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01/10/22

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva






Aguardar por alguém deve ser sempre um acto de paciência, não no sentido negativo da resignação ou da tolerância, mas da constância. Não devemos considerar o tempo de espera, um tempo perdido, mas antes de aproveitamento para reflectir, sobre a vida e o tempo que vivemos, o passado e o que há-de chegar. Há vários dias que te aguardava na pequena cidade siberiana que leva o nome do rio que corre um quilómetro a Sul, o Shilka. Este rio é a continuidade do Onon, após este receber a corrente do Ingota e muito mais para a frente quando encontrar o Ergun, faz nascer o longo rio Amur. Sabendo de antemão que vais acompanhar o Amur na sua viagem para o mar, não tinha dúvida sobre a tua passagem por esta cidade com cerca de treze mil habitantes que o transiberiano toca na sua passagem. Os dias foram passando na quietude do lugar que fui percorrendo, seduzido pelo trânsito dos longos comboios certamente a caminho de Vladivostoque e revivendo a viagem que até ali me levara após o nosso último encontro no Cáucaso, trazendo comigo as preocupações que deixaste transparecer sobre os tempos negros que sobrevoam a humanidade. As nuvens que toldavam a Europa encheram-se de escuridão como nos momentos que antecedem as grandes trovoadas e de certa forma ansiava por conhecer como o teu pensamento contemplava as convulsões que começam devagarinho a bater à porta das democracias coloniais. Uma manhã, descia a longa Ulitsa Oktiabrskaia para deixar que o olhar se perdesse nas colinas montanhosas que se vêem ao longe na margem direita do Shilka quando me apercebi da tua presença em sentido oposto. Aguardei com alegria contida que te aproximasses e quando olhaste para o horizonte vi nascer-te no rosto esse teu sorriso inconfundível que me faz sempre lembrar as palavras do poeta cantor, “aprendi a amar a madrugada que desponta em mim quando sorris”. Senti que chegara o momento de escutar as tuas vivências. Sentamo-nos no Baikal que não cheguei a perceber se era café restaurante ou restaurante que servia café, mas pouco importava, o mais importante é que estávamos em sossego. Olhava esse teu silêncio que antecede sempre as tuas palavras e deixei que o tempo deslizasse. “Quando penetramos nas montanhas Khentii”, disseste tu como se estivesses a continuar uma conversa e não no seu início, “sentimos que penetramos num espaço sagrado. Os mongóis são muito zelosos e a ideia de que alguém vai atravessar aquele território protegido deixa-os em sobressalto e se vais sozinho e sem guia, percebemos a incredulidade que se estampa nos seus rostos. São dias inteiros caminhando por uma paisagem soberba. A quietude que se sente quase nos imobiliza. Os lagos, a vegetação, os cursos de água, sucedem-se desenhando mantos de beleza que devido ao facto de o nosso movimento apeado ser lento, penetra-nos de tal forma que parecem fotografias coladas no nosso cérebro, como se desfolhássemos um livro e cada página nos revelasse um segredo. Quando por fim, encontrei a nascente do Onon, numa espécie de pântano impossível de caminhar, senti-me fisicamente cansada e por ali me deixei ficar longas horas em repouso contemplativo. Tentei esvaziar o pensamento, mas não o alcancei totalmente. Ao visitar o passado, ocorreu-me uma descrição de Malraux numa das suas obras. Dois generais republicanos conversavam num fim de tarde após uma batalha ganha pelo exército que comandavam. Faziam-no numa igreja que naquele momento era utilizada pelas forças governamentais. Em certo momento, escutam sons de música que sobe pelas paredes e se espalha pela abóbada. Um soldado tocava no órgão um Requiem e ambos se evadiram dos seus diálogos guerreiros e deixaram que o pensamento se diluísse na beleza dos sons. Na nascente do Onon senti essa música invadir-me quando pensei na Europa.” O teu discurso fluído até então, teve uma paragem como se tivesses tido necessidade de revisitar um espaço para além daquele onde nos encontrávamos. Ao fim de alguns minutos, regressaste com uma voz sumida, e quase num murmúrio ouvi-te fazer uma pergunta, “já pensaste como a humanidade tende a repetir os erros? Há oitenta anos atrás, os líderes das nações coloniais correram a Munique para cumprimentar a serpente e agora correm para a margem do Dniepre em abraços esfuziantes. Bem dizia Malraux, ‘Sempre vi as democracias intervir contra tudo, excepto contra os fascismos’. Que palavras sábias. Fazem-nos caminhar à beira do abismo e exigem que acreditemos que estamos a atravessar uma planície. Sãos uns bastardos. Sabes, os comandantes que foram surpreendidos pelos sons do requiem, falavam sobre Unamuno”. Mas Unamuno não estava do lado da infâmia golpista?, arrisquei de forma um pouco provocatória para lhe incentivar o pensamento. “Unamuno era um intelectual do século XIX e a aparente desordem da República perturbava-o, mas cedo percebeu que os que falavam em nome da pátria, de Deus e da família, eram apenas o exército da barbárie e não dúvidas em enfrentar a escumalha que se alojou no território sagrado da sua Universidade. Só a sua grandeza intelectual permitiu que dissesse a essa escória humana que foi Millan Astray, ‘O senhor é um aleijado, como Cervantes, mas sem a sua grandeza, e procura um alívio sinistro ao seu aleijão causando mutilações à sua volta’. Astray além de fascista era um acéfalo, violento e sem escrúpulos”. As horas fluíam tranquilas enquanto te escutava e olhava o teu rosto onde se liam preocupações que este tempo nos sobrecarrega, não o tempo mas essa gente que se apoderou dele e nos condiciona o presente e o futuro como já o fez no passado. Foste descrevendo o teu lento caminhar até Shilka e agora ali estávamos prontos para descer ao longo do Amur. Quando te afastavas ainda te perguntei por leituras, o que lias. “Ler? Já não leio muito, a não ser sobre o mar, de quem sou, cada dia que passa, uma amiga mais íntima…”. Sorriste e compreendi que respondias com as palavras de Unamuno.


Nota – As citações foram extraídas da obra de André Malraux, "A Esperança".

LIÇÕES DE MESTRE (A FECHAR)

Mário Martins


https://www.fnac.pt/Sete-Breves-Licoes-de-Fisica-Carlo-Rovelli/



NÓS

Se o mundo é um pulular de efémeros quanta de espaço e de matéria, um imenso jovem jogo de encaixes de espaço e partículas elementares, o que somos nós? Somos também nós feitos apenas de quanta e partículas? Mas então de onde vem essa sensação de existir singularmente, e na primeira pessoa, que cada um de nós experimenta?

“Nós”, seres humanos, somos acima de tudo o sujeito que observa este mundo, mas também somos parte integrante do mundo que vemos, não somos observadores externos. Estamos situados nele. A nossa perspectiva sobre ele é a partir de dentro.

As imagens que construímos do universo vivem dentro de nós, no espaço dos nossos pensamentos. Entre essas imagens e a realidade da qual fazemos parte, existem inúmeros filtros: a nossa ignorância, a limitação dos nossos sentidos e da nossa inteligência, as próprias condições que a nossa natureza de sujeitos, e sujeitos particulares, impõe à experiência. Essas condições, todavia, não são universais, como imaginava Kant, deduzindo então, evidentemente sem razão, que a natureza euclidiana do espaço e até a mecânica newtoniana deveriam, a priori, ser verdadeiras. São a posteriori da evolução mental da nossa espécie e estão em evolução constante. Não só aprendemos como aprendemos também a mudar gradualmente a nossa estrutura conceptual e a adaptá-la àquilo que aprendemos.

A informação que um sistema guarda acerca de outro sistema não tem nada de mental ou subjectivo, é apenas o vínculo que a física determina entre o estado de uma coisa e o estado de outra coisa qualquer. A substância primeira dos nossos pensamentos é uma riquíssima informação recolhida, trocada, acumulada e continuamente elaborada.

Mas também o termostato do meu aquecedor “sente” e “conhece” a temperatura da minha casa, logo, tem informação sobre ela, e desliga o aquecimento quando está calor que baste. Qual é a diferença entre o termostato e eu, que “sinto” e que “sei” que está calor, que decido livremente ligar ou não o aquecimento e que sei que existo? Como pode a troca contínua de informações na natureza produzir-nos a nós e aos nossos pensamentos?

O que significa sermos livres de tomar decisões, se o nosso comportamento não faz senão seguir as leis da natureza? Existirá porventura em nós algo que escapa às regularidades da natureza e que nos permite torcê-las e desviá-las com o nosso pensamento livre? Se algo em nós violasse as regularidades da natureza, já o teríamos descoberto há muito tempo. Não há nada em nós que viole o comportamento natural das coisas. Ser-se livre não significa que os nossos comportamentos não sejam determinados pelas leis da natureza. Significa que são determinados pelas leis da natureza que agem no nosso cérebro. As nossas decisões livres são livremente determinadas pelos resultados das interacções fugazes e riquíssimas entre os milhares de milhões de neurónios do nosso cérebro: são livres quando é o interagir desses neurónios a determiná-las. Significa isto que quando decido sou “eu” a decidir? Sim, claro, pois seria absurdo perguntar se “eu” poderei fazer algo diferente daquilo que o complexo dos meus neurónios decide fazer: as duas coisas, como, no século XVII, compreendera com uma lucidez maravilhosa o filósofo holandês Baruch Espinosa, são a mesma coisa. Não existo “eu” e os “neurónios do meu cérebro”. Um indivíduo é um processo, complexo mas estreitamente integrado.

Quando dizemos que o comportamento humano é imprevisível, dizemos a verdade, pois é demasiado complexo para ser previsto, sobretudo por nós mesmos. Temos centenas de milhares de milhões de neurónios no nosso cérebro, tantos quantas as estrelas de uma galáxia, e um número ainda mais astronómico de ligações e combinações em que eles se podem encontrar. Não estamos conscientes de tudo isto. “Nós” somos o processo formado por esta complexidade, não o pouco de que estamos conscientes.

Aquilo que é especificamente humano não representa a nossa separação da natureza, é a nossa natureza. É uma forma que a natureza assumiu aqui no nosso planeta, no jogo infinito das suas combinações, do influenciar-se e trocar correlações e informações entre as suas partes. Quem sabe quantas e que outras extraordinárias complexidades, em formas porventura completamente impossíveis de imaginar para nós, existirão nos espaços infindos do cosmos…

Novos instrumentos permitem-nos hoje observar a actividade do cérebro em tempo real e mapear com impressionante exactidão as redes intrincadíssimas do cérebro. Ideias precisas acerca da forma matemática das estruturas que podem corresponder à sensação subjectiva da consciência são discutidas não só por filósofos como também por neurocientistas. Uma delas chama-se “teoria da informação integrada” e é um esforço no sentido de caracterizar de forma quantitativa a estrutura que um sistema terá de ter para ser consciente. Mas ainda não temos uma solução convincente e partilhada para a pergunta sobre como se forma a consciência de nós mesmos.

Julgo que a nossa espécie não durará muito tempo. Não parece ter o estofo das tartarugas, que continuaram a existir semelhantes a si mesmas ao longo de centenas de milhões de anos. Pertencemos a um género de espécie de vida breve. Os nossos primos já se extinguiram todos. Somos talvez a única espécie da Terra ciente da inevitabilidade da nossa morte individual: receio que em breve devamos tornar-nos também a espécie que verá conscientemente chegar o seu próprio fim ou, pelo menos, o fim da própria civilização. Como soubermos enfrentar, melhor ou pior, a nossa morte individual, assim enfrentaremos o colapso da nossa civilização. Não é muito diferente. E não será por certo a primeira civilização a entrar em colapso. Nascemos e morremos como nascem e morrem as estrelas, tanto individual como colectivamente. Essa é a nossa realidade.

A natureza é a nossa casa e na natureza somos a casa. Somos feitos da mesma poeira das estrelas de que são feitas as coisas e, tanto quando estamos mergulhados na dor como quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos senão ser aquilo que não podemos senão ser: uma parte do nosso mundo.

Lição final a reter: na lição anterior Rovelli interroga: o que é que aquilo que sabemos ou não sabemos tem a ver com as leis que governam o mundo? E responde: (as coisas, como uma colher fria aquecer no chá quente ou um balão esvoaçar quando deixado à solta) comportam-se como devem, seguindo as leis da física, de forma totalmente independente do que sabemos ou não sabemos acerca delas. A previsibilidade ou imprevisibilidade do seu comportamento não dizem respeito ao seu estado exacto. Dizem respeito ao conjunto limitado das suas propriedades, com as quais nós interagimos. Por outras palavras, Rovelli repete aqui o que, na primeira metade do século XX, Bohr e Heisenberg haviam dito a propósito da relação entre a mecânica quântica e a natureza (ver lição nº. 2). Ecco qua...

NB: Salvo o meu comentário final e o critério de transcrição do que me pareceu mais importante, não acrescentei nada a esta última lição de Rovelli.

UM MUSEU

Manuel Joaquim



https://images.app.goo.gl/ZkFC2gJyoFWcaY4J6




A Organização dos Reformados, do SINAPSA, Sindicato Nacional dos Profissionais de Seguros e Afins, no passado dia 29 de Setembro, realizou uma visita guiada ao Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento. O Transporte foi efectuado no comboio intercidades, entre o Porto e Entroncamento, e entre Lisboa e Entroncamento. 

A visita foi muito interessante, pela forma como o museu está organizado, pela alta qualidade dos materiais expostos e pelo saber e capacidade de comunicação do guia, João Paulo Geraldes Marques. A história dos Caminhos de Ferro Portugueses está ali bem como uma parte da história de Portugal dos últimos 170 anos.

Em 28 de Maio de 1853, a Rainha D. Maria II, inaugurou o início da construção da primeira linha férrea de Portugal que pretendia chegar a fronteira de Espanha e ao Porto. A Rainha empurrou um carrinho com areia que com uma pá descarregou no chão. Foi o acto para o início dos trabalhos que foram executados por uma empresa inglesa. Passados três anos, foi inaugurada a ligação entre a primitiva estação de Santa Apolónia e o Carregado. Foi em 28 de Outubro de 1856 que foram percorridos os primeiros 36 quilómetros.

O Rei D. Pedro V e o Ministro das Obras Públicas Fontes Pereira de Melo, foram as personalidades a quem se deve o arranque dos caminhos-de-ferro em Portugal.

Ao longo dos tempos foram criadas comissões para estudar a implantação da rede ferroviária. Muitos projectos tiveram seguimento. Outros não tiveram os seguimentos previstos nos próprios projectos. No entanto, pode dizer-se que o território foi coberto por linhas, desde Trás-os-Montes, ao Alentejo e até ao Algarve.

O jornal do Rio de Janeiro, “Jornal Português”, de 27 de Setembro de 1927, publicou o traçado do caminho-de-ferro de Castelo Branco a Placência, com o título “DE LISBOA A MADRID em oito horas”. Em Setembro de 2022, uma jornalista fez esse percurso e demorou cerca de 12 horas. Passaram-se 95 anos. O que pensar?

Em 1988, o governo de então, de Cavaco Silva, publicou o “Plano de Modernização dos Caminhos de Ferro 1988-1994". O projecto da linha do Norte, passados estes anos todos, continua por realizar-se. A partir dessa altura, encerraram-se vias, principalmente em Trás-os-Montes, no Alentejo e noutras regiões do interior. Viseu perdeu o comboio em 1988. A linha do Tua quando foi desmantelada roubaram as travessas de madeira que entretanto apareceram em casas e quintas. Nos processos e julgamentos que andaram nos jornais, de sucateiros a oferecer robalos, apareceram referências ao desaparecimento dessas travessas. Mas não foi devidamente investigado. Foi mais um plano que custou milhões que foi  para o lixo.

 A Sorefame, fundada em 1943, que teve um papel fundamental na indústria metalomecânica pesada, que fabricava todo o material circulante, designadamente comboios e que exportava, começou a ser desmantelada nos anos noventa e extinta em 2001. Fez parte do processo de destruição de toda a indústria pesada que ocorreu nessa época; Siderurgia Nacional, Cometna, Mague e outras.   

Há três dias, esteve no Porto, António Costa, Primeiro-ministro e Pedro Nuno Santos, Ministro das Infraestruturas e da Habitação, para apresentarem o projecto da linha de alta velocidade para ligar Porto e Lisboa, em 1hora e 15 minutos. É um projecto que já foi apresentado pelo governo de José Sócrates. Mas a obra só deve começar em 2024. Diversas personalidades que vivem à custa do orçamento do Estado estiveram presentes no acontecimento, que pelos vistos começou logo pela manhã. Os comboios actuais que fazem a ligação Porto-Lisboa não estão a ser aproveitados devidamente. Mas gostam de dizer que vão gastar muitos milhões para impressionar o Zé. Ao longo de tantos anos e de tantas promessas, pode aceitar-se todo este folclore? 

O Museu do Entroncamento pode ser visitado com visita guiada por PAULA MOURA PINHEIRO no portal do próprio Museu ou no YOU TUBE.

Em Bragança existe também um Museu Ferroviário muito interessante. Está instalado na antiga estação. 

01/09/22

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A FELICIDADE CONJUGAL

António Mesquita




"Mesmo em traduções defeituosas, a sua lírica, novelas e contos são indispensáveis. Não é fácil imaginar o reportório dos nossos sentimentos e comum humanidade sem eles. Historicamente breve e limitada como é em termos de género, a literatura russa partilha esta impressionante universalidade com a antiga Grécia." (George Steiner)



Os dias calmos em que nada se passa, como sempre nalguns romances russos. A natureza empresta as cores e as estações à alma que se salva do aborrecimento. Oh! nunca a lua contemplada duma varanda se compara a qualquer outra literatura. As personagens vivem uma convalescença que é toda a felicidade. Os velhos povoam a casa com a sua presença benéfica e protectora. São criados e amas que andaram connosco ao colo. Nessas enormes casas de campo há sempre tímidos e com uma diferença de idades a vencer. É por causa disso que o homem não concebe a esperança e se esconde no papel do mestre e do amigo. Tolstoi casou com 34 anos. Pelo seu lado a jovem mulher, longe da sociedade que a tornasse vaidosa e frívola, sente-se indigna de inspirar amor. Aos primeiros sinais da sua intuição, como naqueles silêncios a que o magistério se remete, inútil ante o sentimento que extravasa do olhar, ou num passeio nocturno com Kátia, pela álea das tílias, quando só falta uma palavra para mudar o mundo, Macha ganha confiança e procura por si a perfeição. Torna-se boa para as pessoas. Visita os camponeses pobres. Deixa dinheiro na janela e foge. Por fim, Serguei vem anunciar-lhe a sua partida, mas só espera um protesto e uma revelação. Ele julga-se velho e sem direito a colher aquela flor de dezoito anos!

O que o grande Leon Nikolaevitch nos vai contar a seguir é como o casamento e o hábito vão mudar este amor primaveril. Os primeiros tempos são de adoração mútua, de risos infantis e companhia absorvente. Os amantes vivem em estado de graça. Serguei não consegue recusar nada. Um amuo inesperado surge porque ele não lhe contou logo o que se passara na polícia, por causa dum dos seus mujiques. Macha não quer ser tratada como uma criança. Quer viver a vida dele. E eis o logro. Embora no fundo contrariado, o marido leva-a aos bailes de St. Petersburgo onde faz sucesso. O seu interesse demasiado pela vida mundana desgosta Serguei que se convence que Macha não pode já mais ser feliz na aldeia. É ainda o antigo medo do fosso de idades. Resigna-se a perdê-la porque é muito jovem. O casamento foi um erro.

Um incidente que atrasou a partida para St. Petersburgo faz rebentar o diques das emoções. Dizem-se coisas irreparáveis. Macha descreve o que diz como se fosse inspirado por um espírito maligno. No fim da cena, sente que o odeia. Serguei recuperou toda a distância e toda a frieza dum estranho. Ouvira com uma perfeita indiferença. O seu rosto pareceu-lhe gasto de repente.

Passam anos, vêm os filhos neste ménage civilizado, mas sem alma. Macha que se desiludiu dos salões e do brilho da grande cidade, vive a sua própria vida. Evitam estar sós a princípio, mas acabam por perceber que a presença do outro não traz nada de novo. Numa temporada na casa de solteira, com a chuva molhando as árvores e o cabelo, Macha prende a mão do marido. É a explicação de todos esses anos. Mas regressar ao passado não é possível, mesmo se fosse bom. Aquela paixão egoísta teve o seu tempo. Beijam-se, mas o mundo espera. Os olhos de Serguei contemplam e são contemplados. A vida continua, em paz.

LIÇÕES DE MESTRE (6)

Mário Martins

https://www.fnac.pt/Sete-Breves-Licoes-de-Fisica-Carlo-Rovelli/



Agora que os iludidos pela parafernália tecnológica têm razão para se sentirem defraudados pela constância fundamental do comportamento humano em sociedade, empestado pelo etnocentrismo e pelos apetites imperiais, que o leva a praticar os actos mais horrendos que nenhum bem pode redimir, a Física, para lá do papel central que desempenha na evolução do conhecimento, torna-se um refúgio calmo, embora exigente.

A PROBABILIDADE, O TEMPO E O CALOR DOS BURACOS NEGROS

À margem das grandes teorias que descrevem os constituintes elementares do mundo, existe um outro grande castelo na física, um pouco diferente dos outros. A pergunta da qual inesperadamente nasceu é: “O que é o calor?”

Até meados do século XIX, os físicos tentavam compreender o calor pensando que se trataria de uma espécie de fluido, o “calórico”, ou dois fluidos, um quente e outro frio, mas a ideia veio a revelar-se errada. Até que Maxwell e Boltzmann perceberam que uma substância quente não é uma substância que contenha fluido calórico. Uma substância quente é uma substância em que os átomos se movem mais depressa. Os átomos e as moléculas, agrupamentos de átomos ligados, estão sempre a mover-se. Circulam, vibram, ressaltam, etc. O ar frio é ar em que os átomos, ou melhor, as moléculas, circulam mais devagar. O ar quente é ar em que as moléculas circulam mais depressa.

O calor, como sabemos, vai sempre das coisas quentes para as coisas frias. Mas porque é que o calor vai das coisas quentes para as coisas frias e não o contrário? O motivo foi descoberto pelo físico austríaco Ludwig Boltzmann e é surpreendentemente simples: é o acaso. A ideia de Boltzmann é subtil e põe em jogo a noção de probabilidade. O calor não vai das coisas quentes para as coisas frias obrigado por uma lei absoluta: vai apenas com grande probabilidade. O motivo é que estatisticamente é mais provável que um átomo da substância quente, que se move depressa, embata contra um átomo frio e lhe deixe um pouco da sua energia, do que o contrário. Não é impossível que um corpo quente aqueça ainda mais ao entrar em contacto com um corpo frio: é só extremamente improvável. Boltzmann não foi levado a sério por ninguém, como é frequente. Acabaria por se suicidar (assoberbado por uma grave neurastenia e por uma progressiva perda de visão de que padecia há anos) a 5 de Setembro de 1906 em Duíno, perto de Trieste (em cujo castelo, o poeta lírico, boémio-austríaco, Rainer Maria Rilke, começaria a escrever, poucos anos mais tarde, as célebres “Elegias de Duíno”), enforcando-se, sem assistir ao reconhecimento universal do acerto das suas ideias.

A probabilidade em jogo na ciência do calor está, em certo sentido, ligada à nossa ignorância. Eu posso não saber algo de forma completa, mas atribuir-lhe uma probabilidade maior ou menor. Pensem num balão cheio de ar. Posso medi-lo, medir-lhe a forma, o volume, a pressão, a temperatura… Só que as moléculas de ar circulam depressa no interior do balão e eu não conheço a posição exacta de cada uma delas. Isso impede-me de prever com exactidão como se comportará o balão. Mesmo não podendo prever tudo exactamente, posso contudo prever a probabilidade de que isto ou aquilo aconteça. Será muito improvável, por exemplo, que o balão voe para fora da janela, rode à volta do farol ali ao fundo e volte depois a pousar na minha mão no ponto de partida. A probabilidade de nos choques das moléculas o calor passar do corpo mais quente para o  mais frio pode ser calculada e revela-se extremamente maior do que a probabilidade de o calor voltar para trás. A parte da física que esclarece estas coisas é a física estatística, e um dos triunfos da física estatística, a partir de Boltzmann, foi o de compreender a origem probabilística do comportamento do calor e da temperatura, isto é, a termodinâmica.

No decurso do século XX, a termodinâmica, isto é, a ciência do calor, e a mecânica estatística, isto é, a ciência da probabilidade dos diversos movimentos, foram alargadas igualmente aos campos electromagnéticos e aos fenómenos quânticos. O alargamento ao campo gravitacional, todavia, revelou-se complicado. O campo gravitacional é o próprio espaço, ou melhor, o espaço-tempo, logo, quando o calor se difunde no campo gravitacional, têm de ser os próprios espaço e tempo a vibrar… só que ainda não sabemos descrever isso muito bem.

O que explica o facto de para nós o tempo “correr”, “passar”, “fluir”? A indicação de resposta chega-nos da estreita ligação entre o tempo e o calor, o facto de que só quando há um fluxo de calor o passado e o futuro são diferentes, e do facto de o calor estar associado às probabilidades em física, e estas, por sua vez, ao facto de as nossas interacções com o resto do mundo não distinguirem os pormenores finos da realidade. Perante uma hipotética visão aguçadíssima que tudo visse, não haveria tempo “que corre” e o universo seria um bloco de passado, de presente e de futuro. Mas nós, seres conscientes, habitamos o tempo porque vemos apenas uma imagem esbatida do mundo. É deste desfocamento do mundo que nasce a nossa percepção do correr do tempo.

Está claro? Não. Há muito mais por perceber. Um indício para enfrentar o problema vem de um cálculo efectuado pelo físico inglês Stephen Hawking. Recorrendo à mecânica quântica, Hawking conseguiu demonstrar que os buracos negros estão sempre “quentes”. Emitem calor como um aquecedor. Eis o primeiro indício concreto do que possa ser um “espaço quente”. Nunca ninguém observou esse calor porque ele é muito fraco nos buracos negros reais que vemos no céu, mas o cálculo de Hawking é convincente, foi repetido de muitas formas diferentes, e o calor dos buracos negros é geralmente considerado real. Ora, esse calor dos buracos negros é um efeito quântico sobre um objecto, o buraco negro, que é de natureza gravitacional. São os quanta individuais do espaço, os grãos elementares de espaço, as “moléculas” que ao vibrarem aquecem a superfície de um buraco negro e geram o calor dos buracos negros. O calor dos buracos negros é uma Pedra de Roseta, escrita a cavalo de três línguas – Quanta, Gravidade e Termodinâmica -, que aguarda a sua decifração, para nos dizer o que será de facto o correr do tempo.

Resumindo: o calor de uma substância é gerado pela circulação mais rápida das respectivas moléculas, e não por um hipotético “fluído calórico”. O calor vai, com grande probabilidade, das coisas quentes para as coisas frias, mas o contrário, apesar de extremamente improvável, não é impossível. Não sabemos ainda descrever a difusão do calor no campo gravitacional, isto é, no espaço-tempo. O “passar” do tempo que nós experimentamos não emerge da descrição física exacta do estado das coisas (onde, no dizer de Einstein, a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma persistente e teimosa ilusão), mas das ciências da estatística e da termodinâmica, que traduzem apenas uma imagem esbatida do mundo. O que não quer dizer, evidentemente, que não envelheçamos e morramos…

NB: Tal como nas lições anteriores, este é um resumo livre da 6ª. lição de Carlo Rovelli, querendo com isto dizer que para lá das muitas transcrições praticamente literais da obra,  mistura algumas “liberdades” de um curioso da ciência, esperando, com isso, não ter atraiçoado o sentido desta e das outras lições. Dada essa mistura, não foram colocadas entre aspas as transcrições da obra. 

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