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01/04/21

PODE-SE MUDAR DEUS?

 António Mesquita



https://www.camarasjc.sp.gov.br/noticias/5587/projeto
+proibe+malabaristas+e+acrobatas+de+rua+nos+cruzamentos



Penso na caridade (cristã ou outra), a propósito dum livro da nobelada polaca Olga Tokarszuk, "Outrora e Outros Tempos", em que um candidato à clausura monacal é surpreendido pelo dilema que o frade lhe apresenta: mudar o mundo ou mudar Deus? No fim deste texto, transcrevo o diálogo entre os dois.

"Quem dá aos pobres, empresta a Deus". Porque Deus devolve com vantagem. Nesta troca, no simbólico, derrama-se todo o valor. Todas as riquezas são niveladas pelo Espírito. E quem dá recebe logo, pela necessidade que reduz em si mesmo.  O homem que calcula, esse perde sempre, naquela acepção. 

Um operário, que numa empresa de serviços se mantinha ligado ao trabalho das mãos, disse-me uma vez que era dos que dava esmola, apesar de saber que era mal feito, porque as pessoas assim não lutavam pelos seus interesses, nem por sair da miséria.

Isto pressupõe que a luta é uma daquelas decisões caídas do céu e que o meu operário pensa hipócritamente. A sua esmola tem o resultado imediato de aliviar a sua própria má-consciência, mas apenas para engendrar uma nova contradição. O pobre que vive da caridade é duas vezes escravo. Infelizmente, o caminho que este raciocínio deixa aos deserdados é o de morrerem à fome ou o de recorrerem à violência. O dr. Jivago dizia que o corpo do doente não é um cadáver que possa ser dissecado.

Associação alguma de indigentes é credível no plano político, porque precisaria de tudo. E o que se verifica é que não basta ter interesse na mudança para mudar, ou sequer ter existência política.

Esses pobres que foram reduzidos à exposição das suas chagas não são, contudo, os que mais comovem.  Muitos pensarão que é mais humano viver com os aleijados do corpo e da alma, em espectáculo – como símbolos contra a vaidade dos homens -, do que isolá-los. E por que  há-de ser uma solução mais justa condenar um homem à solidão do que a caridade aldeã?

Não são os que não podem ser livres que nos atingem mais fundo. É a força encadeada. Como se tivéssemos à nossa frente o resumo da sua rápida decadência futura. Impressiona-nos porque é um verdadeiro sacrifício ao Moloch. É a esses que os “bons cidadãos” querem afastar da  sala de visitas da sua cidade. Por isso, os malabaristas de rua que aproveitam a paragem obrigatória dos semáforos para exibirem as suas habilidades atingem um ponto fraco. A sua juventude, a sua dignidade, são preservadas, mesmo se à custa duma inutilidade imposta. O mito da força de vontade e da igualdade de iniciativas nunca tem um desmentido tão cruel e peremptório.  

A luta que é possível aos deserdados não é civilizada. A afirmação do direito à vida, a energia e a força varonil só têm uma saída: o crime. A uma sociedade que assim os condena à morte eles têm o direito de resistir por todos os meios. E não é esse o motivo da secreta admiração dos que vivem segundo as leis por esses outros que fazem a sua própria lei? Mas a verdadeira nobreza não se habitua. E torna a luta contra a sociedade madrasta num suicídio exemplar. O criminoso força-os ao espectáculo da sua morte e a olhar as suas mãos sangrentas

É conhecida a paixão dos americanos pelos heróis românticos da série negra do cinema. É ainda o mito do "self-made man".

No fundo, a caridade sofre uma metamorfose útil na boa consciência tanto dos conformistas como dos inconformados.

E aqui está a citação prometida do diálogo entre um postulante e um frade dos "Reformadores de Deus", em "Outrora e Outros Tempos". 

Izydor quer entrar na ordem para mudar o mundo para melhor e "consertar o mal que nele existe...", mas o frade interrompe-o: 

-Consertar o mundo...dizes. É muito interessante, mas irreal. O mundo não se deixa nem melhorar nem piorar. Tem de continuar como é.

-Mas vós chamais-vos justamente reformadores.

-Ah, meu rapaz, compreendeste mal. Não fazemos tenção de reformar o mundo em nome de ninguém. Nós reformamos Deus.

O silêncio instalou-se por um instante.

-Como se pode reformar Deus? - perguntou por fim Izydor, surpreendido.

-Pode-se. As pessoas mudam. Mudam-se os tempos. Os automóveis, os "Sputnik"... Às vezes, Deus pode parecer - como dizê-lo - anacrónico ou pode parecer grande demais e, poderoso demais e, por isso mesmo, um pouco distante demais para se ajustar à imaginação das pessoas.

-Pensava que Deus era imutável.

-Todos nos enganamos em matérias fundamentais. É uma característica puramente humana. São Milo, fundador da nossa ordem, provou que se Deus fosse imutável, se permanecesse imutável, o mundo deixaria de existir.

- Não acredito nisso - disse Izydor com convicção.
O frade ergueu-se e Izydor também se levantou.

-Vem ter connosco sempre que sentires necessidade."



A POLÍTICA DA COVID

 Mário Martins

 

Yuval Noah Harari

(Veja.abril.com.br)

 

“A Humanidade não pode evitar o aparecimento de patógenos novos. Este é um processo evolucionário natural (…) Mas a Humanidade tem hoje o conhecimento e as ferramentas necessárias para impedir que um novo patógeno se espalhe e se torne uma pandemia. Se, apesar disso, a covid-19 continuar a espalhar-se em 2021 e a matar milhões ou uma pandemia ainda mais mortífera atingir a Humanidade em 2021, isso não será nem uma calamidade natural incontrolável nem um castigo de Deus. Será um fracasso humano e – mais precisamente – um fracasso político.”

Yuval Noah Harari

                                                            “Lições de um ano de Covid”  

Financial Times/Revista Expresso 12Mar2021

 

 

A leitura deste aliciante ensaio do reputado autor israelita, remete-nos para a velha metáfora da garrafa meio vazia meio cheia: “Muitas pessoas acreditam que o preço terrível do coronavírus demonstra a impotência da Humanidade face ao poder da Natureza (garrafa meio vazia). Na verdade, 2020 mostrou que a Humanidade está longe de ser impotente. As epidemias já não são forças incontroláveis da Natureza. A ciência transformou-as num desafio gerível (garrafa meio cheia). Então, porque é que houve tanta morte e sofrimento? Por causa de más decisões políticas”.

Harari aponta especialmente o dedo, com toda a razão, aos “Presidentes populistas dos Estados Unidos e do Brasil, que menosprezaram o perigo, recusaram ouvir os especialistas e em vez disso promoveram teorias da conspiração. Não produziram um plano federal de acção adequado e sabotaram tentativas de autoridades estaduais e municipais para deter a pandemia.” E acusa: “A negligência e irresponsabilidade dos governos de Trump e Bolsonaro resultaram em centenas de milhares de mortes evitáveis.”

A tese de Harari é que o problema deixou de ser científico para ser político, transmitindo, implicitamente, a ideia de que a complexidade apenas reside no campo da investigação científica e não também na esfera da decisão política.  Bastaria a esta seguir a mesma linha de racionalidade de que aquela não pode abdicar. Como diz Harari “nestes tempos de pandemia, a cooperação global não é altruísmo. É essencial para garantir o interesse nacional (…) É que, se um novo vírus saltar de um morcego para um ser humano numa aldeia pobre de alguma selva remota, em poucos dias esse vírus pode estar a passear em Wall Street.”

No entanto, a expectativa de que, após o sucesso científico, tudo seria politicamente fácil, falhou. A política está longe de apenas se guiar por critérios de racionalidade. O mundo das coisas globalizou-se mas a mentalidade (sempre atrasada…) ainda é predominantemente local. Políticos como Trump e Bolsonaro continuam a ter grande adesão popular, apesar da sua evidente irresponsabilidade. É, aliás, oportuno sublinhar que os sucessivos avanços científico-tecnológicos alimentam constantemente a complexidade própria da política. Veja-se, como exemplo, este curto excerto de um interessante ensaio de Francisco Louçã sobre as redes sociais, publicado no mesmo número da revista do Expresso:   “Um quinto dos tuítes políticos que circularam no período decisivo da campanha que elegeu Trump, em 2016, foi criado por robôs de origem desconhecida, e as notícias falsas “trumpistas” foram partilhadas 30 milhões de vezes.”

Afinal de contas, a denúncia e as acusações políticas de Harari põem, paradoxalmente, em causa a sua conclusão (apenas baseada nos avanços científicos alcançados num prazo espectacularmente curto) de que “a Humanidade está longe de ser impotente”.

Harari termina o seu artigo afirmando que, se as coisas voltarem a correr mal no futuro, “será um fracasso humano e – mais precisamente – um fracasso político.” Mas uma vez reconhecido que a complexidade está tão (ou mais) presente na política como na ciência, torna-se mais realista admitir a grande probabilidade de as coisas voltarem a ser mal geridas no futuro, evento que, sem dúvida, não deixará, todavia, de constituir um fracasso humano.

 


01/03/21

164


 

ALEXANDRE

Mário Martins 

https://www.wook.pt/livro/o-jovem-persa-mary-renault/11236896


“Se alguém tem o direito de ser avaliado em função dos padrões do seu tempo, esse alguém é Alexandre.” 

                                                                                                                         Herman Bengdson                                                                                                                “Os Gregos e os Persas” 

“Quanto aos seus erros (aqueles cujo seu tempo não registava como virtudes) foram considerados, defrontando-nos com o facto de nenhum outro ser humano ter sido alvo de uma devoção tão intensa durante a sua vida, por parte de tantos homens.”

    Mary Renault    

“O Jovem Persa”


O mínimo que se pode dizer desta trilogia sobre Alexandre, o Grande, Rei da Macedónia há cerca de 2350 anos, mais conhecido entre nós por Alexandre Magno, da autoria da inglesa Mary Renault (pseudónimo literário de Eileen Mary Challans), publicada entre 1969 e 1981,  é que se trata de uma obra de grande fôlego.

Logo no princípio a autora avisa que “Todos os registos da vida de Alexandre escritos pelos seus contemporâneos desapareceram. Dependemos de histórias compiladas três ou quatro séculos mais tarde a partir desses documentos perdidos, que por vezes dão as suas referências, outras vezes não.”

Esta dificuldade historiográfica, que tanto complica a vida dos historiadores e coloca decididamente a obra no género romance biográfico, apenas incomodava uma escritora com a grandeza de Marguerite Yourcenar quando associavam o adjectivo apócrifas às suas famosas “Memórias de Adriano”, já que, sustentava, “apócrifo deve chamar-se apenas àquilo que é falso e quer passar por verdadeiro”, e rematava: “este adjectivo impróprio (antes falassem de “Memórias imaginárias”) prova a que ponto o crítico e o público estão pouco habituados à reconstituição apaixonada, minuciosa e livre de um momento ou de um homem do passado.” (in “O Tempo, Esse Grande Escultor” - 1972). Nada de mais se, afinal de contas, no dizer de Mário Cláudio, “toda a biografia é um romance”.

O jovem persa não é ele mas Bagoas, o eunuco favorito do derrotado Rei da Pérsia, Dario III, depois oferecido ao vencedor Alexandre, que mantém relações íntimas com o rei macedónio “numa sociedade que aceitava a bissexualidade como norma”. A autora refere, a propósito, a continência em todos os aspectos de Alexandre, destacando “a sua recusa em explorar vítimas indefesas como mulheres cativas ou jovens escravos, prática que nessa altura era universal.” Quem sabe, talvez essa relação tenha contribuído para Alexandre se tornar, para escândalo de muitos companheiros, o mais persa dos reis macedónicos, tal como Adriano seria, umas centúrias mais tarde, o mais grego dos imperadores romanos.

Investido rei aos 20 anos, devido ao assassínio de seu pai Filipe II, ficou para a História a aura de general brilhante e de fundador de um dos maiores impérios mundiais, que se estendia ao Egipto e à Índia. Alexandre combinava a sua sede de glória e de conhecimento de mundos, o seu carácter a um tempo irado e compassivo, com uma austeridade comportamental talvez só perturbada na última fase da sua curta vida (morreu aos 32 anos, de uma febre dos pântanos ou, segundo alguns, de envenenamento) pelo esplendor dos hábitos persas. Terá sido o lado compassivo de Alexandre e a sua inclinação persa que levou “Sisigambis, a Rainha-Mãe da Pérsia, ao ser informada da sua morte, a despedir-se da família, fechar-se sem comer e morrer cinco dias mais tarde.”

Mau grado a educação recebida por Alexandre de um preceptor tão famoso como Aristóteles, a autora chama a atenção para que “deveremos ter presente que apenas um século depois, alguns filósofos lançaram a questão sobre a moralidade da guerra. No seu tempo a questão não era se mas sim como se fazia.” Isto explicará o estado de guerra praticamente permanente da sociedade macedónica e tornará, eventualmente, menos chocante o costume, horrível para os padrões de hoje, de os jovens nobres, aqui personificados por Alexandre aos doze anos, reclamarem o estatuto de guerreiros exibindo a cabeça do primeiro homem que matassem em combate.

Na obra, para lá do cortejo de intrigas e assassinatos, da constante luta pelo poder, do recurso ao trabalho escravo, do uso dos haréns de mulheres e eunucos, do desdém pelos bárbaros estrangeiros, dos sacrifícios aos deuses, realidades que não constituem, como bem sabemos, um exclusivo da sociedade macedónica de então, ressalta o facto de, em última análise, o poder político residir - longe que estavam, naturalmente, do conceito de soberania popular - mais do que na respeitada tradição real, no exército que o rei aclamado nas suas assembleias teria que saber cuidar. Esse foi o segredo do sucesso do reinado de Alexandre, o de ser um combatente destemido que não se furtava às privações dos homens que comandava, que lhe granjeou o respeito e a obediência dos soldados, apenas uma vez negados quando, já na longínqua Índia, exaustos e saudosos das suas famílias depois de uma tão longa jornada, se negaram a ir mais além em busca do “Oceano Circundante”.

Por fim, como sucede a todos os impérios, a decadência, talvez precipitada pelo facto de Alexandre não ter preparado a sua sucessão. A frase que terá proferido no seu leito de morte “Prevejo grandes competições nos meus jogos funerários.”, anuncia o que, de facto, se seguiu.

NO CORRER DOS DIAS

 Marques da Silva



Tinda – A tarde estende-se silenciosa e serena, até onde o meu horizonte alcança. É uma tarde curta como são as de Inverno. Com excepção das ruas e avenidas principais, todo o restante espaço é neve que se acumula até que a Primavera a transforma em água, por vezes lamacenta. Olhando pela janela, não se vêem pessoas. Recolhem-se, saindo apenas para o que é necessário. Hoje o vento está ausente, amenizando os mais de 30 graus negativos. Tudo funciona, no entanto. A vida não pára pelos nevões, caso contrário, seriam largos meses de inactividade. Tudo isto é uma normalidade, excepto para os que como eu, provêm de outras latitudes. De manhã, visitei o Museu de História do BAM. Estas são as iniciais do traçado ferroviário paralelo à linha transiberiana. A sua construção foi épica. Numa primeira fase foi erguida recorrendo a prisioneiros de guerra, de delito comum e de delitos sociais como então se chamavam. Vinte anos depois, na segunda metade do seu traçado, os grandes obreiros foram as juventudes comunistas, na década de setenta. É uma linha ferroviária de extensão quase infinita e uma obra de engenharia espectacular. Na cidade existe um quadro de honra dedicado a todos os que se destacaram nesses trabalhos duríssimos em condições climatéricas extremas. Quando viajamos sem tempo, adquirimos outra perspectiva na contemplação do que nos é apresentado. Após o almoço não saí, face ao aviso de que a temperatura se iria aproximar dos 40 graus negativos, com queda de neve e vento polar. Estou sentado, observo o horizonte pela janela e escuto a música que sempre me acompanha, retida na memória e que chega até mim, quando o silêncio se sobrepõe aos ruídos da vida. Há momentos em que precisamos de nos ausentar, procurando no longe o que parece impossível ao perto. Vivemos tempos cinzentos, como essas tardes de nuvens pardas que anunciam chuva como uma desgraça. Até que ponto ainda podemos acreditar na humanidade, é a pergunta sem resposta que trouxe comigo. Repito-a em todos os lugares onde me retenho e a solução não chega. No momento de escolher um destino, supus o mais remoto. Quando falamos de antípodas, sugerem-nos a Austrália ou Nova Zelândia. Se dizemos, Extremo Oriente respondem com o Japão ou, mais recentemente, a China. Nestes momentos, sempre me socorro de Régio, «não, não vou por aí! Só vou por onde me levam os meus próprios passos…». Ocorreu-me pensar no Extremo Oriente siberiano, da desconhecida Rússia*. Num primeiro instante, talvez seduzido pela atracção das ilhas e pensando em Tchekhov, pensei na Ilha de Sacalina. Hesitei, mas atraíram-me os vulcões, o isolamento e a distância e assim estou a caminho da longínqua península do Kamchatka. É uma viagem morosa, pois vim tomando os comboios locais, quase de cidade a cidade. Permitiu-me observar nos temps de espera. Olhar, como nos ensinou Sophia. «Viajar é observar». Assim fiz. Até aos Urais as cidades lembraram-me os tempos idos da revolução, Vladimir, Nijni Novgorod, Kazan, Ufa, Perm, Ekaterinburg, as páginas de Gorki, Tolstói, Dostoievski. É uma viagem plena de melancolia, como o poema de Viktor Goussev, Полюшко-поле («Planície, minha querida planície, planície ampla, minha querida planície!»). A linha estende-se, inúmeras vezes, por rectas muito extensas e a passagem de comboios é constante numa nova rota da seda entre a China e a Europa. Rodeiam-nos sempre árvores e mais árvores, agora totalmente brancas como toda a paisagem à nossa volta. São raras as aldeias e distantes entre si. Há locais onde os apeadeiros, não têm nome, apenas o km ferroviário. Deduzo que algures, afastado da linha, haverá gente, aldeias. Quando olhamos e vemos que a neve cobre tudo, pensamos sobre como é possível viver aqui. Após os Urais penetramos na profundidade da Sibéria e desfilam ao nosso olhar grandes cidades como Omsk, Novosibirsk e Krasnoiarsk. As cidades siberianas cresceram no século vinte, pelo que são cidades relativamente novas. Em qualquer uma delas ainda são visíveis as consequências do desaparecimento do regime soviético. Prédios sem manutenção, casas de madeira envelhecidas, com visíveis sinais de pobreza, ruas esburacadas, como se tivesse desaparecido qualquer sentimento comunitário. Na pequena cidade de Taishet, aguardei várias horas por um comboio que se dirigisse para a linha Baikal Amur Magistral, a BAM. A informação que me forneceram dizia que poderia viajar numa das inúmeras composições de mercadorias, mas que teria de esperar. À saída da estação há uma praça aberta. No centro existe um memorial aos caídos na Grande Guerra Pátria. Não me atrevi a sair, face a temperatura tão glacial. Fiquei pela sala da estação e deixei-me cair nessa sonolência que nos conduz o pensamento para outros tempos e outras épocas. Visitamos o passado. Há momentos em que nos faz bem, estar só e deixar a memória vaguear sem destino. Foi o que fiz, como se conversasse com alguém, sem tempo e sem objecto. Falar de tudo, saltando de tema, consoante o diálogo evoluía. Creio que nos aconteceu isso, duas ou três vezes, conversarmos como se a vida se resumisse ao nosso diálogo. O comboio que me levaria chegou ao nascer do dia. Estas composições são muito longas, chegando a maioria delas a estender-se por cerca de um quilómetro. Viajar na frente abre-nos outra perspectiva do que vemos. Estamos no Inverno, pelo que não me é possível ver os imensos verdes que cobrem todas estas florestas. Percebo rapidamente que tendo mil e oitocentos quilómetros pela frente, vão ocorrer mudanças pelo caminho. Atravessamos o Angorá em Bratsk, a grande cidade deste trajecto e de seguida falam-me da beleza do Rio Kuta, no fim da Primavera e Verão, mas só posso adivinhar-lhe as margens pelo caudal gelado. Ao aproximar-nos da parte norte do Baikal, surgiram as montanhas. Será nas margens do grande lago, na cidade de Severobaikalski, que o comboio detém a marcha para mudar de maquinista. Nesta parte do dia, envolto em alguma tristeza pela impossibilidade de ver as cores cristalinas e azuis do Baikal, chegou até mim essa nostalgia da distância, do que não temos, do que não podemos ver. A locomotiva é agora a diesel, quer dizer, são duas locomotivas pesadas, pois grande parte deste trajecto não se encontra electrificado. Terminaram as extensas planícies e há partes do trajecto em que a marcha é lenta pela inclinação do terreno. Dão-me pormenores do Rio Niukja e convidam-me a visitar a região no Verão. Entramos em Tinda pelo Norte, mas atravessamos o rio do mesmo nome e passamos para Sul, onde fica a estação. A cidade estende-se na margem oposta. A noite chegou enquanto escrevo estas linhas. Continuo sem escutar um som, um ruído, o que me permite ouvir o vento e ver a neve a tombar sobre o chão branco. Cai em grandes farrapos. No meu cérebro ouço Beethoven dedilhar no piano o seu “Silêncio”. Quantas vezes não escutamos em silêncio esta música!

PS – Esta carta, foi escrita há muitos dias. Pensava seguir de comboio até Yakutsk, e de seguida por estrada até Magadan, mas a linha ainda não se encontra totalmente construída e assustou-me a ideia de viajar mais de mil quilómetros numa estrada coberta de neve com temperaturas a rondar os 30 graus negativos. Prossegui à pressa pela linha BAM até à costa do Pacífico, à cidade de Vanino, onde a coloquei no correio.


* A revista Fugas de 27 de Fevereiro, numa Volta ao Mundo em 80 Livros, recomenda 73 autores, menciona 33 países e 9 regiões ou continentes (cito de memória), sem um único escritor russo, ou seja do maior país da Europa. Apenas refere um livro de Fréderic Chaubin sobre a arquitectura soviética. 

A revista Bula em 15 Livros fundamentais da literatura russa, selecciona 8 escritores do século XIX e 6 dissidentes soviéticos. https://www.revistabula.com/14508-15-fundamentais-da-literatura-russa/

A Fnac em 6 escritores russos que devias mesmo conhecer, recomenda 5 do século XIX e 1 naturalizado estado-unidense. https://www.fnac.pt/6-escritores-russos-que-devias-mesmo-conhecer/cp2100/w-4

Na Wikipédia encontramos menção a 19 escritores do século XIX, 2 do século XX já falecidos e apenas dois da actualidade, Boris Akunin e Vladimir Sorokin. Na poesia, dos 6 poetas mencionados o único vivo é Valeri Brainin-Passek com dupla nacionalidade, alemã e soviética. Dos dramaturgos apenas conhece um, do século XIX e dos ensaístas, traz-nos 1 do século XVIII, 2 do século XIX e 1 do século XX, já falecida e radicada nos EUA. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_autores_da_R%C3%BAssia

Necessitamos de ir ao Brasil, através da revista Rússia Beyond, para encontrar referência a escritores russos vivos. https://br.rbth.com/cultura/79274-112-genios-da-literatura-russa




AS PIRÂMIDES

António Mesquita







As pirâmides são uma espécie de cálculo espiritual. Pense-se nisto: a família de Cheops desviou para o Estado faraónico todas as energias públicas. O Egipto desse tempo, sendo uma sociedade eminentemente religiosa, assistiu ao total encerramento dos templos e à proibição dos sacrifícios através de decreto. É preciso ter presente o esoterismo do conhecimento religioso e a confusão dos poderes político e ideológico para compreender um fenómeno como esse, que bem pode representar a perfeita centralização social. 

É porque não se entende de todo em todo uma acção sem contrapartida e a existência nas relações inter-subjectivas de algo como um princípio de conservação da energia, que chegamos à perfeita intuição do simbólico. Alguma vez as estruturas do sistema de produção económico poderiam dar conta dum desperdício abissal como é o dos túmulos de Gisé? Esse prodígio de engenharia que ainda hoje causa admiração não é contudo apreciado pelo que é: a imponente e absurda dimensão – se esquecermos a configuração do deserto – ou as dificuldades inumeráveis que foi preciso vencer, como se podem explicar à luz duma racionalidade económica ou duma análise moderna do poder?

O chefe, por outro lado, não procurou um serviço pessoal ou um reforço do poder político. Pelo contrário, a ausência de revolta e de luta política indicam-nos que nenhum acrescento era necessário para ter o país na mão. Que fácil seria aos sacerdotes levantar o povo contra essa medida ímpia e anti-popular se houvesse a menor brecha na autoridade. Foi preciso, segundo Heródoto, a subida ao trono de Mikerinos, seu filho, para se dar a mudança e, digo eu, para concebê-la. Até aí, diz o mesmo historiador que os populares se recusaram tão-só a dar existência à memória do monarca, designando o lugar das pirâmides pelo nome dum simples pastor que aí viveu. Foi, portanto, a história sacerdotal e faraónica que nos trouxe, indemne, essa terrível inscrição na pedra. Tão pouca resistência para trinta anos de trabalhos forçados sob o jugo de Cheops? Uma simples troca de palavras, para responder a mais de um século sem culto parece irrisória forma de luta. Mas é assim que eu vejo o caso: a pirâmide prolongou a religião dos mortos e a religião "tout court". O nome do faraó foi esquecido em consequência. Todo o esforço colectivo fez do túmulo de Cheops um resíduo de alma popular, por causa da opressão e para além dela. A calamidade não inspira revolta mas humilhação e obediência. A ideia faraónica desabou da enorme altura a que se ergue o poder divino para inspirar na termiteira humana a arquitectura dum deus, contra a pessoa de Cheops, ocasionalmente.

Coisas mais custosas embora foram mais precárias. Napoleão, recente enxerto na vide gaulesa, foi sensível à eternidade de quarenta séculos. Alguns explicam ainda certamente essa catástrofe económica, social e religiosa pelo despotismo. Mikerinos, o filho generoso, morreu cedo e absolveu a tirania paterna. Ela, afinal, era o cumprimento dum oráculo. Eis que o despotismo se torna num caso da pulsão de morte. ou melhor dizendo, eis que a realidade deixou de ser histórica, e que a matéria se volveu no princípio contrário.

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