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01/07/23

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva





Todo o viajante sabe que a parte da viagem que mais cativa é o caminho e não o destino. Mas esta paragem que nos impusemos, não sendo o destino era imprescindível, impensável que aqui não nos detivéssemos e, só por si, submerge o que encontramos no caminho percorrido. Sentados na esplanada do hotel, retemos o olhar no horizonte e o que vemos suspende-nos as palavras e os pensamentos. Já um pouco antes da chegada, da sobranceria do miradouro de Teixarô, havíamos olhado o que a natureza oferece em termos irrepetíveis. Observamos com a respiração suspensa, a beleza que se desenhava na parte inferior e se alongava, a mistura de montanhas, lago, encostas, o verde e o azul do rio, a pequena aldeia esticando-se no dorso inclinado. Foi como se obtivéssemos alento para a descida, utilizando os estreitos caminhos da aldeia de Pias. Agora, sentados neste terraço, atiramos o olhar como se voasse e deixámo-lo ir numa espécie de navegação aérea, sobrevoando o cenário. É como se estivéssemos numa plateia contemplando um palco que, pese embora estar estático, move-se no sossego desta tarde lenta e serena. O rio transformado em lago por força da retenção, abriu os braços na juntança com o pequeno Bestança e aparece quieto como se tivesse esgotado a energia que o conduz à procura do mar. De um lado, a ponte com a elegância da filigrana e brancura da pintura que a protege. Edgar Cardoso não se limitou a reerguê-la como sobrevivência, quis desenhá-la com a perícia dos canteiros medievais. Aparece agora com aquele aspecto belo e pacato, tranquilo, deixando os barcos passarem, desde que se cuidem de não lhe tocarem na formosura que apresenta. À esquerda, a montanha desce como se mergulhando no rio, se afogasse nas suas águas o arvoredo que sustenta. Quando o olhar se retém à direita, surge o comboio silencioso como se flutuasse sobre um colchão de ar. A velhinha 1413, azul com as asas de uma gaivota abrindo caminho, rebocando as renovadas carruagens da Schindler que nos deixam abrir as janelas e sentir a brisa na face, desce da Pala vagarosamente para apreciar este ambiente da natureza que lhe surge no encontro com o rio. Há um misto de silêncio e de mansidão que se sobrepõe aos pequenos ruídos que rondeiam o lago. Os barcos com sabor a navios, deslizam sobre as águas, sobem e descem e o marulhar da proa só nos chega após a passagem, vem através das ondas que caracoleiam por momentos e batem com dureza contra as pedras da margem, como se sentissem irritadas por terem sido obrigadas a mover-se quebrando o remanso da tarde. O tempo detém-se neste recanto fluvial onde a beleza parece alcançar a perfeição. Quando nos encontramos num anfiteatro como este tendemos a reflectir sobre a vivência humana. Com um tempo de vida que não deixa de ser efémero e definitivo, qual a razão de nos amotinarmos contra os outros e, quantas vezes contra nós próprios, acabando por esquecer que é possível usufruir a beleza quando nos aparece como se fosse criada por deuses. Sem nos apercebermos, enquanto o olhar ia e vinha, talvez motivados pelo pensamento da improbidade humana, lembramo-nos do discurso do rei do chocolate que os ucranianos escolheram como presidente há dez anos atrás e que dizia algo semelhante ao que a memória agora encontra, «enquanto as nossas crianças vão à escola, as deles não, enquanto as nossas crianças brincam á luz do dia, as deles onde esconder-se nas caves» e por aí adiante, continuou a criatura a discorrer naqueles anos que agora já ninguém recorda. Com o pensamento toldado e embrumada a beleza que se nos oferecia, apareceram-nos as palavras de Malaparte, “As crianças alemãs são limpas. As crianças judias são schmutzig. As crianças alemãs são bem alimentadas, bem calçadas, bem vestidas. As crianças judias são famélicas, seminuas e andam sem sapatos pela neve. As crianças alemãs têm dentes. As crianças judias não têm dentes. As crianças alemãs vivem em casas arejadas, em aposentos aquecidos; dormem em caminhas brancas. As crianças judias vivem em casas repelentes… em aposentos frios, atulhados de gente, e dormem em montes de papéis e trapos ao lado das camas onde estão estendidos os mortos e os moribundos. As crianças alemãs brincam: têm bonecas, bolas de borracha, cavalos de pau, soldados de chumbo, espingardas de ar comprimido, mecanos, piões, tudo o que uma criança precisa para brincar. As crianças judias não brincam: não têm nada para brincar, não têm brinquedos.”(1). Mas que diria Malaparte se soubesse que hoje, os alemães são os judeus e estes os palestinianos ou que nas margens do Dniepre um presidente judeu enaltece como heróis os colaboradores do nazismo! A História repete-se mesmo como uma farsa. A tarde desliza preguiçosamente à nossa volta. Afastamos para longe do espírito essa parte sombria do ser humano, volvemos à pureza do lugar onde estamos. O sol retira-se numa mansa lentidão como se tivesse de ser empurrado. Pressentimos a leveza que anuncia o crepúsculo, as cores iniciam um processo de transformação parecendo acinzentar-se em diversos tons enquanto as luzes estremecem e vão surgindo na intermitência da noite que está para chegar. A pequena aldeia de Porto Antigo suspende-se sobre as águas ribeirinhas como se fosse cair e uma mão de magia a sustivesse e ocorre-nos o poemário de Pedro Barroso, “sei que vou chorar quando partir”(2).


(1) – Curzio Malaparte, em Kaputt, edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d.
(2) - https://www.youtube.com/watch?v=YVG4pPkKsIE

29/06/23

FALTAM MEDIDAS

Manuel Joaquim




Após um fim-de-semana conturbado com os fazedores de opinião a transformarem um personagem que na sexta-feira era um assassino perseguido por todo o lado em um quase herói no sábado seguinte, e a espumarem-se sofregamente na ânsia do golpe de estado liderado por esse personagem sair vitorioso para finalmente ser destruído o homem que tanta urticária lhes provoca, depois de lhe diagnosticarem cancro em estado adiantado, os seus exércitos não terem botas, os equipamentos serem obsoletos, destruírem máquinas agrícolas dizendo que são tanques de guerra, estar isolado do mundo ou como acabou de dizer o patrão desses fazedores de opinião que está a perder a guerra no… Iraque, mas tudo furado, continuamos a assistir a toda a verborreia mental dessa gente, completamente desorientada e perdida porque sabem que nada sabem sobre o que estão a falar, assistimos, agora, a outros personagens a pedinchar aos banqueiros que não subam muito os juros nos empréstimos bancários e subam os juros nos depósitos bancários, aproveitando-se da boa-fé das pessoas que os ouvem.

Um inteligente veio agora dizer que os certificados de aforro estavam mal desenhados, dizendo coisas que sabe que são mentiras tentando encobrir o que está à luz do dia que é fazer o frete aos banqueiros. Os certificados de aforro já existem desde antes desse inteligente ter nascido. As companhias de seguros tinham que pagar as remissões das pensões de acidentes de trabalho aos pensionistas através de certificados de aforro.

Sobre questões importantes para esclarecimento e denúncia do que realmente se passa no país esses fazedores de opinião são gatos a fugir das brasas para não se queimarem. A senhora do Banco Central Europeu veio cá fazer ameaças de continuar a aumentar as taxas de juros se houver aumentos nos salários, continuarem subsídios, aumentos de gastos na educação e serviços públicos, pois quer controlar a inflação diminuindo o consumo e aumentando o desemprego. Governantes e papagaios de serviço dizem que a inflação está a diminuir e que estará na casa dos 5%, escondendo que os preços dos bens alimentares sofrem aumentos de 50, 60% ou mais.  Sobre as consequências dessas políticas para a população não dizem nada. Omitem que quando se aumentou o salário mínimo e as pensões, a inflação não aumentou e que a economia cresceu, através do aumento do consumo privado.   

Óscar Afonso, actual director da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, em “Fraude em Portugal – Causas e contextos”, Almedina, publicou um capítulo “Economia Não Registada e respectivo peso em Portugal” onde analisa todo o processo de fraude, de economia subterrânea e ilegal. Há poucos dias, pronunciou-se dizendo que essa situação está a agravar-se, sem que haja medidas para a combater.
Se há muitas pessoas a aproveitar-se dessa situação, aumentando os seus rendimentos e aumentando o consumo, são migalhas comparando com o que ganham os tubarões, cujos benefícios não entram directamente no processo económico.

A exploração dos trabalhadores continua em grande, apesar de alguns dizerem que não há pessoas para trabalhar. Mas não querem ouvir que é preciso aumentar os salários. 

Uma pessoa minha conhecida ficou desempregada por encerrar a empresa onde trabalhava. Arranjou trabalho numa padaria/confeitaria na baixa do Porto. Trabalhou uma semana, 12/14 horas dia e no final a entidade patronal meteu-lhe na mão cinquenta euros para pagamento. Não é imigrante africana, brasileira ou asiática. É portuguesa e da cidade do Porto. 

É muito difícil encontrar notícias sobre a diminuição ou deslocalização da actividade de empresas, em consequência do aumento dos custos com a energia. Algumas pertencentes a multinacionais ainda estão em actividade por estarem a ser financiadas do exterior. Os problemas da energia para o sector industrial (e não só) são dramáticos mas ninguém quer falar sobre isso pois estão ligados com a guerra na Ucrânia e o boicote à Rússia. 

Sem energia não existe actividade económica. E os combustíveis fósseis fornecem a esmagadora maioria da energia. Diminuindo a actividade económica diminui as condições de vida. 

Tanto tempo de antena para discutir e analisar a indemnização de 500.000 euros a uma administradora da TAP. Entretanto vieram a público indemnizações a outros personagens muito mais gordas mas não foram nem vão ser escrutinadas, nem foi apreciada a gestão da empresa em anos anteriores. O que se passou?

Portugal está a pagar a compra de material de guerra para alimentar a guerra. O homenzinho que faz o papel de ministro dos negócios estrangeiros,  que o presidente da república não o quis no papel anterior, é um fervoroso defensor da guerra, mastigando sem as deglutir as palavras do jardineiro da EU. Para a Saúde, para a Educação, para Habitação, os dinheiros são escassos ou nulos, para a guerra não há restrições nem controlos?

São necessárias outras políticas que protejam as populações, os trabalhadores, com valores saudáveis que desenvolvam o respeito e a harmonia entre os povos.    

27/06/23

DO MÉRITO

Mário Martins


https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=michael+sandel




“Os partidos de centro-esquerda não ofereceram uma reforma estrutural da economia. Não repensaram o projecto neoliberal. Em vez disso, ofereceram aos trabalhadores este conselho: “Se querem competir e vencer na economia global, vão para a universidade. O que ganharem vai depender daquilo que aprenderem.”

Michael Sandel, filósofo norte-americano
Entrevista ao Expresso (Revista), 2023-05-05



Porque é que a teoria do mérito, na aparência tão compreensível e aceitável, será, afinal de contas, problemática e injusta?

Para Sandel, o mérito, por si só, não é uma receita automática para o sucesso numa sociedade globalmente competitiva, se não for acompanhado de factores como a sorte, apoio familiar e comunitário, ou de vantagens culturais de cada um.

Daqui parte Sandel para uma crítica dura ao capitalismo de hoje e aos partidos de centro-esquerda. “O capitalismo não está a funcionar (já que) o princípio básico da livre-concorrência não está a funcionar em sectores-chave, como as áreas tecnológica e financeira, e a globalização neoliberal do mercado gerou ganhos para quem está no topo, em detrimento da maioria da população”. Os próceres do capitalismo dirão, parafraseando a máxima propagandística do socialismo soviético, que é o capitalismo real…

Por sua vez, a mensagem dos principais políticos de centro-esquerda: “Se não tem um diploma universitário e se está a lutar na nova economia, o seu fracasso é culpa sua.”, funcionou como um autêntico convite para os eleitores sem diploma universitário votarem, em 2016, em Donald Trump nos Estados Unidos e a favor do Brexit na Grã-Bretanha. 

“Estes políticos, como Bill Clinton nos Estados Unidos, Tony Blair na Grã-Bretanha, Gerhard Schröder na Alemanha, não contestaram a ideia fundamentalista, praticada por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, de que os mercados são os principais instrumentos para alcançar o bem público. Moderaram e suavizaram, até certo ponto, as arestas duras da fé no mercado, mas abraçaram a versão neoliberal da globalização, e com ela a desregulamentação da indústria financeira e de acordos comerciais, incluindo o livre fluxo de capitais, sem restrições através das fronteiras e entre economias. Quando isso trouxe o aumento da desigualdade, os partidos de centro-esquerda não ofereceram uma reforma estrutural da economia. Não repensaram o projecto neoliberal.”

Para Sandel, “moderado, em política, significa apenas ocupar um lugar entre extremos. Mas há muitas versões da política dita moderada. O que seria uma política moderada em relação à economia? Seria ser a favor da desregulamentação do sector financeiro que levou à crise? Ou uma política moderada favoreceria regulamentações mais fortes de Wall Street e da indústria financeira? Nos EUA a posição moderada pode parecer-se mais com a que Bernie Sanders avançou na sua campanha — uma figura geralmente descrita como sendo da esquerda populista. E, no entanto, as medidas que defendia em termos de regulação financeira eram essas, como aliás defendeu Elizabeth Warren, para exemplificar com dois políticos americanos. Trata-se de uma política moderada ou de uma política populista?”

Na análise de Sandel “capitalismo e democracia há muito que convivem numa certa tensão. E nas últimas quatro ou cinco décadas o equilíbrio entre os dois mudou, a favor do capitalismo e do poder económico em larga escala, especialmente nas finanças e na tecnologia. Hoje, precisamos de reequilibrar os termos, de repensar a relação entre capitalismo e democracia. Isto não significa abolir o capitalismo, mas antes renegociar os termos de relação entre capitalismo e democracia.”

O capitalismo não só deve estar inserido num Estado de bem-estar social, com certas provisões básicas e protecções públicas, como deve também ser regulado e restringido de forma que o poder económico não domine a democracia. Isso está a tornar-se cada vez mais importante numa era de tecnologia, quando empresas tecnológicas muito grandes e poderosas não só estão a dominar a economia, como cada vez mais dominam os modos de comunicação e de troca de informações. E estão, portanto, a dominar os termos do discurso público. Então, é importante reintegrar os mercados em instituições sociais e políticas, advoga Sandel.

É caso para dizer, usando uma típica expressão americana, que, num quadro democrático, a solução vale “1 milhão de dólares”…

01/06/23

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva







Quando viajámos ao longo de várias semanas, ocorre com frequência que há dias que parecem sombrios, plenos de melancolia, que nos prende e, em certos momentos, quase nos sufoca, nos faz arrastar os passos e entristecer o olhar. O que vemos, a natureza, a envolvência rural, o curso do rio, tudo aparece com cores tisnadas, sem luz nem vida. O terceiro dia desta jornada pela N222 surgiu assim ao amanhecer, como se durante a noite, o mundo inteiro tivesse mudado como chegou a sonhar Yukio Mishima. A estrada até seduzia para a viagem, com os seus tons verdes rodeando as margens, enchendo o horizonte. As habitações rareavam o que permitia esse usufruto encantador do silêncio, mas algo emperrava a alegria que se deseja para observar o tempo e o espaço envolvente. Ainda nos perdemos nos arruamentos em torno das minas do Pejão, desse carvão que africanizava os rostos dos homens que desciam às profundezas da terra, desde o final do século XIX até cem anos depois. Encerradas abruptamente, vi como em tantas outras ocasiões, milhares de pessoas com a vida interrompida num lugar tão perto e tão longe do Porto. Foi a migração e a emigração, a fuga ao desvario dos poderes que só decidem em nome de interesses espúrios. Agora, entre o verde e o sossego ali residem os restos do que foi uma fonte de trabalho e riqueza. Foi o primeiro momento em que nos deixamos ficar na contemplação do Douro, sem rigores de tempo nem de anseios. Parece estranho o Distrito de Aveiro estar ali nas margens do rio que de tão longe vem. Talvez por isso, estes concelhos decidiram somar-se à área Metropolitana do Porto. Já não olhamos para os quilómetros. Deixaram de ter importância. O traçado da via é agora moderno, largo, com bermas, curvas abertas e uma terceira via quando a inclinação é pronunciada. É a tentativa, lenta, de aproximar estas gentes do litoral, dos serviços, das fontes onde o trabalho existe. Quando alcançamos o Arda, compreendemos que o objectivo que nos propuséramos não vai ser alcançado. Há demasiado mundo a pesar no pensamento. Um mundo que nos deixa, quantas vezes, entre a perplexidade e a impotência, a raiva, quase diríamos, ao ver a placa que indica a freguesia próxima. Os impérios coloniais foram desaparecendo em cada grande guerra que fizeram brotar. Vivemos a terceira e outro império entrou na fase descendente e como alguém disse, «os impérios morrem matando». Os cemitérios enchem-se de esfomeados, de soldados que morrem em nome de nada. Como no poema de Geraldo Vandré, “Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição, de morrer pela pátria e viver sem razão”. Quando olhamos para a Europa vemos de novo Roma, em declínio, moral e ético, com os princípios e os valores de uma ganância financeira sem limites a destroçar os seus séculos de história. Mil e quinhentos anos depois, a história repete-se. Precisamos com urgência de mentiras novas. Atravessamos lentamente o Arda e para desvanecer este horizonte opaco, abandonamos a N222 e arremetemos pela subida ao Monte de S. Domingos. Penoso e elevado esforço, mas o cansaço fez desvanecer as nuvens que pairavam sobre o dia. Ali chegados, sentamo-nos, esticamos o olhar e deixamos o tempo correr. Por hoje, já não nos movemos mais. Ao fundo, o Douro espraia-se na sua majestade senhorial. Alonga-se em curvas e transmite um ar de frescura azulada à paisagem. Na outra margem as terras de Sebolido e Rio Mau. À direita, o traçado da nossa estrada alonga-se entre as montanhas que mais parecem colinas. A tarde tomba nessa lentidão nostálgica, nesse ocaso diário arrastando-nos para a noite que aqui, talvez possa ser de estrelas galaxiais. Como os dias não são iguais, amanhã prosseguimos.



PS – Lemos na wikipédia que “O falcão-peregrino (Falco peregrinus) é uma ave de rapina diurna de médio porte que pode ser encontrada em todos os continentes excepto na Antártida [por enquanto]. A espécie prefere habitats em zonas montanhosas ou costeiras, mas pode também ser encontrado em grandes cidades”. Descobrimos um em Coimbra, mas certamente haverá mais. Ao contrário do que se possa pensar, não é uma espécie em extinção, pode até, se não for controlada, tornar-se uma praga. Nem sempre são visíveis, mas surgem em tempos sombrios, quando a infâmia caminha sem medo pelas ruas.

MAL VIVER/ VIVER MAL

António Mesquita

"Mal viver", filme de João Canijo (2023)



"Assim, 'prima facie', todas estas questões parecem artificiais e sem sentido, mas quando muita gente, sem que tenha sido manipulada, começa a dizer coisas sem sentido, e há entre os que o fazem pessoas inteligentes, Isso habitualmente deve-se a algo mais que coisas sem sentido."

(Hannah Arendt: "A Última Entrevista e Outras Conversas")



"Huis clos" num hotel de Ofir, ou não fosse filmado durante o isolamento do Covid.  Como na peça de Sarte, "o inferno são os outros". A mãe,  Piedade (Anabela Moreira) podia deslizar sem sobressaltos na sua distração essencial. Mas está prisioneira duma imagem que os outros lhe devolvem. Piedade é fria, sempre agarrada a um canídeo chamado Alma, "et pour cause". Quando a filha procura a proximidade do seu  corpo, ela prefere a cadela. 

Três gerações se confrontam sem personagens masculinas, a não ser a do pai, falecido há pouco tempo. Sara (Rita Blanco) é a avó que gere a herança familiar e ameaça vender o hotel. Ela própria é crua para a neurastenia da filha que por ricochete atinge a neta  Salomé (Madalena Almeida).

Podemos pensar em hotéis duma espécie tétrica, como o da canção dos Eagles ("Hotel Califórnia") ou o labiríntico lugar de "Shining". O tema da incomunicabilidade lembra Bergman, em que há um fundo metafísico que aqui não existe, ou a grande inspiração do cineasta sueco, o dramaturgo de "A menina Júlia" e de "Amor maternal", August Strindberg.

Mas, mais prosaicamente, o que no filme de Canijo parece sobrelevar é a falência, neste tempo crepuscular, de um dos mais renitentes mitos da nossa cultura judeo-cristã, o da mãe abenegada até ao sacrifício total pela prole, esse destino que a religião e uma ideia ingénua da natureza pareciam ter desenhado para sempre.

Freud já havia infringido a regra ao presumir um interesse vital, um instinto que não se confundia com o da maternidade, segundo a doxa. O indivíduo parece triunfar no fim, quanto mais não seja como personagem dramática no conflito interior.

Numa das últimas cenas, em que a família revê o álbum das fotografias, numa atmosfera cordial, Piedade, que se depara com a concórdia do sofá tem o sentimento que é ela o único obstáculo à felicidade dos outros. Prepara mensagens para cada uma e percebemos por um corpo flutuando ao canto da piscina, que se suicidou, de madrugada.

A chave psicanalítica não é "de mise". O "mal viver" é de outra ordem. E o significado daquela morte, deduzida, pelo canto do olho, é o da irrelevância, como se fosse a conclusão  duma não existência.

Filme de mulheres, desprovido do olhar masculino que o enredaria na trama do desejo e do romanesco, apresenta-se como a utopia duma sororidade ferida de morte.

Este filme faz parte dum díptico, com "Viver mal", e ganhou o "Urso de Prata" em Berlim.

A segunda parte não é, como se tem escrito, o drama visto pelos hóspedes do hotel. É o mesmo mundo neurótico com mães ciumentas das filhas e dos seus amores, como Medeias prontas a tudo para não serem destituídas do pedestal da adoração absoluta. 

De acordo com Canijo. "os dois filmes são sobre a ansiedade de ser mãe". Corresponder ao ideal dum amor sem limites, sem ego, neste tempo de mónadas independentes e sujeitas a tracções colectivas superficiais, está acima de qualquer um. 

Sara, a avó, parece lidar com isso sem problemas de maior. Enquanto Piedade dir-se-ia sofrer mais enquanto filha sem amor do que como mãe desnaturada. Em "Viver mal", são as mães (grande interpretação de Leonor Silveira e de Beatriz Batarda) que mais sofrem com uma destituição amorosa que se parece muito com a perda do sagrado.

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