António Mesquita
Mark Rothko, UNTITLED (No. 73), 1952High Museum of Art, Atlanta.
Gift of The Mark Rothko Foundation, Inc. 1985.27, © 1998 Kate
Rothko Prizel & Christopher Rothko /Artist Rights Society (ARS), New York
"A um coleccionador (Duncan Phillips) que tinha disposto quatro quadros de Rothko numa «pequena capela para meditação», o pintor disse que "não era a cor, mas as medidas» que revestiam a maior importância para ele. A outra pessoa declara que «não estava interessado na cor»; e, como é sabido, não admitia que o qualificassem de «colorista".
No entanto, também disse, numa exposição, que a cor "era tudo o que ali estava mas que não [era] contra a linha. Se a utilizasse, ela não estaria à altura da claridade que [tinha] para dizer".
(José Gil)
José Gil publicou, em 2005. um livro sobre a arte moderna "Sem título, Escritos sobre Arte e Artistas", com um capítulo dedicado a Mark Rothko, o pintor nascido letão numa família judaica que emigrou para os Estados Unidos, onde se naturalizou americano.
Sabe-se como a arte moderna foi decisivamente marcada pela obra de Marcel Duchamp, o "terrorista" do "ready made" que em 1917 fez escândalo com o seu urinol que baptizou de "A fonte", e isso explica muito da deriva experimentada a partir daí em todos os campos da pintura e da arte em geral. Duchamp foi um dos principais dadaístas, mas foi muito além desse movimento anti-arte.
Consequentemente, o "branqueador do urinol" é chamado ao caso por ser um dos principais fautores da chamada crise da pintura. Mas a pintura abstracta que abriu todo um horizonte de costas para a realidade aparente é consequência do escândalo da "Fonte" ou dos progressos da fotografia? Provavelmente, desde que a pintura deixou de poder competir na reprodução do mundo com uma câmara, um realista como Caravaggio, do século XVI, pareceria supérfluo nos dias de hoje. Seria uma questão de estúdio e iluminação "barroca".
Rothko é rotulado de expressionista abstracto, mas chegou a um tal grau de minimalismo ou de pureza, conforme o nosso sentimento, que nem a linha, nem a geometria significavam para ele a verdade da sua arte. José Gil: "Sabe-se como ele queria que a percepção das suas grandes telas se fizesse a 45 cm, para que a visão periférica não saísse fora do campo de visão da pintura."
Anne Cauquelin (*), referindo-se a essa corrente artística diz que a ideia é "apagar o conteúdo representativo, reduzir a forma visível à sua mais simples expressão, apagar o vestígio do autor" e que "tudo isso vem directamente da atitude duchampiana. Mas, com o minimalismo, a letra, a importância da linguagem também se apagam e se mantêm discretamente por trás do processo."
O investimento mental da pintura de Roth e a sua concentração na cor, logo superada, aparenta-o a certas religiões orientais, como o budismo. Sabemos pelos seus comentários e o que é confirmado por estudiosos da sua arte, entre eles o nosso filósofo, que no despojamento da sua pintura, o menos corresponde ao mais em intensidade e intenção.
Do minimalismo chegamos por uma lógica imparável ao ícone, onde o artista deixou de pretender representar a realidade transcendental directamente, para apelar à fé do orante, como uma chave, em si mesma terrena e despida de conteúdo.
O que o observador, mesmo amante da pintura, tem à frente é o grau zero da abstracção. Gil, que acompanha o seu ensaio com todo um rendilhado de argumentos e supondo gestos e abstenção de movimento que todo um retiro de oração torna plausível, concede no final da sua análise que: "Rothko considerava que um quadro tinha um acabamento definitivo, com o qual se separava do artista - acabamento que equivalia a um «milagre», pois, terminando, fechando-se sobre si, ele "revelava». Nesta experiência muito pessoal, não está concentrado todo o trágico de uma obra que, ambicionando o mais alto sentido, se arrisca a não ser compreendida senão pelo seu autor?"
É de resto, esse fechamento e esse silêncio do artista que condenam a sua obra à exaustão e à perda de sentido, para alguns explicando o seu suicídio.
Está tudo lá - e até Deus - nessa pintura, com duas cores ou uma só cor e um traço branco ou de uma cor complementar a meio ou noutro lugar.
Queremos acreditar que todo o espírito de Rothko se investiu nesses centímetros de tela, mas, quando o comentário crente se extinguir, e o mercado da arte retirar o seu investimento, teremos nada.
A crise da pintura fica claramente exposta com este caso exemplar. A Inteligência Artificial apenas vem demonstrar que Duchamp foi um pioneiro do absurdo. Como, com efeito, fazer valer um acto criativo, em arte, pois é disso que estamos a tratar, quando a IA desvaloriza tudo o que podemos fazer?
É, afinal, o mesmo desafio que uma época moribunda coloca aos humanos antes duma nova crença. Temos a sorte de poder esperar.
(*) "Arte Contemporânea - Uma introdução"
C I N E M A
MEMÓRIAS DO CÁRCERE
O filme de Graciano surpreende pelo 'savoir faire' (como diz o "Público" trata-se dum realizadora prolífico), pela excelência dos actores ( a interpretação de todos eles é impecável, destacando-se a de Albano Jerónimo no papel de Camilo).
A vida do escritor na Cadeia da Relação é dificilmente imaginável: tinha a porta da cela aberta e podia não só encontrar-se com a mulher que o levou a entregar-se à justiça (sem cenas íntimas, felizmente) e "entrevistar" quem queria para os seus livros.
Ana Plácido gozava de quase igual franquia, dispondo dum piano para os seus momentos mais melancólicos.
Dom Pedro V, por um actor escolhido a dedo ( Rodrigo Tomás ) visita a prisão numa cena demorada e certeira, pelo que se sabe das ideias do monarca.
O que estraga o filme é a vontade de nos ilustrar tantas personagens e enredos de Camilo, à margem da história principal. A crítica das minhas costas às quase três horas do filme não podia deixar de se fazer sentir. Com alguma economia, tinha-se ali obra asseada e o título não pedia as excursões que estão claramente a mais.
Só os verdadeiramente grandes se podem permitir um enxerto teórico no meio da guerra napoleónica. Mas aqui não é teoria mas, parece, vontade de esgotar o assunto.
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