António Mesquita
"Compete-nos submeter ao jugo benéfico da razão
todos os seres desconhecidos, habitantes de outros planetas, que se encontram,
talvez, ainda no estado selvagem da liberdade. Se eles não compreenderem que
nós lhes trazemos a felicidade matemática e exacta, o nosso dever é forçá-los a
serem felizes. Mas antes de todas as armas, empregaremos a do Verbo."
(Yevgueni Zamyatine. "Entre Nous")
Zamyatine tentou publicar esta novela em 1921, mas foi
impedido pelas autoridades soviéticas, no que terá sido, da parte destas, o primeiro acto de
censura literária. A obra foi divulgada no Ocidente e circulou clandestinamente
na URSS.
Lenine vivia ainda e a Revolução ia apenas no seu quarto
ano. Este contexto explicará, talvez, que a sátira de Zamyatine tivesse sido
inspirada por uma concepção filosófica da liberdade de criação que o novo poder
não tolerava e, por outro lado, a benevolência com que foi tratado, em 1931, por Staline que,
por intercessão de Gorki, autorizou o seu pedido de exílio.
A felicidade dos outros, mesmo pela força, é um traço distintivo
do bolchevismo original incarnado por uma elite culta que trouxe, enfim, uma
solução à paralisia e à mortificação desses heróis de Tchekov imbuídos de
idealismo, mas conscientes de terem chegado "ao fim do caminho".
Conheci, em tempos de maior generosidade, pessoas que ainda
pensavam assim.
O génio do escritor russo é tornar essa pretensão
ridícula ao querer exportar o
"iluminismo" da razão para fora do nosso planeta, como numa cruzada
espacial.
Porque é bem verdade que querer impor uma ideia de felicidade
"racional" não é muito diferente de querer "salvar os
infiéis" de si mesmos e do seu afastamento do "verdadeiro Deus".
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