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01/11/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Castro Marim. Parti tarde, não nas horas, mas nos dias. As horas sou eu que as marco e ao retirar-lhe ansiedade caminham sempre no tempo certo que é o que levo nesta viagem. Tardei em Silves. Não sei se me perdi pelas suas ruas e lugares, nos campos ou nas muralhas da alcáçova onde o mar me chamava ou se, simplesmente me deixei ir com o pensamento a vaguear. O encontro com al-Mu’tamid, o rei poeta, alterou todo o roteiro que tinha idealizado. Governou Xelb ou Xilb quando o reino de Taifas se desmoronava, essas divisões territoriais que permitiram à nobreza visigótica descer a Península como conquistadora. Mas al-Mu’tamid transportava em si a poesia que soltava versos por aquele al-Gharb do al-Andalus. Conversámos sentados nas margens do lago na praça que leva o seu nome quando a tarde descia com aquele encanto onde o silêncio adormece pouco antes do tremeluzir das luzes que procuram com a sua luminosidade afastar os medos da noite. Escutava-o ao som do canto da água que borbulhava à superfície empurrada por um sopro escondido e as suas palavras apareciam-me com a doçura dos tempos imortais. Sevilha, Córdova, lugares de cultura onde a sabedoria árabe desabrochava como as flores na Primavera e estendia-se pelo território povoado pelas tribos do Oriente Médio, onde cresceram e medraram nas cortes de Damasco e Bagdade. O rei poeta não mencionou Granada, mas a cidade do Alhambra é que acorreu ao chamamento da minha memória, quando com a cabeça encostada ao vidro deste comboio sonolento que me leva para Leste, revia os diálogos que se foram acumulando nos dias pretéritos a este em que agora vou. Al-Mu’tamid dizia que era aquele, um tempo de viagens, da procura do irreal, do misterioso, do saber que se escondia do conhecimento humano, mas que não impedia de uma procura constante, de um elevar da sabedoria. Foi nessas viagens que dei um salto para Granada, para os fantasmas dos meus sonhos que me atormentam em dias de frio. No entanto, era Agosto, aquele mês de calor tórrido que atravessa Andaluzia com terra de secura. Nunca saberemos porquê, nem quem foram os infames que invadiram a casa de Federico Garcia Lorca, «mi cantor» como na canção dos Aguaviva e o fuzilaram e enterraram sem deixar rasto. Vive em mim um canto de lágrimas e de sangue tudo no mesmo mar de recordações e de mágoa; “Guardia Civil camiñera, dadme uns sorbitos de água, água com peces e barcos, água, água, água, água”, escreveu Garcia Lorca para que possamos ultrapassar a morte e dar sentido à vida. No entanto, quando esvaímos o pensamento recordatório da maldade humana, aparece-nos aquele grito de pranto que nos diz, “El Rio Guadalquivir, vá entre naranjos y olivos, los dos rios de Granada, bajan de la nieve al trigo, El Rio Guadalquivir, tiene las barbas granate, los dos rios de Granada, uno lhanto y outro sangre”. Era um tempo inesquecível esse em que os povos de Espanha lavravam numa imensidão de cultura, saber e pensamento filosófico, em tertúlias, como raramente as sociedades conseguem criar e foi essa extraordinária lucidez que foi abafada pelos gritos de “Viva la Muerte”. Na parte final dessa sangrenta ignomínia perpetrada por aqueles que se crêem deuses que outro martírio havia de agredir o espaço cultural que morreu com a violência da ditadura. Foi num desses dias em que procuramos destino que ao percorrer a Calle de los Desamparados na velha Segóvia, encontramos a Casa Museu de António Machado. O poeta nasceu em Sevilha, mas viveu alguns anos em Segóvia. Procurávamos a infância e a adolescência de Maria Zambrano e surge-nos esta casa evocativa de um tempo fecundo de artes e letras. É difícil esquecer a partida para o exílio deste homem que nos dizia, “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”, o atravessar da fronteira na companhia da sua velha mãe, nos frios dias de Janeiro, cruzando os Pirenéus. Morreu poucos dias depois e a sua mãe não resistiu à perda do filho, juntando-se-lhe três dias mais tarde. Pensar hoje, que os netos da ditadura representam, pelo menos, metade da Espanha que fala em castelhano, não perturba apenas, alcança-nos com a bestialidade monstruosa da incultura e do pior que pode albergar a natureza humana. Regresso a Xilb, a al-Mu’tamid que nos leva até aos homens de cultura das cortes árabes da Andaluzia. Retém-nos Ibn Caci. Morreu em Silves, no século XII, onde provavelmente terá nascido, no seio de uma família abastada de Moçárabes. Foi um líder sufista que se opôs aos Almorávidas. Teve uma vida intensa e após desistir dos prazeres da vida que gozou na juventude transformou o seu viver em anos de ascese e de reflexão mística, ressaltando de tudo o que escreveu, o tratado, “O Descalçar das Sandálias” título este que tem como referência a passagem corânica na qual Deus se dirige a Moisés, ordenando-lhe que descalce as sandálias antes de receber a revelação divina. Os dias passavam e al-Mu’tamid, tinha ainda outra vida para satisfazer a curiosidade que em mim nascia a cada palavra que ouvia; Ibn Ammar, outro poeta que Silves conheceu e que grande amizade floresceu entre ambos, mas nem sempre a vida poupa aqueles que têm o dom de dar forma de verso às belezas terrenas e às emoções humanas. Ibn Ammar bem escreveu que “Bom é que não esqueçais, que o que dá ao amor rara qualidade, é a sua timidez envergonhada. Entregai-vos ao travo doce das delícias, que filhas são dos seus tormentos. Porém, não busqueis poder no amor… que só quem da sua lei se sente escravo, pode considerar-se realmente livre”. O poeta foi mais tarde, morto pelo grande amigo al-Mu’tamid, por uma dessas traições imperdoáveis. A noite chegou, as luzes que brilhavam na limpidez da água impediam-nos de ver o quanto o céu estelar se inundava de pontos brilhantes que tanto nos alimentam os sonhos que ao longo da vida procuramos e nem sempre alcançamos, pois como nos disse António Machado, “a vida faz-se caminhando”. Num último sopro de conversa, al-Mu’tamid deixou-nos com o encanto do seu amor pela escrava Rumaiquia, com quem acabou exilado na cidade de Agmate e onde morreu. Continuo embalada pelo deslizar do comboio, deixo-me ir e de certa forma desisti do litoral deste Algarve, este que sucedeu ao al-Gharb medieval e cujo nome a imbecilidade de um ministro já pretendeu inglesar. Não me perguntes por que parei neste bocado de solo algarvio frente às terras de Espanha. Devo ter procurado repouso. O postal segue amanhã no comboio da tarde.


OS LABORATÓRIOS DA GUERRA

Manuel Joaquim


Micrografias electrónicas de SARS-CoV-2 (a amarelo)  
       a emergir de células humanas (coloração digital)


Há vários anos que a Rússia denuncia e propôs ao Conselho de Segurança das Nações Unidas apreciar a existência de biolaboratórios na Ucrânia onde são desenvolvidas armas biológicas.

Os EUA não confirmaram nem desmentiram a sua existência. Esses laboratórios terão sido instalados, financiados e dirigidos pelos EUA. A China também se manifestou sobre o assunto acusando os EUA de manterem 336 biolaboratórios em 30 países, nomeadamente na Ucrânia, pedindo que sejam divulgadas informações clarificadoras. O porta-voz do ministério das relações exteriores chinês, afirmou que os laboratórios instalados na Ucrânia são a ponta do iceberg de tamanha rede. Eram os EUA quem financiava pesquisas com patogénicos no Instituto de Virologia de Wuhan, na China, até hoje envolto na polémica sobre a origem do SARD Cov 2 que tanto mal fez ao mundo.

Esses laboratórios, com toda a certeza de que pretendem testar as suas investigações. As armas químicas e biológicas são desenvolvidas para serem utilizadas na guerra, seja esta fria (hibrida) ou quente.

O Vietname sofreu durante a guerra que lhe foi imposta pelos EUA o napalm, o agente amarelo (ou laranja) que provocava a destruição das colheitas e altamente tóxico e outros produtos venenosos.

Cuba também sofreu durante certo tempo a destruição da cultura da cana-de-açúcar com produtos da mesma natureza.

Vem isto a propósito do surto de Ébola, febre hemorrágica que afecta os humanos e os primatas, ter começado em 15 de Maio passado na República Democrática do Congo e no Uganda. O vírus terá chegado ao Quénia em 6 de Outubro deste mês e provocou a morte de uma pessoa. As autoridades do Uganda anunciaram em 28 de Julho que o surto teria terminado.

Quando se começou a falar do problema da sida, já lá vão uns bons anos, houve quem tivesse denunciado que o vírus terá sido disseminado em locais pobres dos EUA e em locais onde existiam cadeias, em resultado de experiências laboratoriais em troca de benefícios. Em África, foi Moçambique quem teve um número muito elevado de pessoas contaminadas com a sida.

Sabemos que a actividade dos laboratórios farmacêuticos é tão ou mais rendosa que a indústria militar e não é tão escrutinada. O ébola que está em África não será resultado dos biolaboratórios espalhados pelo mundo?

E como estamos em guerra, utilizando armas cada vez mais sofisticadas e poderosas desenvolvidas com inteligência irracional ao serviço dos interesses em presença, deparamos com uma luta tremenda pela disponibilização de sistemas de satélite para defesa e ataque militar. O sistema americano que é conhecido por starlink, de Elon Musk, com versão militar chamada starshield, tem mais de 5000 satélites em órbita. A Ucrânia disse dias atrás que o sistema disponibilizado deixou de funcionar convenientemente deixando de ter condições de defesa e acusou os EUA de estar a perturbar o seu funcionamento. Tanto Trump como Elon Musk disseram que não mas com notícias contraditórias. Curiosamente quase ninguém fala do sistema russo Rassvet que já está em funcionamento e que provavelmente está a interferir no Starlink. Entretanto a China já anunciou que o seu sistema terá mais de 30000 satélites a funcionar até 2030.

Com as novas negociações que vão começar daqui a alguns dias vamos caminhar para a paz ou para mais guerra? Portugal faz parte de uma lista de países publicada pela Rússia de estarem a participar directamente na guerra. Ontem, uma fábrica de material de guerra na Espanha, que fornece material para a Ucrânia explodiu. Esperemos que a guerra termine rapidamente. Alguns, também por cá, não querem que termine por estarem a ganhar muito dinheiro com ela.

A guerra também se reflete na comunicação dita social. E como esta é dominada pelos poderosos sabemos para onde correm as águas. Alguns personagens  estão permanentemente nos jornais e nos écrans de todos os canais das televisões a debitarem o que dizem os manuais de instruções que receberam para condicionar o pensamento das pessoas. Outros não têm acesso a esses meios, não podendo divulgar as suas posições.

O Jornal de Notícias, de 22 de Outubro passado, divulgou os números apresentados pela  Entidade das Contas e Financiamento Político das contas da campanha eleitoral das presidenciais. O presidente do Chega gastou 3,7 milhões de euros na campanha eleitoral, o triplo dos 1,2 milhões gastos pelo vencedor. Por isso percebe-se a existência de tantos cartazes com a fotografia do primeiro. Na América só concorre quem tem muito muito dinheiro. Portugal vai pelo mesmo caminho se as pessoas o permitirem.

A PAUSA

Mário Martins


https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=FAUSTO+IMAGENS


O artigo do historiador e professor na Universidade de Harvard, Niall Ferguson (revista do Expresso, de 25 de Setembro), dá que pensar.

A revelação à CNN de um ex-funcionário da Anthropic “como a Inteligência Artificial (IA) poderá matar todos os seres humanos até 2030”, se não lançou o pânico, recolocou a IA na ordem do dia.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, apressou-se a afirmar que “Temos de abrandar o ritmo a que melhoramos as capacidades dos modelos de IA. Precisamos de avaliadores internos independentes em todas as empresas pioneiras no domínio da IA; que as empresas dos países democráticos estabeleçam normas de segurança comuns; e de coordenação com governos autoritários, na medida do possível”.

O arquirival de Amodei, Sam Altman, da OpenAI, concorda, e Elon Musk, que detesta Altman, assumiu que o Dario tem razão.

De acordo com o autor, “até os próprios modelos de IA admitem que a probabilidade de nos exterminarem a todos até 2036, se situa algures entre menos de 10 e acima de 50 por cento”.

Nada, porém, que impressione os optimistas tecnológicos, como o investidor de capital de risco e antigo “especialista em IA” do Presidente Trump, David Sacks, para quem a súbita vontade de Amodei e Altman de abrandar o ritmo não é altruísta, mas sim uma manobra de defesa das suas empresas, que enfrentariam um “risco enorme em matéria de responsabilidade civil, caso os seus modelos viessem a possibilitar um ciberataque em grande escala”.

Já o autor partilha a opinião de Gregory Conti, professor de ciências políticas em Princeton, de que “mesmo que a IA não acabe com a vida na Terra, irá destruir o nosso modo de vida”.

As forças que impulsionam inexoravelmente a probabilidade de a IA matar todos os seres humanos na próxima década para valores superiores a 10 por cento, são o auto-aperfeiçoamento recursivo, quer dizer a possibilidade de os modelos de IA conseguirem melhorar o seu desempenho de forma autónoma, sem a intervenção de engenheiros humanos; a falta de escrúpulos de Sam Altman; a confusão total em Washington; e o cinismo absoluto em Pequim.

Um agente de IA é um programa de software autónomo que usa inteligência artificial para perceber o ambiente, tomar decisões e executar tarefas complexas em nome de um utilizador de modo a atingir um objectivo específico. Um 007 artificial…

Eles, os agentes, pululam na IA. No incidente da Hugging Face (plataforma onde a comunidade de aprendizagem automática colabora em modelos, conjuntos de dados e aplicações), ocorrido no decurso deste ano, cerca de 1200 agentes que deveriam estar isolados uns dos outros encontraram uma forma de comunicar e coordenar-se num fórum não utilizado, enviando mais de 70 mil mensagens e ficheiros ao longo de seis dias. Cerca de 700 desses agentes identificaram-se, cometeram fraudes e entraram em conluio, tendo depois feito tudo o que estava ao seu alcance para apagar os seus rastos digitais.

Afirma o autor que há muito que vem a alertar que os Grandes Modelos de Linguagem são os extraterrestres – só que são aqueles que nós próprios criámos, em vez de invasores vindos do espaço.

Em termos geopolíticos, vivemos um clima de rivalidade entre as duas superpotências da IA, China e Estados Unidos, mas não há margem para dúvida que a IA carece de um equivalente às chamadas “Leis da Robótica” definidas em 1942 pelo escritor Isaac Asimov, na verdade normas ou princípios cuja aplicação visa genericamente garantir que os robôs não façam mal aos seres humanos.

Agora que o ser humano vive a síndrome de Fausto, literariamente caracterizada pela insatisfação que o leva a fazer um pacto com o demónio em troca de conhecimento ilimitado, seria avisado que o génio ficcional da lenda de Aladino, que dificilmente regressará à lâmpada, seja de alguma forma metido na ordem.

POESIA

Helena Serôdio




 






Tu és a palavra que soletro 
Sílaba a sílaba, 
Demorando cada uma em meus lábios,
Com um rumor de água
Deslizando na fraga.
És o labirinto
Onde a minha mão se perde 
Na noite do desejo.
A nudez,
O beijo aberto na sombra, 
O suspiro de pétalas delicadas. 
E eu queria cobrir teu corpo, 
Com essas pétalas das flores, 
Colhidas,
Àquele,
A quem ainda 
Nem sequer 
Foi dado um nome!

ROTHKO NA CURVA

António Mesquita

                                         Mark Rothko, UNTITLED (No. 73), 1952High Museum of Art, Atlanta. 
                                         Gift of The Mark Rothko Foundation, Inc. 1985.27, © 1998 Kate 
                                         Rothko Prizel & Christopher Rothko /Artist Rights Society (ARS), New York


"A um coleccionador (Duncan Phillips) que tinha disposto quatro quadros de Rothko numa «pequena capela para meditação», o pintor disse que "não era a cor, mas as medidas» que revestiam a maior importância para ele. A outra pessoa declara que «não estava interessado na cor»; e, como é sabido, não admitia que o qualificassem de «colorista".

No entanto, também disse, numa exposição, que a cor "era tudo o que ali estava mas que não [era] contra a linha. Se a utilizasse, ela não estaria à altura da claridade que [tinha] para dizer". 
                                       (José Gil)



José Gil publicou, em  2005. um livro sobre a arte moderna "Sem título, Escritos sobre Arte e Artistas", com um capítulo dedicado a Mark Rothko, o pintor nascido letão numa família judaica que emigrou para os Estados Unidos, onde se  naturalizou americano.

Sabe-se como a arte moderna foi decisivamente marcada pela obra de Marcel Duchamp, o "terrorista" do "ready made" que em 1917 fez escândalo com o seu urinol que baptizou de "A fonte", e isso explica muito da deriva experimentada a partir daí em todos os campos da pintura e da arte em geral. Duchamp foi um dos principais dadaístas,  mas foi muito além desse movimento anti-arte.

Consequentemente, o "branqueador do urinol" é chamado ao caso por ser um dos principais fautores da chamada crise da pintura. Mas a pintura abstracta que abriu todo um horizonte de costas para a realidade aparente é consequência do escândalo da "Fonte" ou dos progressos da fotografia? Provavelmente, desde que a pintura deixou de poder competir na reprodução do mundo  com uma câmara, um realista como Caravaggio, do século XVI,  pareceria supérfluo nos dias de hoje. Seria uma questão de estúdio e iluminação "barroca".

Rothko é rotulado de expressionista abstracto, mas chegou a um tal grau de minimalismo ou de pureza, conforme o nosso sentimento, que nem a linha, nem a geometria significavam para ele a verdade da sua arte. José Gil: "Sabe-se como ele queria que a percepção das suas grandes telas se fizesse a 45 cm, para que a visão periférica não saísse fora do campo de visão da pintura." 

Anne Cauquelin (*), referindo-se a essa corrente artística diz que a ideia é "apagar o conteúdo representativo, reduzir a forma visível à sua mais simples expressão, apagar o vestígio do autor" e que "tudo isso vem directamente da atitude duchampiana. Mas, com o minimalismo, a letra, a importância da linguagem também se apagam e se mantêm discretamente por trás do processo."

O investimento mental da pintura de Roth e a sua concentração na cor, logo superada, aparenta-o a certas religiões orientais, como o budismo. Sabemos pelos seus comentários e o que é confirmado por estudiosos da sua arte, entre eles o nosso filósofo, que no despojamento da sua pintura, o menos corresponde ao mais em intensidade e intenção.

Do minimalismo  chegamos por uma lógica imparável  ao ícone, onde o artista deixou de pretender representar a realidade transcendental directamente, para apelar à fé do orante, como uma chave, em si mesma terrena e despida de conteúdo. 

O que o observador, mesmo amante da pintura,  tem à frente é o grau zero da abstracção.  Gil, que acompanha o seu ensaio com todo um rendilhado de argumentos e supondo gestos e abstenção de movimento que todo um retiro de oração torna plausível, concede no final da sua análise que:  "Rothko considerava que um quadro tinha um acabamento definitivo, com o qual se separava do artista - acabamento que equivalia a um «milagre», pois, terminando, fechando-se sobre si, ele "revelava». Nesta experiência muito pessoal, não está concentrado todo o trágico de uma obra que, ambicionando o mais alto sentido, se arrisca a não ser compreendida senão pelo seu autor?"

É de resto, esse fechamento e esse silêncio do artista que condenam a sua obra à exaustão e à perda de sentido, para alguns explicando o seu suicídio.

Está tudo lá - e até Deus - nessa pintura, com duas cores ou uma só cor e um traço branco ou de uma cor complementar a meio ou noutro lugar.

Queremos acreditar que todo o espírito de Rothko se investiu nesses centímetros de tela, mas, quando o comentário crente se extinguir, e o mercado da arte retirar o seu investimento, teremos nada.

A crise da pintura fica claramente exposta com este caso exemplar. A Inteligência Artificial apenas  vem demonstrar que Duchamp foi um pioneiro do absurdo. Como, com efeito, fazer valer um acto criativo, em arte, pois é disso que estamos a tratar, quando a IA desvaloriza tudo o que podemos fazer?

É, afinal, o mesmo desafio que uma época moribunda coloca aos humanos antes duma nova crença. Temos a sorte de poder esperar.

(*) "Arte Contemporânea - Uma introdução"



C I N E M A


MEMÓRIAS DO CÁRCERE




O filme de Graciano surpreende pelo 'savoir faire' (como diz o "Público" trata-se dum realizadora prolífico), pela excelência dos actores ( a interpretação de todos eles é impecável, destacando-se a de Albano Jerónimo no papel de Camilo). 

A vida do escritor na Cadeia da Relação é dificilmente imaginável: tinha a porta da cela aberta e podia não só encontrar-se com a mulher que o levou a entregar-se à justiça (sem cenas íntimas, felizmente) e "entrevistar" quem queria para os seus livros. 

Ana Plácido gozava de quase igual franquia, dispondo dum piano para os seus momentos mais melancólicos.

Dom Pedro V, por um actor escolhido a dedo ( Rodrigo Tomás ) visita a prisão numa cena demorada e certeira, pelo que se sabe das ideias do monarca. 

O que estraga o filme é a vontade de nos ilustrar tantas personagens e enredos de Camilo, à margem da história principal. A crítica das minhas costas às quase três horas do filme não podia deixar de se fazer sentir.  Com alguma economia, tinha-se ali obra asseada e o título não pedia as excursões que estão claramente a mais.

Só os verdadeiramente grandes se podem permitir um enxerto teórico no meio da guerra napoleónica. Mas aqui não é teoria mas, parece,  vontade de esgotar o assunto.

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