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01/06/09

RESISTIR

Mário Faria


www.kelribeiro.com/diversos/crise-economica




Num contexto de profunda crise do capitalismo global e do seu programa de financeirização e de mercantilização de toda a vida humana, cuja representação política cabe prioritariamente aos partidos de direita, é confrangedor que um governo socialista se limite a gerir a crise para se perpetuar no governo com um projecto muito polémico de reformas, enquanto o PCP e o Bloco se limitam a tentar derrubar o Governo ou na versão mais modesta retirar-lhe a maioria absoluta, sem atacar o modelo e os malefícios do sistema capitalista. A crítica que subscrevem não se distingue da que fazem os outros partidos do espectro parlamentar. Na sua sanha contra o governo, esquecem o principal, a meu ver. E isso é preocupante porque é um sinal de pouca crença na doutrina que lhes é própria, como se a crítica ao capitalismo que são capazes de expressar tivesse que seguir exclusivamente o guião que o sistema consente e que a agenda mediática e a luta eleitoral tão bem representam.

“ A afirmação da independência do poder político e a defesa do papel do Estado para corrigir falhas do mercado, arbitrar conflitos e agir em prol da coesão são insuficientes para distinguir o projecto socialista dos demais. O capitalismo do passado concentrava os trabalhadores e favorecia a consciência de classe. O actual fragmenta. Há formas de representação e organização que caducaram. Como dar sentido político e unificar politicamente o que está disperso ? “. Manuel Alegre nesta sua declaração identifica parte do problema, mas não elenca qualquer alternativa, e sempre se ficou pelo anúncio que nada mais resta à esquerda que resistir. Provavelmente será ?

A resistência e o direito à indignação cívica são importantes mas não são alternativa. Não raramente, essa resistência é dispersa e rotineira e, por isso, não incomoda o bastante e denuncia fragilidade, se mantiver esse registo até à saturação. Tem um efeito de erosão sobre o governo, mas com esse mal podem bem as classes dominantes, os grandes empresários e correlativos. Os seus interesses são sempre melhor representados pelos partidos de direita.

A ética está de rastos, dizem uns. Outros denunciam que os empresários criaram sentido de impunidade. Os restantes consideram que as elites são fraquinhas, os sem vergonha falam que é preciso apoiar as micro empresas e quando estiveram no governo divertiram-se a brincar à batalha naval e a gastar uma pipa de massa em submarinos para defesa da nossa plataforma marítima. Mas não há culpados, apenas inocentes, salvo o Governo da Nação, os partidos e os políticos.

É impossível não sentir como a comunicação social vive um desses momentos em que à repulsa por aquilo que relata se sobrepõe o gozo pelo trabalho que realiza : o orgulho de serem os primeiros a dizer os nomes, de possuírem as listas dos culpados e de influenciarem (da pior forma) a agenda política. Os partidos não se cuidaram e tornaram-se reféns dessa agenda.

Num sistema que funciona segundo a lei do mais forte, do mais maligno, os perversos são reis. Quando o sucesso é o principal valor, a honestidade parece fraqueza e a perversidade toma um ar de desembaraço. Quando a crise se instala, essa gente que dita as regras e é a principal responsável, continua a insistir que a culpa é sempre dos mesmos : dos trabalhadores que ousam querer defender o direito trabalho que é a única riqueza que possuem.

A visão do mundo estritamente empresarial que esquece as pessoas e a sua dignidade perante o trabalho, só poderá induzir, indesejavelmente, à radicalidade e à conflitualidade social. A situação convoca todos os que à esquerda acreditam e lutam por uma sociedade mais justa. E a justiça social não é a igualdade, é favorecer o mais desfavorecido. Tenho a certeza que a esquerda está de acordo nos princípios, mas desentende-se na acção. Tem sido essa a realidade dos últimos 35 anos. Não creio que vá ser diferente no futuro próximo e a UE também funciona assim.

Estou pessimista : não confio na direita, o capitalismo anda perto do abismo e o socialismo ainda não recuperou da queda do muro. O socialismo, dito democrático, é um equívoco e não se nota porque normalmente jaz no fundo de uma qualquer gaveta cheia de teias de aranha. Vem aí as eleições e acho que vão haver mudanças para pior. Resta esperar e resistir, que é o que temos à mão.



TEMPO DE ELEIÇÕES

Mário Martins

João Abel Manta


Quem viveu a luta política contra a ditadura e o naturalmente efémero período revolucionário corre, realmente, o risco de se aborrecer com a rotina democrática.

A diferença essencial reside no facto de no anti-fascismo e no prec (processo revolucionário em curso) o combate político ter sido alimentado pelo ideal da instauração de uma sociedade livre e justa, fosse ele opostamente corporizado pela social-democracia europeia ou pelo socialismo euro-asiático. A política era, então, em grande medida, um teatro de amadores e Portugal era pensado como um país.

O ocaso do socialismo e o sequente assalto do neo-liberalismo americano à social-democracia europeia, a vulgarização da comunicação on-line e a massificação dos transportes que permitiram montar a aldeia global, a explosão económica da Ásia, a entrada de Portugal na CEE, a profissionalização e mediatização da política, puseram, entretanto, tudo em pantanas. Hoje, não há, de facto, modelos referenciais concretos, a crise mundial não é só financeiro-económica mas também ideológica e Portugal, membro da União Europeia, é, tendencialmente, mais um estado do que um país.

De tudo isso ficou essa coisa pensada pelos gregos antigos que dá pelo nome de democracia. É conhecida a relação desconfiada e popular dos portugueses com o estado, a política e os partidos: “são todos iguais; o que eles querem é tacho”. Daí a pensar-se que a democracia se resume ao voto de quatro em quatro anos vai um passo, mas eu colocaria, sem o menosprezar, o voto popular no fim da lista.

O que me parece mais importante na democracia é o exercício dos princípios de liberdade política, intelectual e artística, de igualdade perante a lei, de não discriminação sexual, de separação de poderes no estado e entre estado e religião, de subordinação da força militar e policial ao poder político, de limitação temporal dos mandatos a todos os níveis. É a aplicação prática destes princípios que dá conteúdo e dignidade ao voto universal, directo e secreto e que permite, por outro lado, que esse combate sem fim contra a injustiça social se faça num quadro geralmente pacífico.

Se a democracia, sem a liberdade de associação e de criação de partidos políticos, é uma farsa, não é difícil reconhecer que os partidos, em Portugal, têm desenvolvido a sua actividade praticamente em “roda livre”, aumentando incessantemente o seu descrédito na opinião pública, uns por exercerem os poderes legislativo e executivo sem respeito pela coisa pública e pelos programas eleitorais e outros por não descolarem do discurso, tantas vezes demagógico e irresponsável, de partidos de oposição. É, por isso, uma boa notícia a decisão de Manuel Alegre de não constituir um novo partido (o qual, como é costume afirmar nessas ocasiões, seria um partido diferente dos outros…) dando, assim, a mensagem da necessidade de maior exigência cívica aos partidos existentes.

Sendo a política, modernamente, uma profissão, não é justo “proibir-se” que um político, como qualquer outro profissional, pense na sua carreira ou no fim-de-semana que tarda a chegar. Mas isso não significa que se devam perdoar, ao arrepio da prática normal nas profissões mais comuns, os actos de puro esbanjamento ou de aproveitamento pessoal ou partidário numa profissão cujo objecto é a causa pública.


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01/05/09

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CRISE SEM FIM À VISTA

Manuel Joaquim

Paul Krugman



As iniciativas para responder à crise sucedem-se a um ritmo acelerado, tanto a nível nacional como a nível internacional. Alguns países já vão com diversos planos pela insuficiência dos anteriores. Quase todos com ajudas financeiras e fiscais a importantes sectores da sua economia, designadamente ao sistema financeiro e à industria automóvel, intervindo claramente no funcionamento do mercado e aplicando medidas proteccionistas, contrariando as orientações das organizações internacionais que defendem o comércio internacional como é o caso da OMC.

A desregulamentação da actividade financeira permitiu o aparecimento dos chamados novos produtos financeiros, sem base material sustentável; práticas contabilísticas utilizadas pelas empresas para valorizarem os seus valores de mercado ignoraram prudentes normas contabilísticas, criaram gigantes de pés de barro; o aumento demente das despesas públicas com gastos militares e de guerra; o aumento do crédito para a habitação e para o consumo para compensar os baixos salários controlados em nome dos mercados competitivos; o aumento das taxas de juros ( que depois começaram a baixar) esganaram os orçamentos familiares, provocando uma acentuada quebra no consumo e o incumprimento das suas obrigações com reflexos directos nas empresas, nas próprias famílias e em toda a economia.

Se a livre circulação de capitais permitiu rendimentos astronómicos em aplicações especulativas e sem controlo através dos chamados paraísos fiscais, o domínio estratégico de importantes sectores económicos de muitos países, também permitiu a livre circulação dos chamados novos produtos financeiros, particularmente oriundos dos EUA, hoje chamados tóxicos ou lixo, intoxicando a banca europeia que os adquiriu.

Paul Krugman, num artigo publicado no mês de Abril, “Façam bancos tediosos”, refere que apenas algumas pessoas afirmavam que esse sistema financeiro superdimensionado poderia chegar a um fim destrutivo. Que talvez o mais notável desses profetas de dificuldades seja Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago e ex-economista chefe do FMI. Que ele argumentou numa conferência de 2005, que o rápido crescimento do sector financeiro havia ampliado o risco de “um colapso catastrófico”

A quebra no consumo das famílias, por diminuição ou falta de rendimentos, leva as empresas a reduzir a produção de mercadorias. A redução de turnos, a deslocalização e encerramento nas grandes empresas é um processo fácil nos mercados de trabalho onde impera a precariedade, a falta de fiscalização e a desregulamentação laboral. As pequenas e médias empresas sem capacidade organizativa e financeira não sobrevivem. O desemprego alastra, os incumprimentos alastram, os dramas sociais alastram.

Muitas famílias vêem as suas pensões de reforma a diminuir ou a desaparecer pela fortíssima penalização dos sistemas de capitalização.

Uma parte muito importante do sistema financeiro dos EUA e da Europa descobriu que estava falido. Muitos bancos e seguradoras declaram falência, são encerrados ou absorvidos por outros. Muitos são capitalizados ou nacionalizados pelos estados.

Grandes grupos industriais mantêm-se em resultado de grandes injecções de capital efectuadas pelos governos, mas alguns preparam simplesmente o óbito. O comércio internacional reduz-se significativamente. A procura de novos mercados acentua-se mas as dificuldades de crédito limitam a realização de negócios.

As iniciativas para responder à crise a nível internacional são inconsequentes.

Não deixando de registar as políticas monetárias contraditórias tomadas pela FED e BCE durante o 2º semestre de 2008, e as políticas proteccionistas aplicadas por alguns governos que têm causado grande perturbação internacional, é de registar as contradições entre os resultados da reunião do G 20 de Londres e o que se declarava antes da sua realização: melhor regulamentação, mais fiscalização, fim dos offshores, etc. Acontece que nada disso foi decidido. Os bancos vão manter balanços sem correspondência com a realidade, os offshores vão manter-se. Decidiu aprovar uma verba de um bilião de dólares para reforçar o sistema de crédito, no seguimento do que vários países já tinham feito.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – OCDE publicou em 10 de Abril indicadores com fortes declínios para as maiores economias do mundo, particularmente para EUA, Canadá e Japão.

Acontece que os EUA, sendo ainda a maior economia do mundo, é também o maior devedor do mundo. Na primeira metade do ano fiscal de 2009 o déficit orçamental triplicou em relação ao ano anterior. No mês de Março teve um déficit record, quadruplicando em relação ao mês do ano anterior. As receitas fiscais de Março caíram 28%.

Perante este quadro alguns analistas interrogam-se se o sistema monetário internacional não irá sofrer alterações a muito breve prazo, designadamente a manutenção do dólar nas transacções do comercio internacional.

No caso de acontecer a crise será longa e trágica.



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O DESTERRO DA FILOSOFIA

António Mesquita



"A teoria dos jogos e a de projecto de mecanismo imaginam as pessoas actuando pelo interesse próprio e pela manha. A ciência política constrói modelos baseados em votantes interesseiros, senadores interesseiros e congressistas interesseiros, cada um tentando compreender qual é o seu interesse. Será ser eleito outra vez? Maximizar uma posição particular? E de cada vez se constrói um sistema à volta desta ideia dos indivíduos interagindo na tentativa de maximizar o seu próprio benefício."

John Brockman ("The end of universal rationality")


Esta racionalidade egoísta não é, contudo, confirmada pelos factos. "As pessoas sistematicamente e previsivelmente comportam-se de modo muito mais cooperativo do que o previsto pela teoria dos jogos".

Dentro da mesma linha, os anos noventa conheceram a voga da agency theory (que alguns traduziram pela teoria do agente-principal), de Jensen e Murphy, implicando que toda a gente tem tendência para se "desenfiar", como se diz na tropa. A consequência desta doutrina foi a necessidade de sujeitar toda a gente à monitorização, incluindo os próprios monitores. A estes novos "olheiros" (sobretudo os do topo) foram por isso distribuídos generosos incentivos. "Quinze anos depois, vemos múltiplos de 200 e 500", em relação ao que ganha um empregado "alinhado" pelos interesses da empresa.

Esta cultura entre os executivos tornou-se tão esquizofrénica que vimos recentemente os directores duma AIG salva in extremis pelos dinheiros públicos a reclamarem o direito aos seus bónus principescos.

Temos então que todo um sistema financeiro e empresarial baseado numa teoria aparentemente realista sobre o comportamento humano e alicerçada nos mais competentes modelos matemáticos provou, pelos seus resultados catastróficos, que a misantropia e o julgamento da espécie pelo puro egoísmo tem custos tão gravosos como o idealismo mais descabelado e as engenharias do futuro a que nos iniciou o século XX.

E não parece que esta perigosa deriva se possa combater através da simples recentragem, concedendo, por exemplo, mais espaço às motivações altruístas. Se há uma conclusão a tirar deste impasse, é a de que nenhum pensamento digno desse nome preside às nossas escolhas e disso é significativo o abandono da filosofia e o descrédito a que foi votada pelas várias teorias do sucesso. Uma nova casta colonizou todo o espaço de reflexão que escapa à comunicação de massas: a dos gurus e dos spin doctors, com receitas para tudo, desde a psiquiatria à economia e à gestão de empresas.


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DEUSES...

Alcino Silva


Perseguição dos Cátaros




Vim aqui para este breve diálogo que me impõe a memória e a consciência. Haverás de me perdoar esta fala em murmúrio este sussurrar das palavras, mas é necessário, que o tempo volta a ser de medo, de receio, que as chamas das fogueiras pressentem-se no temor das noites em que o céu é iluminado por labaredas de intolerância e de ganância desmedida, também agora em nome de Deus, qualquer um, não importa qual, pois para os senhores da verdade, todos são bons, desde que triunfe a sua maldade suprema sentada numa qualquer cadeira de poder. Perguntam-me com quem dialogo neste cicio que mal se percebe e quase não se escuta. Com a história, naturalmente. Não, não com essa história, mas antes aquela que se escreve com uma letra das grandes no início da palavra. É verdade, essa que nos conta dos homens e das suas vidas pelo tempo. Por aqui me sento, a esta mesa no canto deste lugar onde se encontram as épocas, os espaços e os tempos que se foram somando. Temos um acordo. Eu relato-lhe o presente e a História me mostra o que guarda do passado nos seus arquivos. Bastas noites aqui vivemos nesta troca que nos enriquece a ambos. A história leva o presente que lhe trago e permite-me estas viagens ao passado. Por aqui, por estas terras, divaguei em tempos idos, em silêncio e em sossego, sem que se escutasse uma palavra desta boca que pasmava perante o que os olhos viam, contemplavam e admiravam. O aroma de pão quente na porta do forno e que se presumia delicioso rondava as casas das ruas estreitas de Narbonne entre a sombra do amanhecer dos pináculos da catedral e dos vastos muros da fortaleza. Sentei-me a observar e procurei afastar o sabor daquelas chamas que a todos queimava naquelas noites de dor e drama que assolava as terras da occitania na caça aos cátaros, à heresia que perturbava a marcha solene da igreja madre, senhora do verbo, rainha dos céus, dominadora da terra e dona da alma dos homens a quem condenava em vida. Olhei de longe as ainda belas, elegantes e esbeltas torres do castelo de Foix. Não cometi o atrevimento de me aproximar, pois a intolerância palmilhava ainda as ruas da pequena cidade pirenaica. Cheguei de madrugada neste regresso a um tempo que não é meu. Reconheço que vim meio escondido, em certa medida um pouco clandestino e assim percorri os acessos ao soberbo castelo de Carcassone. Que grandeza entre aquelas pedras. As luzes actuais iluminam e dão ênfase às muralhas, às ameias que albergaram aqueles que em pleno século XIII pretenderam regressar às origens, à pureza de uma religião que se perdia de si própria. A noite assustava-me e não conseguia deixar de olhar sobre o ombro e a cada rumor sentia o peso das cruzes nas capas dos cruzados que traziam os archotes das fogueiras que acendiam na negra escuridão as chamas da fé. Os primeiros alvores da manhã levaram-me pelos céus a aproximarem-me daquele conjunto montanhoso e a paisagem seduzia-me pela beleza arrebatadora do verde iluminado pelos raios solares. Os cedros, isolados, erguendo-se sobre os arbustos e o caminho quase escondido a rodear a montanha em direcção às ruínas da fortaleza de Lastours. Tantos séculos após, sinto ainda os vossos cânticos, escuto-os como se me encontrasse nesses alvoreceres em que a noite vos deixava, embalada pelos sons dos vossos louvores a Deus. Perdem-se como fios soltos entre o azul que nos serve de tecto. Cânticos? Sim, hinos que se espalham também pela manhã, outra manhã, quase ainda madrugada, mas sem verde, sem montanhas, apenas o amarelo acastanhado das areias do deserto que não permite que usufruamos do azul celeste. O pequeno grupo aguarda em silêncio e sem ruído, na expectativa tornada angústia de não saber o que vai acontecer. A viagem através do túnel durara três horas. Fora lenta, a caminhada. Curvados, sentíamos o peso da ansiedade perante o desconhecido. Partimos no interior da noite e à chegada surpreendeu-nos a madrugada. Um sinal, autoriza-nos a sair. Estamos para lá da fronteira com o mediterrâneo à esquerda. Em frente e à direita as ruínas de uma aldeia que a aviação do exército judeu arrasou na sua missão purificadora. De novo, a acção de lavagem das consciências, agora e hoje em nome de Deus, outro que não o anterior. Um veículo meio destroçado, recolhe-nos e alcança a estrada que para norte nos levará até Gaza. O exército dos judeus já não está, regressou ao outro lado da fronteira. As eleições no Estado judeu já acabaram e como a guerra, tornada chacina fazia parte da campanha eleitoral, também terminou. Hoje sente-se um silêncio de chumbo sobre os crimes. Os judeus calaram-se, escondem-se atrás desse mutismo, até à próxima guerra, ao próximo massacre. O mundo, cala-se também, impotente, passivo. O calor começa a fazer-se sentir e os nossos olhos dividem-se entre o que foi destruído e o que ainda resta. Aqui e além, uma ou outra oliveira parecem querer quebrar a solidão e mostrar sinais de vida. Ao longe, percebe-se a silhueta esbelta de um minarete e o canto que chama à oração sobrevoa-nos lento em voo rasante, agarrando-se ao nosso pensamento como a doçura daquela manhã. É outro Deus, este. Um só céu, um só universo e já vamos em três deuses, todos eles, verdadeiros, puros, vingadores. Alcanço Castelnaud a meio da manhã e a neblina que se ergue do rio ainda não se desfez realçando o ocre das cores que protegem as paredes das casas da aldeia. Em redor do povoado, como um abraço, a ternura do verde a lembrar-nos que é possível a beleza esmagar a violência, mas esta ressurge a cada noite com os seus fachos de luz e de morte. Assim, chegou aqui pelas mãos do arcebispo de Bordéus que ocupou e destruiu o castelo com as ideias que este albergava. A pedra amarela vence o tom de verdura da colina onde se instalava o castelo de Peyrepertuse, vigilante e dominador sobre o vale que se estendia no seu horizonte. Aqui chegou em 1217 Simón de Monfort com as suas fogueiras, os seus incêndios e as suas cruzes divinas, devastando essas comunidades cátaras que viviam na pobreza, na austeridade de normas de continência alimentaria e de abstinência sexual, vestindo-se com humildade. O trabalho manual que elegestes como base da vossa economia e as vossas regras de justiça e verdade, assustaram os mandadores sem lei, apesar de invocarem a de Deus. Inocêncio III, pouco quis saber se o vosso objectivo era voltar à autenticidade da mensagem evangélica, considerou-vos uma peste e criou esse Santíssimo Tribunal da Inquisição. As fogueiras acenderam-se no Languedoc e arderam em Lavour, Lastours, Peyriac, Carcassone, Preixan, Limoux, Mirepoix, Lavelanet, Montsegur, Perpignan. Ardiam os cátaros, ardiam homens e mulheres que na sinceridade da sua ignorância se atreveram a discordar e procurar outro caminho. De pouco vos valeu que no silêncio do medo que se seguiu, celebrassem os vossos ritos nas clareiras dos bosques ou nas eiras das casas de lavoura para evitar que vos demolissem os vossos lares até aos alicerces e os convertessem em depósitos de lixo, pois cem anos depois ainda Jacques Fournier, bispo de Pamiers e futuro papa de Avinhão, vasculhava a privacidade dos habitantes da aldeia de Montaillou e enviava os últimos cátaros para a fogueira sagrada. As ruas da cidade maior daquela faixa estreita entre o Neguev e o mar encontram-se ainda pejadas de destroços, de casas, de ruínas, de sonhos, de esperança, de mortos. Sim de mortos, pois os judeus deixaram 1.300 pelas ruas e entre as paredes dos edifícios que derrubaram à bomba. Esses judeus que continuam a celebrar o seu privado holocausto, tão democráticos no seu viver, tão religiosos, tão puros, com tanta sabedoria divina e milenária, utilizam o seu exército de assassinos para semear o terror indiscriminado vinte e quatro horas por dia sobre essa que é a maior prisão do mundo. Agora calam-se, refugiam-se. Não de vergonha ou de medo, porque se sentem impunes, mas preparando o próximo braseiro onde vão incinerando há sessenta anos os palestinianos. Em nome de Deus, também e naturalmente. Retorno às paisagens que se abrigam na sombra dos cumes pirenaicos. Não consigo afastar de mim, nem as luzes das chamas, nem o cheiro dos corpos acabados de assar na pira da intolerância que se estendeu pela Europa durante cinco séculos. Os senhores prosseguem como vândalos a encher as tulhas da vaidade com a cruz do fanatismo e a espada da injustiça e continuam as suas perseguições, a abarrotar as masmorras de corpos de homens livres. Cobardes, escondem-se atrás de Deus. A noite já vai longa. Eu e a História, abraçamo-nos e com passos rápidos e silenciosos desaparecemos no sossego dos tempos que hão-de chegar.

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