obras faraónicas, que as empresas públicas sorveram demasiados fundos, mas a obra está cá, é nossa e serve para uso público ou privado. Não podemos dizer o mesmo do capital. 1) Todos os dias saem 5,4 milhões de euros de capitais com destino aos paraísos fiscais, de acordo com dados do Banco de Portugal; 2) É uma fuga recorde de capital estrangeiro para fora de Portugal, de 32,4 mil milhões de euros, nos primeiros noves meses do ano; 3) Os valores são de facto impressionantes, no final de 2009 estavam parqueados nos ditos off-shores, puros e duros, 16 123 milhões de euros, cerca de 10% do PIB. Valor que sobe para 65 mil milhões de euros (cerca de 40% do PIB) se incluir, esses outros paraísos fiscais que são a Holanda, o Luxemburgo, a Irlanda e a Suíça. Hoje, dois anos depois e conhecidas que são as movimentações de capitais registadas nos últimos tempos, nomeadamente para a Holanda, não andaremos longe de um valor próximo de 75 mil milhões de euros parqueados nestes ditos paraísos fiscais (prox. 50% do PIB) ; 4) O Governo perde todos os anos mais de 12 mil milhões de euros em fuga aos impostos, o triplo daquilo que pretende cortar na despesa pública em dois anos (2013 e 2014), mostra um estudo independente da consultora britânica Richard Murphy FCA, elaborado para o grupo Aliança Progressista de Socialistas e Democratas do Parlamento Europeu.

Como reter o capital para investir na economia : eis a questão. Seguir o dinheiro, combater o primado dos “mercados” e não permitir que a política se subordine a ser amiga dessa “entidade tão difusa”, forte e reverenciada que nem os deuses. Não conheço a resposta para combater a crise, mas o caminho faz-se caminhando. No quadro actual, passa por resistir e participar activamente nos movimentos que lutam contra o sistema capitalista e a política terrorista dos ditos mercados, que ofendem os direitos humanos e põem em causa o estado social. Sem dogmatismos, é um legado que temos de defender. A iniciativa privada deve ser o motor da economia, mas não devemos permitir que a propriedade comande a vida e estabeleça os limites da liberdade.

Depois destas notas feitas de revolta e menos de critério de quem não sabe o que fazer de imediato, a não ser que vai cantar o “Grândola” até que a voz lhe doa, com os camaradas e companheiros que estiverem na luta, aproveito para brevemente responder à sugestão do Mário Martins com os seguintes comentários:

* A organização dos partidos tende a desfavorecer a proximidade ao cidadão, esgotando-a no processo eleitoral, mas não vejo como o sistema de representação os possa dispensar;

* A intervenção dos cidadãos é fundamental para que as forças organizadas se ponham em linha com as suas reivindicações e não se fechem sobre as suas certezas. Porém um Grillo, por muito bem que cante, não faz a primavera;

* O capitalismo é avesso da regulação, que apenas lhe serve para responsabilizar os seus desmandos. O primado do capitalismo enaltece o individualismo e combate qualquer intromissão do Estado, ainda que bondosa. Não há razões sustentadas, em termos de interesse público, para que não se combata as offshores ou se aceite a taxa Tobin. Mas acontece, talvez porque não haja uma corrente política suficientemente forte para combater os excessos do sistema;

* O gigantismo das estruturas do estado, o amiguismo, as práticas obsoletas, o excesso de burocracia, o facto do pagamento dos impostos corresponder para muitos cidadãos uma espécie de seguro de cobertura ilimitada e contra todos os riscos e, sobretudo, a corrupção e o tráfico de influências, ao nível do aparelho de estado, são pecados mortais para a credibilidade dessa entidade a que genericamente chamamos de “Estado”. O “mundo das empresas”, como a lua, sabe esconder o seu lado mais negro e ilumina apenas o que lhe convém. A democracia acaba onde começa a propriedade privada. Esta visão está enraizada na sociedade ocidental e é uma ideia formatada pelos poderes dominantes.

* Como podemos agir se não sabemos o que fazer ? Pela minha parte, não tenho dúvidas que a “austeridade”, não tendo resolvido nem o problema do défice nem o da dívida, bem pelo contrário, ficou irremediavelmente comprometida porque é um desastre no presente e uma ameaça ao futuro da grande maioria dos portugueses. Fico aliado de todos que a criticam e receptivo a todas as acções dos que a combatam: cidadãos indignados, partidos da oposição e sindicatos. Tenho de aproveitar o que tenho à mão. Desta vez, vou para a rua e já no próximo 2 de Março.

 

01/02/13

67

 

 

DEZ ANOS

Mário Martins



Os resultados definitivos dos censos populacionais de 2011 fazem um retrato do país e mostram o que mudou desde os censos de 2001. Eis alguns dados interessantes:

POPULAÇÃO

  • O crescimento (+2%) foi suportado principalmente pelo saldo migratório (diferença entre o número de pessoas que regressaram ou se fixaram em Portugal e o número de pessoas que saíram do país);
  • O Algarve é a região do país que registou o maior crescimento (+14%), o Norte manteve, o Centro diminuiu 1% e o Alentejo diminuiu 2,5%;
  • Metade concentra-se em 33 municípios (de um total de 308) e 198 municípios (171 em 2001) perderam população;
  • Lisboa (547.733), Sintra (377.835), V. N. Gaia (302.295), Porto (237.591), Cascais (206.479), Loures (205.054), Braga (181.494), Matosinhos (175.478), Amadora (175.136) e Almada (174.030), são os dez municípios mais populosos, representando, em conjunto, cerca de um quarto da população;
  • Destes dez mais, Cascais (+35.796 pessoas), Braga (+17.302) e Sintra (+14.086) registaram os maiores crescimentos absolutos; Porto (-25.540), Lisboa (-16.924) eAmadora (-736) perderam população;
  • A maior parte da população é economicamente inactiva (42% empregada, 22% reformada, 15% com menos de 15 anos, 6% desempregada, 6% estudantil, 5% outra condição, 4% doméstica);
  • 70% da população empregada trabalha nos Serviços (60% em 2001), 18% na Indústria (23% em 2001), 9% na Construção (12% em 2001) e 3% na Agricultura (5% em 2001);
  • Vendedor em loja é a profissão mais representada (7,7% do total), seguida de Empregado de escritório (5,8%), Empregado de limpeza (5,0%), Trabalhador da construção civil (3,9%) e Professor do ensino básico e secundário (2,9%);
  • 48% da população com 15 ou + anos vive dos rendimentos do trabalho, 27% das pensões, 18% da família, 6% de subsídios, 1% de outras fontes;
  • O índice de envelhecimento da população (número de idosos sobre número de jovens) passou de 102 para 128; as regiões dos Açores e da Madeira são as únicas que apresentam mais jovens que idosos;
  • As idades de 70 ou mais anos cresceram 26%;
  • O número de indivíduos em idade activa, por idoso, diminuiu de 4,1 para 3,5; as regiões dos Açores (5,3), da Madeira (4,6) e Norte (4,0) estão acima da média, enquanto as regiões do Alentejo (2,6) e Centro (2,8) estão abaixo da média;
  • A população de nacionalidade estrangeira (394.496 pessoas, 52% das quais residem na região de Lisboa) cresceu 70%, representando 3,7% da total, enquanto no Algarve representa 12%;
  • 15% da população com 23 ou + anos possui ensino superior completo (9% em 2001); Lisboa é a única região acima da média nacional (21,4), enquanto as regiões do Alentejo (10,9) e dos Açores (11,3) estão significativamente abaixo;
  • Mais de metade dos diplomados do ensino superior concentrou-se em quatro grandes áreas de estudo: comércio e administração, formação de professores, saúde e ciências sociais; Letras, Direito, Engenharia e Ciências (excepto as Informáticas) baixaram;
  • A proporção da população com 15 ou + anos que completou pelo menos o 9º. ano de escolaridade aumentou de 38 para 50%; Lisboa (60%) e Algarve (53%) apresentam valores acima da média nacional;
  • A taxa de analfabetismo baixou de 9,0 para 5,2%;
  • 62% da população desloca-se de automóvel para o local de trabalho ou de estudo;

FAMÍLIA

  • O estado civil legal da população distribui-se por: casados: 47% (homens: 48, mulheres: 45), solteiros:40% (homens: 44, mulheres: 38), viúvos: 7% (homens: 3, mulheres: 11) e divorciados: 6 (homens:5, mulheres: 6);
  • As uniões de facto, face ao total de uniões conjugais, subiram de 6,9% para 12,9%; as regiões do Algarve (20,8) e de Lisboa (19,5) estão bem acima da média nacional, enquanto o Norte está abaixo (8,6);
  • A proporção de casais com filhos diminuiu de 57 para 50%;
  • A proporção de núcleos familiares monoparentais (só mãe ou só pai) aumentou de 12 para 15%; Madeira (19,7%), Lisboa (18,2%) e Algarve (16,3%) estão acima da média nacional;

PARQUE HABITACIONAL

  • Na última década continuou a expansão do parque habitacional: + 12% de Edifícios (total de 3.544.389) e 16% de Alojamentos (total de 5.878.756); Algarve e Madeira registaram os maiores crescimentos;
  • As residências secundárias representam 19,3% do total e os alojamentos vagos 12,5%; 40% dos alojamentos no Algarve são residências secundárias;
  • Os alojamentos arrendados representam 20% dos alojamentos de residência habitual;
  • Os proprietários com encargos por compra de habitação cresceram de 32 para 43% do total de proprietários;
  • O valor médio dos encargos por compra de habitação é de 395 euros (o mais alto é o da Madeira: 455 euros e o mais baixo é o do Alentejo: 352 euros), enquanto a renda média se situa nos 235 euros (a mais alta é a do Algarve: 291 euros e a mais baixa é a do Norte:197 euros).
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Resultados Definitivos
Censos 2011, Anabela Delgado

ESTÁ FRIA ESTA CASA

Alcino Silva
Mark Rothko



Percorro os passos contados desta casa, interrogo cada objecto pousado e dialogo com o silêncio que repousa em todo este ambiente, que deixaste. Está fria esta casa e só a tua recordação aquece os dias que passam. Não sei que tempo faz lá fora, mas aqui é noite, nestes cantos onde procuro a tua presença, escurece cedo ou são sombras de um passado que só tu preenchias.Vagueio ao longo dos anos, sento-me aqui, descanso mais além. Paro para achar o sorriso que levaste. Olho aquela estante onde poisavas uma caixa tua com tesouros guardados, cujo segredosó tu conhecias e vejo ainda o brilho dos teus olhos onde escondias esse sorriso no qual voavam mistérios que nunca revelaste. E sorrio ainda como fazia então nesse tempo em que enchias de sons esta casa onde agora apenas eu acendo os fantasmas de um tempo que perdi. Os meus dedos tocam na capa dos livros tentando encontrar os personagens que me faziam sonhar, masacompanharam-te na tua viagem, ainda tacteio as folhas, mas já não possuem conteúdo, pois as palavras eras tu que as escrevias ou falavas e agora são apenas páginas em branco. Está fria esta casa, como se fosse inverno lá fora, ou é o meu corpo que só aquece com a memória dos dias em que semeavas alegria pelos caminhos em que eu passava. O telefone já não toca porque ninguém fala para aqui desde o dia em que não estás. Ainda ouço na ilusão do desejo o toque encantado que trazia a tua voz. Ouço porque quero ouvir, mas na verdade, só o silêncio acende a solidão que plana nesta casa. Deambulo, como se acreditasse que o calor vai chegar, toco na pedra das paredes e tento acreditar que estão a aquecer que há uma energia que sai do granito, e no entanto, continua fria esta casa. Olho para a mesa e certifico-me que o envelope amarelo das mensagens está apagado, apesar de o ver sempre aceso. Com os mesmos presentes, celebro todos os aniversários em que chegaste, flores e perfumes que trazia para ti de lugares perdidos e, em troca, ficava com a luz dos teus olhos. Espreito pelos orifícios da janela e o sol brilha no espaço exterior e, no entanto, continua fria, esta casa. Vou acender a lareira e sentir o crepitar das chamas. Talvez te voltes a sentar no recanto da madeira com o silêncio dos teus olhos voltados para mim e a doçura da tua voz explicando as pequenas coisas do dia. Toco o rebordo do retrato que deixaste, próximo da janela onde te voltavas para o espelho e na seriedade do rosto apreciavas a roupa que pousavas em ti. A memória percorre o tempo da fotografia e reconstitui os gestos e os lugares e os meus sentimentos acordam em lembranças passadas. Acendo a luz e a casa continua às escuras. Já nada ilumina o que só tu acendias. Não sei há quanto tempo deixaste este espaço, este lugar que só fazia sentido contigo presente. Para mim, parece ter sido ontem, mas foi há muito, pois a casa continua fria, gelada mesmo, ou serão os frios invernos que terão chegado sem eu saber. Recosto-me no sofá para escutar um cântico que esvoaça mas sou eu a deixar que a imaginação me embale, pois há muito que se extinguiram os sons, se apagaram as luzes, que o interruptor da vida se desligou e apenas os fantasmas da solidão vagabundeiam livres por esta fria casa deixando-me nesse silêncio da lembrança do teu sorriso e o desejo do teu rosto. Sem ti, está fria esta casa.
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