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01/11/26

ROTHKO NA CURVA

António Mesquita

                                         Mark Rothko, UNTITLED (No. 73), 1952High Museum of Art, Atlanta. 
                                         Gift of The Mark Rothko Foundation, Inc. 1985.27, © 1998 Kate 
                                         Rothko Prizel & Christopher Rothko /Artist Rights Society (ARS), New York


"A um coleccionador (Duncan Phillips) que tinha disposto quatro quadros de Rothko numa «pequena capela para meditação», o pintor disse que "não era a cor, mas as medidas» que revestiam a maior importância para ele. A outra pessoa declara que «não estava interessado na cor»; e, como é sabido, não admitia que o qualificassem de «colorista".

No entanto, também disse, numa exposição, que a cor "era tudo o que ali estava mas que não [era] contra a linha. Se a utilizasse, ela não estaria à altura da claridade que [tinha] para dizer". 
                                       (José Gil)



José Gil publicou, em  2005. um livro sobre a arte moderna "Sem título, Escritos sobre Arte e Artistas", com um capítulo dedicado a Mark Rothko, o pintor nascido letão numa família judaica que emigrou para os Estados Unidos, onde se  naturalizou americano.

Sabe-se como a arte moderna foi decisivamente marcada pela obra de Marcel Duchamp, o "terrorista" do "ready made" que em 1917 fez escândalo com o seu urinol que baptizou de "A fonte", e isso explica muito da deriva experimentada a partir daí em todos os campos da pintura e da arte em geral. Duchamp foi um dos principais dadaístas,  mas foi muito além desse movimento anti-arte.

Consequentemente, o "branqueador do urinol" é chamado ao caso por ser um dos principais fautores da chamada crise da pintura. Mas a pintura abstracta que abriu todo um horizonte de costas para a realidade aparente é consequência do escândalo da "Fonte" ou dos progressos da fotografia? Provavelmente, desde que a pintura deixou de poder competir na reprodução do mundo  com uma câmara, um realista como Caravaggio, do século XVI,  pareceria supérfluo nos dias de hoje. Seria uma questão de estúdio e iluminação "barroca".

Rothko é rotulado de expressionista abstracto, mas chegou a um tal grau de minimalismo ou de pureza, conforme o nosso sentimento, que nem a linha, nem a geometria significavam para ele a verdade da sua arte. José Gil: "Sabe-se como ele queria que a percepção das suas grandes telas se fizesse a 45 cm, para que a visão periférica não saísse fora do campo de visão da pintura." 

Anne Cauquelin (*), referindo-se a essa corrente artística diz que a ideia é "apagar o conteúdo representativo, reduzir a forma visível à sua mais simples expressão, apagar o vestígio do autor" e que "tudo isso vem directamente da atitude duchampiana. Mas, com o minimalismo, a letra, a importância da linguagem também se apagam e se mantêm discretamente por trás do processo."

O investimento mental da pintura de Roth e a sua concentração na cor, logo superada, aparenta-o a certas religiões orientais, como o budismo. Sabemos pelos seus comentários e o que é confirmado por estudiosos da sua arte, entre eles o nosso filósofo, que no despojamento da sua pintura, o menos corresponde ao mais em intensidade e intenção.

Do minimalismo  chegamos por uma lógica imparável  ao ícone, onde o artista deixou de pretender representar a realidade transcendental directamente, para apelar à fé do orante, como uma chave, em si mesma terrena e despida de conteúdo. 

O que o observador, mesmo amante da pintura,  tem à frente é o grau zero da abstracção.  Gil, que acompanha o seu ensaio com todo um rendilhado de argumentos e supondo gestos e abstenção de movimento que todo um retiro de oração torna plausível, concede no final da sua análise que:  "Rothko considerava que um quadro tinha um acabamento definitivo, com o qual se separava do artista - acabamento que equivalia a um «milagre», pois, terminando, fechando-se sobre si, ele "revelava». Nesta experiência muito pessoal, não está concentrado todo o trágico de uma obra que, ambicionando o mais alto sentido, se arrisca a não ser compreendida senão pelo seu autor?"

É de resto, esse fechamento e esse silêncio do artista que condenam a sua obra à exaustão e à perda de sentido, para alguns explicando o seu suicídio.

Está tudo lá - e até Deus - nessa pintura, com duas cores ou uma só cor e um traço branco ou de uma cor complementar a meio ou noutro lugar.

Queremos acreditar que todo o espírito de Rothko se investiu nesses centímetros de tela, mas, quando o comentário crente se extinguir, e o mercado da arte retirar o seu investimento, teremos nada.

A crise da pintura fica claramente exposta com este caso exemplar. A Inteligência Artificial apenas  vem demonstrar que Duchamp foi um pioneiro do absurdo. Como, com efeito, fazer valer um acto criativo, em arte, pois é disso que estamos a tratar, quando a IA desvaloriza tudo o que podemos fazer?

É, afinal, o mesmo desafio que uma época moribunda coloca aos humanos antes duma nova crença. Temos a sorte de poder esperar.

(*) "Arte Contemporânea - Uma introdução"



C I N E M A


MEMÓRIAS DO CÁRCERE




O filme de Graciano surpreende pelo 'savoir faire' (como diz o "Público" trata-se dum realizadora prolífico), pela excelência dos actores ( a interpretação de todos eles é impecável, destacando-se a de Albano Jerónimo no papel de Camilo). 

A vida do escritor na Cadeia da Relação é dificilmente imaginável: tinha a porta da cela aberta e podia não só encontrar-se com a mulher que o levou a entregar-se à justiça (sem cenas íntimas, felizmente) e "entrevistar" quem queria para os seus livros. 

Ana Plácido gozava de quase igual franquia, dispondo dum piano para os seus momentos mais melancólicos.

Dom Pedro V, por um actor escolhido a dedo ( Rodrigo Tomás ) visita a prisão numa cena demorada e certeira, pelo que se sabe das ideias do monarca. 

O que estraga o filme é a vontade de nos ilustrar tantas personagens e enredos de Camilo, à margem da história principal. A crítica das minhas costas às quase três horas do filme não podia deixar de se fazer sentir.  Com alguma economia, tinha-se ali obra asseada e o título não pedia as excursões que estão claramente a mais.

Só os verdadeiramente grandes se podem permitir um enxerto teórico no meio da guerra napoleónica. Mas aqui não é teoria mas, parece,  vontade de esgotar o assunto.

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