01/10/09
MEMÓRIAS DA MEMÓRIA
NÃO DEVEMOS DESESPERAR
"Il ne faut pas désespérer Billancourt"
(slogan político)
Billancourt é um subúrbio a oeste de Paris, onde se encontra a fábrica da Renault, palco de grandes lutas operárias, como, no princípio do século XX, as que se opuseram à introdução do método "taylorista".
Aquela frase tem uma origem literária (a peça de Jean-Paul Sartre: "Nekrassov"), embora com um sentido contrário ao que lhe foi dado mais tarde. Na peça, a personagem de um "renegado" pretende mesmo desesperar os que acreditam na Revolução, descrevendo a União Soviética com as cores mais negras. Ulteriormente, são as cores da realidade (os crimes do regime e os campos de concentração) que não se tem o direito de revelar para não desmoralizar a luta operária. Esta última versão é, erradamente, também atribuída a Sartre.
A ideia é a mesma do argumento, tantas vezes utilizado entre nós, de que o importante é "tratar dos nossos problemas", sem nos deixarmos enredar nas consequências que a doutrina possa ter tido noutro lugar. A dúvida, na medida em que suspende a acção, é o maior dos perigos. Mas merece o belo nome de acção, o que se faz de olhos fechados? Ou estaremos antes no reino da mecânica?
A dúvida é inerente ao pensamento vivo. Contra ela, apoiados nela é que mantemos o contacto com o tempo e a mudança, com a realidade, enfim. "Não devemos desesperar Billancourt" é, pois, um slogan que revela a face dogmática e defensiva duma doutrina que já vive só dentro das suas muralhas.
Querem alguns que a dúvida ganha o seu carácter da vontade com que a exercemos. Se não quisermos agir, a dúvida fornece-nos o perfeito álibi. Mas esta pode ser uma escolha legítima se à lucidez se atrelar a impotência.
Se queremos, porém, a acção, pode perguntar-se se dar lugar à dúvida não é querer e não querer ao mesmo tempo. Em nome da eficácia (a curto prazo), deveríamos então simplificar ao extremo o que está em jogo e lançarmo-nos no desconhecido. Parece-me que é isto o que acontece quase sempre.
Nesse sentido, impõe-se uma espécie de sequestro da realidade enquanto dura a acção, e os partidos políticos são a moderna instituição desse sequestro. Com o seu código exclusivo e o espírito colectivo do seu ambiente que se torna o único meio do pensamento, eles são uma espécie de máquinas para a acção.
E voltamos à questão de saber se esse funcionamento se pode confundir com o verdadeiro significado da palavra acção.
01/09/09
OS CÂNTICOS NEGROS
Gosto muito da tua pequena cidade. Tem história, ruas estreitas e aquelas pedras seculares que guardam a passagem dos Homens pelo tempo, e o rio, lento apesar da proximidade do mar, com os seus estaleiros marginais onde juntavam madeira trabalhada que projectavam na imensidade do oceano na procura da aventura, do novo, da descoberta, e ainda aquele soberbo mosteiro, altaneiro sobre a margem direita, dominador do espaço e dos povos envolventes. Apesar desse fascínio não parei, segui para norte na peugada dos teus passos e por aí me instalei. Também tu o fazias nas manhãs certas da tua permanência. Tinhas mesa reservada naquele Café tão emblemático. Protegido pela coluna, escrevias e deleitavas o olhar pelo horizonte oceânico na procura de inspiração que te ajudasse a construir as palavras que tinhas para nos legar. Esse espaço acabou depois de teres partido e nos teres deixado neste vazio. Agora já não nos trazem café, é antes um espaço de cultura, bem, diria mais, de leitura. Mas reservaram-te a mesa. Mantêm-na como se, todos os dias, chegasses e prosseguisses o teu labor. Têm lá o teu nome e a tua fotografia e deixaram a chávena do café para que não se atrevam a ocupar o teu lugar. Afinal, quem o poderia fazer? Bem, outro dia, fizeram-no. Um desses leitores de Verão. Sentou-se e queria deslocar a tua chávena de café, o tolo. Sento-me por ali, próximo, para poder conversar contigo, trocar ideias com os teus poemas. Deitei-lhe um olhar severo, mas não reagiu, manteve-se sentado com o seu jornal desportivo aberto. É certamente um desses muito democratas que andam por aí, e votam, democraticamente como é natural e legítimo, e assim tudo vai ficando como dever ser. No teu tempo não haviam democratas destes, nem dos outros, sim desses que te venho falar, mas fica entre nós, como todos estes diálogos que aqui temos no intervalo da minha leitura e da tua escrita. Sabes que vivo com o teu "Cântico Negro", já to disse. Ajuda-me a encontrar caminhos, sobretudo quando tropeço na estrada com seráficos democratas que me sorriem ao mesmo tempo que me dizem, "com olhos doces,/estendendo-me os braços, e seguros/de que seria bom se eu os ouvisse/quando me dizem: "vem por aqui"!" Pedi-te conselho uma vez, recordas? E olhamos o mundo, de ontem, de hoje e, sobretudo, o de amanhã, o que desejamos, e sabemos que chegará, pese embora, os caminhos escuros e as agruras das esquinas, pelo que não os contesto, olho-os "com olhos lassos", "cruzo os braços", e simplesmente "nunca vou por ali…". Não compreendem que arrastados para os seus medos, os seus fantasmas nocturnos, perdidos nas suas teorias estreitas deixaram de perceber os contornos das grandes avenidas do futuro, só vislumbram atalhos estreitos e rendem-se ao conforto de um banco acolchoado de jardim. Ao longe, acenam-me, dolentes, na preguiça de prosseguir uma caminhada com percurso de estafeta. Chamam-me, escondem a voz entre a concha das mãos e dizem-me "vem por aqui". Sorrio pela sua insistência e digo-lhes que o meu tempo é continuar. "Prefiro escorregar nos becos lamacentos, /redemoinhar aos ventos,/como farrapos, arrastar os pés sangrentos,/a ir por aí…". Suspenderam a viagem da vida, confortam-se uns aos outros nessa imobilidade temporal e crêem que a História parou com a sua própria vontade, cegos e surdos a um movimento que prossegue na procura do novo e do desconhecido. Insistem em cada dia no seu chamamento sedutor, repetindo para consolo próprio, "vem por aqui"! Só lhes posso responder com as tuas palavras, pois tal como tu, também a mim só "Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém" E digo-lhes "Ide! tendes estradas,/tendes jardins, tendes canteiros,/tendes pátrias, tendes tectos,/ e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios./Eu tenho a minha loucura!", os meus sonhos, se quiserdes as minhas utopias, minhas e da Humanidade que me projecta que me agarra nesse ancestral sonho de liberdade, de justiça, de dignidade e vós acenais-me a ficar parado na dolência da servidão que se aloja no pensamento dos homens derrotados nas suas ideias. Mas não, não é possível. Em vós corre "sangue velho dos avós,/e vós amais o que é fácil!" Por mim, "amo o Longe e a Miragem,/amo os abismos, as torrentes, os desertos…". Ah, meu poeta, meu escritor de Deus e dos Homens, lembro-me de ti quando me acenam e resisto, brinco com a proposta e lembro-me do outro poeta, transmontano, "a honra era lutar" e creio que pretendem de mim essa desonra de me acolher aos salões aquecidos dos ladrões. Ouço-os naquela calma de quem sabe que tem tempo de chegar e conhece o destino do seu voo e, repito-lhes as palavras de Galileo, Galilei ditas pelo poeta, outro:
"E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo
tal qual conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal"
É o que lhes vou contando para conforto das suas almas democraticamente perdidas, mas na verdade aos seus repetidos apelos escutam de mim apenas essas palavras que dizem "A minha vida é um vendaval que se soltou/É uma onda que se alevantou/É um átomo a mais que se animou…" e "sei que não vou por aí".
O CÓDIGO EX MACHINA
Até que ponto poderia, numa sociedade em que o trabalho faz parte dum determinado sistema de produção, uma lei como o "Código do Trabalho" ser feita pelos trabalhadores ou pelos amigos dos trabalhadores?
Poderia sê-lo, independentemente da lógica económica e tendo apenas em conta conceitos como os direitos e a dignidade do trabalhador? A tese materialista diz-nos que isso não pode ser, pois são as condições materiais que sustentam a "super-estrutura" jurídica e moral.
Então o que temos é a relação de forças e qualquer coisa como a luta de classes, mesmo se as classes já não são as de Marx. E se há um equilíbrio, as leis podem ser mais ou menos "justas" (isto é, necessárias). No caso contrário, é, de facto, a lei do mais forte. Com a agravante de quem deveria representar o papel de árbitro não saber que força aplicar e em que ponto (se for bem intencionado).
Por isso, quando se diz que o Código de Trabalho é contra os trabalhadores, isso reflecte, por um lado, o sentimento duma relação de forças desfavorável e, por outro, o desejo de ignorar que frequentemente, e em última análise, se deveria culpar a organização do trabalho e a lei económica. Mas tais exorcismos fazem parte, no entanto, da retórica própria da "luta de classes".
2. O grande amortecedor desta sociedade conflitual é, de facto, a ideologia consumista, em que as forças que se confrontam no mundo da produção se descaracterizam e mais ou menos se conciliam.
O consumo é para a nossa versão do capitalismo o que era a religião para os autores do Manifesto: o ópio do povo. Mas agora não é no céu que as injustiças e as desigualdades se reparam, mas no acesso geral às compensações do mercado de bens materiais. Já nada separa as classes (elas deixaram de ser, como na zoologia, de espécies diferentes), porque todos podem, em princípio, ter o gadget desejado, como na democracia americana qualquer americano pode aspirar a ser presidente. O símbolo desta osmose anti-política é o telemóvel. Nunca no passado, um objecto se tornou assim um passe-partout entre estatutos sociais. Independentemente das diferenças de gama que, naturalmente, reflectem o poder económico, a posse, tão generalizada, desta tecnologia é como a afirmação dum novo "processo histórico" e duma democracia virtual que antecipa a superação da democracia real.
Mas o que a sociedade de consumo faz, a economia política desfaz.
As teorias da suspeita e da irredutibilidade dos conflitos podem em certos momentos compensar os trabalhadores ao conferir-lhes maior poder negocial ou poder tout court. Outros momentos há em que podem romper os equilíbrios necessários e virar-se contra os próprios trabalhadores.
Como ninguém sabe quando é que é oportuno ser irredutível, o que se passa é que este é um mecanismo cego e tanto se pode esperar dele um bom como um mau resultado.
Neste caso, parece que a única justiça é, como diziam os Antigos, a da "medida justa".
Nesta aferição, os ideólogos tendem a querer ser justos para além da medida.
PERGUNTAS DA DIREITA
Habilmente, de mansinho, um partido clássico de direita vem atirando para o palco eleitoral do costume umas quantas pitadas de sal, na forma de perguntas de agrado popular garantido. Um dos cartazes pergunta se "é justo dar rendimento mínimo a quem não quer trabalhar". Ignoremos a aparência demagógica e populista e a resposta óbvia para nos determos na questão séria que a pergunta oculta. A questão é a de ponderar se é correcto e justo a sociedade, representada pelo estado, atribuir prestações sociais regulares, tais como "rendimento mínimo" ou "subsídio de desemprego", como se salários fossem, a pessoas na idade activa, sem contrapartida de serviços à comunidade. A questão assume especial pertinência relativamente aos jovens sem emprego. Será saudável atribuir-lhes rendimentos ou subsídios regulares a troco de preguiça e desresponsabilização social? Não será possível antes, embora complexo e trabalhoso, organizar a prestação de serviços à comunidade, criteriosamente remunerada? Reconheço que a organização não é fácil mas para que servem a política profissional e os políticos a tempo inteiro?
À pergunta da direita respondo com perguntas decerto importunas neste quente final de Agosto. E o que responde a esquerda?





