Castro Marim. Parti tarde, não nas horas, mas nos dias. As horas sou eu que as marco e ao retirar-lhe ansiedade caminham sempre no tempo certo que é o que levo nesta viagem. Tardei em Silves. Não sei se me perdi pelas suas ruas e lugares, nos campos ou nas muralhas da alcáçova onde o mar me chamava ou se, simplesmente me deixei ir com o pensamento a vaguear. O encontro com al-Mu’tamid, o rei poeta, alterou todo o roteiro que tinha idealizado. Governou Xelb ou Xilb quando o reino de Taifas se desmoronava, essas divisões territoriais que permitiram à nobreza visigótica descer a Península como conquistadora. Mas al-Mu’tamid transportava em si a poesia que soltava versos por aquele al-Gharb do al-Andalus. Conversámos sentados nas margens do lago na praça que leva o seu nome quando a tarde descia com aquele encanto onde o silêncio adormece pouco antes do tremeluzir das luzes que procuram com a sua luminosidade afastar os medos da noite. Escutava-o ao som do canto da água que borbulhava à superfície empurrada por um sopro escondido e as suas palavras apareciam-me com a doçura dos tempos imortais. Sevilha, Córdova, lugares de cultura onde a sabedoria árabe desabrochava como as flores na Primavera e estendia-se pelo território povoado pelas tribos do Oriente Médio, onde cresceram e medraram nas cortes de Damasco e Bagdade. O rei poeta não mencionou Granada, mas a cidade do Alhambra é que acorreu ao chamamento da minha memória, quando com a cabeça encostada ao vidro deste comboio sonolento que me leva para Leste, revia os diálogos que se foram acumulando nos dias pretéritos a este em que agora vou. Al-Mu’tamid dizia que era aquele, um tempo de viagens, da procura do irreal, do misterioso, do saber que se escondia do conhecimento humano, mas que não impedia de uma procura constante, de um elevar da sabedoria. Foi nessas viagens que dei um salto para Granada, para os fantasmas dos meus sonhos que me atormentam em dias de frio. No entanto, era Agosto, aquele mês de calor tórrido que atravessa Andaluzia com terra de secura. Nunca saberemos porquê, nem quem foram os infames que invadiram a casa de Federico Garcia Lorca, «mi cantor» como na canção dos Aguaviva e o fuzilaram e enterraram sem deixar rasto. Vive em mim um canto de lágrimas e de sangue tudo no mesmo mar de recordações e de mágoa; “Guardia Civil camiñera, dadme uns sorbitos de água, água com peces e barcos, água, água, água, água”, escreveu Garcia Lorca para que possamos ultrapassar a morte e dar sentido à vida. No entanto, quando esvaímos o pensamento recordatório da maldade humana, aparece-nos aquele grito de pranto que nos diz, “El Rio Guadalquivir, vá entre naranjos y olivos, los dos rios de Granada, bajan de la nieve al trigo, El Rio Guadalquivir, tiene las barbas granate, los dos rios de Granada, uno lhanto y outro sangre”. Era um tempo inesquecível esse em que os povos de Espanha lavravam numa imensidão de cultura, saber e pensamento filosófico, em tertúlias, como raramente as sociedades conseguem criar e foi essa extraordinária lucidez que foi abafada pelos gritos de “Viva la Muerte”. Na parte final dessa sangrenta ignomínia perpetrada por aqueles que se crêem deuses que outro martírio havia de agredir o espaço cultural que morreu com a violência da ditadura. Foi num desses dias em que procuramos destino que ao percorrer a Calle de los Desamparados na velha Segóvia, encontramos a Casa Museu de António Machado. O poeta nasceu em Sevilha, mas viveu alguns anos em Segóvia. Procurávamos a infância e a adolescência de Maria Zambrano e surge-nos esta casa evocativa de um tempo fecundo de artes e letras. É difícil esquecer a partida para o exílio deste homem que nos dizia, “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”, o atravessar da fronteira na companhia da sua velha mãe, nos frios dias de Janeiro, cruzando os Pirenéus. Morreu poucos dias depois e a sua mãe não resistiu à perda do filho, juntando-se-lhe três dias mais tarde. Pensar hoje, que os netos da ditadura representam, pelo menos, metade da Espanha que fala em castelhano, não perturba apenas, alcança-nos com a bestialidade monstruosa da incultura e do pior que pode albergar a natureza humana. Regresso a Xilb, a al-Mu’tamid que nos leva até aos homens de cultura das cortes árabes da Andaluzia. Retém-nos Ibn Caci. Morreu em Silves, no século XII, onde provavelmente terá nascido, no seio de uma família abastada de Moçárabes. Foi um líder sufista que se opôs aos Almorávidas. Teve uma vida intensa e após desistir dos prazeres da vida que gozou na juventude transformou o seu viver em anos de ascese e de reflexão mística, ressaltando de tudo o que escreveu, o tratado, “O Descalçar das Sandálias” título este que tem como referência a passagem corânica na qual Deus se dirige a Moisés, ordenando-lhe que descalce as sandálias antes de receber a revelação divina. Os dias passavam e al-Mu’tamid, tinha ainda outra vida para satisfazer a curiosidade que em mim nascia a cada palavra que ouvia; Ibn Ammar, outro poeta que Silves conheceu e que grande amizade floresceu entre ambos, mas nem sempre a vida poupa aqueles que têm o dom de dar forma de verso às belezas terrenas e às emoções humanas. Ibn Ammar bem escreveu que “Bom é que não esqueçais, que o que dá ao amor rara qualidade, é a sua timidez envergonhada. Entregai-vos ao travo doce das delícias, que filhas são dos seus tormentos. Porém, não busqueis poder no amor… que só quem da sua lei se sente escravo, pode considerar-se realmente livre”. O poeta foi mais tarde, morto pelo grande amigo al-Mu’tamid, por uma dessas traições imperdoáveis. A noite chegou, as luzes que brilhavam na limpidez da água impediam-nos de ver o quanto o céu estelar se inundava de pontos brilhantes que tanto nos alimentam os sonhos que ao longo da vida procuramos e nem sempre alcançamos, pois como nos disse António Machado, “a vida faz-se caminhando”. Num último sopro de conversa, al-Mu’tamid deixou-nos com o encanto do seu amor pela escrava Rumaiquia, com quem acabou exilado na cidade de Agmate e onde morreu. Continuo embalada pelo deslizar do comboio, deixo-me ir e de certa forma desisti do litoral deste Algarve, este que sucedeu ao al-Gharb medieval e cujo nome a imbecilidade de um ministro já pretendeu inglesar. Não me perguntes por que parei neste bocado de solo algarvio frente às terras de Espanha. Devo ter procurado repouso. O postal segue amanhã no comboio da tarde.
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