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01/02/24

"A PAZ É POSSÍVEL"

Manuel Joaquim

http://timerime.com/en/event/725604/Capela+de+Vallauris/




Nos anos 70 do século passado Portugal estava em guerra nas colónias africanas onde muitos jovens morreram ou ficaram estropiados para toda a vida, com desgraças para as suas famílias, para os amigos e para o país em geral.

Criado em 1967 pelo Papa Paulo VI, em 1 de Janeiro de cada ano, a Igreja Católica comemora o Dia Mundial da Paz. Em 8 de Dezembro de 1972, O Vaticano publicou uma mensagem do Papa para o dia 1 de Janeiro de 1973 sob o tema “A PAZ É POSSÍVEL”.

A mensagem diz que a PAZ é possível, se for verdadeiramente querida, e se a paz é possível, ela é obrigatória.

No Porto foi publicado um cartaz com a frase “A PAZ É POSSÍVEL”. 

Lembro-me de conversar com Alberto Andrade para comprarmos esse cartaz e fazer um quadro e o colocarmos na sala da Direcção do Sindicato de Seguros onde tínhamos actividade.

Recordo-me das reacções de alguns dirigentes ao depararem com o quadro. Alguns manifestavam receios por causa da Pide, outros engoliam em seco, e outros queriam saber quem tinha tomado a iniciativa.

Ainda estava presente o Papa Paulo VI ter recebido em audiência, tempos atrás, dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, o que na altura causou problemas diplomáticos graves entre Portugal fascista e o Vaticano.

Falar na PAZ antes do 25 de Abril era subversivo.

Nos novos tempos falar da PAZ parece-me que continua a ser subversivo. As pessoas que defendem a PAZ são consideradas traidoras (pelas que defendem a guerra). As pessoas que defendem melhores condições de trabalho, melhores salários, melhores reformas, melhores escolas, melhor saúde, mais habitação, são simplesmente ignoradas. As suas iniciativas não passam nos jornais, nas rádios, nos telejornais, enquanto outras, são anunciadas até à exaustão. 

Assistimos na Europa à multiplicação de vozes para os países se prepararem para a 3ª guerra mundial. São as vozes dos fabricantes de armamentos e das indústrias farmacêuticas para enriquecerem cada vez mais à custa dos dinheiros desviados da melhoria das reformas dos pensionistas, dos serviços de saúde, dos serviços da educação.

A Europa, tal como a conhecemos neste momento, está transformada numa colónia, dominada pelos EUA. Os dirigentes da União Europeia são figurões sem formação, lacaios que se limitam a cumprir ordens de quem manda, tendo como contrapartidas chorudas remunerações e prebendas.

Neste momento decorrem às portas da Rússia, manobras militares com mais de 90.000 militares com os respectivos materiais de guerra. Portugal também participa. Vários meses a prepararem-se para a guerra, a gastarem o dinheiro que faz falta para a melhoria das condições de vida das pessoas.

As autoridades da Letónia estão a expulsar cidadãos de origem russa, que são cerca de 25% da população. Os EUA vão colocar muito brevemente armas nucleares na Inglaterra. 
São provocações a mais para quem está do outro lado da barreira.

Utilizando as palavras de uma personalidade importante, “gente não tem instinto de sobrevivência”.  

Milhares de agricultores manifestam-se em França, na Polónia, na Roménia, na Suécia, na Hungria, na Moldávia, na Chéquia, Na Eslováquia e na Alemanha. Trabalhadores de outras actividades também se manifestam reivindicando melhores condições de trabalho e de vida.

Entretanto, vimos reuniões secretas de organizações fascistas onde já discutem planos para quando chegarem ao poder. Em 25 de Novembro passado reuniram num hotel em Potsdam, na Alemanha, empresários ricos, assessores do Partido para Alemanha (AfD), políticos da CDU e outros, onde discutiram a deportação massiva de imigrantes para um “país modelo” do norte de África. 

Não estão a inventar nada de novo. O Plano Madagáscar, delineado pelo regime nazi alemão em 1940, pretendia deslocar centenas de milhares de judeus europeus para a ilha de Madagáscar, na altura colónia francesa. Em 20 de Janeiro de 1942 os nazis decidiram ser mais fácil o extermínio das pessoas.

Agora é em relação aos imigrantes e não só. 

Ouvi uns dirigentes de Israel a dizerem que estão a discutir a criação de uma ilha artificial para deportaram para lá os palestinianos e que também estão a negociar com países africanos (Congo) para o mesmo fim.

Além dos fascistas alemães, são os judeus a recuperarem o mesmo plano dos nazis de 1940. 

POLÍTICA FAZ-DE-CONTA

Mário Martins


https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=sem+abrigo



De acordo com os mais recentes números oficiais, existem em Portugal quase 11.000 pessoas a viver na rua. 

Talvez porque, segundo as notícias, se encontrem na mesma situação cerca de um milhão de europeus - e porque, é claro, não têm sindicato, não constituem uma sub-classe eleitoralmente interessante, e não podem vir para a rua, já que na rua estão elas - este seja um problema ausente dos debates e de consistentes medidas políticas caseiras.

Entrementes, acordando de uma longa hibernação após uma meritória investida no seu primeiro mandato, o Presidente da República terá pressionado o actual Governo, em Outubro passado, sobre novo plano para integração dos sem-abrigo, apontando agora para 2026 a meta da sua redução drástica.

Neste contexto, foram aprovadas propostas dos partidos Livre e Pan, no quadro da discussão do Orçamento de Estado para 2024, para que o Governo defina, no primeiro trimestre de 2024, a nova Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação Sem Abrigo 2024-2030. No entanto, foi chumbado pelo PS tudo aquilo que estabelecia verbas e metas concretas para esta estratégia.

Ainda por proposta do Pan foi decidido que o Governo crie, no segundo semestre de 2024, "um programa de formação e emprego concebido especificamente para pessoas em situação de sem-abrigo que promova a sua integração profissional", bem como “programas de financiamento e apoio técnico especializado a empresas e entidades que criem postos de trabalho para estas pessoas.”

Entretanto, segundo despacho da Agência Lusa, de 21de Dezembro, o Governo ainda em funções (de gestão) aprovou a prorrogação da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, que terminava no fim de 2023, até ao final de 2024, “em linha com o compromisso assumido de disponibilizar soluções de vida condignas às pessoas que se encontram nesta situação”.

O Conselho de Ministros aprovou também, na generalidade, a Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2024-2030, em consulta pública desde o início deste ano. Até à entrada em vigor da nova estratégia, vigora a atual.

Nos últimos três anos, segundo o coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, Henrique Joaquim, cerca de 2.500 pessoas deixaram de viver nessa condição.

Antecipando a prorrogação da Estratégia Nacional, o coordenador adiantou que a principal novidade está no trabalho ao nível da prevenção, admitindo que, nessa área, não tem havido até agora uma “abordagem tão consistente”.

Enfim, toda a experiência acumulada mostra que a política, nesta área, anda a passo de caracol, e que nunca houve nem há uma verdadeira vontade de acabar com esta chaga social que, de forma tão dramática, interpela a consciência de uma sociedade que, todavia, já se adaptou, desviando o olhar e colocando passivamente o problema na prateleira dos assuntos “insolúveis”. Isto significa que se o Presidente da República (apesar de eventualmente enfraquecido pelo caso das gémeas) não mantiver a pressão junto do Governo que resultar das eleições, a nova Estratégia 2024-2030 acabará igualmente na valeta onde jazem os destinatários.

Nota final: se algum dia (que não vislumbro no horizonte…) vier a garantir-se um tecto para todos e a sua reintegração na sociedade em condições minimamente decentes, a par de uma efectiva política de prevenção, tal deverá implicar, na minha perspectiva, a cessação de qualquer proteccionismo especial de que os chamados sem abrigo há muito são credores perante a sociedade e o estado, bem como a observância dos deveres a que estão sujeitos os demais concidadãos, nomeadamente o de não fazerem a cama na rua…

A ZONA DE INTERESSE

António Mesquita


"A Zona de Interesse" é um filme de Jonathan Glazer, de 2023, baseado, em termos muito gerais,  no romance homónimo de Martin Amis. O livro começa por uma longa citação do "Macbeth", que é como que a epítome da ambição política e da maldade punida pela solidão do poder. Enquanto que o filme institui logo de início uma separação quase esquizofrénica entre a vida da família Höss, encostada ao campo de Auschwitz e a "cozinha" do Holocausto.

A piscina e a relva cercadas pelo arame farpado. O que podia ser uma cena naturista com corpos jovens banhando-se, é ensombrado pelos gritos das vítimas  e os berros dos guardas. Esta dissociação não põe nenhum problema de continuidade e é apenas revelada pela posição da câmara e pela banda sonora. Quando Höss é chamado para trabalhar com Eichmann na "solução final" aplicada aos judeus da Hungria, ele despede-se por um tempo do papel de pai afectuoso e de marido fiel para se consagrar  "in partibus" à extensão  do morticínio.

Depois de obtida a nova missão, Höss que deu o nome à operação húngara, desce sozinho a escadaria e tem vários arrancos sem conseguir o vómito. A cena é entremeada com uma antecipação futurista. Assistimos à limpeza do actual Museu de Auschwitz, com as suas enormes vitrinas e os milhares de sapatos das vítimas.

E é assim que "A Zona de Interesse" termina, com um corpo revoltado contra a consciência funcionária e que não consegue  aliviar-se. Mas será a alergia ou a indisgestão o único sinal de alerta?

A aparente contradição entre o mundo familiar e o do campo de concentração resolve-se pela ausência de imagens de violência. O filme foca o quotidiano dessa família (Höss e Hedwig - Christian Friedel e Sandra Hüler,  os filhos e uma avó de visita que não aguenta aquela atmosfera) à custa duma visão normal, já não digo acima do labirinto em que as personagens encontram o seu próprio impasse, mas para lá do estereótipo duma vida saudável e desportiva.

Depois da interrupção da sua vida dupla, Höss dita uma carta oficial, terminando com "Heil Hitler, etc",  o que no seu laconismo traduz perfeitamente o último estádio do entusiasmo ideológico, o da fórmula anódina duma carta comercial, sem que a máquina assassina do regime, funcione pior por isso. É nesse estádio, aliás, que o sistema deixa de causar eczemas de ética, como se viu noutras paragens.

O filme começa por um écrã escuro e um coro lúgubre da autoria de  Mica Levi.  Para entrarmos no ambiente risonho dos corpos banhando-se no rio "com uma espinha atravessada na garganta". A banda sonora é o referente da loucura face ao sol das imagens. A encenação da primeira meia hora persiste numa indistinção dramática do elenco, como se nos quisesse apresentar, em vez de pessoas,  um colectivo ideológico de capa de revista.

Como "flashes" dum sonho, cenas dum conto infantil num negativo pintado entremeiam a evolução dos adultos. Hedwige não quer deixar o seu paraíso possível e acompanhar o marido à Hungria e Höss só pode concordar. O que introduzem estes negativos infantis é uma pergunta fecunda, de tal modo inviabiliza a ideia duma infância protegida do mal.

Ouvimos falar em alguns nomes sonantes do partido, mas o jogo que se nos quer mostrar é o do segundo nível da hierarquia, onde encontramos uma influência da ideologia de menor impacto. Essa circunstância, porém, em nada diminui a seriedade do cometimento pessoal. É essa característica o que talvez prenuncie a "lealdade" nos tempos democráticos, depois da guerra, de tantos dignitários do regime.

Recentemente, vi um documentário sobre o "Lager" de Sobibor na Polónia Oriental que fazia parte da Operação Reinhard e onde ocorreu a única revolta de prisioneiros dos campos nazis, em 14 de Outubro de 1943. Desde a sua construção, embora toda a gente soubesse, os alemães tentaram camuflar Sobibor da população local, mas depois da evasão maciça na sequência daquela revolta, foi tentada a obliteração de todos os vestígios. Modernas escavações trouxeram à luz a horrenda realidade. Como nos outros casos, por toda a Europa, o massacre tinha entrado na "ordem natural das coisas" e a arqueologia trouxe algumas provas patéticas nas garrafas de cerveja que bebiam os guardas, enquanto ao lado se gazeavam as vítimas de todas as idades. No fundo, a mesma situação daquela família tipicamente alemã que vemos no filme de Glazer. Para a compreender, feliz ou infelizmente, não temos de imaginar monstros nenhuns. Nenhum Drácula ou Caligari.

Documentários como esse passam frequentemente no canal franco-alemão "Arte". Basta nos pormos na pele do mais insignificante herdeiro do Reich para perceber que o "juízo final" não fez esquecer nada, e isso vê-se na resposta complexa e complexada do governo alemão ao morticínio de Gaza.

01/01/24

AS BENEVOLENTES

António Mesquita

"O 'Führervernichtungsbefehl' é uma coisa terrível. Paradoxalmente, é quase como uma ordem do Deus da Bíblia dos judeus, não é verdade? Agora vai, fere Amalek! Vota-o ao anátema, com tudo o que possui, sem piedade perante ele, mata homens e mulheres, crianças e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e asnos.

Você conhece o texto, vem no primeiro livro de Samuel. Quando recebi a ordem, foi isto o que pensei. E como lhe disse, penso que é um erro, que deveríamos ter tido a inteligência e a capacidade de descobrir uma solução mais... humana, digamos assim, mais em conformidade com a nossa consciência de alemães e de nacionais-socialistas. Neste sentido, é um fracasso." ("As Benevolentes" de Jonathan Littell)



As Benevolentes são as Euménidas de Ésquilo (525 a.C) na trilogia "Oresteia", depois de terem sido as Erínias, as Fúrias que perseguiam o herói com todo o mal que podiam como executoras do juízo supremo de Zeus, pelo assassínio de Clitemnestra, a mãe de Orestes, culpada aos olhos do filho de ter assassinado o pai, o chefe dos exércitos, Agamemnon. 

A justiça do pai dos deuses não seguiu o seu curso até à execução de Orestes, porque  o poder não unificado  da mitologia grega como que acolhe a complexidade do mundo. Uma filha de Zeus, Atena, protege o matricida. E é por isso que as Fúrias se transformam em Benevolentes, sob a figura das Euménidas.

Este intróito é necessário para explicar o título e a trama do Goncourt de 2006, "Les Ɓienveillantes" de Jonathan Littell, um americano, nascido em 1967, que estudou em Paris e escreve em francês.
As mais de oitocentas páginas deste "roman-fleuve"  descrevem as peripécias da vida dum jovem alemão, Maximiliano Aue, que atravessa a segunda guerra mundial na pele dum nazi,  culto e racional, o contrário dum espírito dogmático, aberto às dúvidas e às inquietações do tempo que um ocidental não filiado no NSDAP poderia partilhar até um certo ponto.

O livro está escrito em andamentos como uma partitura musical, ou não fosse Aue um melómano, entusiasta de Bach, de Schönberg e dos franceses do século XVII, como Rameau e Couperin. 

A peça de Ésquilo dá o mote às motivações pessoais do narrador, em que estão presentes o incesto a idealização do pai e o ódio matricial. Alguma complacência narcísica afecta a descrição das suas experiências   incestuosas e homossexuais.  Esses temas são como que o fundo compulsivo do narrador e são vividos, tal como o matricídio como que por um outro. 

O posto de Aue leva-o a presenciar algumas das piores atrocidades dos SS e a sua participação nos crimes é quase maquinal, como quando "acaba" a liquidação de judeus nos fossos do tipo "lata de sardinha", em camadas sobrepostas. Esse funcionamento automático, como roda da engrenagem, é apresentado como facto indiscutível, e "justificado" pelas necessidades da guerra e consequência de algumas tomadas de decisão erradas, mas forçadas pelas circunstâncias. 

Não se pode levar mais longe a negação da liberdade individual e o peso determinante das forças sociais e do não-humano. Como diria Bruno Latour (*), o transcendente do social e o da natureza convivem, paradoxalmente, com a imanência, a ideia de que somos senhores dos nossos actos e que podemos utilizar as forças naturais segundo o nosso alvedrio.

O que é novo neste romance contra a corrente é esta vontade de nos pormos na pele de autores ao mesmo tempo voluntários e involuntários dos crimes mais hediondos, pela sua organização sistemática, cometidos alguma vez por seres humanos. A abstracção que os justifica como necessidade da nação, do "volk", que foi buscar inspiração a alguma poesia translida e a filósofos traídos como Nietzsche, é apenas mais uma ilustração da ideia de Hannah Arendt da "banalidade do mal". O mal não é um abismo raro e insondável, mas pode tornar-se quotidiano e prosaico.

O mérito de Littell é obrigar-nos a compreender, através duma minúcia quase fractal, que exigiu um trabalho de pesquisa admirável,  como se pode pensar e fazer o mal radical quase sem nos envolvermos, numa superficialidade que não é outra coisa que a falta de penetração da verdade. Como o actual conflito em Gaza o demonstra pode-se com toda a boa consciência confiar à Inteligência Artificial a escolha dos alvos e massacrar com toda a limpeza e o profetismo duma sentença bíblica.

A aparição das Euménidas, no caso de Aue, que foi capaz, depois da guerra, de refazer a sua vida como fabricante de tecidos de renda, conforme o exemplo de tantos dignitários e membros do partido nazi é, no fundo, o reconhecimento de que não somos dignos da responsabilidade total implicada na ideia de liberdade. 

Ter nascido na Alemanha e no leste europeu há cem anos foi uma grande maldição e não só para os judeus. Só se salvaram os que fugiram a tempo. Basta imaginarmo-nos nesse lugar e nesse tempo para perdermos toda a boa consciência.



(*) "Nous n'avons jamais été modernes" de Bruno Latour






NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva





Definitivamente a fadiga venceu-nos. Vagueamos pelas pequenas ruas de Numão apenas para reter o desassossego de partir como quem foge, como abandono de uma tarefa inconclusa. Nesse desarrumar dos passos, deixamos o pensamento à solta com a despreocupação de quem tem tempo de sobra para o que lhe resta fazer. O olhar persegue o horizonte montanhoso, colinas que se inclinam em socalcos trabalhados pela mão humana. Séculos ou mesmo milénios viram os seres humanos desafiarem tempos meteorológicos para moldar a terra e a pedra. Ergueram castros, castelos e as suas poderosas construções perdem-se numa eternidade que foi e continua a ser desconhecida para os seus construtores. Todos eles se extinguiram e a pedra na sua robustez permanece altiva em desafio ao tempo. Que sonhos moviam estas populações em épocas tão remotas que até a actual memória humana lhe perde referência. A vida humana evolui entre duas não existências, a do nascimento e a da morte que nos reduz à insignificância de uma poeira espalhada pela menor das brisas. Cada ser humano pode descobrir todo o passado que encontrou ao nascer, mas vai desconhecer de forma absoluta todo o futuro que vai acontecer após a sua extinção. Fica apenas um número, talvez um nome, no caderno infinito dos registos da vida. Assim nos perdemos entre Numão e Freixo, entre duas aldeias e dois castelos. Freixo singrou quando Numão iniciou um declínio que lhe fez perder importância. A descida em direcção a Côa é deleitosa, como um caminho sem pedras, desliza-se com macieza enquanto os olhos se deliciam na contemplação das vinhas, dos vinhedos, dos socalcos, da cor da terra. O céu está puro com o azul perfeito, mas a qualquer momento esta serenidade pode alterar-se. Numa curva para a esquerda aparece-nos o IP2 e sentimos esse desprazer da urbanidade, do movimento das grandes rotas. Cruzamos sem nos determos em pormenores e logo subimos pela N102 num trajecto conjunto com a nossa estrada. É quase impensável percorrer a N222 e não entrar em Vila Nova, mas contornamos a vila. Primeiro em direcção a Almendra e logo de seguida na rota do Museu do Parque Arqueológico do Vale do Côa. É uma nova viagem aos confins da humanidade, à rudeza de tempos que nos parecem hoje inclementes e no entanto, aqueles seres humanos, pese embora a brevidade da vida que tiveram, sonharam, reflectiram e gravaram na pedra o mundo que os rodeava, a vida de que dependia a sua e regressamos aos pensamentos matutinos, ao paradoxo de a alma humana poder alimentar seres que deixam a sua vida passar entre deuses malditos e fictícios, semeando a sua loucura demente e terrena em barbáries infindáveis e impunes, enquanto outros acalentam utopias que projectem a humanidade para tempos de alegria e de temperança que permita que a breve passagem pela existência não seja apenas um desfilar de horrores, mas antes de fraternas vivências. Sentimos as horas a fugir mais céleres do que a nossa ansiedade, mas prende-nos o olhar por este passado retratado neste belo museu sobre o rio. Regressamos e tomamos o rumo de novo para Leste. Descemos até ao Côa e ao km 210 a N222 despede-se do Douro enquanto retoma a subida em direcção a Castelo Melhor. O final da nossa estrada e da nossa viagem aproxima-se, mas nesta pequena aldeia não existe apenas o típico castelo medieval é também o acesso às gravuras rupestres do Vale do Côa. A nossa querença pendula entre a breve visita ou o ficar para uma visualização merecedora, mas vence a vontade de regressar. É pois sumário este diálogo com as pedras do passado em Castelo Melhor. Vamos levar esta pena a pesar no nosso caderno dos dias em que viajamos de Oeste para Leste na busca do desconhecido. Sente-se com mais premência a chegada do fim e após uma curva aberta para a esquerda quase de forma súbita, termina ao km 222 a N222. É um final abrupto que nos deixa numa melancolia nostálgica difícil de acalmar. Almendra está logo abaixo, pouco mais de um quilómetro, mas já não sentimos energia para a visitar. Voltamos à esquerda para a N332, agora Rua do Prado Pequeno que leva ao longo de dez quilómetros até à antiga estação de Almendra que aguarda que promessas se cumpram para voltar a ter vivência humana. Descemos até ao Douro. Um pouco antes da sua margem, prosseguimos pela Rua do Prado Pequeno agora em terra batida ao encontro da N221 por onde descemos até Barca d’Alva. Muito gostaríamos de seguir para Norte até Miranda, mas será noutro tempo se outro existir. Por hoje, detemo-nos por aqui, por este pequeno lugar fronteiriço cuja estação, também esta, aguarda pela chegada do comboio. Fazemos-lhe companhia nessa espera enquanto vemos o Douro passar com ar sonolento neste final de tarde. E se ao km 0 lembramos Adriano cantando Barca d’Alva ao romper do dia, neste quase crepúsculo, recordamos José Afonso, na sua balada de Outono, “Rios que vão dar ao mar / Deixem meus olhos secar / Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar”.
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