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01/05/23

A SÍNDROME DE KASPAROV

António Mesquita


(imagem produzida com a ajuda instantânea da  IA)



«Um dia os homens deixarão os aviões, os transatlânticos, os comboios de alta velocidade, os automóveis para regressar aos caminhos do bosque.»

 (Tolentino de Mendonça em "O estado do bosque" )



"A história da inteligência artificial começa muito antes da tecnologia moderna. Há séculos, filósofos como Platão e Aristóteles teorizavam sobre a capacidade da mente humana de criar ideias e raciocinar. No entanto, a primeira tentativa conhecida de criar uma máquina inteligente surgiu no século XVII, quando o filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz propôs a ideia de uma "calculadora universal" que pudesse manipular símbolos para realizar cálculos matemáticos.

Durante a década de 1940, pesquisadores como Alan Turing e John von Neumann desenvolveram novos algoritmos e computadores que permitiram a criação de sistemas de inteligência artificial mais complexos. Na década de 1950, o termo "inteligência artificial" foi cunhado por John McCarthy, que promoveu o acesso mais amplo à criação de sistemas inteligentes por meio de uma linguagem de programação comum.

Com o passar das décadas, a inteligência artificial desenvolveu-se rapidamente, com avanços significativos em áreas como visão computacional, reconhecimento de voz, aprendizado de máquina e robótica. Alguns dos momentos mais notáveis na história recente da inteligência artificial incluem a criação do assistente virtual Siri da Apple, o software do AlphaGo da Google sobre o melhor jogador humano em Go e os avanços na tecnologia de carros autónomos da Tesla.

Hoje, a inteligência artificial está no centro de muitas tecnologias emergentes, incluindo o blockchain, a internet das coisas e a realidade virtual. Espera-se que a tecnologia continue a desenvolver-se rapidamente nos próximos anos, criando novas oportunidades e desafios em áreas como ética, privacidade e segurança."

Este prólogo foi escrito pelo ChatGPT, com pequeníssimas correcções dos brasileirismos.

A partir daqui pretendo desenvolver a ideia de que a IA, muito mais do que as tecnologias anteriores, não vai mudar (ou ameaçar) simplesmente o emprego e forçar a humanidade a dar um "passo de gigante" para o desconhecido. 

Não se pode avaliar o papel do espírito - noção mais que  controversa hoje em dia - nas civilizações que apareceram à superfície da terra, tanto a inteligência e o conhecimento se confundem com ele. Diz-se o espírito da época para descrever uma cultura e uma mentalidade, o que fica longe da ideia. E é no par corpo e espírito da tradição cristã que revive o platonismo que formulou talvez a ideia mais pura.

O nome da  coisa não deixa dúvidas sobre que se trata de inteligência, potenciada pelo acúmulo de dados e memória e pela  espécie de diálogo com o ser humano que a partir daí se engendrou.

Se o espírito se nutre duma compreensão e absorção dessa memória tornando-a matéria de criação e de vida nunca terá de recear que uma máquina, por mais sofisticada que seja,  ponha em causa a sua transcendência e superioridade.

Por outro lado, a produção da IA e a do artista ou pensador  tornaram-se cada vez mais indiferenciáveis - devemos esperar que  os prémios comecem a chover sobre a fotografia, o cinema, a música ou a literatura feita por "robots" - a ponto de desencorajar os artistas e os homens de pensamento. É hoje tão fácil produzir uma imagem original a partir da realidade ou dum artefacto humano que não são  apenas os empregos e as vocações que estão em risco. Ninguem capaz de produzir arte instantânea ou escrever, em segundos,  um texto novo que vá beber às influências que se queira, se sentirá motivado a competir com um "robot" em contínuo aperfeiçoamento.

Essa "desmoralização", essa esterilidade dos criadores humanos será um facto novo de consequências incalculáveis. Já vemos em países como a China tentativas de suprimir a dimensão política da vida dos cidadãos. Podemos imaginar o que o poder absoluto fará com uma indústria cultural inteiramente submetida e todas as formas de arte produzidas pela IA a formatar as mentes humanas. A conclusão desse processo só poderá ser distópica, com a substituição do autocrata humano pela inteligência artificial. No fundo, o que haverá de mais racional?

Há tempos assistimos a um movimento de elites a favor duma moratória no desenvolvimento da IA. Significa, em termos bíblicos, que Deus não lançaria a sua interdição sobre a árvore do conhecimento duma vez por todas. A proibição seria uma pausa, uma contenção no tempo, auto-imposta por Adão e Eva. 

A maçã não escaparia para sempre ao primeiro par. O Paraíso nunca seria perdido em troca de alguma paciência e moderação. Mas nem isso é possível. O galope desenfreado é o que nos espera.

Mas Garry Kasparov, o grande xadresista derrotado em 1997 pelo "Deep Blue",  não ficou desmoralizado. Continuou a jogar xadrês,  a ensinar e a reflectir sobre como a tecnologia mudou o mundo. Além disso, envolveu-se na política e tornou-se crítico de Putin.

E os artistas do Renascimento italiano também não deixaram de criar e de ser eles próprios só porque Leonardo atingiu a perfeição. Haja esperança. 

Finalmente, esta mensagem poderia ter sido subscrita pelo Chat GPT, porque é inteiramente racional.

O VAZIO IDEOLÓGICO

 Mário Martins

https://comunidadeculturaearte.com/a-hipermodernidade-de-gilles-lipovetsky/ 

 “A luta climática vem preencher o vazio das grandes ideologias”Gilles Lipovetsky

(Entrevista ao Jornal Público, 25Março2023)

  

As teses abordadas pelo filósofo francês na citada entrevista (não li qualquer livro dele), poderão esquematizar-se em alguns pontos:

  1. A crise climática é o grande desafio do século.
  2. As paixões individualistas são mais fortes do que o futuro planetário, pelo que não haverá conversão da população mundial à frugalidade.
  3. As crises financeiro-económicas não são favoráveis à solução. As pessoas          pensam e   agem mais segundo o slogan: “não estamos preocupados com o fim  do  mundo, estamos preocupados com o fim do mês."
  4. A eficácia da tecnociência sobreleva a eficácia da moral. Em breve teremos 9000  milhões de consumidores no planeta. Acreditar que, de uma hora para a outra, eles       vão todos ficar moderados e razoáveis… é um filme de Hollywood. A virtude é    incapaz   de mudar o mundo.
  5. Temos de parar de culpar os consumidores. Imagine-se que todos os europeus   se   tornam espartanos. Deixam de usar o carro, aquecem a casa a 17     graus     Celsius,       prescindem do avião, abdicam das roupas da Zara e da H&M.             Conseguimos reduzir as        emissões em, digamos, 20%? A não ser que               queiramos ter um Estado totalitário que  proíbe o cidadão de conduzir um   carro, comer carne e comprar novos produtos,  temos de ter soluções     inteligentes. E, aqui, a inteligência traduz-se em leis,    investigação, debate           democrático.
  6. A solução passa pela inovação e pela tecnociência, sob o olhar regulador do Estado e com a participação de diferentes actores sociais. Não haverá solução sem engenheiros e cientistas. Não podem deter a solução sozinhos; eles fazem-nos propostas e nós    concordamos, ou não. Mas, sem eles, não haverá solução à escala planetária. Sem   eles,  será o caos.
  7. A luta ecológica vem preencher o vazio das grandes ideologias de outrora. Antes, os  militantes lutavam pelo comunismo, pela revolução, pelo socialismo, pelo fascismo ou  pelo nacionalismo. Hoje, as grandes causas colectivas perderam peso. As formas de  luta debruçam-se agora sobre coisas novas como a protecção do planeta.

A passagem à actual (e provisória?) fase pós-covid para a qual se vaticinava que “nada seria como dantes”, veio demonstrar a validade destas teses quanto ao comportamento das pessoas, as quais, pelo contrário, ansiavam pelo regresso ao estilo de vida pré-covid.

Não há como não reconhecer que a ciência e a tecnologia modelam ou, no mínimo, influenciam grandemente os nossos comportamentos e o nosso modo de vida. A globalização, a massificação do turismo, não teriam sido possíveis sem os avanços espectaculares das comunicações, da informática, da internet, do uso intensivo do avião.

Os telemóveis (que, inicialmente, serviam para telefonar, e agora até servem para telefonar…), esses, põem-nos o mundo no bolso, ao preço de uma atenção absorvente. E a chamada inteligência artificial é o novo “brinquedo” criado pela inteligência humana, que não sabemos realmente aonde nos levará, mas em cujo desenvolvimento se estão a fazer investimentos colossais. Esperemos, como alertava, o famoso escritor de ficção científica, inventor e divulgador de ciência, Arthur C. Clark, que possamos sempre “desligar a ficha”.

Em suma, a tecnologia que, nos últimos anos, tem constituído um autêntico desafio às gerações mais velhas, habituadas a um ritmo de vida mais pausado, estável e nada virtual, transformou a organização e a vida em toda a estrutura económico-financeira, no ensino e na saúde, modificou a nossa vivência caseira, alterou o nível e as condições do emprego, ao mesmo tempo que as relações humanas se tornaram cada vez mais impessoais, em que o outro é apenas um naco de escrita, uma imagem ou uma voz, e não já uma pessoa real à nossa frente.

É certo que a tecnologia não é boa nem má em si. São os homens que fazem o melhor ou o pior uso dela. Parecia que os avanços tecnológicos dos últimos anos permitiriam a melhoria das condições de vida das pessoas, e no entanto… Mas se o seu desenvolvimento é imparável, dado o nosso impulso natural de descoberta, é prudente reconhecer que algumas tecnologias possuem maior potencial de serem mal utilizadas. O caso da energia nuclear é disso um exemplo pungente.

Poderia, entretanto, objectar-se ao proclamado vazio ideológico que o liberalismo, de um lado, e o autoritarismo, do outro, não deixam de ser ideológicos, e que os protestos de rua não serão imunes a influências ideológicas, mas em qualquer caso, longe das grandes ideologias salvíficas.

Quanto à crise climática, que o filósofo considera ser o desafio do século, das duas uma: ou os seus efeitos se agravam de forma assustadora para cada um de nós, levando-nos a aceitar, na ausência de soluções tecnológicas, mudanças dramáticas no nosso modo de vida, ou a tecnociência produz inovações espectaculares que permitem dispensar grandes mudanças na nossa “vidinha”. 

Tudo está, pois, em aberto, no seio de uma Natureza essencialmente imprevisível.



01/04/23

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva








Todos os países possuem estradas emblemáticas. Umas pelas paisagens que atravessam, outras pela delicadeza do seu traçado, outras pelo património que albergam nas suas margens. Na pequena grandeza do nosso território, também essas estradas não faltam, pese embora, algumas quase desconhecidas. Sobretudo a Norte, caracterizam-se pelas longas distâncias na ligação de pontos extremos. Duas delas, unem o litoral marítimo à fronteira interior. Ambas acompanham rios, mas se a N16 que vai de extremo a extremo, perde o Vouga a meio do caminho, a N222 segue o Douro de princípio ao fim, sem descanso e sem temor atravessando dez concelhos. É uma estrada plena de passado, de presente e, sem dúvida, com imenso futuro. Foi à procura do passado e do presente que iniciei o percurso pela sua longa rota. A N222 inicia o seu traçado a cerca de quinhentos metros do princípio da velhinha N1. Esta segue para Sul, aquela ruma a Leste. Se queremos conhecer o que esconde esta estrada extraordinária temos de olhar, antes de mais para o lugar onde começa. Vila Nova de Gaia há muito que já não é Gaia nem Vila Nova, mas um espaço que se uniu e cresceu tão desmesuradamente que nos tapa o olhar com o grande e o pequeno numa amálgama arquitectónica que só os insaciáveis apetites imobiliários conseguem encontrar beleza no que fazem nascer em vidro e cimento. Mas alguns aspectos merecem relevo. O espaço mais aprazível da cidade para visitar é o Jardim do Morro. Não pelo jardim em si, mas tão só por ser da sua varanda sobre o Douro que se pode contemplar a mais bonita imagem do Porto, as suas vetustas casas penduradas no morro, o do outro lado, com as suas cores delicadas e cativantes. Antes de uma viagem tão longa apetece descansar o olhar sobre tão formoso casario. Por ali ficamos, dilatado tempo, sem que qualquer cansaço nos apressasse. Sobretudo porque à memória chegou outra viagem interrompida que esta veio permitir. Há longos dias acompanhávamos o percurso do rio Arax ao longo da fronteira do Naquichevão no Sul do longínquo Cáucaso através de estreitos vales, ladeados por cumes agrestes de montanhas elevadas, e pouco habitados. É um território pacífico e a quietude que sentimos transporta-nos para um tempo de aprazível sossego. Mas como em tantos lugares, as fronteiras mesmo quando invisíveis, tudo dificultam e separam os povos. Enquanto durou o mais bonito sonho da humanidade, essas linhas imaginárias que se constroem, não dividiam nem as utopias nem os humanos que as podem construir. Bastou que esse mundo ruísse para o passado regressar com a sua sombra de violência e os enclaves de arménios e azeris explodiram com o fulgor de vulcões. Se já não bastasse a mão do «Ocidente colectivo» perdido no lodo que chama os «nossos valores», a criminalidade do estado judeu decidiu aproximar-se da fronteira dos persas. Foi neste cenário entre a farsa e a tragédia que o silêncio de uma manhã auspiciosa foi interrompido pelo estrondo dos aviões de combate iranis a romperem a velocidade do som. Era tempo de regressar e aqui estamos olhando a velhinha cidade que cresceu em direcção ao topo. Poderíamos visitar a igreja do antigo mosteiro da Serra do Pilar onde o General Torres defendeu com valentia o Porto dos bombardeamentos miguelistas. Mas está encerrado por estes dias. Abaixo deste Jardim do Morro espraia-se a Vila Nova que D. Afonso fez erguer para que o Bispo dividisse as rendas com o Estado que nascia e à esquerda ligeiramente afastado é de visita obrigatória percorrer as vielas e becos da antiga Cale ou Gale, subindo até ao castelo que já não existe. Dali se via o Porto no interior das suas muralhas. Dali também as baterias miguelistas bombardearam o Palácio das Carrancas procurando alcançar o rei libertário. No dia seguinte, a partir das Virtudes as tropas sitiadas arrasaram o que restava do castelo. Até hoje. Ainda há tempo para uma visita à Casa-Museu Teixeira Lopes para de seguida entrarmos, por fim, na N222. Mas como Vila Nova de Gaia não é apenas a cidade, logo após atravessarmos os Arcos do Sardão procurarmos o Parque Biológico acabadinho de comemorar o seu quadragésimo aniversário. Visita demorada que o espaço que nos acolhe é sedutor. Estamos em Avintes ao sexto quilómetro dos muitos que há para percorrer, mas seria impensável não visitarmos Adriano Correia de Oliveira ali naquele lugar onde repousa e acaba de celebrar os seus oitentas anos. Em silêncio deixamos o pensamento viajar e lembramos a sua voz que se erguia com vigor nas palavras, “erguem-se muros em volta do corpo quando nos damos / amor semeia a revolta que neste instante calamos." São palavras cantadas que incentivam a memória a vadiar e sem razão aparente, recuamos trinta e sete anos e descobrimos uma sala pouco iluminada numa noite de Verão na cidade da Figueira e num silêncio profundo ouve-se um palestiniano contar a tragédia do seu povo, o martírio de setenta anos de ocupação com a complacência, a colaboração e o dinheiro do «Ocidente colectivo». Envoltos numa tristeza revoltada, despedimo-nos de Adriano quando a tarde já vai avançada. Rodeamos a Quinta de Santo Inácio e não visitamos o Zoo, pois temos arrepios perante criaturas presas. Por ruas estreitas, descemos até ao rio. É o Douro nos seus últimos lamentos antes de alcançar o oceano. Numa mistura de almoço e de lanche ficamos em descanso na Tasquinha do Cais da Azenha. É já tarde quando saciados, subimos ao encontro da N222. O sol parece esmorecer quando deixamos a variante e procuramos o primitivo traçado. Chega-nos ainda a voz do cantor visitado, em despedida, “Moça tão formosa não vi na fronteira, como uma ceifeira que cantava, Rosa / Foi em Barca d’Alva quando o sol nascia, uma ceifeira cantava, cantando vertia trovas na fronteira quando o sol nascia”. Aí vamos, à procura do sol nascente em Barca d’Alva, o nosso destino. 

EVOCAÇÃO

Manuel Joaquim


https://images.app.goo.gl/kXyonHN8UEqHmNoM7





No próximo Sábado, dia 1 de Abril, o Núcleo do Porto da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses vai realizar uma excursão a Aveiro, para comemorar os 50 anos do 3º Congresso da Oposição Democrática que se realizou naquela cidade entre os dias 4 e 8 de Abril de 1973, no Cine-Teatro Avenida.

Apesar das forças repressivas da época foi um grande acontecimento que mobilizou largas dezenas de milhares de pessoas de todos os cantos de Portugal. Sindicalistas, intelectuais, trabalhadores e pessoas das mais diversas opiniões participaram directamente naquele grande acontecimento político. Os jornais deram notícias da forma como puderam, condicionados à censura da época. O Comércio do Porto publicou a notícia na primeira página, com fotografia.

Um grupo de jovens do Porto, trabalhadores de seguros, organizados em actividades sindicais, decidiram participar no Congresso. Deslocaram-se num mini, muito apertados, mas chegaram ao destino. O trabalho que tinha sido elaborado foi apresentado numa das secções do Congresso.

Entretanto, a polícia de choque tomou conta da cidade. Quando foi decidido fazer uma romagem ao túmulo do Dr. Mário Sacramento, a polícia de choque, com toda a brutalidade, tentou impedi-la. As pessoas fugiram para os mais diversos locais. Manuel António Pina, jornalista, advogado e escritor, que estava entre as pessoas, prezado Amigo, juntou-se na fuga.

O regresso ao Porto não foi fácil. As saídas da cidade estavam controladas pela polícia. Ruas secundárias foram as utilizadas com grande esforço da suspensão do mini.

Passados alguns meses deu-se o 25 de Abril de 1974.

Foi um dia de trabalho, condicionado pelas notícias que apareciam constantemente. As emoções aconteciam mas o levantamento das Caldas da Rainha, de Março, preocupavam por ainda ser desconhecido o rumo dos acontecimentos.

A saída do trabalho no final da tarde deu-se à hora habitual. Eu e António Moutinho da Rocha, como sempre, saímos juntos e fomos ver o que se estava a passar na Avenida dos Aliados. Grande movimento de pessoas, manifestações junto aos bancos, alguns atropelos com a polícia.

Antes do 25 de Abril, eu e António Moutinho da Rocha não usávamos gravata. Decidimos, a partir daquele dia passar a usar gravata. Alguns dias depois, os colegas deixaram de usar gravata.

Agora, vamos festejar o 50º Aniversário da Revolução de Abril.

Passados 50 anos, parece que foi ontem.

SE BEM ME LEMBRO

Mário Martins


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Durante alguns anos, nos idos de 70, o autor desse grande livro “Mau Tempo no Canal” e eminente professor que foi Vitorino Nemésio, irrompia, é o termo, pelo ecrã negro fora, sem cumprimentar os telespectadores (fazendo, com isso, lembrar o pianista que acompanhava o cineasta apoiante da ditadura, António Lopes Ribeiro, na apresentação do cinema mudo, o qual só dizia boa noite a pedido deste, que, invariavelmente, se virava para ele e dizia: ó Melo, diz boa noite), Nemésio, dizia eu, iniciava os seus programas, “Se bem me lembro”, indo directamente ao assunto, quantas vezes um não-assunto, mas cuja comunicabilidade nata e a sua cultura sempre nos prendiam à cadeira.

Ora acontece, como dizia o jornalista Carlos Pinto Coelho, já falecido, que estou sem assunto e não me apetece procurá-lo, estando naquela fase, verdadeira em termos axiomáticos, mas seguramente insalubre, e por isso convenientemente passageira, em que tudo me parece “espuma dos dias”, por mais sérios, benévolos ou trágicos que sejam os acontecimentos que, em cada época, ocupam o dia a dia dos humanos. Isto porque, debaixo da espuma, corre a onda da Natureza, essa Mãe, a nossos olhos, tão misteriosa e absurda quanto inacessível e caprichosa, a qual, curiosamente, os não crentes tendem a “endeusar”.

“O Gosto pela Música” foi outro grande programa televisivo, igualmente dos anos setenta, da autoria do musicólogo e matemático João de Freitas Branco, como Nemésio, um comunicador nato e senhor de grande cultura, especialmente no domínio musical, personalidade que o crítico musical Jorge Calado considera ter sido “sem dúvida, o grande educador musical dos portugueses".

Até que, nesses riquíssimos anos 70, emergiu do ecrã uma autêntica lufada de ar fresco com o programa “Histórias da Música”, vinda de Viena d’Áustria, onde o autor, mais novo e irreverente, António Victorino de Almeida, pianista e compositor, outro grande comunicador e homem culto, estudou e viveu cerca de 30 anos.

Enfim, para quem não tinha assunto…

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